353. A solução virá de trem

Parece que finalmente o Governo do Estado acordou para a realidade caótica das rodovias, principalmente no entorno da Capital. É verdade que o Rodoanel tirou bastante tráfego de dentro da cidade de São Paulo, mas algumas ligações continuam caóticas, principalmente para Campinas, São José dos Campos, Sorocaba e Santos, cidades de grande importância econômica e que geram grande fluxo de deslocamento para e da Capital.

O Governo do Estado, pressionado por algumas mancomunidades de municípios e sindicatos ferroviários, lançou edital para a reativação dos trens regionais de passageiros entre a Capital e os destinos-chave acima mencionados. Além disso, Campinas e municípios circunvizinhos estão cobrando a extensão da linha 7 da CPTM, em paralelo com a regional — atualmente, a linha urbana chega até Jundiaí; a 38 km de Campinas —, com tarifas integradas às de São Paulo, o que realmente daria vida à megalópole São Paulo-Campinas.

A linha regional de Campinas já tem uma previsão de extensão até Americana. Começa a inclinar-se para a nossa região: Rio Claro, São Carlos, Araraquara. Um trem mais rápido que o ônibus e sem ter de disputar espaço com os carros seria muito útil para Araraquara; a velocidade estimada para as novas linhas regionais é de 160 km/h. Com as paradas, ganharíamos a Capital em duas horas, contra as quatro e meia de ônibus.

Os investimentos podem chegar à casa dos R$ 20 bilhões, mas trata-se de um projeto de mobilidade a longo prazo, um planejamento de demanda para daqui 20 anos, coisa difícil neste país movido a populismo. Que venham os trens, não pelo saudosismo, mas pela eficiência.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 22/1/2013.

333. A antimedalha de prata

Os gringos detectaram agora; nós já sabíamos há muito tempo que nosso sistema educacional é péssimo. Trata-se apenas de escancarar a obviedade.

O Brasil ficou em 39º em ranking educacional elaborado pela Pearson — uma learning company, como se autointitula —, dentro do projeto The Learning Curve. Trigésimo nono lugar não do mundo todo, mas de 40 países.

Os índices surgiram de um cruzamento de dados de vários organismos internacionais envolvidos com educação e comprovam o fracasso da educação brasileira. Embora tentemos disfarçar com Saresp, Prova Brasil e outras maquiagens vagabundas, a verdade é que estudantes oriundos de nossas escolas, com grandes exceções, são incapazes de, por exemplo, fazer a prova do Pisa — Programme for International Student Assessment.

Nas escolas públicas, é a velha choradeira de salários defasados, instalações ruins e falta de interesse do Poder Público, o que tem sua parcela de verdade. O ensino privado é bom de make-up: apostilas, tablets e outras parafernálias, mas que, sem métodos adequados, não acrescentam nada, como já disse o colunista Francisco Belda há algum tempo.

Em suma, tal situação é fruto da excessiva pedagogização do ensino em detrimento do ensino real; da transformação da escola em “creche para grandes”, da retirada da autoridade do professor e da relativização do valor do conhecimento, que muitos apregoam, mas poucos valorizam efetivamente.

Diretores, coordenadores, secretários municipais e estaduais da Educação, pedagogos, ministro. Tirem seus paletós das cadeiras. Vão para casa; podem fechar as escolas. Como estão, do jeito que vocês as deixaram, mais atrapalham que ajudam. Talvez a Indonésia precise de alguma consultoria de vocês.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 30/11/2012.

323. Do ouro ao chumbo

Aurea mediocritas, o meio-termo de ouro, lema e meta dos poetas árcades. Meio-termo porque não peca pela falta, nem pelo excesso. Mas a palavra assumiu uma conotação negativa entre nós. O medíocre é indivíduo que além de não ter talento nenhum para destacar-se — não destacar-se não é um pecado em si —, projeta a queda dos demais, nivelando todos “por baixo” e ali procurando mantê-los.

O mal teve início quando os medíocres tomaram as academias, o parlamento; geraram leis e prerrogativas para seus iguais, burocratizaram a sociedade, imobilizando a criatividade. Mantêm sob ameaça o setor produtivo da sociedade com suas ações abstrusas. Como exemplo, o tal “desvio de função”, criação de legisladores ociosos para alimentar advogados de “porta de empresa”.

O medíocre não quer ter esforço. Por isso, mata na concepção a iniciativa alheia. O que antes era aprendizado no ambiente laboral, que dava oportunidades reais de crescimento profissional ao empregado e criava um vínculo com o empregador, passou a ser visto com desconfiança: tanto dos medíocres em geral, quanto do empregador, que, com plena razão, tem receio que aquele fato possa conduzir a um processo trabalhista — que sempre envolve uma reparação financeira; afinal, o real intuito do medíocre é alimentar-se do esforço alheio.

Há hoje faculdades, mas certas coisas somente a rotina de trabalho nos ensina. E perdemos uma parcela importante desse aprendizado por conta dos medíocres que legislam e invejam desde suas cátedras ou banquinhos.

Será que com esse tipo de pensamento canalha e mesquinho, inerente a quase todos nós, chegaremos ao dito mundo desenvolvido? Ou continuaremos a patinar na nossa mediocritas, plumbea mediocritas?

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 19/12/2012.

302. Bolicola e McEvo

Evo Morales tomando Coca-Cola

Fanfarronice, palhaçada ou simples vontade de aparecer? Não é possível saber exatamente qual doença acomete o chefe boliviano Evo Morales. Talvez seja uma terrível mistura das três.

Nesta semana, Morales expulsou a Coca-Cola de seu território e decretou a falência do McDonald’s. Não que o McDonald’s do Chaco representasse muita coisa: eram apenas oito lojas no país todo. O que sobra é o ridículo; os atos são intitulados como “o fim do capitalismo” na Bolívia. Já consigo ver uma assembleia em qualquer universidade pública brasileira e um barbudinho seboso levantando a mão para pedir votação de uma “moção de apoio ao povo boliviano”.

É um mero ato simbólico do ridículo que esse tipo de regime gosta de representar. Não tem efeito prático, no máximo, no caso do McDonald’s, fica um saldinho devedor de uns 60 ou 70 desempregados; fica só o risível e expõe a megalomania de pessoas e doutrinas que se creem o único caminho possível.

Esquecendo-se do Chaco Meridional, perdido para o Paraguai nos anos 30, a Bolívia faz do McDonald’s suas Malvinas, um monstro para chamar de seu. Talvez o Estado Plurinacional da Bolívia introduza, em lugar dos itens prescritos, a Bolicola e o McEvo. Feitos por estatais, evidentemente.

291. Guarânia time

Fernandito, padre de muchos

O presidente paraguaio, Fernando Lugo, está sendo processado pelo parlamento de seu país por conta de morte em uma mal-fadada operação envolvendo sem-terras e a polícia.

Algumas coisas têm de ficar claras porque há muita gente falando besteira internet a fora.

Primeiro: não é golpe de estado. Embora o próprio mandatário o tenha dito, qualificando o ato administrativo contra sua pessoa como “golpe de estado expresso”, o impeachment é um processo político-administrativo levado a cabo pelo parlamento democraticamente eleito. O problema do caudilhismo latino-americano é ter ilusão na autocracia e nela apoiar-se para governar. O mesmo ocorre no Brasil; o presidente da república não é um autocrata e o parlamento, tão legitimamente eleito como o presidente, tem sim responsabilidades sobre o presidente da república se achar necessário.

Segundo: o processo contra Lugo é resultado de ele ter perdido maioria nas câmaras, hoje dominadas pelo Partido Colorado, e também de várias outras indigestões políticas no decorrer do seu mandato, como seus vários filhos — tendo ainda em vista que ele era sacerdote católico, logo, celibatário; sozinhos, tais fatos são de ordem política e moral, respectivamente, mas acabam tendo peso sobre uma decisão dessa magnitude. Mostram manifestações contra o impeachment; o que significa que o Paraguai é um país com certo nível de democracia, onde descontentes — e até mesmo sectários — podem manifestar-se. É um ótimo sinal.

Terceiro: o movimento que tem surgido na esquerda internética brasileira não tem pé nem cabeça. Não é assunto nosso. A não ser que ela tenha algo a defender, como, p. ex., o presidente Lugo ser membro do Foro de São Paulo, organização que congrega partidos de esquerda — até mesmo o mui democrático Partido Comunista Cubano — e luta por uma hegemonia absoluta nos países da América do Sul. O que explicaria a rapidez de uma “missão” da Unasul — União de Nações Sul-Americanas, esse aborto organizativo que ninguém nem mesmo sabe exatamente o que é — para intromissão em assuntos internos paraguaios. Com a Síria, aliada até outro dia, foram necessários meses e meses para que o Itamaraty se posicionasse decentemente e condenasse os ataques.

E por fim, mas não menos importante: é assunto interno do Paraguai e a resolução deve vir de seus poderes constituídos e de sua população.

290. Política, futebol e religião

Verde, que te quero verde

Diz o ‘velho deitado’ que política, futebol e religião não se discutem. Uma versão mais sucinta fala de “cor e gosto”. Temas e percepções. O grande problema do brasileiro — digo isso porque é o povo que conheço, mas a definição imagino ser expansível à Latinidade — é misturar as coisas.

O cidadão não se contenta em ver o jogo de futebol e torcer pelo seu time. Não. Alguns espíritos de porco têm de sair à rua acelerando carros e berrando. Outro cidadão tem sua fé; ele não se contenta em servir a Deus, tem de sair nos domingos pela manhã para bater de porta em porta e tentar arrebanhar mais almas com um discurso impositivo. Das misturas dessas duas vertentes de manifestação surge a política vista pelo brasileiro que a acompanha: dogmática e escandalosa. O brasileiro acompanha política como quem torce para Corinthians ou Palmeiras: é mau perdedor, é dogmático e crê na infalibilidade dos seus “papas” e só seu time tem razão. “Minha razão é a minha força.”

Essa política futebolística se vê muito pela ‘esquerda festiva’, ou seja, aquela que se encontra ora no poder. Nosso ex-presidente adora uma metáfora do mundo da bola, uma bela alegoria. E também não admite críticas. Essa esquerda e outras ainda mais radicais aninharam-se, por exemplo, na área de Humanas das universidades públicas, ultrapassando mesmo as cansativas assembleias em que se discute, num “samba do crioulo doido”, falta de professores e propõe-se uma “moção de apoio ao povo do Iraque contra a opressão estadunidense”, as doutrinas chegaram mesmo às salas dos professores, onde são os únicos critérios de pesquisa e investigação. Nossa universidade parou nos anos 60.

E são infalíveis. A economia de mercado teve suas turbulências esporádicas — e está tendo uma grave agora, um dolorido espasmo —, porém o Segundo Mundo, que chegou a englobar 33% da Humanidade, hoje se acha reduzido a ilhas de tirania, como Cuba e Coreia do Norte. O resto do Mundo Socialista dissolveu-se por absoluta incompetência econômica; as revoluções populares foram apenas uma cereja no bolo da desgraça. Se não tivessem acabado na contração violenta do começo dos anos 90, os regimes da Europa Oriental teriam definhado por mais uma década e lentamente começariam a abrir-se.

Dizem os acadêmicos: “Ah, mas isso não é o socialismo”. Se não o é; o que seria? O problema do socialismo/comunismo é que ele nunca ultrapassou a barreira da famigerada ditadura do proletariado que, uma vez instalada, deveria dar lugar à lenta dissolução do Estado, a administração descentralizada e local. Nessas linhas, seria um sonho. O grande problema é que a amorfa ditadura do proletariado tornou-se a pétrea ditadura da nomenklatura. E assim foi até a dissolução dos regimes.

Possivelmente, junto com a monarquia absolutista e a república revolucionária, o socialismo é um dos regimes que provou sua incompetência em um longo e largo laboratório de 80 anos. Vivemos um regime de democracia representativa que é péssimo, mas, parafraseando Winston Churchill, ainda é o melhor que eu conheço.

O grande problema da esquerda socialista é que a teoria é ótima. Porém tem um grave defeito: não contou com o fator humano. O ser humano é amigo do poder; o poder o fascina. Logo, se uma camada tem acesso a ele agarra-se como o náufrago à jangada. E o “horizonte luminoso” do socialismo fica como o horizonte real: quando se dá um passo em direção a ele, ele se afasta outro.

E, retomando o enfoque do texto, pode-se dizer que há um apego sacro com a política. Há dogmas, há heresias, há excomungados. Heranças de um catolicismo fetichista? A esquerda mantém a ilusão de que é possível mudar, porém, quando chegou ao poder, entregou-se ao mesmíssimo fisiologismo que domina o Estado brasileiro desde a colônia. Mais do mesmo. O poder é como a maresia: corrompe até ferro. Somos um povo torto, dado a paixões e a vícios como poucos. Nossas grandes qualidades são a falta de caráter — o jeitinho —, o sorriso falso com cerveja, o dogmatismo de ocasião das nossas opiniões, a moleza da nossa alma.

Por isso somos tão insuportáveis.

289. O escudo da ignorância

Assim como no auge da Idade Média, os dogmas continuam existindo. Antes, afirmava-se que o universo era finito; quem dissesse o contrário, ia para a fogueira. A diferença é que as chamas das fogueiras modernas são a reprovação e troça pública; coisa muito mais fácil de lidar. Ainda mais quando se trata de um amontoado de asneiras.

Nos e-mails corporativos da empresa em que você trabalha — se for o caso —, há um rodapé com dizeres do tipo: “Verifique a real necessidade de imprimir seus e-mails; preserve a natureza”. É um tipo de mensagem comum incitando a economia de papel para “preservar a natureza”, “preservar a Mata Atlântica”. Afirmação que vem blindada, tratada como verdade imperativa; um verdadeiro escudo de ignorância acerca do assunto.

A intenção real é a economia de papel, o que é um valor legítimo por si mesmo; assim como apagar as lâmpadas quando se sai de um recinto, desligar aparelhos elétricos. Uma questão de bom senso e economia. Mas não que esse tipo de comportamento vá salvar alguma coisa.

Na questão do papel, primeiro, ele é feito com madeira de plantações industriais especialmente para esse fim. Não se faz papel de madeira nativa, ou alguém realmente acha que há papel de mogno? Geralmente é feito de eucalipto, cujas fibras têm a mesma densidade e uniformidade na hora do cozimento da madeira para extração da celulose. Ou seja, fazer papel de madeiras duras ou variadas, além de inviável, resultaria — se for possível — em um papel de péssima qualidade.

As plantações de eucalipto para esse fim, por ora, concentram-se em Minas Gerais e São Paulo e estão em áreas em eram originalmente de alguma monocultura como cana ou laranja. Ou seja, não há desmatamento para produção de papel.

Outra lenda é que o eucalipto “mata” ou “seca” o solo. Acredita-se que esse tipo de boataria venha justamente de grupelhos ecológicos a soldo de países interessados em manter o monopólio da produção de celulose, como a Finlândia, por exemplo, atualmente ainda a maior produtora mundial da matéria-prima. Como simples curiosidade, veja onde estão sediadas as organizações ecológicas mais famosas como Greenpeace, WWF e outras. São quase todas ‘multinacionais’ do lobby verde, localizadas “lá em cima”.

O eucalipto é ecológico, gera renda e tira os agricultores da monocultura. Então, antes de acreditar em qualquer coisa apenas porque tem o revestimento, a proteção do politicamente correto e tratá-la como dogma e combatê-la por simples e pura ignorância. Certamente que tudo deve ser usado com a devida economia, mas que fique claro o motivo correto e que não seja baseado em lendas ou estórias mal-contadas.

287. A aurora do lulomalufismo

A bênção do capo (Adriana Spaca/Brasil Photo Press/Folhapress)

Leio as colunas de Arnaldo Jabor, mas não sou exatamente aficionado por ele. Porém, aproprio-me a ideia do título de um de seus livros: pornopolítica. O radical grego porno- tem relação com pórne, prostituta na língua de Homero. Logo, basta deduzir o que pode significar pornopolítica.

A aliança entre PP e PT em São Paulo em torno da candidatura de Fernando Haddad à Prefeitura teria tudo para apenas levantar alguns ‘ohs’ de assombro em meia-dúzia de pessoas. Mas a exigência de Maluf para que o próprio Lula viesse ratificar o apoio, a associação dos nomes… é algo que causa, no mínimo, estupefação. Uma Realpolitik despudorada.

Homens com um passado todo de ofensas e sarilhos, agora se abraçam num repulsivo gesto de união política. É nesses momentos cruciais que se percebe que não há projeto de governo, ética, princípios partidários. Nada. O único projeto que existe é o projeto de poder por parte de todos e, principalmente, pela permanência indefinida do PT no poder. Será a aurora sebenta do lulomalufismo? Pode não parecer, mas as duas vertentes têm muito em comum; o que as separa são aparências.

Apesar de tudo, creio que tal ‘união maléfica’ traga ojeriza tanto a parte da militância petista quanto aos ditos malufistas históricos. O restante chafurda na alegria suja, joga fora um passado em nome das conveniências do momento.

Até mesmo a filiação de Delfim Netto ao PMDB, em 2005, fica embaçada quando comparada a essa aliança; se alguém a previsse há 20 anos, poderia ouvir que, no mesmo instante que Lula e Maluf estreitassem as mãos, um buraco negro tragaria todo o Universo. Parece que as coisas mudam; e não necessariamente para melhor.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 19/6/2012.

282. Bolsos insaciáveis

É quase o título de um filme pornográfico. Mas festa com dinheiro público também é um tipo de pornografia, mais refinada e, ao mesmo tempo, mais nojenta.

Depois de meses de embate, os vereadores da cidade de Araraquara reajustaram seus subsídios que, na próxima legislatura, passarão a  R$ 6.550. Um aumento de 27%.

A situação pegou fogo ontem, em uma sessão que durou 7h30. O primeiro projeto, votado já há algum tempo, queria elevar os vencimentos para cerca de R$ 8 mil, um aumento de 60% sobre o valor atualmente percebido e que englobaria a inflação dos últimos quatro anos, mais projeção de inflação (?!) para os quatro anos seguintes. Afinal, os vencimentos só podem ser reajustados para a legislatura seguinte.

Tiveram de mudar de ideia após um movimento popular chamado “Reage Araraquara” ter conseguido recolher em poucos dias 12 mil assinaturas para protocolar um projeto de lei popular. Bem mais que os 5% do eleitorado exigidos pela Constituição Federal, 8 mil eleitores no caso de Araraquara.

O mais engraçado é o jogo do direito adquirido. Parte dos vereadores fez lobby e disse que “não aceitariam” ganhar menos de R$ 7 mil, ou seja, o salário de um secretário municipal. Curioso, pois grande parte da vereança tem outras atividades e, em tese, não precisaria lançar-se sobre o erário com tanta voracidade. Mas tiveram de recuar.

Possivelmente o mais prejudicado com o desgaste político e eleitoral foi o próprio governo, coalizão PMDB-PSDB-DEM, majoritariamente. A base do governo discutiu entre si e ofendeu-se. Certamente haverá prejuízos políticos para os últimos meses da legislatura.

Em compensação, silenciosamente a oposição — majoritariamente PT — parece ter gostado da confusão toda e certamente capitalizará com o fato, uma vez que foi contra o aumento desde o início e, numa manobra de fundo populista, propôs o congelamento dos vencimentos.

Ontem, para evitar que o caldo entornasse, a conturbada sessão de ontem teve de ser paralisada por 20 minutos. Tempo suficiente para que o vereador Serginho Gonçalves (PMDB) e o membro do Reage Araraquara Marcelo Bonholi se estranhassem no corredor. “Você é um bosta!”, ouviu-se ecoar da boca do rotundo vereador.

Creio que Napeloso pode ser considerado inocente da ofensa. Afinal, ele só exteriorizou o que a classe política pensa do eleitor e cidadão. Tanto em Araraquara quanto em Brasília, os membros dessa casta — uma nobreza podre legitimada por votos comprados — deve mesmo pensar isso de nós: somos uns bostas.

Como já diria Justo Veríssimo, personagem do saudoso Chico Anysio, “Eu quero que o povo se exploda!”

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E ainda haverá queda de braço entre políticos e população. Afinal, ainda não desistiram de aumentar seus ‘tronos’ de 11 assentos para 18.

281. A república do assombro

Este é o meu 30º texto de opinião publicado na Tribuna Impressa de Araraquara. Enjoy it.

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Vai precisar rezar muito mesmo

Se Lula sente-se no direito de cobrar um magistrado da mais alta corte do País — e isso veio à tona —, imagine o que não acontecia quando ele era presidente da República. Esse tipo de manobra só mostra a faceta mais óbvia da podridão que lastreia a coisa pública brasileira. Nossa república — coitada — de bem comum a cosa nostra.

Nem a doença do ex-presidente tira-lhe a empáfia, a aura de ungido. O mais curioso é que esse tipo de personalidade, o caudilho, é algo muito hispano-americano. Talvez o aparecimento de Lula seja indício que estamos nos integrando à América Latina, para bem e para mal.

Há alguns dias, Barack Obama fez uma insinuação sobre o possível veto da Suprema Corte americana a uma lei aprovada pelo Congresso e bastou para desencadear uma minicrise. Porque, na sociedade americana, a intenção corresponde à materialidade de uma ação.

Muitos de nós — e vejo isso com assombro — veem como natural que “o Cara” tenha esse tipo de influência. Que a barafunda é mera invenção da Veja, do PSDB, de FHC ou do monstro fictício mais à mão. Estamos acostumados ao absurdo; não nos causa mais repulsa. A insensatez é a nossa rotina política e social.

É encostado à parede e já sem fôlego que constatamos uma deterioração sem par da situação política. Uma argentinização — leia-se a Argentina sob o kirchnerismo — do Brasil. E quanto mais tempo PT et caterva ficarem no poder, mais profunda será a vigilância, a censura, o controle da vida dos cidadãos por um Estado mastodôntico e onipresente.

Tomemos consciência; ou afundemos no lodaçal das pequenezas, ignorando o que há ao redor. É o que eles desejam.

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Publicado em 5/6/2012.

273. A república da coação

Por que, em uma democracia — ou regime que assim se apresenta — o voto é obrigatório? Garanto que meu eventual leitor já se deve ter pensado no tema alguma vez.

O voto é obrigatório tanto pela Constituição Federal (art. 14 §1º, incisos) quanto pelo Código Eleitoral (art. 6º, caput); é tratado como direito-dever. Há vários defensores do voto obrigatório, dizendo que tal instrumento é necessário, uma vez que a “imaturidade política (?!) da população brasileira o requer”. Porém, é desse mecanismo de dever-direito que muitos dos espertalhões que estão na política se valem.

Fui mesário durante cinco pleitos. E nesse espaço de nove anos — houve um referendo no meio — vi gente que não tinha a menor noção do que ia fazer ali diante da caixinha que apita. Muitos entravam com panfletos que lhes haviam sido dados na porta e naqueles votavam.

O voto obrigatório e a cultura fajuta insuflada pelo TSE de que “você tem de escolher alguém” fazem com que as pessoas votem em qualquer candidato por receio a mitos, como a necessidade da escolha ou “se você anula, seu voto vai para quem está ganhando”.

É claro que uma democracia deve-se pautar pelas escolhas populares, mas com uma condição: a desobrigação do exercício do direito ao voto — por que não um referendo nessa direção, senhores congressistas? —, o que levará à qualidade do voto, fruto de uma real escolha ou da consciente abstenção.

A situação é cômoda para os que têm seus currais eleitorais. E enquanto a democracia da quantidade reinar sobre a democracia da qualidade, jamais sairemos do democratismo, fonte do populismo e tantos outros males que sufocam nosso país.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 22/5/2012.

271. Deseducação

Talvez ontem fosse um pouquinho melhor.

Alguns dizem que a família é uma instituição falida. Talvez sim, talvez não; é algo de analisar caso a caso. A única instituição que realmente faliu e perdeu sua justificativa é a escola.

Esta Tribuna noticiou, em sua edição de sexta passada (11/5, pág. A7), o caso da professora que foi furtada e ameaçada de morte por um aluno de 14 anos. Esse tipo de episódio é pouco comentado, mas é muito mais frequente do que se imagina.

Já faz tempo que o ensino é dominado por pedagogos, e mesmo professores de outras disciplinas estão reféns desse furor burocrático. Basta ver uma prova, p. ex., para professor de Português, em que cerca de um quarto das questões são da disciplina e o restante perde-se na decoreba de legislação (Constituição, ECA, LDB) e na repetição psitacídea de burocratas e filosofastros da Educação (Philippe Perrenaud, Paulo Freire, Antoni Zabala et caterva).

A voracidade com que a pedagogia caiu nas escolas tirou a autoridade dos professores e esvaziou a função de instrução, transformando-as em creches, meros aparatos assistencialistas. Prova cabal é que a maioria das nossas crianças deixa o ensino como tábula rasa. Isso se ainda não saírem piores de quando entraram, à maneira como funcionam nossos presídios, que, em vez de recuperarem, degradam mais.

O pior mesmo é que o Estado nos obrigue a pôr as crianças nas escolas, a deixá-las em um lugar que fomenta uma falsa igualdade, nivelando-as “por baixo”. Por que o Estado não nos permite o homeschooling?

Costumamos creditar a falência da escola aos políticos e a partidos. Eles também têm sua parte, mas as pretensiosas teorias pedagógicas e suas leituras ortodoxas são a principal causa do declínio.

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Artigo publicado na Tirbuna Impressa de Araraquara em 15/5/2010.

260. Chave inglesa

"Pega o 'to be' aí na caixa pra mim..."

Se você, leitor, tenta aprender um idioma estrangeiro como se fosse matemática, tenha a certeza de que está no caminho errado. Digo isso com base nas tantas pessoas que vejo que “fizeram inglês” há dois, três anos e não conseguem juntar duas frases.

Sim, eu sei que vivemos em um mundo onde conhecimento é poder, é oportunidade. Mas conhecimento sem lastro cultural é apenas informação: hoje você lembra; amanhã não.

Aprender um idioma estrangeiro não é apenas decorar gramática, conjugar verbo e pôr os pronomes no seu devido lugar. O processo de adquirir — sim, o termo é esse — um idioma estrangeiro vai além de pôr etiquetas sobre as palavras da nossa língua materna. O idioma estrangeiro — por mais globalizado que seja, como o inglês — carrega consigo uma cultura. E língua e cultura são indissociáveis.

A língua é espelho e mesa de uma sociedade. Quantos termos de outros idiomas que são simplesmente intraduzíveis por apenas uma palavra, e que temos de recorrer a longas perífrases para explicá-los? Um sem número.

Logo, não adianta você tratar o idioma estrangeiro como “ferramenta”, ele se nega a tal papel. Fugirá de você como uma barata pelas frestas dos móveis da memória. É necessário alimentar o idioma, como um animal de estimação. Leituras, audição de rádio, televisão. Hoje a internet nos permite esses instrumentos imprescindíveis para simular a vivência que a distância nos cerceava.

Se você, leitor, pensa em um mero utilitarismo dessa “ferramenta”, desista. Vá aprender matemática financeira.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 14/4/2012.

234. A república naufragada

'Alegoria da República' (1896), de Manoel Lopes Rodrigues

Fala-se muito que as instituições estão falidas. Falência moral, não obstante a financeira. Escola, polícia, Congresso, assembleias legislativas, ministérios, prefeituras, tribunais; instituições que estavam falidas em 1930, em 1964, em 2002. Hoje, estão naufragadas. As pessoas perderam a noção das reais funções de tais organismos. Além de não representarem mais nada para a população, são vistos e tratados como “clubinhos”, principalmente os três níveis do legislativo. Um clubinho em que o corporativismo é lei suprema.

O caso Grecco é espelho dessa situação. Primeiro, optou-se manter o vereador na Câmara — certo que com uma votação apertada, mas ficou. Agora, com sua condenação em primeira instância, tentam um “acordo de cavalheiros” para que o vereador saia à francesa. Primeiro, o corporativismo de defendê-lo; agora, o corporativismo de defender o todo do “corpo estranho”.

Rejeitamos tais comportamentos. Indignamo-nos. Rangemos dentes. Porém, é bom lembrar: os políticos são do mesmo estofo que nós. E não apenas as mesmas tripas, mas o mesmo estofo ideológico: são um retrato inclemente da nossa insensatez, do nosso “jeitinho”. A culpa é nossa também, os vícios vêm de nós, pois aqueles que ocupam funções públicas vêm do povo e são lá postos pelo povo.

Muitos de nós já subornamos o guarda para não levar multa. Ou tentamos transpor algum obstáculo burocrático com a ajuda de “pistolão”. Burlar uma norma de trânsito, uma regra institucional ou a prática do peculato e do crime eleitoral têm, em última análise, a mesma semente, a mesma amoralidade, a mesma natureza delituosa, independentemente da abrangência do ato.

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Texto publicado na Tribuna Impressa de Araraquara de 6/3/2012. Também no Araraquara.com.

209. A força das palavras

Bíblia manuscrita em latim, da Abadia de Malmesbury, Inglaterra. Fonte: Wikipedia.

Salvo engano, foi em uma já longínqua aula de Linguística que a questão foi posta: quando se nomeia algo, o nome usado passa a ser a coisa. Explico-me melhor: o nome é a coisa. Dirão que enloqueci. Não, não, de modo algum: apesar das várias tentativas, a faculdade de Letras não derreteu meu cérebro. É mais simples do que parece: está na Bíblia. No Gênese, para ser mais exato.

Está lá e é bem simples: Deus disse e a coisa se fez. Os primeiros versículos do Gênese, considero-os o primeiro tratado de Linguística. Um tratado de Linguística ante litteram e ab ovo. E tal poder evocatório da palavra remete-nos a todo um compêndio de palavras mágicas e seu poder de transformação.

Também para os muçulmanos, a declamação da shahada, uma profissão de fé, basta para que, aos olhos de Deus, o que a pronunciou seja considerado um crente. A shahada, independente da língua materna do fiel, é pronunciada em árabe, língua na qual está escrito o Alcorão.

O árabe é a língua litúrgica do Islã, independente da língua falada pela população; temos muçulmanos iranianos, que são de língua materna persa; ou os turcos, cuja língua não tem relação com o árabe, exceto por empréstimos. A língua turca passou por uma depuração nos anos 1920; o turco com excessivos empréstimos do árabe entrou para a história como turco otomano.

Mesmo o Alcorão é mantido em árabe. Suas “traduções” não são assim consideradas. Basta ver as edições em português que são impressas na Arábia Saudita, e que têm por base a tradução do Prof. Dr. Helmi Nasr, não vêm indicadas como traduções, mas como “interpretação do seu sentido em português”. Deduz-se que somente se pode ter acesso à verdade islâmica pela língua árabe.

Na Turquia, entre 1932 e 1950, o adhan — chamado feito pelos muezins do alto das mesquitas, convocando os fiéis para as preces — foi feito em turco. Sua forma árabe foi restaurada pelo primeiro-ministro Adnan Menderes. Possivelmente, os muçulmanos turcos viam naquele chamado em turco algo “pouco natural” ou incompatível com o Islã. Ou seja, a perda do poder evocatório por conta da mudança da língua.

Algo similar ocorre com o catolicismo. Até o Concílio Vaticano II, a língua litúrgica da Igreja era o latim. Usava-se na missa e reservava-se a língua local para a homilia (justo, porque é a parte dos exempla) e toda a força evocatória estava nas formulas presentes nas várias partes da homilia, que também guardavam certas entonações, similares ao canto gregoriano.

O latim ficou restrito a determinadas cerimônias e às missas rezadas pelo Sumo Pontífice; pergunto-me o porquê de uma decisão tão descabida. As orações e profissões de fé católicas ficaram esvaziadas de sentido e de força evocatória. Rezar um Pai Nosso em português não é a mesma coisa que rezá-lo em latim.

Alguns se levantarão e dirão: “então, teríamos de adotar como língua litúrgica o grego, que é a língua do Novo Testamento. A bacia oriental do Mediterrâneo era profundamente helenizada e os Evangelhos ganharam grande difusão por terem sido escritos em língua grega. Mas a Igreja, por Pedro, estabeleceu-se em Roma e adotou determinados símbolos da sociedade sobre a qual se estabeleceu, não se limitando aos pictóricos — como se vê na pictografia paleocristã —, mas encampando também a língua. O latim é a língua da liturgia católica romana e como tal deveria ser restabelecida.