364. O ‘pibinho’ e suas obviedades

Statism Gun

Gostaria de começar este artigo assim: “Otimistas são uma verdadeira praga”. Mas não posso. A ideia era criticar aqueles que tratam a economia brasileira como algo blindado, inatingível. A maior prova que sustêm é que “a crise europeia não aportou na Botocúndia”.

O lastro atual da economia brasileira é o consumo. Prova da sua importância na produção da riqueza nacional são as reduções de impostos, pensadas para manter os níveis de produção elevados. Parece que a estratégia, embora tenha aquecido as vendas, não foi suficiente para segurar o crescimento econômico: o PIB avançou pífio 0,9%, o menor entre os emergentes. Isso se deve ao fato de a economia brasileira basear-se em consumo e commodities. Nada que possa gerar crescimento sólido.

Os pseudo-otimistas louvavam a distância da crise. Pseudo-otimistas porque não os move a coerência da análise, mas a tara estatista de que o Governo sabe — se é que um dia soube — tratar da questão. Governos primam pela incompetência na área econômica.

Geralmente manipulados, os números são o sintoma mais superficial de doenças perigosas. Há apenas investimentos industriais localizados; os destinados à infraestrutura, feitos pelo poder público, estão à míngua — basta ver as obras da transposição do São Francisco, a Transamazônica da era PT.

O “pibinho” é apenas a verruga de uma metástase. Governo precisa deixar de intervir na economia; o capitalismo de Estado brasileiro tem dado resultados ruins e perigosos. O abstencionismo estatal já nos garantiria condições suficientes para o desenvolvimento interno e para a migração de uma economia primária a uma base de produtos manufaturados, da qual consumo e commodities seriam tributários.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 5/3/2013.

346. Juízos literários

Um questionamento que leitores contumazes se fazem — ou se ainda não o fizeram, é mera questão de tempo — é sobre uma definição de literatura. O que é a literatura exatamente. Tal problema pode ser falsamente resolvido de uma forma marota como a famosa definição de que palavra são letras agrupadas entre dois espaços tipográficos, ou seja, literatura “é tudo o que está fixado por meio de letras, como cita Anatol Rosenfeld em seu texto “Literatura e personagem” (lembremo-nos que literatura tem sua raiz em littera, -ae­, efetivamente ‘letra’, ‘sentido claramente expresso pela escrita’).

Rosenfeld faz ainda uma breve explanação sobre caráter ficcional do texto e critérios de valorização estética para que algo seja literário, mas que não vêm obrigatoriamente juntos. Ele cita como exemplo os “Sermões” do Padre Vieira: têm estética, mas são não fictícios. Não raramente, Vieira vale-se de alguma alegoria bíblica para expor um raciocínio sobre alguma situação então corrente. Fora a qualidade estética que têm os “Sermões”.

Fora as definições técnicas e vendo a aparentemente longa má fase da literatura brasileira — qual nosso último grande poeta? Drummond? , nota-se que qualquer definição presente é somente presunçosa. O grande juiz da Literatura é o tempo: nomes que eram considerados ímpares por seus coetâneos caíram no mais sombrio esquecimento — Prosper Merimée, alguém sabe quem é? — enquanto outros, às vezes ignorados em vida, vão fazer parte do cânone. Quem garante que os que hoje estão aí representando — espuriamente — a pretensa Literatura brasileira sobreviverão ao juízo do tempo? O bom será perene.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 6/1/2013.

333. A antimedalha de prata

Os gringos detectaram agora; nós já sabíamos há muito tempo que nosso sistema educacional é péssimo. Trata-se apenas de escancarar a obviedade.

O Brasil ficou em 39º em ranking educacional elaborado pela Pearson — uma learning company, como se autointitula —, dentro do projeto The Learning Curve. Trigésimo nono lugar não do mundo todo, mas de 40 países.

Os índices surgiram de um cruzamento de dados de vários organismos internacionais envolvidos com educação e comprovam o fracasso da educação brasileira. Embora tentemos disfarçar com Saresp, Prova Brasil e outras maquiagens vagabundas, a verdade é que estudantes oriundos de nossas escolas, com grandes exceções, são incapazes de, por exemplo, fazer a prova do Pisa — Programme for International Student Assessment.

Nas escolas públicas, é a velha choradeira de salários defasados, instalações ruins e falta de interesse do Poder Público, o que tem sua parcela de verdade. O ensino privado é bom de make-up: apostilas, tablets e outras parafernálias, mas que, sem métodos adequados, não acrescentam nada, como já disse o colunista Francisco Belda há algum tempo.

Em suma, tal situação é fruto da excessiva pedagogização do ensino em detrimento do ensino real; da transformação da escola em “creche para grandes”, da retirada da autoridade do professor e da relativização do valor do conhecimento, que muitos apregoam, mas poucos valorizam efetivamente.

Diretores, coordenadores, secretários municipais e estaduais da Educação, pedagogos, ministro. Tirem seus paletós das cadeiras. Vão para casa; podem fechar as escolas. Como estão, do jeito que vocês as deixaram, mais atrapalham que ajudam. Talvez a Indonésia precise de alguma consultoria de vocês.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 30/11/2012.

328. Há muito tempo, agora há pouco…

Houve um tempo na política nacional em que as ameaças eram desnecessárias. Com base no poder econômico e respaldo do poder político oligárquico, os famosos coronéis simplesmente mandavam fazer. Não havia muito a questão da ameaça, que servia apenas para afugentar os covardes. Os mais valentes acabavam por receber a “expedição punitiva” na porta de casa.

Aliás, cabe dizer que a patente de coronel concedida a esses políticos advém do fato de, eventualmente, serem vinculados à Guarda Nacional, um título honorífico — compensação pela extinção dos títulos de nobreza concedidos no período monárquico.

Mas, voltando, os políticos de então não se importavam um pingo com a opinião pública: o voto era aberto e o coronel poderia mandar à seção eleitoral seus “fiscais”, para ver se o Zé das Couves, que ganhara um pé de sapato, ganharia o outro, por ter votado “corretamente”, ou se seria agraciado com uma bela sova, por ter sido infiel. O sistema do voto aberto permitiu o controle absoluto do eleitorado no período anterior ao golpe militar de 1930.

Não obstante a nossa moderna democracia — por favor, relevem a expressão: nem sempre o “moderno” é melhor que o passado — ter seus mecanismos de prevenção de abusos, tais expedientes ainda encontram eco na política moderna. A troca de favores é um deles.

Hoje, o político é “um homem de doze dedos”, mas,  volta e meia, baixa o espírito do coronel em alguns. Voltam o pé de sapato, as ameaças, a desarticulada verborragia invectiva. Só que, como se vê em vários casos, a ameaça é filha do desespero; e cabe ao desesperado explicar seus rompantes.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 13/11/2012.

326. O terço descontente

Quando termina uma eleição e contam-se os votos, a ansiedade fica pela torcida na “corrida dos cavalinhos” — lembra-se desse quadro do programa infantil “Bozo”, leitor? A conta final exclui as abstenções, sejam elas por anulação ou por justificação do voto.

No caso da disputa pela Prefeitura paulistana, os números são assustadores. Veicula-se apenas o porcentual considerado “válido” por critérios estabelecidos em lei. Se incluirmos o número total de eleitores do colégio, as porcentagens são: Fernando Haddad (PT), 3.387.720, ou 39,3%; José Serra (PSDB), 2.708.768, ou 31,4%, e o conjunto de nulos, brancos e abstenções atingiu 2.522.682, ou seja, 29,3%.

A esperteza dos legisladores está em considerar a maioria absoluta dos “votos válidos”, esvaziando qualquer tipo de protesto com o voto nulo ou com a abstenção. Em qualquer outro país sério, tais números causariam uma crise política. Haddad elegeu-se — não obstante a condenação por formação de quadrilha da antiga cúpula do seu partido — com pouco mais de 39% dos votos. Os votos dos descontentes chegaram a quase um terço de todos os eleitores aptos a votar.

O protesto de anular o voto não tem valor legal — o que é cômodo aos políticos, pois a vontade dos descontentes é simplesmente ignorada —, mas deveria servir para que criassem o mínimo de vergonha na cara e revissem seus conceitos. O eleitorado está cansado. A tendência desses números — mesmo com o estardalhaço do TSE pelo “voto útil” — é aumentar, o que vai tirar ainda mais a legitimidade do processo democrático brasileiro.

É hora da reforma política. Já passou da hora.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 30/12/2012.

325. Mortes urbanas

Ruínas de instalação das Indústrias Reunidas Matarazzo em Iguape/SP

Embora o artigo abaixo seja específico sobre a cidade de Araraquara, Interior do Estado de São Paulo, ele retrata bem um fenômeno urbano brasileiro: zonas inteiras que morreram asfixiadas pelas vias de acesso. Com uma política que privilegia sempre o fluxo dos automóveis, a decadência que cantos que ficaram “ilhados” por equipamentos viários é visível principalmente nas grandes cidades. Mas também nas de médio porte o fenômeno é perceptível.

O artigo “Mortes urbanas” foi escrito para a Tribuna Impressa, de Araraquara, e publicado no dia 23/10. O mote é uma reportagem do domingo imediatamente anterior que tratava da decadência do Mercado Municipal da cidade.

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Mortes urbanas

A falta de planejamento urbano é o algoz das cidades. E não se trata de algo pontual, de uma só administração, mas de uma longa tradição de descaso com o aparato urbano.

No Brasil, os deuses do progresso são o trator e a marreta. Divindades violentas e inclementes. Observe ao seu redor, leitor. Se Araraquara existe desde o final do século 18 — embora só tenha “entrado no mapa” em 1817 —, o que pode nos dar noção disso? Nosso passado dourado resume-se a meia dúzia de casarões do começo do século 20, na área central da cidade. Nada mais. Se alguém dissesse que Araraquara foi fundada apenas em 1905, visualmente, seria factível.

Foi a falta de planejamento e o afã da marreta que necrosaram a região do Mercado Municipal, tema de reportagem de Raquel Santana, publicada nesta Tribuna, no último domingo (21/10).

Quando a estrutura que hoje abriga o Terminal de ônibus era a Rodoviária, movimento por ali não deveria faltar. Porém, a Rodoviária foi exilada para a ponta da Via Expressa e a própria Via Expressa foi construída, criando aquela curva esquisita que faz a Rua Zero, e foi erguido o viaduto da Duque de Caxias. O Mercado ficou “ilhado” entre vias de acesso; é vítima desse “progresso mal planejado”.

Pelo que sei, a transferência da Rodoviária e a construção da Via Expressa são da mesma época, a primeira metade dos anos 1980. Juntas, as duas alterações causaram graves desarranjos ao tecido urbano; a maior ferida é o Mercado: isolado num estranho canto e esquecido pela população, que lhe torce o nariz.

Sobreviverá o Mercado à sanha da marreta?

323. Do ouro ao chumbo

Aurea mediocritas, o meio-termo de ouro, lema e meta dos poetas árcades. Meio-termo porque não peca pela falta, nem pelo excesso. Mas a palavra assumiu uma conotação negativa entre nós. O medíocre é indivíduo que além de não ter talento nenhum para destacar-se — não destacar-se não é um pecado em si —, projeta a queda dos demais, nivelando todos “por baixo” e ali procurando mantê-los.

O mal teve início quando os medíocres tomaram as academias, o parlamento; geraram leis e prerrogativas para seus iguais, burocratizaram a sociedade, imobilizando a criatividade. Mantêm sob ameaça o setor produtivo da sociedade com suas ações abstrusas. Como exemplo, o tal “desvio de função”, criação de legisladores ociosos para alimentar advogados de “porta de empresa”.

O medíocre não quer ter esforço. Por isso, mata na concepção a iniciativa alheia. O que antes era aprendizado no ambiente laboral, que dava oportunidades reais de crescimento profissional ao empregado e criava um vínculo com o empregador, passou a ser visto com desconfiança: tanto dos medíocres em geral, quanto do empregador, que, com plena razão, tem receio que aquele fato possa conduzir a um processo trabalhista — que sempre envolve uma reparação financeira; afinal, o real intuito do medíocre é alimentar-se do esforço alheio.

Há hoje faculdades, mas certas coisas somente a rotina de trabalho nos ensina. E perdemos uma parcela importante desse aprendizado por conta dos medíocres que legislam e invejam desde suas cátedras ou banquinhos.

Será que com esse tipo de pensamento canalha e mesquinho, inerente a quase todos nós, chegaremos ao dito mundo desenvolvido? Ou continuaremos a patinar na nossa mediocritas, plumbea mediocritas?

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 19/12/2012.

314. A democracia sou eu

“Paz, amor e sieg heil!”

L’État c’est moi” — “O Estado sou eu” — é frase atribuída a Luís XIV, Rei da França entre 1643 e 1715. O dito, embora os historiadores não considerem ter saído efetivamente da boca do monarca, contém a ideia da monarquia absolutista, ou seja, regime em que o rei era executivo, legislativo e judiciário. A frase resume o espírito da época.

“A democracia sou eu.” Disse outro Luís, o Inácio Lula da Silva. Não exatamente assim, mas a maneira como ele vem se comportando bem o demonstra. Embora seja dado a bravatas, Lula jamais diria uma frase dessas. Jamais se comprometeria tanto com conceitos que lhe são apenas degraus, como a democracia.

Parte de sua concepção política vaza de seu discurso furado: “Temos de aproveitar o bom momento do País para eleger mais companheiros”, disse o ex-presidente no palanque de Luiz Marinho, candidato a prefeito em São Bernardo do Campo/SP. A ideia de Lula paira sobre um regime de partido único, uma democracia “companheira”. Basta ver algumas declarações: “Precisamos extirpar o DEM da política brasileira”, nas eleições de 2010, e, agora, no comício de Mário Reali, candidato a prefeitura de Diadema/SP, quando comparou a oposição a um câncer.

Sua insistência em dizer que “não sabia de nada” sobre o Mensalão está se mostrando um péssimo álibi. Enquanto Lula tenta esconder o morto no armário, a militância — principalmente pela internet — está arreganhando dentes e falando em “golpe”. O único movimento que vejo é o da decência, de magistrados que estão fazendo seu papel, não obstante terem sido, em grande parte, indicados por Lula ou Dilma. O golpe é apenas contra o democratismo “companheiro”, que há de chegar ao fim.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 25/9/2012.

309. Para entender a releitura

“Mamãe, acabei a releitura. Vem me limpar?”

Vivemos um vale-tudo cultural. Como já diz o nome da variedade de luta, vale tudo. Qualquer pastiche é elevado à condição de obra de arte. Geralmente a incompetência dos artistas modernos é tão grande, que costumam valer-se de imposturas para justificar suas impropriedades. O termo “releitura” ocupa uma posição central nesse “panteão das trevas”.

Não soube fazer, ficou meia-boca? Diga que é uma releitura. Sua trupe é incapaz de decorar os textos como eles foram produzidos por seus autores? Tudo bem. Crie uns figurinos diferentes e diga que é uma “releitura”. Os pós-modernos vão vibrar e poucos perceberão o embuste. E os que perceberem… bem, chame-os de “retrógrados”, “fascistas” e algum outro termo que estiver em voga; desqualifique-os.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 26/7/2012

308. ‘Divide et impera’

De olho no jogo

Recebemos várias reações ao nosso artigo da semana passada (“Oclocracia”, 14/8); alguns fazendo eco, outros criticando-o. E é sobre um dos questionamentos que gostaríamos de rapidamente nos debruçar.

Um leitor questionou o raciocínio alegando que “temos 27 partidos políticos registrados no STE”. Justo. Mas o que significa esse número absurdo de partidos? Conexão plena com o que chamamos de oclocracia ou democracia numérica.

Sabemos — ou deveríamos saber — como se comportam as agremiações políticas no Brasil: não têm projetos políticos. Têm, no máximo, projetos de poder, de conquista do Estado; são mais alcateias que propriamente partidos. Isso, claro, os mais organizados; o resto são apenas amebas que querem fagocitar uma vaguinha em legislativos poeirentos, uma verbinha.

Dizemos isso porque é impossível haver 27 visões de como gerir a República. Se houvesse algum partido que defendesse a monarquia, teríamos, no máximo, umas três ou quatro visões sobre a administração pública. Aposto meu dedo mindinho esmagado por um torno mecânico que esse número não pode ser maior.

É a lógica da democracia numérica: divide et impera, ou seja, divide para dominar; era a máxima de Júlio César e Napoleão. Uma sociedade muito fragmentada não tem setores fortes; ou, no máximo, dois ou três que polarizam o restante de acordo com as conveniências. Fazem um jogo que nos ilude, um caleidoscópio que dá a sensação de infinito num minúsculo prisma de espelhos.

No final das contas, os partidos apenas fazem parte da liturgia da política. Dão aspecto sério a uma sociedade politicamente hedonista; são peça essencial do democratismo, sistema político que apenas quer parecer democrático.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 21/8/2012.

296. Espírito de 1932

Ontem se comemorou o 80º aniversário da Revolução Constitucionalista de 1932. A data passou a ser oficialmente festejada quando, em 1997, foi declarada feriado por lei do governo Mário Covas.

A Revolução de 1932 foi por uma constituição para o Brasil. Getúlio Vargas, perdedor das eleições presidenciais de 1930, e seu partido, a Aliança Liberal, resolveram tomar o poder pela força, não obstante a retumbante derrota eleitoral para o paulista Júlio Prestes, o único presidente eleito do Brasil impedido de assumir.

Vargas triunfou militarmente e instalou-se no poder. Quando sua ridícula quartelada revelou-se apenas sede de poder e centralismo, o Estado de São Paulo, cansado de interventores federais e da progressiva perda de autonomia, resolveu por bem mover-se militarmente por uma nova era constitucional. Saímos perdedores, mas conseguimos a Constituição de 1934 que, ai!, não resistiria ao Estado Novo do Mussolini tupiniquim.

Embora certos historiadores manchados pela retórica oca da historiografia marxista insistam em tentar desmoralizar a Revolução e suas consequências, foi crucial o papel doa Revolução Constitucionalista para a história posterior do País.

Vendo a apatia geral das pessoas, a nossa passividade em determinados assuntos, as preocupações inúteis com consumo, pergunto-me o que houve com aquele povo valente que se levantou em armas para pedir uma constituição. Mesmo a nossa atual Constituição, o que vale? Para que serve além de ser peso de papel em bem iluminados escritórios de advocacia e o que garante além de fantasias? Quem sairia hoje para defender algo além do seu interesse próprio imediato?

O 80º aniversário da Revolução Constitucionalista parece ser o 80º aniversário de uma derrota moral da qual nunca mais nos recuperamos.

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Artigo publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 10/7/2012.

295. Paraguai, Venezuela e o Foro de São Paulo

O Grande Obtuso observa tudo

A decisão do Parlamento de afastar Lugo, em 22/6, por mais que se questione o tempo da ação de impeachment, é legítima dentro do arcabouço legal do Estado paraguaio. Porém, como o ex-presidente é considerado ‘amigo’ pelo Foro de São Paulo (FSP), com a mesma rapidez tão criticada, o Paraguai foi suspenso do Mercado Comum do Sul (Mercosul), em 28/6, e da União de Nações Sul-Americanas (Unasul).

Apenas para elucidar: o FSP é uma agremiação de partidos de esquerda que congrega, entre muitos, PT, Frente Amplio (partido no poder no Uruguai), o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), representante do chavismo, e até mesmo o mui democrático Partido Comunista Cubano. É a Internacional do populismo oportunista.

Com a suspensão do Paraguai, o caminho para o ingresso da Venezuela no Mercosul está pavimentado; o país de Lugo era o único do bloco que não havia ratificado a “República Bolivariana”.

Embora a presidente argentina, Cristina Kirchner, já tenha “decretado” — e até marcado data: final de julho — a entrada da Venezuela no bloco, os outros países ainda estão reticentes justamente por causa da obviedade da ligação dos fatos. O incidente parece ter sido criado para atingir esse objetivo, mesmo com o alto preço de ‘queimar’ um aliado. A ocupação de uma fazenda em Curuguaty, em 20/6, pelos Campesinos, acabou por provocar um confronto com a polícia, no qual foram mortas 17 pessoas e mais de 90 ficaram feridas. Haja vista as táticas do FSP, o episódio todo pode muito bem ter sido orquestrado; se não o foi, veio bem a calhar às intenções do Foro.

A Venezuela no Mercosul será a morte das intenções iniciais do bloco, delineadas no Tratado de Assunção (1991). É o país menos democrático do subcontinente, sua constituição foi entupida de emendas para favorecer Chávez e seus aliados, a Petróleo de Venezuela S/A (PDVSA, estatal de petróleo) tem 80% do PIB e a economia — paraestatal — está absolutamente em frangalhos. O que a Venezuela agregará economicamente?

Logo se vê que o Mercosul está sendo transformado — e não é de hoje — em uma extensão operacional do FSP, o mercado comum do compadrismo e da afinidade ideológica. O mesmo vale para a tal Unasul, que já nasceu com a marca indelével de sua afiliação partidária.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 3/7/2012.

293. Insônia

E quem dorme?

A votação das emendas à Lei de Diretrizes orçamentárias na Câmara de Araraquara foi da tarde de terça ao fim da madrugada de quarta da semana passada (19-20/6). Quarenta emendas: 35 do vereador Carlos Nascimento. Fora as retiradas de pauta, o restante foi todo negado. Uma inolvidável noite de nãos.

Duas coisas ficaram claras na “Noite do Não”. Primeiro, a intransigência e a centralização absurdas da administração municipal, que não aceitou uma só emenda a sua pétrea LDO — o que complementa o papel pífio dos conselhos municipais, esvaziados pelo pouco caso do Governo, como reportagem e editorial desta Tribuna (17/6 págs. A2 e A5) também mostraram. Segundo, o pavoneamento da oposição, que se vale do obstáculo certo — e praticamente intransponível — para fazer palanque eleitoral.

Posso estar sendo cruel no meu curto julgamento — o espaço não me permite mais —, mas não consegui ver reais debates pela cidade. Foram perceptíveis apenas a exposição de egos inflamados e até mesmo alguns gritos. Uma ruidosa e desnecessária vitrine de vaidades.

Nos últimos tempos, principalmente por conta do aumento nos subsídios, cobrou-se ‘respeito’ pela instituição Câmara e seus membros. Porém, para que algo ou alguém seja merecedor de respeito, deve antes inspirá-lo. Não basta ser membro do Legislativo; não basta evocar os votos recebidos. É necessário ter um comportamento condizente com o cargo. A grosso modo, o hábito não faz o monge.

A Câmara precisa esforçar-se mais; precisa trabalhar pela cidade. Nem mesmo uma campanha publicitária é necessária — como foi aventado não faz muito. É simplesmente cumprir seu papel de legisladora; a população, com o tempo, saberá reconhecer.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 26/6/2012.

291. Guarânia time

Fernandito, padre de muchos

O presidente paraguaio, Fernando Lugo, está sendo processado pelo parlamento de seu país por conta de morte em uma mal-fadada operação envolvendo sem-terras e a polícia.

Algumas coisas têm de ficar claras porque há muita gente falando besteira internet a fora.

Primeiro: não é golpe de estado. Embora o próprio mandatário o tenha dito, qualificando o ato administrativo contra sua pessoa como “golpe de estado expresso”, o impeachment é um processo político-administrativo levado a cabo pelo parlamento democraticamente eleito. O problema do caudilhismo latino-americano é ter ilusão na autocracia e nela apoiar-se para governar. O mesmo ocorre no Brasil; o presidente da república não é um autocrata e o parlamento, tão legitimamente eleito como o presidente, tem sim responsabilidades sobre o presidente da república se achar necessário.

Segundo: o processo contra Lugo é resultado de ele ter perdido maioria nas câmaras, hoje dominadas pelo Partido Colorado, e também de várias outras indigestões políticas no decorrer do seu mandato, como seus vários filhos — tendo ainda em vista que ele era sacerdote católico, logo, celibatário; sozinhos, tais fatos são de ordem política e moral, respectivamente, mas acabam tendo peso sobre uma decisão dessa magnitude. Mostram manifestações contra o impeachment; o que significa que o Paraguai é um país com certo nível de democracia, onde descontentes — e até mesmo sectários — podem manifestar-se. É um ótimo sinal.

Terceiro: o movimento que tem surgido na esquerda internética brasileira não tem pé nem cabeça. Não é assunto nosso. A não ser que ela tenha algo a defender, como, p. ex., o presidente Lugo ser membro do Foro de São Paulo, organização que congrega partidos de esquerda — até mesmo o mui democrático Partido Comunista Cubano — e luta por uma hegemonia absoluta nos países da América do Sul. O que explicaria a rapidez de uma “missão” da Unasul — União de Nações Sul-Americanas, esse aborto organizativo que ninguém nem mesmo sabe exatamente o que é — para intromissão em assuntos internos paraguaios. Com a Síria, aliada até outro dia, foram necessários meses e meses para que o Itamaraty se posicionasse decentemente e condenasse os ataques.

E por fim, mas não menos importante: é assunto interno do Paraguai e a resolução deve vir de seus poderes constituídos e de sua população.

290. Política, futebol e religião

Verde, que te quero verde

Diz o ‘velho deitado’ que política, futebol e religião não se discutem. Uma versão mais sucinta fala de “cor e gosto”. Temas e percepções. O grande problema do brasileiro — digo isso porque é o povo que conheço, mas a definição imagino ser expansível à Latinidade — é misturar as coisas.

O cidadão não se contenta em ver o jogo de futebol e torcer pelo seu time. Não. Alguns espíritos de porco têm de sair à rua acelerando carros e berrando. Outro cidadão tem sua fé; ele não se contenta em servir a Deus, tem de sair nos domingos pela manhã para bater de porta em porta e tentar arrebanhar mais almas com um discurso impositivo. Das misturas dessas duas vertentes de manifestação surge a política vista pelo brasileiro que a acompanha: dogmática e escandalosa. O brasileiro acompanha política como quem torce para Corinthians ou Palmeiras: é mau perdedor, é dogmático e crê na infalibilidade dos seus “papas” e só seu time tem razão. “Minha razão é a minha força.”

Essa política futebolística se vê muito pela ‘esquerda festiva’, ou seja, aquela que se encontra ora no poder. Nosso ex-presidente adora uma metáfora do mundo da bola, uma bela alegoria. E também não admite críticas. Essa esquerda e outras ainda mais radicais aninharam-se, por exemplo, na área de Humanas das universidades públicas, ultrapassando mesmo as cansativas assembleias em que se discute, num “samba do crioulo doido”, falta de professores e propõe-se uma “moção de apoio ao povo do Iraque contra a opressão estadunidense”, as doutrinas chegaram mesmo às salas dos professores, onde são os únicos critérios de pesquisa e investigação. Nossa universidade parou nos anos 60.

E são infalíveis. A economia de mercado teve suas turbulências esporádicas — e está tendo uma grave agora, um dolorido espasmo —, porém o Segundo Mundo, que chegou a englobar 33% da Humanidade, hoje se acha reduzido a ilhas de tirania, como Cuba e Coreia do Norte. O resto do Mundo Socialista dissolveu-se por absoluta incompetência econômica; as revoluções populares foram apenas uma cereja no bolo da desgraça. Se não tivessem acabado na contração violenta do começo dos anos 90, os regimes da Europa Oriental teriam definhado por mais uma década e lentamente começariam a abrir-se.

Dizem os acadêmicos: “Ah, mas isso não é o socialismo”. Se não o é; o que seria? O problema do socialismo/comunismo é que ele nunca ultrapassou a barreira da famigerada ditadura do proletariado que, uma vez instalada, deveria dar lugar à lenta dissolução do Estado, a administração descentralizada e local. Nessas linhas, seria um sonho. O grande problema é que a amorfa ditadura do proletariado tornou-se a pétrea ditadura da nomenklatura. E assim foi até a dissolução dos regimes.

Possivelmente, junto com a monarquia absolutista e a república revolucionária, o socialismo é um dos regimes que provou sua incompetência em um longo e largo laboratório de 80 anos. Vivemos um regime de democracia representativa que é péssimo, mas, parafraseando Winston Churchill, ainda é o melhor que eu conheço.

O grande problema da esquerda socialista é que a teoria é ótima. Porém tem um grave defeito: não contou com o fator humano. O ser humano é amigo do poder; o poder o fascina. Logo, se uma camada tem acesso a ele agarra-se como o náufrago à jangada. E o “horizonte luminoso” do socialismo fica como o horizonte real: quando se dá um passo em direção a ele, ele se afasta outro.

E, retomando o enfoque do texto, pode-se dizer que há um apego sacro com a política. Há dogmas, há heresias, há excomungados. Heranças de um catolicismo fetichista? A esquerda mantém a ilusão de que é possível mudar, porém, quando chegou ao poder, entregou-se ao mesmíssimo fisiologismo que domina o Estado brasileiro desde a colônia. Mais do mesmo. O poder é como a maresia: corrompe até ferro. Somos um povo torto, dado a paixões e a vícios como poucos. Nossas grandes qualidades são a falta de caráter — o jeitinho —, o sorriso falso com cerveja, o dogmatismo de ocasião das nossas opiniões, a moleza da nossa alma.

Por isso somos tão insuportáveis.