384. 1992

Foi na campanha do plebiscito de 1992, quando escolhemos o sistema de governo. Um presidencialista — ou parlamentarista — desenvolveu a seguinte pérola retórica:

“Monarquia? Um absurdo! E vejam vocês a que tipo de disparate ainda estamos sujeitos pelas heranças de um regime caduco. Em Belo Horizonte [creio que fosse], na praça Tiradentes [quase certeza] existe um busto de dom Pedro I. O neto da mulher que mandou enforcar Tiradentes [dona Maria I, rainha de Portugal].”

É com essa casta de bocó que temos de tratar todos os dias; esse tipo de papagaiada discursiva está por toda parte. Não sabia que culpa era transmitida pela carga genética ou por herança legal. Condenação por atavismo. Não tem argumentos sólidos? Jogue merda no oponente: é a oratória do chimpanzé.

379. Liberalismo e algumas colocações

Aqueles que criticam os liberais — ou seja, os adeptos do liberalismo econômico — geralmente fundamentam suas falas em argumentos que apelam à solidariedade, como “É função do Estado o bem comum”, “É criminoso deixar as pessoas à míngua em nome do capital” e aí logo entram os mecanismos estatais de auxílio social: legislação trabalhista, serviços de saúde, previdência social, ou seja, “garantias” ao cidadão.

O indivíduo que postula uma posição liberal ganhará apodos do tipo “insensível”, “lacaio do capital”, “fascista”, “entreguista” e mesmo coisas menos lisonjeiras.

Em linhas gerais, liberalismo é uma filosofia política que preconiza liberdade intelectual, religiosa, política e econômica. Não se abre mão do Estado, característica que o transformaria no anarquismo.

A vertente mais interessante e prática do liberalismo é o dito econômico. Os outros são consequências indiretas de sua ação sobre a sociedade. No liberalismo econômico, o que se tem em mente é basicamente a não intervenção estatal no que tange às relações econômicas. Os opositores dizem que esse tipo de “abstenção estatal” traria miséria, desigualdade e exploração, por isso a necessidade de o Estado regular determinadas relações.

O Estado brasileiro é um organismo contaminado por essa paranoia de regulação estatal. Há lei para tudo, agências reguladoras, fiscais, gerentes; o Estado no Brasil é exemplo de quanto uma sociedade que burocratiza suas relações econômicas e institucionais pode tornar-se corrupta. E não me refiro apenas à corrupção “grande”, de somas vultosas, mas também da pequena, como “molhar” a mão do guarda para evitar uma multa. O pequeno corrupto é tão vil quanto o grande corrupto, mesmo que não enriqueça. A grande bronca das leis brasileiras — e consequentemente da sociedade que as origina — é o enriquecimento. A condenação aparente é contra o ato, mas o que realmente se condena é a riqueza, que é condenada mesmo quando não há crime. Quanto já não lemos por aí que a culpa das mazelas é dos ricos, como se eles não contribuíssem em nada para a sociedade. As fortunas surgem de algum tipo de esforço, que move a economia. A existência de um rico prevê a existência de todo um suporte de serviços, que mantêm certo número de pessoas.

Em compensação, um sentimento messiânico toma conta do Estado brasileiro: o de querer prover a todos condições econômicas mínimas, fazendo do próprio Estado agente desse movimento, o que é um erro conceitual grave. A ascensão socioeconômica dever ser, sim, algo estimulado, mas não com a doação direta de recursos à população. No Brasil, esse frágil esquema de redistribuição de renda somente tem causado a estagnação econômica de certas áreas e a criação de uma consciência estadólatra, o Estado que tudo provê — ou provê o mínimo — arrancando do cidadão a livre iniciativa. Afinal, se ele tem o mínimo sem esforço algum, por que iria ele atrás de mais? Está-se criando uma consciência negativa de trabalho: se antes ele era visto como o motor do progresso material, hoje ele é visto por uma parcela significativa da juventude como “coisa pra trouxas”, já que se pode viver com auxílio estatal.

Como dito mais acima, o rico e suas indústrias ou empresas mantêm uma quantidade de pessoas em suas atividades econômicas, remunerando seu trabalho. Há setores da sociedade que creem injusta essa relação e querem substituir os empregadores pelo Estado, com todas as relações econômicas reguladas pelo Estado, pelo “social”, o socialismo. E já se viu o que acontece nas sociedades que, em algum período de sua existência adotaram práticas similares: uma crise econômica e moral que terminou com o colapso do sistema socialista.