279. “Dom Camilo e seu pequeno mundo”, Giovannino Guareschi

O autor e seu bigode

Foice, martelo e cruz

Em uma cidadezinha da Planície do Pó, na convulsão social e econômica da Itália do pós-guerra. Eis o cenário de “Dom Camilo e seu pequeno mundo”.

Giovannino Guareschi (1908-1968) faz uma alegoria das contendas políticas daquele triste período italiano, opondo o pároco da cidadezinha — Dom Camilo — e o administrador comunista Giuseppe Bottazzi, mais conhecido como Peppone.

Embora haja uma eterna rixa entre os dois, na verdade, são o que costuma chamar de inimigos cordiais. Gente que, apesar de duas posições ideológicas — a Democracia Cristã versus o Partido Comunista Italiano —, têm em mente o bem comum da cidade, embora não deixem de marcar suas posições de modo bem irreverente.

Dividido em pequenos contos, “Dom Camilo…” é o primeiro livro da série baseada nessa alegoria, que soma seis volumes, publicados entre 1948 e 1996, sendo que os quatro últimos são póstumos. Uma literatura que, como diria o próprio Guareschi no seu “Zibaldino”, “é bela e instrutiva”.

Dom Camilo e seu pequeno mundo – Difel/Bertrand do Brasil – preço variável

* * *

Publicado com alguns cortes na Tribuna Impressa de Araraquara em 3/6/2012.

209. A força das palavras

Bíblia manuscrita em latim, da Abadia de Malmesbury, Inglaterra. Fonte: Wikipedia.

Salvo engano, foi em uma já longínqua aula de Linguística que a questão foi posta: quando se nomeia algo, o nome usado passa a ser a coisa. Explico-me melhor: o nome é a coisa. Dirão que enloqueci. Não, não, de modo algum: apesar das várias tentativas, a faculdade de Letras não derreteu meu cérebro. É mais simples do que parece: está na Bíblia. No Gênese, para ser mais exato.

Está lá e é bem simples: Deus disse e a coisa se fez. Os primeiros versículos do Gênese, considero-os o primeiro tratado de Linguística. Um tratado de Linguística ante litteram e ab ovo. E tal poder evocatório da palavra remete-nos a todo um compêndio de palavras mágicas e seu poder de transformação.

Também para os muçulmanos, a declamação da shahada, uma profissão de fé, basta para que, aos olhos de Deus, o que a pronunciou seja considerado um crente. A shahada, independente da língua materna do fiel, é pronunciada em árabe, língua na qual está escrito o Alcorão.

O árabe é a língua litúrgica do Islã, independente da língua falada pela população; temos muçulmanos iranianos, que são de língua materna persa; ou os turcos, cuja língua não tem relação com o árabe, exceto por empréstimos. A língua turca passou por uma depuração nos anos 1920; o turco com excessivos empréstimos do árabe entrou para a história como turco otomano.

Mesmo o Alcorão é mantido em árabe. Suas “traduções” não são assim consideradas. Basta ver as edições em português que são impressas na Arábia Saudita, e que têm por base a tradução do Prof. Dr. Helmi Nasr, não vêm indicadas como traduções, mas como “interpretação do seu sentido em português”. Deduz-se que somente se pode ter acesso à verdade islâmica pela língua árabe.

Na Turquia, entre 1932 e 1950, o adhan — chamado feito pelos muezins do alto das mesquitas, convocando os fiéis para as preces — foi feito em turco. Sua forma árabe foi restaurada pelo primeiro-ministro Adnan Menderes. Possivelmente, os muçulmanos turcos viam naquele chamado em turco algo “pouco natural” ou incompatível com o Islã. Ou seja, a perda do poder evocatório por conta da mudança da língua.

Algo similar ocorre com o catolicismo. Até o Concílio Vaticano II, a língua litúrgica da Igreja era o latim. Usava-se na missa e reservava-se a língua local para a homilia (justo, porque é a parte dos exempla) e toda a força evocatória estava nas formulas presentes nas várias partes da homilia, que também guardavam certas entonações, similares ao canto gregoriano.

O latim ficou restrito a determinadas cerimônias e às missas rezadas pelo Sumo Pontífice; pergunto-me o porquê de uma decisão tão descabida. As orações e profissões de fé católicas ficaram esvaziadas de sentido e de força evocatória. Rezar um Pai Nosso em português não é a mesma coisa que rezá-lo em latim.

Alguns se levantarão e dirão: “então, teríamos de adotar como língua litúrgica o grego, que é a língua do Novo Testamento. A bacia oriental do Mediterrâneo era profundamente helenizada e os Evangelhos ganharam grande difusão por terem sido escritos em língua grega. Mas a Igreja, por Pedro, estabeleceu-se em Roma e adotou determinados símbolos da sociedade sobre a qual se estabeleceu, não se limitando aos pictóricos — como se vê na pictografia paleocristã —, mas encampando também a língua. O latim é a língua da liturgia católica romana e como tal deveria ser restabelecida.

197. Antiajuda

Quase sempre, quando entramos numa livraria, nos deparamos com a pilha das obras de autoajuda. Sejam elas algo mais pé-no-chão, de fundo psicologizante ou misticoide. Impávidas, soberbas e com capas chamativas — e estranhamente semelhantes —, chamam os deprimidos e aqueles que ainda não conseguiram o brevê para a sertralina ou fármacos mais profundos.

Vendem por suas páginas um mundo melhor; u’a maneira diferente de ver o mundo. São obras para (1) gente que ainda crê em algum tipo de normalidade, (2) pessoas que creem na interferência de forças superiores — a escolha do freguês, ou melhor, da cultura do freguês — ou (3) a turma que procura um motivo para a existência. O motivo 3 dá matéria para outros tantos textos. Reservemos o tema.

E um livro de antiajuda? Fora as paródias que existem dos títulos mais afamados da autoajuda, não creio que ninguém haja realmente pensado em em um livro de antiajuda verdadeiro. Pode ser que não haja um com esse intuito objetivo, mas há coisa que o valha e é uma das obras-primas da literatura.

Giovanni Papini, 1881-1956

Trata-se de “Gog”, de Giovanni Papini. Já andei citando o livro por aqui. Gog é o nome do protagonista, redução de Goggins, americano por acidente, filho de uma nativa maori e um homem de raça branca, porém desconhecido; de modo igualmente desconhecido, junta um certo capital e logo se torna um dos homens mais ricos dos Estados Unidos “[…] e logo, do mundo todo”; mas que acaba pipocando por casas de repouso, numa das quais encontra o narrador.

Escrito na forma de um diário compilado, Gog inicialmente nos assombra pelas suas conclusões que, a primeiro momento, parecem demonstrar um profundo cinismo com relação à Humanidade, mas que, com o decorrer da leitura, mostra-se um questionamento à normalidade.

As reações de Gog podem não coincidir totalmente com as do leitor (creio que se isso ocorresse, teríamos um buraco negro literário), mas, certamente, acabará por ver-se ou sentir-se representado de alguma maneira.

Pontos polêmicos são as conversas que o protagonista mantém com interlocutores ilustres: Henry Ford, Sigmund Freud, Mahatma Gandhi, Vladimir Lênin (essa uma das passagens mais surpreendentes), cinco monarcas reunidos no palácio de Guilherme II, colóquios com charlatães, metafísicos de ocasião e defensores de teorias estranhíssimas.

Considerado pela crítica a obra-prima de seu autor, o livro encaixa-se — involuntariamente — na categoria de antiajuda: a misantropia de Gog ou fará com que o leitor refute-o definitivamente, ou causará uma identificação. A indiferença não é possível.

Papini é toscano, como Malaparte. Não sei se o dado é relevante, mas fica um liame entre a genialidade de ambos. Conterrâneos de Maquiavel.

Não sei se há tradução em português; estou em posse de um pdf em castelhano, disponível na rede. Aproveite a leitura.

189. “A Pele”, Curzio Malaparte

Há alguns dias, comprei-me Don Camalèo, um dos primeiros livros que li de Curzio Malaparte. Após ler Kaputt, A pele, Maledetti toscani, Sodoma e Gomorra e Fughe in prigione (tenho a Técnica do Golpe de Estado, em tradução lusitana, mas ainda não o li), resolvi voltar as origens e consegui comprar uma edição de Don Camalèo – Ritratto di un’Italia a quattro zampe a bom preço, edição publicada em 1953 pela Aria d’Italia.

Ainda estou a entreter-me com A Pele que, após alguns anos da primeira leitura, volto a ele como uma criança que conseguiu pegar chocolates na geladeira. E de Don Camalèo veio a surpresa: uma panfleto promocional sobre A Pele, à época de seu lançamento, em papel esverdeado e já com as bordas amareladas. Traduzi-o, pois é interessante.

A Pele

“Malaparte é dos escritores mais célebres e mais discutidos do mundo.” – Kléber Haedens, Samedi Soir (Paris)

“Malaparte é um grande escritor, A PELE é uma obra imensa.” – Pierre Lesdain, Volonté (Bruxelas)

“Na obra literária de Malaparte não há nada que possa ser posto no plano normal da razão. Ele tem talento, força e uma maravilhoso poder imaginativo.” – George Scolombe, New York Herald Tribune.

“Malaparte certamente ocupou a sucessão de Gabriele D’Annunzio no campo da literatura internacional”. – La Nation (Bruxelas).

A PELE, o mais recente livro de Malaparte, lançado primeiramente em Paris, na bela tradução francesa de René Novella, e depois na Itália, América, Inglaterra, Bélgica, Alemanha, Espanha, Argentina, Holanda, Dinamarca, Noruega (e, em capítulos na grande revista de Zurique, Die Weltwoche), foi acolhido com grande sucesso pela crítica e pelo público internacionais. E com igual fervor na Itália, onde a primeira edição foi vendida rapidamente em poucos dias e foi seguida por numerosas reimpressões.

Além do valor literário do livro, sobre o qual não cabe ao Editor exarar juízo, as razões desse feito são visíveis na audácia, na crueldade, no esclarecimento com as quais Malaparte faz frente aos problemas mais delicados e mais graves do mundo moderno. A PELE prossegue com o grande afresco da sociedade contemporânea iniciado com KAPUTT, e foi definida como “uma cruel e afetuosa defesa, não apenas do povo napolitano e do povo italiano, mas de todos os povos da Europa”. Malaparte toma lugar de modo definitivo entre os escritores mais representativos do nosso tempo: a crítica americana e europeia, unânime, ainda repetiu seu nome junto com o de Hemingway, de Malraux, de Bernanos, mas com maior frequência com o de Miller.

O que induziu a crítica estrangeira à preferência em traçar um paralelo entre Malaparte e Miller é a extraordinária violência e intransigência do seu inconformismo revoltado, como o de Miller, não do lado político, mas exclusivamente do lado moral e social dos problemas do mundo atual. Porém, diferentemente do inconformismo de Miller, o de Malaparte rejeita não apenas a hipocrisia, a vilania, a degradação da sociedade contemporânea e as violências do Estado moderno, mas também, e sobretudo, o homem moderno, degradado e profundamente corrompido pelos males morais e sociais.

“Malaparte – escreve A. Revelard no jornal Le Soir de Bruxelas – exprime sua náusea muito melhor do que Sartre, visto que essa não acusa a vida em si mesma, mas é uma apaixonada reação ao espetáculo da degradação humana.” O desprezo pelo homem, como foi formado pelo corrupção da sociedade contemporânea é em Malaparte, sempre mau, e a cada página de A PELE, em que a fragorosa derrota militar e a destruição da Europa são usadas como símbolo da destruição e da derrota moral e social do mundo moderno; junto, uma espécie de piedade atroz, uma cruel piedade (que o autor chama “cristã”) pelas misérias do vencido, pelo homem que tem consciência da própria derrota. “A Europa (e Nápoles, para Malaparte, representa a Europa) – escreve Max-Pol Fouchet em Carrefour – significa a derrota. A verdade, o único fundamento de toda civilização humana autêntica, é o pecado e a derrota.” E Paul Lévy, em Aux Écoutes, agrega: “Malaparte é o arauto da Europa martirizada e vencida, um arauto nobre e desesperado, cujo canto tornar-se-á inesquecível”.

Quanto ao particular acento da arte do autor de A PELE, os mais insignes críticos estrangeiros, pelo exemplo de Robert Kemp, das Nouvelles Littéraires, e de Maurice Nadeau, de Combat, falaram do barroco romântico e de surrealismo: “de um certo surrealismo – escreve Nadeau – que, por sorte, os surrealistas não vislumbraram a não ser na sua imaginação”. Ou seja, de um surrealismo que não tange o homem a afastar-se da realidade para procurar refúgio no mundo do sonho, no universo onírico, mas o joga com violência da realidade profunda, faz com que ele veja a realidade desde dentro, não de fora. Outros críticos consideram a obra de Malaparte como a primeira reação válida tanto ao verismo da narrativa americana quanto ao racionalismo da cultura ocidental: e põem Malaparte na vanguarda daquele movimento literário, daquele novo romantismo que parece ser a nova fórmula da atual literatura europeia.

“Um homem que sabe escrever páginas tão formidáveis pode escrever tudo aquilo que quiser. Acabei de ler A PELE e estou perplexo. Há dentro do livro uma Itália e um Malaparte que eu ainda não conhecia.” Guareschi, Candido.

“Um livro que é destinado a um grande clamor humano. Isso está a altura dos elogios feitos pela imprensa estrangeira, e pertence àquela restrira fileira dos documentos dos quais os italianos têm o dever de vê-lo, para aproveitar uma prosa que está entre as mais belas da nossa narrativa contemporânea”. – Domenico Porzio, Oggi.

“Malaparte escreveu um livro em Nápoles como uma carta de amor a uma mulher, uma carta escarlate”. – Mario Stefanile, Il Roma

180.Histórias desconhecidas: o Bacharel de São Bernardo

Único retrato conhecido do Bacharel de São Bernardo. É notável como esse documento esquecido pela História inspirou a figuração do Pai Ubu.

Quando Martim Afonso de Souza chegou ao litoral paulista e fundou São Vicente, não tomou conhecimento apenas da existência do enigmático João Ramalho, que já em idade avançada, tinha ampla descendência entre os índios e com eles vivia mais acima, no planalto. Menos generosa é a História quando se trata do Bacharel de São Bernardo, figura igualmente enigmática.

A alguma distância do aldeamento de Ramalho, que logo seria a vila de Santo André, viviam também alguns aborígenes organizados por essa estranha figura; ao contrário de Ramalho, que simplesmente se esqueceu da Europa e vivia com tranquilidade entre os índios, o Bacharel apresentava-se como descendente da nobreza e oficialmente designado pelo Rei de Portugal como ‘regedor’ daquelas terras.

Com roupas feitas de plumas e uma coroa de madeira, fazia-se chamar pelos índios de “Vossa Alteza” e mandara esculpir um Jesus também em madeira que era sua imagem e semelhança.

Na aldeia de São Bernardo (ou reino outorgado, como dizia o Bacharel), circulava moeda também esculpida em madeira e havia uma grande oca onde tomava lugar a Grande Assembleia Geral, todos a soldo do Bacharel.

Por conta da escassez de meio circulante e da dificuldade em entrar nas fainas para obtê-lo, grande parte da população vinculava-se ao serviço do Bacharel ou vivia de um estipêndio por ele concedido, na forma que prouvera em forma de regulamento. Os que viviam de estipêndio, nada faziam; os que trabalhavam diretamente para o serviço do Bacharel também não.

Meia-dúzia de índios plantava para aquele monte de gente, mais de duzentos. E qualquer reclamação sua era ridicularizada por meio de um painel de madeira, o Tronco Oficial, onde o Bacharel mandava esculpir tanto suas peças de oratória quanto éditos, decretos e regulamentos. Eram tantos que havia, em verdade, um bosque oficial.

Não é preciso lá ser muito inteligente para prever que assim que travaram contato, o Bacharel e Martim Afonso tiveram graves e grandes rusgas. O Bacharel não aceitava a autoridade de Martim Afonso e usou de todo seu poder para isolar o seu reino da autoridade do Capitão. Por meio de sua guarda pessoal e da estatal Brasopau (extração de pau-brasil) e do Banco da Botocúndia (responsável pela ‘cunhagem da moeda’ e pelo erário – ou seria lignário – público), iniciou ampla campanha publicitária em seus domínios e também agentes ao aldeamento de João Ramalho.

Curioso é que após um acordo entre Martim Afonso e o Bacharel, onde o primeiro concedia ao segundo o cargo de escrivão de seu serviço, o aldeamento de São Bernardo e seu Bosque Oficial param de ser mencionados. O “leal e mui valoroso” Bacharel de São Bernardo morreu em sua quinta em Setúbal, cercado de todo luxo e conforto – e de todo o vinho que aguentasse beber -, alguns anos do seu retorno a Portugal.

Nada mais se sabe a respeito do Bacharel. Procurou-se sua filiação e nada se achou. Procurou-se a origem do seu título de Bacharel: igualmente nada. Tampouco sabe-se dos seus administrados, mas se especula que em uma cláusula secreta no acordo eles teriam sido passados a Martim Afonso como escravos.

175. Uma prece para os tradutores

São Jerônimo, tradutor da Bíblia (a versão dita "Vulgata"), por El Greco

Docteur excellent, lumière de la sainte Église, bienheureux Jerôme, je vais entreprendre une tâche pleine de difficultés, et dès à présent, je vous supplie de m’aider par vos prières, afin que je puisse traduire en français cet ouvrage avec l’esprit même dans lequel il a eté composé.

Doutor excelso, luz da santa Igreja, bem-aventurado Jerônimo, vou empreender uma tarefa cheia de dificuldade e, desde já, suplico-vos que me ajudeis por vossas preces, a fim de que eu possa traduzir essa obra para o português* com o mesmo espírito no qual ela foi escrita.

 Sob a invocação de São Jerônimo, de Valery Larbaud, pág. 53. Editora Mandarim, 2001. Tradução de Joana Angélica d’Avila Melo.

 * O português, pusemo-lo aqui por nossa conta.

142. As línguas e a percepção que temos delas

Há alguns dias, dei de cara com um livro de letras de música; acho que era de uma banda de rock americana. O volume, além das letras em inglês tinham sua versão na língua de Camões. Soavam todas completamente estúpidas.

Não credito a estupidez aos compositores ou aos ouvintes da banda. O problema é de cognição linguística. Já me explico.

Voltemos ali, rapidamente, ao primeiro parágrafo. Ali está a tão batida perífrase “língua de Camões”, o expoente máximo da poesia de língua portuguesa. Equivale a dizer “a língua de Dante” para o italiano ou “a língua de Góngora” para o castelhano. Antes de escrever “inglês”, pensei em usar “a língua de Milton”. Não me soou bem.

O que pretendo introduzir pode ser taxado de esteriótipo, mas corresponde a uma verdade parcial e maior do que aparenta ser.

O inglês, como sabemos, tem uma estrutura morfossintática relativamente simples (honi soit…), como podemos deduzir, por exemplo, da conjugação de verbos ou do processo de criação de verbos. Ou ainda, posso citar processos curiosos e simples de criação de adjetivos a partir de formas mistas com aspecto de particípio passado, por exemplo, “blackhaired”, para designar uma pessoa que tem os cabelos negros, ou “blue-eyed”, para alguém que tem olhos azuis.

Expressões assim são possíveis em línguas que são sintaticamente mais maleáveis. O que não é o caso do português. Herdamos um sistema relativamente pesado da tradição latina. Morfemas de modo, tempo e pessoa estão em cada forma conjugada. Isso nos dá uma morfologia muito mais fixa no sentido da criação e uso de termos. Pese ainda de, durante o longo processo de passagem do latim para o português, perdemos a noção de caso de manifestação morfêmica, substituído pela relação de caso através de um certo número de preposições.

Esses fatos dão a um texto em língua portuguesa (e românicas em geral) um certo ar de gravidade, frente a um texto em inglês (germânica), de estrutura mais leve pela concisão (apesar de também não ter mais casos, exceto o genitivo de posse).

As letras de rock traduzidas – infelizmente não vou me lembrar de nenhum exemplo factível – lidas em voz alta, soavam francamente ridículas, como se fossem os balbucios de Arnaldo Antunes, ou até coisa pior. Credito o ‘mau som’ das traduções a essa quebra de estrutura, impossível de transpor ao português.

131. Política de imagens

É por isso, meus caros, que trabalhamos com a deformação da imagem, a característica tácita da contemporaneidade ou da pós-modernidade, seja lá o que esses dois conceitos possam eventualmente significar. A maioria ignara marcha à menor mudança de cor. Mudemos uma cor e o planeta girará diferente. Mas somos mais pelas mudanças sutis, pois são elas que marcam o subconsciente; são indeléveis e não causam revoltas. Por isso que trabalhamos com o padrão cromático da publicidade – forma e cor; nunca se pensou que duas coisas tão triviais poderiam influenciar o ser humano; mas, justamente pelo bombardeio diário de publicidade e de imagens cambiantes, o trabalho é facílimo; o resultado vê-se rapidamente. É isso que fazemos: mexemos com imagens; com todas elas.

107. Malaparte e a sua eterna atualidade

Assim sendo, aqueles povos que não são livres parecem, aos olhos dos toscanos, povos estúpidos. Naturalmente os povos estúpidos não querem saber desses sinônimos, inteligência e liberdade, e aspiram ser escravos não por falta de inteligência, mas por força maior. O que é uma prova de sua estupidez, porque não há força que resista à acidez e à lima da inteligência: tanto é verdade que as tiranias não têm medo dos homens fortes, robustos, musculosos, e burros, mas dos homens inteligentes, mesmo que sejam fracos e de ombros estreitos.

MALAPARTE, Curzio. Maledetti Toscani (Malditos Toscanos, 1956), p. 15. Oscar Mondadori, 2001

103-bis. Eminescu em português

Faço um adendo à postagem anterior: cavando pela rede, deparei-me com o trabalho de Daris Basarab, disponível no Scribd, que tem traduções de Luceafărul (1883), Mortua est (1881), Mai am un singur dor (1883), Melancolie (1886), Glossă (1883), Oda (în metru antic) (1883), Peste vârfuri (1883), Criticilor mei (1883), Ce te legeni… (1883), La steaua (1886) e Şi dacă... (1886).

O Diário do Nordeste noticia o trabalho de Luciano Maia, tradutor e organizador do Mihai Eminescu por Luciano Maia: 25 poemas do amor romântico. Trabalho esse que chegou a render uma música de Martinho da Vila: Dentre centenas de mastros, do disco «Brasilatinidade».

103. Sonolentos passarinhos

Praticamente não há traduções ao português da obra do poeta romeno Mihai Eminescu. A única que conheço é a de Luceafărul («A Estrela da Manhã») que, no momento, não consigo encontrá-la novamente na rede. De posse de um disco de canções pátrias cantadas pelo Coro «Doina» do Exército Romeno, deparei-me como Somnoroase păsărele, última faixa do tal disco, totalmente a capella. O poema original está contido no livro Poesii, de 1884. A interpretação pode ser ouvida ali, no meu Tumblr e deixo aqui uma tradução que respeita métrica e esquema de rimas; talvez tradução seja uma palavra um pouco pretensiosa para o que se segue, então deixemos como adaptação ao português. Talvez as rimas com -inho assuste o leitor por sua aparente pobreza, mas permitimo-nos fazê-lo, uma vez que no poema original existem rimas que se apoiam em -le, que, nos dois casos em que aparecem, são as variantes do artigo definido posposto do romeno. Possivelmente equivalem a uma rima em -ar ou em -ão, as mais simples em português.

Como o meu domínio do romeno é limitado, usei também uma versão em inglês que me pareceu boa, de autos desconhecido e que está aqui também, logo após o original em romeno. Espero que a audição e o texto sejam do agrado.

Devo confessar ainda que o que mais me impeliu em traduzir (ou adaptar) o poema foi a sua versão cantada. Aliás, a acentuação procura permitir que a versão portuguesa seja igualmente cantável.

Sonolentos passarinhos


Sonolentos passarinhos
escondendo-se da noite,
estão calmos nos raminhos –
Boa noite!

Desce a primavera um véu
Quando o bosque quieto jaz:
flores dormem no vergel –
Dorme em paz!

Estão os cisnes nos seus ninhos,
beiram o lago tristonho
protegidos por anjinhos –
Doce sonho!

Vem a lua delicada
como um feitiço da noite
com sua luz abençoada –
Boa noite!

Somnoroase păsărele
(Mihai Eminescu)

Somnoroase păsărele
Pe la cuiburi se adună,
Se ascund în rămurele –
Noapte bună!

Doar isvoarele suspină,
Pe când codrul negru tace;
Dorm şi florile-n grădină –
Dormi în pace!

Trece lebăda pe ape
Între trestii să se culce –
Fie-ţi îngerii aproape,
Somnul dulce!

Peste-a nopţii feerie
Se ridică mândra lună,
Totu-i vis şi armonie –
Noapte bună!

Sleepy birds
(autor da tradução desconhecido)

All those sleepy birds
Now tired from flight
Hide among the leaves
Good-night!

Only the spring whispers
When the wood sleeps silently;
Even flowers in the gardens
Sleep peacefully!

Swans glide to their nest
Sheltering among the reeds
May angels guard your rest,
Sweet dreams!

Above a night of sorcery
Comes the moon’s graceful light,
All is peace and harmony
Good-night!

84. Questiúncula: traduções pré-existentes

Atualizado em 23/09.

É comum que nos deparemos em textos que citam outros. Várias vezes algum escritor quer dar veracidade àquilo que põe ao papel ou mesmo revestir de verossimilhança algum fato corrente e, para tal, se faz necessária a citação de alguma autoridade, ou seja, a inserção de uma auctoritas.

No caso específico, faço referência às citações do Alcorão, que aparecem no texto com o qual estou trabalhando atualmente e também como citação inicial no romance “Meu nome é vermelho”, do escritor turco Orhan Pamuk.

Antes de tudo, é digna de nota a questão da tradução em si dos romances de Pamuk publicados pela Companhia das Letras. Não se trata de traduções feitas por um tradutor de versado em turco e sim uma tradução mista das versões inglesa e francesa. Tudo bem, até se entende a falta de um tradutor apto em língua turca.

Porém, na página 11 da 2ª edição de “Meu nome é vermelho” há três citações do Alcorão. As citações estão dispostas da seguinte maneira:

Então, vós cometestes um assassinato e incriminais uns aos outros por ele.
Corão, “A vaca”, 72

Nada há em comum entre aquele que é cego e aquele que vê
Corão, “O criador integral” ou “Os sábios”, 19

A Alá o Oriente e o Ocidente.
Corão, “A vaca”, 115

Bem, inicialmente, pelo que pude observar, tais citações foram traduzidas de uma das traduções e, mesmo sem ver, posso arriscar que seja da tradução francesa, pelo costume da escola de tradução francesa mais antiga em ‘adaptar’ as coisas.

Em um caso como esse, creio que seria melhor que se recorresse a uma tradução já existente da obra. Afinal, não foi Pamuk que escreveu aquela referência, obviamente que foi tirada da tradução turca do Alcorão; portanto, o mais coerente é que se busque uma tradução já existente de uma citação. Podemos ver que a tradução portuguesa não equivale à versão do Alcorão em Francês,  dada à luz em 1990 pelo Professor Mouhammad Hamidullah:

Et quand vous aviez tué un homme et que chacun de vous cherchait à se disculper!
Le Coran, II, 72

L’aveugle et celui qui voit ne sont pas semblables.
Le Coran, XXXV, 19

A Allah seul appartiennent l’Est et l’Ouest.
Le Coran, II, 115

Vejamos os mesmos versículos na versão inglesa:

And remember the incident when you killed a man and started disputing as to who
killed him, […]
The Quran, II, 72

The blind and the seeing are not alike.
The Quran, XXXV, 19

To Allah belong the East and the West.
The Quran, II, 115

Uma vez que a versão portuguesa dos versículos presentes na edição brasileira de “Meu nome é vermelho” não parecem ser traduções nem da versão francesa e tampouco da versão inglesa do Alcorão, só pode ser a tradução de um dos dois decalques (francês ou inglês) feitos da versão turca dos versículos.

Acredito que sendo o Alcorão já inserido na tradição literária, assim como a Bíblia, deve-se utilizar uma versão, digamos assim, já “autorizada”, uma versão já traduzida anteriormente e usada tal como texto o original, ou seja, uma versão igualmente litúrgica.

Seria conveniente que os versículos usados por Pamuk fossem pescados em alguma versão do Alcorão em língua portuguesa, como a versão do Prof. Dr. Helmi Nasr:

Lembrai-vos de quando matastes um homem e disputastes sobre ele.
Alcorão, II, 72

E o cego e o vidente não se igualam.
Alcorão, XXXV, 19

E de Alá é o Levante e o Poente.
Alcorão, II, 115

Além o problema com a transposição dos versículos, há o problema da notação. Pelo que pode notar-se, tanto em francês como em português (nas notas de rodapé de ambas as edições), não se cita o nome da sura, como está na tradução do livro de Pamuk, mas sim o número da sura em algarismo romano. Assim como há uma notação padrão para citações bíblicas, essas sim, são acompanhadas por uma sigla padrão do nome do livro ou do próprio nome: Ex 19:4 ou Êxodo 19:4; Deut 32:39 ou Deuteronômio 32:39.

Assim também quando precisamos de uma citação bíblica que está em um texto a traduzir: que se recorra a uma das traduções existentes, a que melhor couber ao tradutor ou à natureza da obra. Se é o texto de um escritor católico, é melhor que se use a versão da Ave Maria ou se for algo menos ligado ao catolicismo, uma das versões de Almeida.

Somente para finalizar, a tradução brasileira do Alcorão pelo Prof. Dr. Nasr me parece excelente, exceto pela questão dos antropônimos e do teônimo. Há nomes que já tem tradição e tradução em português, como Maomé e Alá; não me parece vantagem mantê-los no original transliterado como Allah e Muhammad. Por isso na citação de II, 115 que fizemos,  trocamos Allah pelo já conhecido Alá.

Ainda incluímos, para fim de comparação, os três versículos do livro na tradução do Prof. Samil El-Hayek.

E de quando assassinastes um ser e disputastes a respeito disso; mas Deus revelou tudo quanto ocultáveis.
Alcorão, II, 72

Jamais se equipararão o cego e o vidente.
Alcorão, XXXV, 19

Tanto o levante como o poente pertencem a Deus […]
Alcorão, II, 115

Tradução de El-Hayek usa Deus em lugar de Allah, mas usa Mohammad para se referir ao Profeta.

82. A tradução vista por um neófito

Não que eu considere meus conhecimentos algo sobrenaturais, ao invés: são plausíveis e possíveis. Vai pouco de tempo em acumulá-los com leitura e treino. Afinal, saber uma língua estrangeira é sempre algo que se apresente de modo parcial e é construído aos poucos. Por isso não acredito muito nesses cursos de inglês que se proliferam como fungos pela cidade, tampouco o de espanhol.

Nesses últimos dias, propus-me, tanto à guisa de exercício quanto num possível resultado prático, a tradução de um livro em espanhol, um livro argentino.

Sempre há os engraçadinhos para dizer que o espanhol é uma língua fácil, muito similar ao português. De fato, é muito similar ao português, são línguas irmãs. Mas quem disse que irmãos são iguais ou pensam da mesma maneira?

Traduzir um texto em castelhano traz sérios problemas. O mais fácil de ser percebido são os falsos cognatos. Há quilos deles e são eles que geram o famoso portunhol. Em segundo lugar e ainda pior são as regências nominas e verbais que diferem e grandemente. Você rapidamente percebe que há algo errado com uma tradução do espanhol quando há verbos em regências insólitas ou inexistentes em português.

O mito da facilidade do espanhol tem a ver com a similaridade gráfica e de estrutura morfológica, o que gera os famosos espertalhões. Uma coisa é compreender ou entender para si; outra coisa totalmente oposta é verter na sua língua para que os outros possam compreender, ou seja, que aquele texto traduzido fique legível a ponto de não ser óbivo que se trata de uma tradução; eis a meta de todo tradutor. E com o espanhol é ainda mais complicado em atingir essa meta devido às similaridades já apontadas e a tendência da vista, por conta disso, fazer decalques. Tiro um exemplo do texto que estou a traduzir:

1. […] y él le tomó simpatía […]

A tradução mais óbvia, para um portunholeiro seria:

1a. *[…] e ele lhe tomou simpatia […]

Mas que em português – não vou nem entrar nas regências nominais e verbais respectivas – não faz muito sentido. A estrutura em português pede aí não um verbo com a regência apresentada em espanhol, mas algo do tipo:

1b. […] e tomado de simpatia para com ele […]

O mais próximo seria tomar em sua regência bitransitiva e pronominal:

1c. […] e tomou-se de simpatia por ele […]

Mas tal construção ainda é condenável por ser considerada galicismo (Houaiss), sobrando como opção 1b. para maior proximidade com o sentido original do espanhol que é o de ‘alguém despertar simpatia por outrem’.

Esse é só um exemplo simples para demostrar a complexidade que pode esconder-se atrás de uma língua aparentemente próxima à nossa. Outra coisa importante que muitos deixam de lado: para uma boa tradução, não basta o conhecimento razoável de uma língua estrangeira. Além dos recursos necessários, como acesso a bons dicionários da língua-fonte, bilíngues e monolíngues, gramáticas e todo o mais, é imprescindível um conhecimento ainda maior da sua própria língua, não tanto em termos formais (o que é interessante, claro), mas na vivência da própria língua, de conseguir deduzir as formas mais óbvias em português e isso só se consegue com tempo e com muita leitura. O tradutor é, primeiramente, um profundo conhecedor da sua própria língua.

Além do mais, há textos e textos e todos requerem um maior ou menor grau de pesquisa. De um manual de máquina fotográfica a um romance. Os manuais de natureza vária apresentam uma certa facilidade no sentido de que fórmulas e termos técnicos repetem-se com uma certa frequência, o que facilita bastante. Há alguns meses, traduzi uma série de manuais de alfaiataria italianos. O primeiro deu um certo trabalho; o segundo, com as anotações do primeiro, já não tanto, do terceiro ao sexto, posso dizer que a coisa fluiu muito a contento.
E claro fica que o tradutor só se forma quando traduz. Exercício, tentativa e erro, leituras, frequentes revisões. Acho que caminho numa direção que pode oferecer muito se for bem trilhado o caminho.

Mustafá Kemal Atatürk diz…

Atatürk

A mãe e a irmã de Kemal viviam em Istambul desde que se viram obrigadas a emigrar de Tessalônica. Ele, quando regressou de Alepo, não foi viver com elas; espírito muito independente, preferia ter sua liberdade intacta. Desde que saiu da infância sempre escolheu viver só; nunca pôde, nem com sua família, nem com seus amigos, compartilhar o mesmo teto de bom grado; foi um costume que nunca abandonou. “Tenho outra particulatidade – também confessou -: é a de não poder suportar minha mãe, irmã ou parentes próximos de que me aconselhem isto o aquilo, de acordo com sua mentalidade ou ponto de vista. Os que vivem em família sabem que é impossível abstrair-se às observações, desinteressadas, desde o começo, e sinceras, que vêm de todos os lados. Encontra-se então diante de um dilema: obedecer, ou não fazer caso algum de todas essas advertência ou conselhos. No meu entender, ambas as soluções são ruins. Obedecer? Aceitar as observações de minha mãe, mais velha que eu em vinte ou vinte e cinco anos, não é o mesmo que voltar ao passado? Desobedecer equivale a ferir o coração de uma mãe, que personifica, a meus olhos, a virtude, a siceridade e todas as qualidades de uma grande dama. Também não seria justo.”

BLANCO VILLALTA, Kemal Ataturk, Ediciones Agon: Buenos Aires, 1993. pp. 120-121.