353. A solução virá de trem

Parece que finalmente o Governo do Estado acordou para a realidade caótica das rodovias, principalmente no entorno da Capital. É verdade que o Rodoanel tirou bastante tráfego de dentro da cidade de São Paulo, mas algumas ligações continuam caóticas, principalmente para Campinas, São José dos Campos, Sorocaba e Santos, cidades de grande importância econômica e que geram grande fluxo de deslocamento para e da Capital.

O Governo do Estado, pressionado por algumas mancomunidades de municípios e sindicatos ferroviários, lançou edital para a reativação dos trens regionais de passageiros entre a Capital e os destinos-chave acima mencionados. Além disso, Campinas e municípios circunvizinhos estão cobrando a extensão da linha 7 da CPTM, em paralelo com a regional — atualmente, a linha urbana chega até Jundiaí; a 38 km de Campinas —, com tarifas integradas às de São Paulo, o que realmente daria vida à megalópole São Paulo-Campinas.

A linha regional de Campinas já tem uma previsão de extensão até Americana. Começa a inclinar-se para a nossa região: Rio Claro, São Carlos, Araraquara. Um trem mais rápido que o ônibus e sem ter de disputar espaço com os carros seria muito útil para Araraquara; a velocidade estimada para as novas linhas regionais é de 160 km/h. Com as paradas, ganharíamos a Capital em duas horas, contra as quatro e meia de ônibus.

Os investimentos podem chegar à casa dos R$ 20 bilhões, mas trata-se de um projeto de mobilidade a longo prazo, um planejamento de demanda para daqui 20 anos, coisa difícil neste país movido a populismo. Que venham os trens, não pelo saudosismo, mas pela eficiência.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 22/1/2013.

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335. O velho novo mundo

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Parece que a América foi descoberta outra vez. Os “colombos” da educação estão fazendo estardalhaço na televisão e em outdoors: reinventaram o ensino médio integrado ao técnico.

Antes de 1998, era assim que o ensino técnico estadual funcionava. Prestava-se o vestibulinho e, sendo aprovado, cursava-se o ensino médio integrado a disciplinas de uma área específica. A grande maioria dos cursos era de quatro anos, um a mais que o ensino médio convencional. A proporção de disciplinas técnicas na grade curricular ia aumentando na passagem dos anos. Era uma opção interessante para quem não tinha tempo ou paciência para fazer um curso superior. E outra: bacharéis ficam avessos a certas atividades excessivamente manuais, mesmo que sejam vinculadas ao seu métier.

Em 1998, o Governo do Estado, amparado na famigerada Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, Lei federal nº 9.394/96), reorganizou o sistema de ensino técnico do Estado, desvinculando o ensino médio em si, que passou a ser ministrado como no resto da rede, do ensino técnico, cujo acesso ficou vinculado a um segundo exame de admissão. A desculpa na época era que muitos faziam o ensino técnico — conhecido por sua boa qualidade — para disputar o vestibular.

A solução deu tão certo, que voltaram ao sistema anterior. Cursar o médio regular e o técnico implica em o aluno ter dupla jornada, o que não raramente atrapalha quem trabalha. Outra: a conclusão das modalidades técnicas — a maioria delas — requer um estágio curricular. Como fazê-lo com dupla jornada escolar?

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Publicado na Tribuna Impressa  de Araraquara em 4/12/2012.

334. Alfredo Ellis Júnior, historiador

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Ponho aqui à disposição um pequeno texto sobre o historiador paulista Alfredo Ellis Júnior, produzido para a Tribuna Impressa de Araraquara, edição de 27/11/2012.

Ellis Jr. deixou-nos um grande volume de obras literárias e estudos historiográficos que hoje, por motivos ideológicos que dominam a vida acadêmica brasileira, jazem no esquecimento. Mas, aos grandes vultos, resta ainda a esperança que as gerações vindouras os resgatem e os restituam ao lugar de onde jamais deveriam ter saído.

Boa leitura.

333. A antimedalha de prata

Os gringos detectaram agora; nós já sabíamos há muito tempo que nosso sistema educacional é péssimo. Trata-se apenas de escancarar a obviedade.

O Brasil ficou em 39º em ranking educacional elaborado pela Pearson — uma learning company, como se autointitula —, dentro do projeto The Learning Curve. Trigésimo nono lugar não do mundo todo, mas de 40 países.

Os índices surgiram de um cruzamento de dados de vários organismos internacionais envolvidos com educação e comprovam o fracasso da educação brasileira. Embora tentemos disfarçar com Saresp, Prova Brasil e outras maquiagens vagabundas, a verdade é que estudantes oriundos de nossas escolas, com grandes exceções, são incapazes de, por exemplo, fazer a prova do Pisa — Programme for International Student Assessment.

Nas escolas públicas, é a velha choradeira de salários defasados, instalações ruins e falta de interesse do Poder Público, o que tem sua parcela de verdade. O ensino privado é bom de make-up: apostilas, tablets e outras parafernálias, mas que, sem métodos adequados, não acrescentam nada, como já disse o colunista Francisco Belda há algum tempo.

Em suma, tal situação é fruto da excessiva pedagogização do ensino em detrimento do ensino real; da transformação da escola em “creche para grandes”, da retirada da autoridade do professor e da relativização do valor do conhecimento, que muitos apregoam, mas poucos valorizam efetivamente.

Diretores, coordenadores, secretários municipais e estaduais da Educação, pedagogos, ministro. Tirem seus paletós das cadeiras. Vão para casa; podem fechar as escolas. Como estão, do jeito que vocês as deixaram, mais atrapalham que ajudam. Talvez a Indonésia precise de alguma consultoria de vocês.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 30/11/2012.

331. Ao senhor Governador

“Não vejo nada de errado…”

Não sem certo assombro ouvi a declaração do governador Geraldo Alckmin, na última quinta-feira (15), sobre a onda de violência que assola o Estado desde setembro. “[…] senão se cria uma situação muito injusta, quase que uma campanha contra São Paulo. E não é possível fazer isso e ainda criar uma situação de pânico na população”.

Não se trata de criar uma campanha, Sr. Governador. É situação dada. E outra: o pânico não precisa de agente, ele inclusive vai melhor no boca a boca, não precisa de jornais e televisão, ainda mais num país em que jornal é coisa para poucos e televisão é vista somente como entretenimento. O “Jornal Nacional” é somente música de fundo para o jantar da família brasileira.

Com essas palavras, Alckmin externaliza uma concepção errônea — ou não? — e típica de regimes mais fechados: que a culpa das calamidades do povo necessariamente passa pela imprensa. Talvez PSDB e PT partilhem da mesma visão sobre o funesto “controle social” da mídia. Afinal, suas vertentes políticas — a fábrica e a academia — costumam andar de mãos dadas nos partidos políticos de esquerda europeus. Somente aqui que se criaram dois monstros, cada um com meia cabeça.

E enquanto o governador vem com conversa evasiva, o Estado paralelo, operado de dentro dos presídios, continua espalhando o pânico de forma efetiva, com balas e mortos. A sociedade civil está esperando uma resposta adequada ao problema, Governador. Pulso, medidas efetivas. Que os presídios deixem de ser a pós-graduação da criminalidade. Apenas isso.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 20/11/2012.

326. O terço descontente

Quando termina uma eleição e contam-se os votos, a ansiedade fica pela torcida na “corrida dos cavalinhos” — lembra-se desse quadro do programa infantil “Bozo”, leitor? A conta final exclui as abstenções, sejam elas por anulação ou por justificação do voto.

No caso da disputa pela Prefeitura paulistana, os números são assustadores. Veicula-se apenas o porcentual considerado “válido” por critérios estabelecidos em lei. Se incluirmos o número total de eleitores do colégio, as porcentagens são: Fernando Haddad (PT), 3.387.720, ou 39,3%; José Serra (PSDB), 2.708.768, ou 31,4%, e o conjunto de nulos, brancos e abstenções atingiu 2.522.682, ou seja, 29,3%.

A esperteza dos legisladores está em considerar a maioria absoluta dos “votos válidos”, esvaziando qualquer tipo de protesto com o voto nulo ou com a abstenção. Em qualquer outro país sério, tais números causariam uma crise política. Haddad elegeu-se — não obstante a condenação por formação de quadrilha da antiga cúpula do seu partido — com pouco mais de 39% dos votos. Os votos dos descontentes chegaram a quase um terço de todos os eleitores aptos a votar.

O protesto de anular o voto não tem valor legal — o que é cômodo aos políticos, pois a vontade dos descontentes é simplesmente ignorada —, mas deveria servir para que criassem o mínimo de vergonha na cara e revissem seus conceitos. O eleitorado está cansado. A tendência desses números — mesmo com o estardalhaço do TSE pelo “voto útil” — é aumentar, o que vai tirar ainda mais a legitimidade do processo democrático brasileiro.

É hora da reforma política. Já passou da hora.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 30/12/2012.

296. Espírito de 1932

Ontem se comemorou o 80º aniversário da Revolução Constitucionalista de 1932. A data passou a ser oficialmente festejada quando, em 1997, foi declarada feriado por lei do governo Mário Covas.

A Revolução de 1932 foi por uma constituição para o Brasil. Getúlio Vargas, perdedor das eleições presidenciais de 1930, e seu partido, a Aliança Liberal, resolveram tomar o poder pela força, não obstante a retumbante derrota eleitoral para o paulista Júlio Prestes, o único presidente eleito do Brasil impedido de assumir.

Vargas triunfou militarmente e instalou-se no poder. Quando sua ridícula quartelada revelou-se apenas sede de poder e centralismo, o Estado de São Paulo, cansado de interventores federais e da progressiva perda de autonomia, resolveu por bem mover-se militarmente por uma nova era constitucional. Saímos perdedores, mas conseguimos a Constituição de 1934 que, ai!, não resistiria ao Estado Novo do Mussolini tupiniquim.

Embora certos historiadores manchados pela retórica oca da historiografia marxista insistam em tentar desmoralizar a Revolução e suas consequências, foi crucial o papel doa Revolução Constitucionalista para a história posterior do País.

Vendo a apatia geral das pessoas, a nossa passividade em determinados assuntos, as preocupações inúteis com consumo, pergunto-me o que houve com aquele povo valente que se levantou em armas para pedir uma constituição. Mesmo a nossa atual Constituição, o que vale? Para que serve além de ser peso de papel em bem iluminados escritórios de advocacia e o que garante além de fantasias? Quem sairia hoje para defender algo além do seu interesse próprio imediato?

O 80º aniversário da Revolução Constitucionalista parece ser o 80º aniversário de uma derrota moral da qual nunca mais nos recuperamos.

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Artigo publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 10/7/2012.

287. A aurora do lulomalufismo

A bênção do capo (Adriana Spaca/Brasil Photo Press/Folhapress)

Leio as colunas de Arnaldo Jabor, mas não sou exatamente aficionado por ele. Porém, aproprio-me a ideia do título de um de seus livros: pornopolítica. O radical grego porno- tem relação com pórne, prostituta na língua de Homero. Logo, basta deduzir o que pode significar pornopolítica.

A aliança entre PP e PT em São Paulo em torno da candidatura de Fernando Haddad à Prefeitura teria tudo para apenas levantar alguns ‘ohs’ de assombro em meia-dúzia de pessoas. Mas a exigência de Maluf para que o próprio Lula viesse ratificar o apoio, a associação dos nomes… é algo que causa, no mínimo, estupefação. Uma Realpolitik despudorada.

Homens com um passado todo de ofensas e sarilhos, agora se abraçam num repulsivo gesto de união política. É nesses momentos cruciais que se percebe que não há projeto de governo, ética, princípios partidários. Nada. O único projeto que existe é o projeto de poder por parte de todos e, principalmente, pela permanência indefinida do PT no poder. Será a aurora sebenta do lulomalufismo? Pode não parecer, mas as duas vertentes têm muito em comum; o que as separa são aparências.

Apesar de tudo, creio que tal ‘união maléfica’ traga ojeriza tanto a parte da militância petista quanto aos ditos malufistas históricos. O restante chafurda na alegria suja, joga fora um passado em nome das conveniências do momento.

Até mesmo a filiação de Delfim Netto ao PMDB, em 2005, fica embaçada quando comparada a essa aliança; se alguém a previsse há 20 anos, poderia ouvir que, no mesmo instante que Lula e Maluf estreitassem as mãos, um buraco negro tragaria todo o Universo. Parece que as coisas mudam; e não necessariamente para melhor.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 19/6/2012.

278. O Marquês de Pombal e o português

O Marquês de Pombal em sua glória. Detalhe de pintura de Louis-Michel van Loo e Claude Joseph Vernet (1766)

O texto abaixo foi desenvolvido como atividade acadêmica, mas que foi erroneamente interpretada. Logo, não serviu como atividade. Há algumas considerações interessantes que gostaria de dividir com os meus leitores. Afinal, o texto ficaria apodrecendo no fundo de um pen drive.

Peço desculpas pela empolação acadêmica. Às vezes, ela é necessária para um igualmente empolado — e empoleirado — interlocutor.

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A imposição do português como idioma único no período pombalino tem ainda relação com a ideologia de formação dos estados nacionais (sécs. XV-XVI). Um povo, um rei, uma língua. Embora só tenha ocorrido tardiamente no Brasil (por falta de gente ou por displicência?), na Europa, a imposição de um dialeto sobre os demais de um território nacional era a regra. Assim ocorreu com o francês (o dialeto da Ilha de França, a região de Paris), que foi tornado obrigatório nas cortes de justiça por decreto (1539). O mesmo ocorreu com o castelhano que se sobrepôs ao galego, ao catalão e até mesmo adotou um nome nacional, “espanhol”.

A questão do Marquês de Pombal com o português dividia-se em: 1) uma administração mais eficiente (por isso a “unidade” linguística de Portugal e domínios foi buscada); 2) a “condenação” à língua geral tem relação direta com os jesuítas, expulsos em 1760, que a usavam para catequese dos índios e que atingiu mesmo foros de língua literária, tendo sido compilada e normalizada pelos religiosos.

A língua geral de base tupi, ao que parece, deixou-nos (aos falantes do Interior paulista, sul de Minas, norte do Paraná, Goiás e Mato Grosso do Sul) um r retroflexo. Sílvia Figueiredo Brandão, em seu “Nas trilhas do -r retroflexo” (Signum, Estud. Ling., Londrina, n. 10/2, p.265-283, dez. 2007), sobre o fonema que não está presente em nenhuma outra área do português, que há um esforço dos filólogos em determinar o ponto de irradiação (São Paulo) e o meio de difusão (entradas e bandeiras) do r retroflexo. Se é algo que tem relação com os bandeirantes, o fonema tem base na língua geral, pois os bandeirantes, muitos deles falavam um português “atravessado”, sendo sua língua materna a língua geral “criada” pelos jesuítas.

O mote principal das reformas pombalinas não era a língua em si; o predomínio esperado do português era um instrumento para o objetivo maior: a unidade política e cultural do império português. Tal como se lê no famoso gramático castelhano Antonio de Nebrija, “a língua sempre foi companheira do Império”[1]. Ideia também reforçada pelos gramáticos lusos Fernão de Oliveira (1540), João de Barros (1540) e Duarte Nunes do Lião (1606)[2].

A questão da ‘imposição’ da língua portuguesa no Estado do Pará e no Estado do Maranhão[3] pela Lei do Diretório de 1757 passa primeiramente pela questão da expulsão da Companhia de Jesus de Portugal e seu império colonial. De um ponto de vista “oficial”, os jesuítas, além de não respeitarem as ordens reais prévias — deduz-se pelo parágrafo 6º da Lei de 1757 —, tampouco obedeciam à diretriz aprovada pelo concílio de Trento (1562), “[…] o qual impunha o uso do latim nas atividades litúrgicas católicas” (GOULARTE, 2007).

A missão primeva dos jesuítas era a catequese e a língua geral amazônica — por eles mesmos compilada a partir do tupi. Era mais fácil proceder à catequização com essa língua franca, o que ajudou enormemente em sua difusão mesmo entre os descendentes dos colonos portugueses.

Embora os textos consultados não façam diferenciação, a Lei do Diretório faz referências às atuais regiões Norte e Nordeste do País, cuja variante da língua geral era diferente. No Norte, a língua geral amazônica — ainda hoje falada em São Gabriel da Cachoeira/AM e uma das línguas oficiais do município — e a língua geral paulista, codialetos entre si. Além do mais “não há documentos que comprovem a extensão do Diretório a toda a Colônia, o que leva a crer que isso não tenha ocorrido” (FÀVERO, 2005).

A intenção do Marquês de Pombal era o controle temporal de vastas áreas da colônia que, por conta da administração do ensino, estavam de facto na mão da Companhia de Jesus. A substituição do ensino ministrado pela Companhia por um ensino estatal era uma arma de efetivo domínio e controle. O próprio texto da Lei deixa transparecer uma ideia de polidez e assimilação linguística:

Sempre foi máxima inalteravelmente praticada em todas as Nações, que conquistaram novos Domínios, introduzir logo nos povos conquistados o seu próprio idioma, por ser indisputável, que este é um dos meios mais eficazes para desterrar dos Povos rústicos a barbaridade dos seus antigos costumes; e ter mostrado a experiência, que ao mesmo passo, que se introduz neles o uso da Língua do Príncipe, que os conquistou, se lhes radica também o afeto, a veneração, e a obediência ao mesmo Príncipe. (PORTUGAL, 1757; art. 6º), grifos nossos.

A língua do Príncipe. Eis o “português-padrão” de então. Se bem que apoiado nos gramáticos já citados, mormente em João de Barros. O texto acusa ainda que, em vez de se proceder a introdução do idioma

[…] se praticou tanto pelo contrário, que só cuidaram os primeiros Conquistadores estabelecer nela o uso da Língua, que chamaram geral; invenção verdadeiramente abominável, e diabólica, para que privados os Índios de todos aqueles meios, que os podiam civilizar, permanecessem na rústica, e bárbara sujeição, em que até agora se conservavam. (PORTUGAL, 1757, art. 6º)

Os adjetivos que qualificam a língua geral não deixam dúvida do lugar que lhe caberá na nova organização estatal almejada pelo Marquês de Pombal. Valendo-se ainda de preceitos religiosos (antijesuítas, mas de fundo cristão), qualifica negativamente a língua geral.

A língua tem um papel primordial no novo Estado pombalino, por isso a preocupação de difundi-la, impô-la, “dar-lhe esplendor” (afinal, é a língua do Príncipe).

REFERÊNCIAS

FÁVERO, Leonor Lopes. Século XVIII – A língua portuguesa no Brasil e o discurso do poder. In: GONÇALVES, M. et al. Gramática e humanismo, vol. 1. Universidade Católica Portuguesa: Braga, 2005.

GOULARTE, Raquel da Silva. O ‘ensino’ do português para os índios do Brasil: um percurso de intenções. Anais. 16º Congresso de leitura do Brasil: Campinas, 2007. Disponível em: <http://alb.com.br/arquivo-morto/edicoes_anteriores/anais16/sem04pdf/sm04ss03_04.pdf>, acessado em 8.mai.2012

PORTUGAL. Lei do Diretório (1755, 1757). 1757. Disponível em <http://www.nacaomestica.org/diretorio_dos_indios.htm>, acessado em 8.mai.2012.

TROUCHE, Lygia Maria Gonçalves. O Marquês de Pombal e a Implantação da Língua Portuguesa no Brasil – Reflexões sobre a proposta do Diretório de 1757. Cadernos do CNLF, Série IV, no. 12 -Semiótica, Discurso, Leitura, História da Língua Portuguesa e Neurolinguística Aplicada – IV Congresso nacional de Linguística e Filologia, 2000.


[1] Apud FÁVERO, 2005, p. 317-330.

[2] Idem, ibidem.

[3] Divisões coloniais muito mais amplas que as atuais unidades homônimas; o próprio termo ‘estado’ deve ser lido não com o significado que a ele damos hoje.

251. O burrinho sarnento

Obviedade. Se a burocracia se materializasse, seria um burro. Um burro sarnento. Nada contra os burros e asininos em geral, mas, pelas intrincadas veredas da língua, foram eleitos pela tradição popular como símbolo da vontade obstinada, da vontade inamovível do empacar. A sarna apenas enriquece a alegoria: é o símbolo da pestilência, da contaminação, da transmissibilidade do que é ruim.

Nas últimas semanas, vimos o burrinho sarnento trotar pelas plagas araraquarenses: a intransigência da Cohab, que, cegada pela burocracia, ameaçou de despejo um catador e sua família praticamente às vésperas da quitação do imóvel; o outro caso é do idoso de Américo Brasiliense que teve o fornecimento de energia elétrica cortado pela CPFL Paulista porque o titular da ligação — que não morava mais na casa — pediu que seu nome fosse retirado da fatura de consumo. O que apenas é entendido como ‘desligamento’ pela concessionária, simples assim. Sabe-se que a CPFL foi privatizada em 1997, mas parece que ela ainda contém vícios característicos das economias mistas e autarquias. Vícios públicos em ares privados.

A burocracia imobiliza a vida civil e a economia. Licitações que demoram uma eternidade frente à premência de problemas, como bem mostrou matéria da edição de ontem desta Tribuna sobre a vicinal que liga nossa cítrica cidade à vizinha Américo Brasiliense.

Mesmo doente, o burro marcha. Vitima. Escoiceia na escuridão justos e pecadores. Leva nos seus alforjes o papelório incompreensível de leis, decretos e regulamentos. Pasta nossa paciência.

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Artigo publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 24/3/2012.

245. A cultura do trabalho

Saída de fábrica no Brás, São Paulo, anos 1950. Foto: Paulo Peter Scheier

Da ideia de trabalho de sol a sol dos nossos antepassados, pouco ficou. Um exagero deles, certamente. Porém, o hedonismo que caracteriza as novas gerações é surpreendente. Não hedonismo no sentido próprio da vadiagem, como se dizia antigamente; afinal, o trabalho é necessário para sobrevivência.

O conceito de trabalho que construiu nosso Estado, seja pelos primeiros povoadores — fora da órbita e das benesses do poder colonial — seja pelos imigrantes assolados pela miséria em suas pátrias de origem e tangidos na alma pela vontade de “fazer a América”, está em descrédito, absolutamente desvalorizado.

Novos valores disseminados pela sociedade, como a recompensa sem esforço, o dolce far niente e o consumismo têm deixado marcas profundas na juventude que renega os estudos, cresce com a ideia de “fazer uma carreira” apenas pelas vantagens financeiras — por isso as marés de profissionais de determinadas áreas, o “curso da moda”.

A pressa — outro mal moderno — em obter bens leva à frustração para com o trabalho — baseado em conquistas graduais, em poupança —, ao descontentamento, à absoluta falta de responsabilidade que se observa em alguns setores. Há quem veja nesse mecanismo uma “compensação histórica” por opressões atávicas, mas se esquecem de que não basta buscar justiça social se não há responsabilidade individual, se o valor do social do trabalho não for reafirmado.

Não será dessa maneira que nós — portadores de “PIB inglês”, mas de mentalidade rasteira — chegaremos ao clube das nações desenvolvidas. No máximo, entraremos pela porta dos fundos para lavar os pratos do banquete alheio.

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Texto publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 15/3/2012.

222. Álbum de Araraquara

A cidade de Araraquara tem sorte do ponto de vista historiográfico. O “Álbum de Araraquara”, editado em 1915, traz informações detalhadas da política, do comércio e da indústria da cidade que estava em via de comemorar seu primeiro centenário. Além da recolha de curiosidades históricas, é ricamente ilustrado e tem como texto inicial um elogiosa carta de Vicente de Carvalho, o laureado poeta santista.

Está em minhas mãos uma edição fac-similar dos anos 1960 (ao que parece) e que pretendo digitalizá-la e deixá-la disponível para consulta. Abaixo, as primeiras provas de digitalização.

Capa rígida da edição dos anos 1960 que mostra, entre motivos florais, o Paço Municipal (Prefeitura e Câmara)

Folha de rosto

220. A Estrela Morta

Por Rodrigo Brandão

“[O PT] Continua fiel a seus compromissos originários.” Eu, de verdade, não sabia que o Mensalão — cuja prescrição das penas é iminente, sob a inércia do STF, de modo que as sentenças não tenham efeito — fazia parte dos conceitos primitivos do PT. A bandeira da incorruptibilidade caiu.

“Para tanto, constituiu uma estrutura interna democrática, apoiada em decisões coletivas, sem mandonismo nem caciques, pautada pela vontade majoritária das bases.” Após insistência de Lula e Dilma, Marta Suplicy abriu mão da candidatura à prefeitura paulistana e caminho para Fernando Haddad, ex-ministro da Educação. Agora, Marta está com medo de “acordar de mãos dadas com Kassab”. Relaxa e goza. Cadê as prévias? Não enxergo debate. Apenas caciques. Na ânsia estratégica de assumir o Executivo do principal município do Brasil, caiu a bandeira do modelo democrático interno. E ergueu-se a das alianças escusas. Ou José Sarney, por exemplo, é um aliado que inspira credibilidade e, mais, dignidade?

Em 2001, a greve da PM na Bahia, governada à época pelo PFL-DEM, foi defendida pelo PT. Hoje, é reprimida. Caiu a bandeira da coerência entre discurso e prática. Impera o cinismo do silêncio.

O PT chega ao seu trigésimo segundo aniversário deformado em relação ao belíssimo projeto original, de ideais ascendentes e humanitários. Assopra a apagada vela da estrela morta e bate palma para Maquiavel.

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Texto publicado na Tribuna Impressa de Araraquara/SP de 12/2/2012. Disponível também aqui.

217. À espera de um ‘mea culpa’

Banida oficialmente.

O banimento das sacolinhas plásticas teve seu marco inicial prático ontem (25/1): mercados da cidade deixaram de fornecê-las a seus consumidores. Elas são um problema ambiental; demoram cem anos para decompor-se. Alegra-me que nos deixarão.

Por outro lado, o que é insuportável é o oportunismo de certos setores comerciais e industriais. Passou-se toda a culpa para o consumidor, como se mais ninguém tivesse nada a ver com o assunto. Em nome de uma bela causa, o meio ambiente, faz-se “caridade com chapéu alheio”: também o custo foi todo transferido ao consumidor. Assim lhes é fácil e indolor.

O esquema de substituição proposto é, no mínimo, espúrio. Os supermercados fornecem ecobags (a um preço alto) e sacolinhas biodegradáveis (R$ 0,19 cada) e fica por isso mesmo. Como apurou reportagem desta Tribuna de 24/1, o uso doméstico das sacolinhas para, por exemplo, acomodação de lixo para coleta, terá de ser provido por sacos plásticos comprados. Entre sacolinhas e sacos de lixo, uma família de quatro pessoas pode ter um acréscimo de até R$ 50 no seu orçamento mensal. O consumo de plástico será o mesmo; apenas estará devidamente subsidiado.

O irritante é que indústria e comércio convenientemente se esqueceram que a introdução de tão “nefasta” embalagem deve-se a eles mesmos. Eles lançaram a novidade e nos acostumaram a ela. São as maravilhosas soluções que, com o passar do tempo, se mostram não tão boas assim, como a talidomida para as grávidas e pastilhas de cocaína para dor de dentes.

Creio que merecemos um mea culpa da indústria e do comércio. No mínimo.

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Artigo publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em  26/1/2012. Aqui.

205. Naquele tempo

Cem anos, para nós da era telemática, pode parecer muito tempo. Mas em termos de Humanidade, é pouco. Lendo relatos de quem viveu o final do século 19 e começo do 20, nota-se o abismo que se abriu entre o presente e o passado não tão remoto.

Pensa-se muito em técnicas, indústrias e procedimentos — a palavra tecnologia dá-me certa comichão — mas as mudanças são muito além disso, embora essa seja sua faceta mais aparente. Há mudanças mais profundas: tanto na forma de ver o mundo quanto nos costumes.

Uma boa fonte de comparação desse ontem com o hoje é o livro “São Paulo Naquele Tempo (1895-1915)”, do Prof. Jorge Americano. São basicamente memórias, retalhos, gritos dos pregoeiros, cheiros. Ao mesmo tempo em que é profundamente intimista, suas memórias misturam-se ao cotidiano da metrópole nascente, fazendo parte dela: duas realidades diferentes com pontos de contato. A cidade, de mero cenário, rouba o protagonismo das memórias.

É o tipo de livro que adquire valor de duas maneiras: ou quando é escrito na velhice do autor, ou seja, com distância temporal do tempo narrado ou quando envelhece e ultrapassa o autor, deixando-o na efemeridade da vida. O livro de Americano é contemplado em ambas a características. O professor e reitor da USP escreveu-o na sua aposentadoria, nos anos 50.

Se a cidade — e os costumes — já haviam mudado tanto do começo do século até seus meados, que dirá agora, tempo em que os fatos narrados já completam mais de cem anos. Acabam mesmo por ocorrer alguns problemas na localização de determinados edifícios marcantes, como demonstra o trecho abaixo, extraído do capítulo “Viaduto do Chá, Rua Barão de Itapetininga e Praça da República”:

Quem saísse do centro da cidade pelo Viaduto do Chá deixava à direita a Chácara Rodovalho, onde está o Teatro Municipal, e à esquerda um grupo de casinhas pertencentes à Santa Casa de Misericórdia, onde hoje está a Casa Anglo-Brasileira.

Quem souber o que foi a Casa Anglo-Brasileira… Provavelmente algo que era na mesma calçada da Sede da Light (hoje Shopping Light), em direção à Praça da República.

Quanto aos costumes, nota-se a diferença brutal nas questões do flerte: sempre à distância e em lugares certos, principalmente à saída da missa; os modos mais adocicados. Em suma, o livro do Prof. Jorge acabou por tornar-se referência — a meu ver — de quem quiser devassar a Paulópole em sua Segunda Cidade — se considerarmos que houve três no período de 1860 a 1960, como retrata bem um outro livro cuja referência agora me foge.

Editado pela primeira vez em 1957, “São Paulo Naquele Tempo (1895-1915)” teve reedição em 2004 pelo consórcio editorial Carbono 14/Narrativa-Um/Carrenho Editorial. Ainda do Prof. Jorge, existem as obras “São Paulo Nesse Tempo (1915-1935)” e “São Paulo Neste Tempo (1935-1962)”.