379. Liberalismo e algumas colocações

Aqueles que criticam os liberais — ou seja, os adeptos do liberalismo econômico — geralmente fundamentam suas falas em argumentos que apelam à solidariedade, como “É função do Estado o bem comum”, “É criminoso deixar as pessoas à míngua em nome do capital” e aí logo entram os mecanismos estatais de auxílio social: legislação trabalhista, serviços de saúde, previdência social, ou seja, “garantias” ao cidadão.

O indivíduo que postula uma posição liberal ganhará apodos do tipo “insensível”, “lacaio do capital”, “fascista”, “entreguista” e mesmo coisas menos lisonjeiras.

Em linhas gerais, liberalismo é uma filosofia política que preconiza liberdade intelectual, religiosa, política e econômica. Não se abre mão do Estado, característica que o transformaria no anarquismo.

A vertente mais interessante e prática do liberalismo é o dito econômico. Os outros são consequências indiretas de sua ação sobre a sociedade. No liberalismo econômico, o que se tem em mente é basicamente a não intervenção estatal no que tange às relações econômicas. Os opositores dizem que esse tipo de “abstenção estatal” traria miséria, desigualdade e exploração, por isso a necessidade de o Estado regular determinadas relações.

O Estado brasileiro é um organismo contaminado por essa paranoia de regulação estatal. Há lei para tudo, agências reguladoras, fiscais, gerentes; o Estado no Brasil é exemplo de quanto uma sociedade que burocratiza suas relações econômicas e institucionais pode tornar-se corrupta. E não me refiro apenas à corrupção “grande”, de somas vultosas, mas também da pequena, como “molhar” a mão do guarda para evitar uma multa. O pequeno corrupto é tão vil quanto o grande corrupto, mesmo que não enriqueça. A grande bronca das leis brasileiras — e consequentemente da sociedade que as origina — é o enriquecimento. A condenação aparente é contra o ato, mas o que realmente se condena é a riqueza, que é condenada mesmo quando não há crime. Quanto já não lemos por aí que a culpa das mazelas é dos ricos, como se eles não contribuíssem em nada para a sociedade. As fortunas surgem de algum tipo de esforço, que move a economia. A existência de um rico prevê a existência de todo um suporte de serviços, que mantêm certo número de pessoas.

Em compensação, um sentimento messiânico toma conta do Estado brasileiro: o de querer prover a todos condições econômicas mínimas, fazendo do próprio Estado agente desse movimento, o que é um erro conceitual grave. A ascensão socioeconômica dever ser, sim, algo estimulado, mas não com a doação direta de recursos à população. No Brasil, esse frágil esquema de redistribuição de renda somente tem causado a estagnação econômica de certas áreas e a criação de uma consciência estadólatra, o Estado que tudo provê — ou provê o mínimo — arrancando do cidadão a livre iniciativa. Afinal, se ele tem o mínimo sem esforço algum, por que iria ele atrás de mais? Está-se criando uma consciência negativa de trabalho: se antes ele era visto como o motor do progresso material, hoje ele é visto por uma parcela significativa da juventude como “coisa pra trouxas”, já que se pode viver com auxílio estatal.

Como dito mais acima, o rico e suas indústrias ou empresas mantêm uma quantidade de pessoas em suas atividades econômicas, remunerando seu trabalho. Há setores da sociedade que creem injusta essa relação e querem substituir os empregadores pelo Estado, com todas as relações econômicas reguladas pelo Estado, pelo “social”, o socialismo. E já se viu o que acontece nas sociedades que, em algum período de sua existência adotaram práticas similares: uma crise econômica e moral que terminou com o colapso do sistema socialista.

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