371. Pobreza intelectual

Pensamos que a pobreza intelectual seja uma primazia brasileira. Engano grosso. Lamentavelmente, outros povos, até mesmo os considerados mais desenvolvidos e ricos, sofrem dessa lepra. E a rifampicina para o morbo não é dinheiro; basta ver que hoje somos a sexta economia do mundo, há crédito abundante, mas o nível geral da população continua baixo. Se é que não baixou ainda mais nos últimos 30 anos.

Mesmo nas nações ricas — isso se vê muito nos Estados Unidos, por exemplo —, o dinheiro não é panaceia. Basta ver os artistas e os arrivistas: extravagância, o gosto puro e simples de chamar atenção porque, quando estavam no estrato mediano da sociedade, eram anônimos.

Assim é também com os países e seus habitantes.

* * *

Certa vez, durante uma reunião entre amigos num barzinho de São Paulo, conheci uma moça italiana. Ela cursava a faculdade de Letras e fazia intercâmbio no país. Naquele momento, namorava um dos colegas ali presentes. Ah, o exotismo; a curiosidade sexual dos europeus para com os habitantes dos trópicos. Não é só lenda, mas deixemos o assunto para outra oportunidade.

Entabulei uma conversa na língua nativa da moça, que tinha certa dificuldade em expressar-se em português. Descobri que ela era toscana, mais precisamente de Prato. E Prato não é uma cidade qualquer da Toscana: é a terra natal de Curzio Malaparte, um dos mais importantes escritores italianos do século XX. Não hesitaria eu em dizer do mundo, pois viveu o período mais crucial do século e soube descrevê-lo e plasmá-lo de forma sublime e cruel.

O rosto da pratense converteu-se em expressão de interrogação: “Non lo conosco”. Como assim, “não o conhece”? Ser de Prato e desconhecer seu filho mais ilustre?

Aqui entram os preconceitos acadêmicos. A academia italiana, assim como a brasileira, vira as costas àqueles que não cantam no mesmo tom, num afã de pasteurização ideológica. A universidade brasileira guia-se pela esquerda política; a italiana, sabe Deus por quê.

Mas há um preconceito contra Malaparte, fascista inconformado e comunista tardio. De que servem essas mesquinharias ideológicas se ele era excelente escritor? A academia italiana repudia-o e exalta Calvino, Pavese e outros.

Tenho certeza que Malaparte não se importaria com a indiferença da conterrânea. Para quem viu a miséria material e moral de uma Itália humilhada, de uma Nápoles faminta e desesperada, o que é a miséria individual, a burrice sectária? Ninharia.

370. Creolina

Nesses casos, as informações são sempre desencontradas. Fio-me dos jornais. Não apenas porque não tenho opção, mas também porque os jornalistas sempre se arriscam a sujar as solas de sapatos de sangue, seja do mendigo, seja da madame; nisso, são muito igualitários. E notícia boa cheira a sangue fresco.

O caso se deu num boteco na frente da zona de baixo meretrício da cidade. Neste caso, o adjetivo é justíssimo: boquete de desdentada a cinco reais e por aí vai; preços módicos com sífilis incluída. Apesar de o boteco na frente da zona, o fato foi no meio da tarde, com vento frio apesar do sol ofuscante, fazendo da referência à zona uma informação desnecessária para a narração, mas localiza bem o lugar.

Um pedreiro desempregado entra no boteco. A dona, pesada, de pernas inchadas e passada alguns anos da meia idade, levanta-se de uma cadeira de plástico e entra por trás do balcão.

O cara pede uma pinga.

Mesmo estando ele já chumbado, ela despeja a caninha num copo americano.

Ele bebe e olha para o movimento da rua, na encosta de um rio. Volta-se para a dona e a acusa de, há uma quinzena, ter roubado nas contas. A mulher saiu de trás do balcão e desferiu-lhe um soco no estômago. A bebida fez o resto e jogou-o na calçada, estatelado.

Demorou a se erguer. Sentou-se e ficou olhando a mulher, que já havia voltado para trás do balcão. Levantou-se e foi cambaleando para a pensão, a meia quadra dali. Lá, virou o quarto todo e achou a peixeira que trouxera do Norte. Entalhada, era presente da mãe.

Com a agilidade de um sóbrio, estava de volta ao boteco. A mulher mal teve tempo de proteger o rosto. Foram 16 ou 17 facadas, segundo diferentes fontes.

Alguém chamou a polícia. Rapidamente haviam pegado o pedreiro; fuga de bêbado é como minhoca no concreto. Os guardas isolaram a área. A mulher agora estava embrulhada num papel-alumínio. Coisa de muito mau gosto; deixa os cadáveres como aqueles infelizes assados de Natal. Curiosos, esse sal das desgraças. O assassino deveria já estar apanhando em algum canto longe de olhos.

Circunstâncias esclarecidas, não há por que manter a cena intacta. O furgão do IML levou o corpo. A polícia liberou a rua e o proprietário do prédio pôs-se a tirar os coágulos da calçada e espantar o cheiro agridoce do sangue com creolina. E aquele cheiro ficou espetando o nariz do barbeiro da esquina, da dona do brechó de quinta categoria, colado mesmo ao fatal boteco. Aquele cheiro era ainda pior que o cheiro do sangue, pois era o disfarce do fedor da morte.

369. Rogério Skylab

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Rogério Skylab, antes de ser um talentoso artista performático, é um intelectual de primeira grandeza por dois motivos: um, não o alardeia e, dois, não almeja tal posição.

Por detrás de canções com letras contundentes, expõe alguns comportamentos corriqueiros, mas negados com toda força pela sociedade brasileira, em sua grande parte falsa moralista. Falso moralismo porque as pessoas assustam-se com palavras das canções e não conseguem ir além da superfície: uma palavra “obscena” ou “rude” trava-lhes o entendimento e faz nascer a reprovação; às vezes o involuntário humor provocado causa o mesmo tipo de escurecimento da percepção.

Um grande exemplo é a música “Derrame”, do disco “Skylab I” (1999). Usando como mote o acidente vascular, Skylab desconstrói a vida de um homem considerado normal, expondo a transitoriedade de vaidades e até mesmo o isolamento social decorrente das sequelas.

Talvez Skylab não concorde com essa abordagem, ou até mesmo a ache pretensiosa, mas é o que se pode ver além do pasmo inicial ou da recusa do ouvinte em aprofundar-se na letra da canção.

Os eventuais detratores e o senso comum, famintos de eufemismos e de mentiras piedosas, não absorvem a verdade cruel e lírica presente nas letras de Skylab.

368. Poder e democracia

O Estado democrático, tal como se apresenta hoje entre nós, não é apenas um fingimento: é uma imitação grosseira de instituições, que foram implantadas no Brasil a pancadas legislativas e não seguindo a lógica do desenvolvimento orgânico, ou seja, as instituições corretas a determinada sociedade.

Temos de convir que a democracia representativa é fruto de um longo processo democrático, cujo ápice foi a Revolução Francesa, mas que tem suas origens na Magna Carta, de 1215, considerada a primeira constituição — guardados os devidos limites — e que restringiu o poder do soberano inglês.

Apesar da convulsão da França revolucionária, as instituições democráticas tiveram lenta gestação na Inglaterra e no Reino Unido. Tanto é assim que da Carta Magna ao sufrágio universal foram necessários 700 anos.

Sociedades que sofrem trancos de democracia, como a França da Revolução, acabam por não saber aproveitá-la. A novidade das instituições as torna maleáveis e influenciáveis, e sempre há uma parcela da população interessada em tomar o poder àqueles que caem em desgraça: assim ocorreu na França, que com a queda dos Bourbon viu a república, o terror e — como sempre nos momentos de convulsão social — o surgimento de um espertalhão vestido de púrpura que transformou a república… em uma monarquia imperial!

Também na Rússia revolucionária, onde o poder apenas trocou de mãos: da nobreza burocrática tsarista para a burocracia do Partido Comunista.

Na sociedade ocidental antiga, o poder tem dois pilares: a força e a escolha divina. A força, condição de facto, e a divindade, condição de jure — basta lembrar que os textos religiosos, com ausência de regulações estatais, funcionavam como código civil.

O chefe nas sociedades primitivas de caçadores-coletores era o mais forte, que subjugava os demais pela força, como ainda fazem os animais gregários. Com a aurora das manifestações religiosas, essas rapidamente foram incorporadas ao poder. Em alguns casos, havia chefes-sacerdotes. Assim como hoje as divisões básicas do poder são o executivo, o legislativo e o judiciário, nessa aurora da Humanidade, eram o temporal e o religioso.

Se um rei fosse derrotado pelas armas, significava também que havia perdido a graça para governar. A evolução desse sistema de fundo religioso para a democracia representativa foi feito lentamente, com a introdução progressiva de constituições, parlamentos, laicização do Estado. Ou seja, não surgiu do dia para a noite.

Vemos ainda muitas sociedades que se baseiam na força, consideradas por nós antidemocráticas ou atrasadas.

Nos países em que a democracia foi introduzida sem o condicionamento devido, ou seja, não houve transição e sim uma reviravolta, as instituições democráticas não passam de mamulengos: são facilmente subvertidas pelo poder econômico ou pelo próprio poder político. E o pior: de democrático ficam apenas as cascas; tornam-se frágeis para que messias, tiranos ou associações políticas ergam-se para tirar proveito da situação.

O ciclo que se viu na História é tirania, despotismo esclarecido, democracia restritiva e democracia representativa. Qualquer pulo nas etapas condenará a sociedade a subversões no real papel das instituições.

367. Exercício de ficção histórica

Se Amador Bueno tivesse aceitado aquela coroa, naquele fatídico 1641?

Dificilmente o Reino de São Paulo teria aguentado sozinho. Algum tempo após sua proclamação, seria posto sob influência da Espanha e ligado à Gobernación de Buenos Aires. A Guerra de Restauração não se desenvolveria apenas na Península Ibérica, mas também nos domínios portugueses na América.

Preocupados em salvaguardar o país, os esforços seriam concentrados em Portugal e nas colônias mais ricas. Portugal teria de deixar São Paulo à própria sorte, dando preferência a seu território europeu e à guerra que já vinha sendo travada contra a ocupação holandesa no Nordeste.

Não podendo manter todas as frentes, optaria em assinar a paz com as Dezessete Províncias, cedendo Pernambuco, o que, por um lado, consolidaria a presença holandesa, mas renderia um importante aliado. Em troca de uma faixa adicional, que iria do litoral de Pernambuco à foz do Amazonas, holandeses e portugueses juntariam forças contra a Espanha.

Valendo-se da fronteira abandonada, o reino hispano-paulista e seus aliados espanhóis tomariam Santos e chegariam a ameaçar o Rio de Janeiro.

Ao fim da Guerra de Restauração (1680), a antiga América Portuguesa estaria dividida em três áreas: 1) de São Paulo para baixo — como reino semiautônomo ou anexado à Gobernación de Buenos Aires —, sob domínio ou influência espanhola, 2) de São Paulo até a foz do São Francisco, que continuaria em mãos portuguesas, e 3) do São Francisco até o Oiapoque, sob domínio da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais.

As terras sulinas, se anexadas à coroa de Castela, provavelmente teriam dado Origem à Gobernación de São Paulo ou mesmo adiantado em uns cem anos a criação do Vice-Reinado do Prata — em 1680, Buenos Aires fazia parte do Vice-Reinado do Peru.

Na Europa, apesar da Paz, Portugal teve de encarar uma situação que não lhe era muito favorável: uma Espanha que teve ganhos territoriais na América e uma Holanda que monopolizava a produção de açúcar e o tráfego marítimo entre a Europa e a América do Sul. Tudo que Portugal mandava para suas colônias americanas era observado pelo Leão neerlandês.

Porém, Portugal e Holanda mantiveram seu pacto antiespanhol. Anos mais tarde, os Países Baixos não foram apenas a única nação europeia a conseguir manter Napoleão fora de duas fronteiras, mas conseguiu ainda anexar uma franja do território do Sacro Império Romano Germânico contígua à sua fronteira oriental, em direção a Hamburgo.

Graças à Holanda e à Inglaterra, Portugal ficou à salvo da sanha napoleônica, ao contrário da Espanha. Uma das cláusulas secretas do acordo entre Portugal, França, Inglaterra e Holanda foi a partição da Espanha: a Galícia ficou para Portugal, a Holanda ficou com privilégios sobre portos do golfo de Biscaia e a Espanha foi trincada: Leão-e-Castela formaram um reino que foi entregue a José Bonaparte e ficou sob influência francesa; a Coroa Aragonesa foi restabelecida e um Nassau — a família havia transformado a República das Dezessete Províncias no Reino dos Países Baixos — sentou-se no trono criado em Barcelona. Das colônias espanholas, a área do Orinoco ao Panamá passou para a Holanda; o todo o Vice-Reino do Peru ficou na mão dos portugueses, incluindo os territórios perdidos no século XVII; com exceção de Chile e Quito, que ficaram sob protetorado dos holandeses.

Como a Holanda segurou Napoleão, a França apenas expandiu-se à custa de Savoia e da Suíça, não indo além. Napoleão morreu tranquilamente em 1827, assumindo o trono francês seu filho, Napoleão II.

O Brasil ficou salvaguardado. A capital continuava em Salvador e somente na década de 1840 os ventos nacionalistas começaram a soprar, principalmente do sul, que era fortemente hispânico. Os vinte anos que se seguiram foram de guerra civil, com intervenção da Holanda, que mantinha tropas estacionadas em Pernambuco. A guerra civil acabou com a vitória dos revoltosos e com a contaminação da Nova Holanda com o germe da independência. A América Portuguesa quebrou-se na Grande Argentina, compreendendo a Gobernación de São Paulo (SP, PR, SC, RS e MS-MT), Banda Oriental, Paraguai e Buenos Aires. A parte norte Quebrou-se em Peru (Peru, Bolívia e Chile), Goiás (MG, GO, MT, ES) e Bahia.

As novas repúblicas, principalmente as lusófonas, julgavam-se no direito de restaurar a unidade territorial cada uma sob sua égide, o que deu origem a várias guerras entre 1870 e 1900. Um tratado em meados da primeira década do século XX deu fim às contendas.

As repúblicas vivem hoje em estado de penúria econômica e à mercê de convulsões sociais e influenciadas, as do norte, por Pernambuco (antiga Nova Holanda) e, as do sul, pela Grande Argentina.

* * *

Ou a Revolução Francesa teria sido debelada com ajuda da Holanda. Napoleão jamais teria deixado a Córsega e o ancien régime teria alguns decênios de sobrevida. Todo o processo de descolonização da América Latina seria mais tardio, começando por volta de 1870-1880. Feito lentamente, com um processo de home rule, aprendido dos ingleses. Alguns territórios teriam mesmo mantido o vínculo pessoal com o monarca português ou espanhol, como aconteceu no Império Britânico.

Sem ajuda francesa, o processo de independências das Treze Colônias seria mais lento.

Nessa ocasião, o Reino de São Paulo ressurgiria, recobrando as tradições e considerando o rei da Espanha como rei de São Paulo.

366. O cachorro do vizinho me odeia

O cachorro do meu vizinho me odeia. O sentimento é mútuo e não me culpo, nunca gostei de cachorro; é um bicho excessivamente servil e lambão. Eu enforcava filhotes sempre que vinha da aula. Mas se se resumisse ao cachorro do vizinho, estava bem; mas as samambaias do hall estremecem de raiva quando percebem a minha presença. Quando era menor, adorava jogar os vasos do beiral de casa e vê-los espatifar-se no chão.

Ganho a rua e caminho. O jornaleiro me hostiliza protegido por seus longos bigodes. Também não gosto do jornaleiro, por isso, com 16 anos, botei fogo numa banca de jornal. Não sem antes amarrar o jornaleiro e roubar as revistas pornô. Fiquei vendo a banca queimar, os bombeiros chegarem e rescaldarem a ridícula escultura de aço retorcido que ficou no lugar. Vi retirarem corpo carbonizado do jornaleiro.

Entro no banco e me sento à mesa de trabalho. Como 99 em cem pessoas, detesto o que faço, mas suporto com uma resignação estóica. As pessoas me pedem empréstimos e, a contragosto, tenho de dá-los. Quase nunca as pessoas o merecem: é gente inconsequente, essa inconsequência que é nossa sífilis congênita nacional. Em geral, as pessoas percebem a má vontade na íris dos meus olhos e me evitam. Só vêm à minha mesa quando sou o único funcionário disponível.

Quando vejo o noticiário e noticiam um acidente aéreo ou alguma tragédia de grandes proporções, desligo o televisor e ponho música para comemorar e abro uma espumante. As pessoas me odeiam; e eu também detesto esses ratos de duas patas.

365. Rascunhos de um tratado filosófico

Não é consenso, mas acredita-se que a capacidade da linguagem faça parte do cotidiano humano há cerca de 100 mil anos. Faz-se uma divisão entre a linguagem como a conhecemos — articulada e com a possibilidade de abstração — e uma comunicação simbólica e primitiva, que pode recuar a um milhão de anos, com outros hominídeos extintos.

É possível que a presença da abstração nas línguas iniciais tenha se dado por dois acontecimentos cruciais que, certamente, se sucederam: a consciência da morte e sua explicação juntamente com outros fenômenos naturais.

A partir do momento que a precária humanidade tentou explicar o aparentemente inexplicável, a linguagem ganhou abstração e a alma humana ganhou profundidade. Tal profundidade acabou se condensando na religião, mãe da ciência, pois é a primeira tentativa de explicar fenômenos que fugiam da ação e da compreensão humanas.

Não é à toa que, pelo menos no mundo judaico-cristão, a palavra ocupe um papel de protagonista. O próprio Deus criou a partir da palavra pura.

364. O ‘pibinho’ e suas obviedades

Statism Gun

Gostaria de começar este artigo assim: “Otimistas são uma verdadeira praga”. Mas não posso. A ideia era criticar aqueles que tratam a economia brasileira como algo blindado, inatingível. A maior prova que sustêm é que “a crise europeia não aportou na Botocúndia”.

O lastro atual da economia brasileira é o consumo. Prova da sua importância na produção da riqueza nacional são as reduções de impostos, pensadas para manter os níveis de produção elevados. Parece que a estratégia, embora tenha aquecido as vendas, não foi suficiente para segurar o crescimento econômico: o PIB avançou pífio 0,9%, o menor entre os emergentes. Isso se deve ao fato de a economia brasileira basear-se em consumo e commodities. Nada que possa gerar crescimento sólido.

Os pseudo-otimistas louvavam a distância da crise. Pseudo-otimistas porque não os move a coerência da análise, mas a tara estatista de que o Governo sabe — se é que um dia soube — tratar da questão. Governos primam pela incompetência na área econômica.

Geralmente manipulados, os números são o sintoma mais superficial de doenças perigosas. Há apenas investimentos industriais localizados; os destinados à infraestrutura, feitos pelo poder público, estão à míngua — basta ver as obras da transposição do São Francisco, a Transamazônica da era PT.

O “pibinho” é apenas a verruga de uma metástase. Governo precisa deixar de intervir na economia; o capitalismo de Estado brasileiro tem dado resultados ruins e perigosos. O abstencionismo estatal já nos garantiria condições suficientes para o desenvolvimento interno e para a migração de uma economia primária a uma base de produtos manufaturados, da qual consumo e commodities seriam tributários.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 5/3/2013.

363. O poleiro dos articulistas e uma nota

poleiro1É fato que há vários tipos de artigos de jornal; eu diria que seus autores são um pouco como pássaros. Há articulistas que são como o pardal, cujo texto é um pipilar estridente e nervoso, porém ágil; outros são como maritacas, exuberantes e gritalhões; outros ainda são lacônicos e observadores, como as corujas. E ainda há articulistas corvos, pavões, cacatuas.

Quando se fala em artigo de opinião, é claro que o articulista não pode deslocar-se ao sabor das vagas do senso comum. Se o faz, é um náufrago do raciocínio, um reles demagogo. Não passará de um pato preso no cercado.

A função do articulista não é deleitar o leitor. Ao contrário, o intuito é incomodá-lo, tirá-lo da confortável poltrona das certezas absolutas, é trazê-lo para o debate, principalmente pela oposição. Pardais concordam com os pardais, mas não com as maritacas e, com a(s) minha(s) pena(s), quero algum tipo de debate e não aplausos de plástico. Debate entre gente que tem as mesmas ideias não passa de convenção de papagaios ou simpósio de puxa-sacos.

Talvez determinadas opiniões que aqui vêm sendo expostas tenham justamente o propósito de incitar discussões. Talvez. Deixo aos leitores o benefício da dúvida.

A nota — Um habitual e atento leitor desta coluna apontou um erro grosseiro no meu artigo “Ação e Reação” (5/2/2013). Quando usei a terceira lei de Newton como metáfora para o assunto tratado no texto, cometi um erro de transcrição e pus ali o enunciado da segunda lei, embora a ideia central baseie-se efetivamente na terceira. Minhas desculpas aos leitores e um agradecimento ao leitor que, argutamente, percebeu a falha, o que é belo e instrutivo.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 26/2/2013.

362. Pedro, Rei e Imperador

Pedro I mostrado como Pedro IV, Rei de Portugal

Pedro I mostrado como Pedro IV, Rei de Portugal

É oportuna a exumação de Suas Majestades Imperiais Dom Pedro I, Dona Maria Leopoldina de Áustria e de Dona Amélia de Leuchtenberg, respectivamente Imperador e suas esposas. Os estudos forenses estão sendo feitos pela arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel, da Universidade de São Paulo.

Havia muitos mitos sobre a personalidade dessas figuras históricas, mormente sobre Dom Pedro I, Pai da Pátria, cuja imagem foi vilipendiada pela república que se seguiu ao infame 15 de novembro de 1889.

Pedro de Bragança foi escolhido como Príncipe Regente quando da volta da Família Real portuguesa à Europa. Os ditames das Cortes de Lisboa exigiam a recolonização do Brasil — que então era reino dentro do Reino Unido de Brasil, Portugal e Algarves; Pedro e Maria Leopoldina, atendendo aos anseios populares, declararam, em 1822, o Brasil independente.

O menino Pedro foi criado num ambiente menos rígido que uma corte europeia. Andava a cavalo, misturava-se com o povo. Teve falhas na sua educação formal — daquilo que se espera de um príncipe. Longe de orgulhar-se de tais defeitos, procurou saná-los na educação dos filhos, um dos quais seria o sábio Imperador Pedro II.

Por seus feitos e fama, foram-lhe ofertados os tronos de Espanha e Grécia, reconhecimentos internacionais a sua pessoa; as honras foram gentilmente negadas.

Morreu em 1834, como general português, depois de assumir a Coroa da terra natal apenas para defendê-la do irmão Miguel. Em seu testamento, não fez distinção entre filhos legítimos e naturais. Bom pai, governante exemplar. Que sua memória seja restaurada no brilho daquilo que Pedro realmente foi: o único estadista brasileiro digno de tal título.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 22/2/2012.

361. Angústia cubana

"Vamos lá no fundo e eu te mostro a revolução no seu centro."

“Vamos lá no fundo e eu te mostro a revolução no seu centro.”

A chegada da blogueira Yoaní Sánchez nos faz lembrar que Cuba é a terra da infelicidade política. Poucos países modernos foram tão massacrados por tiranias de longa duração. Primeiro, o domínio espanhol, que se estendeu até 1898, ano em que a Guerra Hispano-Americana, entre Espanha e Estados Unidos, deu à ilha independência de jure, mas certos dispositivos de sua constituição — adicionados pela tenebrosa Emenda Platt — davam ao Grande Irmão do Norte a última palavra em questões internas da nova república.

Depois, além do domínio americano, a ditadura de Fulgencio Batista, que se estendeu de 1934 a 1959. Neste último ano, a guerrilha que vinha sendo desenvolvida desde 1953 por Fidel Castro e Che Guevara finalmente chega ao poder. A revolução não era originalmente comunista, como o próprio Fidel ressaltou quando de sua visita aos EUA — país que apoiava o movimento contra Batista. A guinada à esquerda e a aliança com a URSS não passaram de oportunismo, foram apenas uma reação à rápida deterioração da situação diplomática entre a nação caribenha e os EUA.

Desde 1959, a família Castro mantém a ilha como um latifúndio. Sua base econômica é a mesma dos tempos coloniais; o embargo burro dos EUA, antes de minar o regime, é uma eficiente propaganda. Num golpe de marketing, Cuba mostra-se como mártir.

Os que foram recepcionar Yoaní no Aeroporto de Salvador com cartazes pró-Cuba — acusando a blogueira de ser paga pela CIA e exaltando a pátria socialista, entre outras boçalidades — ignoram que o regime, em seus quase 55 anos de mandos e opressões, é muito pior que, por exemplo, o nosso Regime Militar. Mas a ideologia maniqueísta presente na esquerda, além de envenenar, cega.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, 19/2/2013.

360. Experimentação social

"Culpa sua, seu pai de merda!"

“Culpa sua, seu pai de merda!”

Deve ter começado na Grã-Bretanha, uma boa terra, mas que ultimamente tem produzido mais minhocas que batatas. Virou moda alguns pais moderninhos não quererem “impingir estereótipos” relacionados ao sexo biológico de seus rebentos. Criam-no como um ser assexuado, dão-lhe nomes neutros como Tempestade, Trovão, Chuva ou outro fenômeno da natureza e permitem que se vistam da maneira que bem entenderem — um menino com roupas de menina, por exemplo — e brinquem com os brinquedos que lhe apetecerem.

Não sei até que ponto tais liberalidades podem ser úteis à formação do caráter da criança. Já me explico: a nossa vida em sociedade prevê determinados padrões que são compartilhados pela comunidade. Promover uma quebra abrupta de tais padrões, longe de ajudar a criança, pode prejudicá-la.

A criança pode entrar em um vórtice de confusão; deve-se sim ensiná-las a respeitar as pessoas independentemente do que elas sejam, da sua aparência, da sua cor, ou seja, promover uma mudança de pensamento, de atitudes.

Esse tipo de maluquice é própria dos nossos tempos, em que as pessoas pensam com as gônadas em vez de fazê-lo com o cérebro. Além do mais, é um tipo de experimentação social inaceitável, uma engenharia social em pequena escala: pais não têm o direito de fazer de seus filhos cobaias. É desumano para a criança, que vai crescer num mundo em que há expectativas sociais.

Não é praticando a iconoclastia, permitindo que um menino vá à escola de tutu cor-de-rosa ou de vestido que o mundo vai mudar: isso é um subterfúgio idiota; é reduzir todos os problemas à forma estética da coisa.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 15/2/2013.

359. Non habemus papam

Bento XVI (Agência EFE)

Bento XVI (Agência EFE)

Bento XVI anunciou ontem sua abdicação para o dia 28. Para uma geração que praticamente só conheceu o papa que aí está e o finado João Paulo II , tal mudança pode ser considerada veloz.

É uma pena que seu pontificado termine tão já. Certamente é por conta da pressão de setores “progressistas” da Igreja. É notório que Bento XVI nutria esperança de reverter alguns estragos causados pelo Concílio Vaticano II (1962-1965) e que era partidário de um retorno à missa tridentina, já regulada  pela carta apostólica Summorum Pontificum cura (A preocupação dos Sumos Pontífices), de 2007.

Nós, católicos leigos ou mesmo não católicos, temos livre-arbítrio e podemos questionar ou seguir diretrizes  da Igreja. Embora cartas, bulas e encíclicas que não tratem especificamente dos dogmas ou questões de fé não sejam consideradas ex cathedra — ou seja, estão fora da dita infalibilidade do Papa — devem ser observadas pelo clero católico.

A questão do retorno do rito tridentino incomoda uma parte do clero, incluindo a autoridade eclesiástica regional, Dom Paulo Sérgio Machado, bispo de São Carlos. Além de sua posição contrária ao rito, num artigo desrespeitoso à parte dos católicos (“O retorno à Idade Média”, que pode ser lido em aqui), o bispo não apenas ridiculariza o retorno ao rito — pelo fato de parte dele ser proferida em latim —, como classifica os que o desejam como “puritanos”, “cabeças de vento” e até mesmo “fariseus”. E arremata o infeliz artigo com uma citação de um socialista francês.

O que me dói é que, provavelmente, o próximo pontífice seja da mesma lavra de Dom Paulo Sérgio. Com tais pensamentos, cada dia que passa, o sedevacantismo — corrente que não reconhece os papas a partir de Paulo VI — parece menos incongruente.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 12/2/2013.

358. Até quando…?

Cícero acusando Catilina no Senado Romano - autor não identificado

Cícero acusando Catilina no Senado Romano – autor não identificado

“Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência?”. É uma das mais famosas sentenças das “Catilinárias”, de Cícero, grande mestre romano da oratória, contra Lúcio Sérgio Catilina, acusado de planejar tomar de assalto o Estado romano.

Até quando a nossa paciência será testada pela classe política e seus disparates? A eleição de Renan Calheiros (PMDB-AL) para a presidência do Senado é sandice com poucos precedentes. Somente o golpe que originou o regime republicano faz-lhe alguma sombra.

Mas nada nesta república é gratuito. Em 1918, Monteiro Lobato já definiu bem o que o Legislativo do País havia se tornado: “antessalas de fâmulos”, lugar de homens que vivem com as mãos molhadas, em teatrais facciosismos. Une-os a ganância, a fome de benesses, o dolce far niente. E quem dera o problema se limitasse ao Legislativo federal…

Mas nada é de graça, e Calheiros é peça do xadrez sujo jogado em Brasília. O senador é apenas um peão, e o PT pode apossar-se da presidência da Casa comendo-o. Não há muitos motivos para que tal peça, carunchada de processos, fosse eleita.

Ou talvez haja um projeto de longo prazo: a supressão do Senado. Há uma corrente do PT — liderada por Tarso Genro — que defende o unicameralismo, ou seja, um regime com apenas uma câmara legislativa. Desgastando a Casa, enfraquece-se o Parlamento, transfere-se mais poder ao Executivo e ficam mais fáceis as manobras populistas.

Precisamos aprender a pensar como o PT e deixar de olhar apenas o imediato. Ele está sempre adiante e, se nada for feito, vai ficar no poder pelo século todo, pois, entre nós, Catilina venceu Cícero.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 8/2/2012.

357. Ação e reação

A terceira lei de Newton decreta: “A mudança de movimento é proporcional à força motora imprimida, e é produzida na direção de linha reta na qual aquela força é imprimida”, o que se traduz de maneira mais palatável em: “Para cada ação, há uma reação oposta e de igual intensidade”. O que me chama atenção neste enunciado é sua relatividade em questões que vão além do mundo físico.

A lei da ação e reação pode ser aplicada, por exemplo, ao universo legal brasileiro — os advogados que me perdoem, pois talvez tenham um termo mais conveniente. Temos uma infinidade de diplomas legais, cuja simples enumeração é cansativa: Constituição Federal, Código Civil, Código Penal, Código de Trânsito, Constituição Estadual, Lei Orgânica do Município, Lei de Responsabilidade Fiscal… há mais um bom número de códices e leis e decretos avulsos, contados às dezenas de milhares.

Um sistema legal excessivamente complexo e intrincado que deixa espaço para todo tipo de subterfúgios; certamente é um dos grandes motores da morosidade da Justiça.

Ou seja, para cada lei que se cria, há um jeitinho, há subterfúgio para escapar das imputações e sanções. A legislatria ou legismania que se registra no poder público brasileiro é a ilusão de que os problemas podem ser resolvidos por decreto e que não envolvem uma lenta mudança de cultura e hábitos do brasileiro.

Todo excesso é prejudicial. O excesso de bebida, de tabaco, de leis. Para toda falha, haverá uma desculpa esfarrapada baseada em desconhecimento, “rigidez legal” ou simplesmente a pretensa legitimidade da vontade popular.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 5/2/2012.