361. Angústia cubana

"Vamos lá no fundo e eu te mostro a revolução no seu centro."

“Vamos lá no fundo e eu te mostro a revolução no seu centro.”

A chegada da blogueira Yoaní Sánchez nos faz lembrar que Cuba é a terra da infelicidade política. Poucos países modernos foram tão massacrados por tiranias de longa duração. Primeiro, o domínio espanhol, que se estendeu até 1898, ano em que a Guerra Hispano-Americana, entre Espanha e Estados Unidos, deu à ilha independência de jure, mas certos dispositivos de sua constituição — adicionados pela tenebrosa Emenda Platt — davam ao Grande Irmão do Norte a última palavra em questões internas da nova república.

Depois, além do domínio americano, a ditadura de Fulgencio Batista, que se estendeu de 1934 a 1959. Neste último ano, a guerrilha que vinha sendo desenvolvida desde 1953 por Fidel Castro e Che Guevara finalmente chega ao poder. A revolução não era originalmente comunista, como o próprio Fidel ressaltou quando de sua visita aos EUA — país que apoiava o movimento contra Batista. A guinada à esquerda e a aliança com a URSS não passaram de oportunismo, foram apenas uma reação à rápida deterioração da situação diplomática entre a nação caribenha e os EUA.

Desde 1959, a família Castro mantém a ilha como um latifúndio. Sua base econômica é a mesma dos tempos coloniais; o embargo burro dos EUA, antes de minar o regime, é uma eficiente propaganda. Num golpe de marketing, Cuba mostra-se como mártir.

Os que foram recepcionar Yoaní no Aeroporto de Salvador com cartazes pró-Cuba — acusando a blogueira de ser paga pela CIA e exaltando a pátria socialista, entre outras boçalidades — ignoram que o regime, em seus quase 55 anos de mandos e opressões, é muito pior que, por exemplo, o nosso Regime Militar. Mas a ideologia maniqueísta presente na esquerda, além de envenenar, cega.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, 19/2/2013.

359. Non habemus papam

Bento XVI (Agência EFE)

Bento XVI (Agência EFE)

Bento XVI anunciou ontem sua abdicação para o dia 28. Para uma geração que praticamente só conheceu o papa que aí está e o finado João Paulo II , tal mudança pode ser considerada veloz.

É uma pena que seu pontificado termine tão já. Certamente é por conta da pressão de setores “progressistas” da Igreja. É notório que Bento XVI nutria esperança de reverter alguns estragos causados pelo Concílio Vaticano II (1962-1965) e que era partidário de um retorno à missa tridentina, já regulada  pela carta apostólica Summorum Pontificum cura (A preocupação dos Sumos Pontífices), de 2007.

Nós, católicos leigos ou mesmo não católicos, temos livre-arbítrio e podemos questionar ou seguir diretrizes  da Igreja. Embora cartas, bulas e encíclicas que não tratem especificamente dos dogmas ou questões de fé não sejam consideradas ex cathedra — ou seja, estão fora da dita infalibilidade do Papa — devem ser observadas pelo clero católico.

A questão do retorno do rito tridentino incomoda uma parte do clero, incluindo a autoridade eclesiástica regional, Dom Paulo Sérgio Machado, bispo de São Carlos. Além de sua posição contrária ao rito, num artigo desrespeitoso à parte dos católicos (“O retorno à Idade Média”, que pode ser lido em aqui), o bispo não apenas ridiculariza o retorno ao rito — pelo fato de parte dele ser proferida em latim —, como classifica os que o desejam como “puritanos”, “cabeças de vento” e até mesmo “fariseus”. E arremata o infeliz artigo com uma citação de um socialista francês.

O que me dói é que, provavelmente, o próximo pontífice seja da mesma lavra de Dom Paulo Sérgio. Com tais pensamentos, cada dia que passa, o sedevacantismo — corrente que não reconhece os papas a partir de Paulo VI — parece menos incongruente.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 12/2/2013.

294. “Meu nome é Vermelho”, Orhan Pamuk

Capa da 2ª edição

No fim da Europa

Uma história de “detetive” em pleno período dourado na Istambul capital do Império Otomano. Eis o mote de “Meu nome é Vermelho” do laureado escritor turco Orhan Pamuk. O sultão reinante manda seu ateliê de pintura executar um livro ilustrado ao estilo ocidental para impressionar o doge de Veneza; porém, o estilo figurativo ocidental é considerado anticorânico e logo o principal artista é morto. A narrativa vai da faceta policial uma história de amor proibido e reflexões sobre Ocidente e Oriente. Um misterioso homem, chamado Negro, volta a Istambul depois de 12 anos e tem apenas três dias para resolver o mistério da morte do artista.

Escrito num estilo de múltiplas vozes protagonistas, o livro lido com atenção ainda pode prover uma rica fonte sobre a vida e a história do Império Otomano daquele período. Talvez o único senão da excelente edição obra de Pamuk — para nós, claro — seja que sua tradução tenha sido feita a partir das edições em francês e em inglês, como costumava ocorrer com os clássicos russos.

“Meu nome é Vermelho” – Orhan Pamuk – Companhia das Letras – 534 págs. Entre R$ 40 e R$ 70

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 2/7/2012.

293. Insônia

E quem dorme?

A votação das emendas à Lei de Diretrizes orçamentárias na Câmara de Araraquara foi da tarde de terça ao fim da madrugada de quarta da semana passada (19-20/6). Quarenta emendas: 35 do vereador Carlos Nascimento. Fora as retiradas de pauta, o restante foi todo negado. Uma inolvidável noite de nãos.

Duas coisas ficaram claras na “Noite do Não”. Primeiro, a intransigência e a centralização absurdas da administração municipal, que não aceitou uma só emenda a sua pétrea LDO — o que complementa o papel pífio dos conselhos municipais, esvaziados pelo pouco caso do Governo, como reportagem e editorial desta Tribuna (17/6 págs. A2 e A5) também mostraram. Segundo, o pavoneamento da oposição, que se vale do obstáculo certo — e praticamente intransponível — para fazer palanque eleitoral.

Posso estar sendo cruel no meu curto julgamento — o espaço não me permite mais —, mas não consegui ver reais debates pela cidade. Foram perceptíveis apenas a exposição de egos inflamados e até mesmo alguns gritos. Uma ruidosa e desnecessária vitrine de vaidades.

Nos últimos tempos, principalmente por conta do aumento nos subsídios, cobrou-se ‘respeito’ pela instituição Câmara e seus membros. Porém, para que algo ou alguém seja merecedor de respeito, deve antes inspirá-lo. Não basta ser membro do Legislativo; não basta evocar os votos recebidos. É necessário ter um comportamento condizente com o cargo. A grosso modo, o hábito não faz o monge.

A Câmara precisa esforçar-se mais; precisa trabalhar pela cidade. Nem mesmo uma campanha publicitária é necessária — como foi aventado não faz muito. É simplesmente cumprir seu papel de legisladora; a população, com o tempo, saberá reconhecer.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 26/6/2012.

291. Guarânia time

Fernandito, padre de muchos

O presidente paraguaio, Fernando Lugo, está sendo processado pelo parlamento de seu país por conta de morte em uma mal-fadada operação envolvendo sem-terras e a polícia.

Algumas coisas têm de ficar claras porque há muita gente falando besteira internet a fora.

Primeiro: não é golpe de estado. Embora o próprio mandatário o tenha dito, qualificando o ato administrativo contra sua pessoa como “golpe de estado expresso”, o impeachment é um processo político-administrativo levado a cabo pelo parlamento democraticamente eleito. O problema do caudilhismo latino-americano é ter ilusão na autocracia e nela apoiar-se para governar. O mesmo ocorre no Brasil; o presidente da república não é um autocrata e o parlamento, tão legitimamente eleito como o presidente, tem sim responsabilidades sobre o presidente da república se achar necessário.

Segundo: o processo contra Lugo é resultado de ele ter perdido maioria nas câmaras, hoje dominadas pelo Partido Colorado, e também de várias outras indigestões políticas no decorrer do seu mandato, como seus vários filhos — tendo ainda em vista que ele era sacerdote católico, logo, celibatário; sozinhos, tais fatos são de ordem política e moral, respectivamente, mas acabam tendo peso sobre uma decisão dessa magnitude. Mostram manifestações contra o impeachment; o que significa que o Paraguai é um país com certo nível de democracia, onde descontentes — e até mesmo sectários — podem manifestar-se. É um ótimo sinal.

Terceiro: o movimento que tem surgido na esquerda internética brasileira não tem pé nem cabeça. Não é assunto nosso. A não ser que ela tenha algo a defender, como, p. ex., o presidente Lugo ser membro do Foro de São Paulo, organização que congrega partidos de esquerda — até mesmo o mui democrático Partido Comunista Cubano — e luta por uma hegemonia absoluta nos países da América do Sul. O que explicaria a rapidez de uma “missão” da Unasul — União de Nações Sul-Americanas, esse aborto organizativo que ninguém nem mesmo sabe exatamente o que é — para intromissão em assuntos internos paraguaios. Com a Síria, aliada até outro dia, foram necessários meses e meses para que o Itamaraty se posicionasse decentemente e condenasse os ataques.

E por fim, mas não menos importante: é assunto interno do Paraguai e a resolução deve vir de seus poderes constituídos e de sua população.

290. Política, futebol e religião

Verde, que te quero verde

Diz o ‘velho deitado’ que política, futebol e religião não se discutem. Uma versão mais sucinta fala de “cor e gosto”. Temas e percepções. O grande problema do brasileiro — digo isso porque é o povo que conheço, mas a definição imagino ser expansível à Latinidade — é misturar as coisas.

O cidadão não se contenta em ver o jogo de futebol e torcer pelo seu time. Não. Alguns espíritos de porco têm de sair à rua acelerando carros e berrando. Outro cidadão tem sua fé; ele não se contenta em servir a Deus, tem de sair nos domingos pela manhã para bater de porta em porta e tentar arrebanhar mais almas com um discurso impositivo. Das misturas dessas duas vertentes de manifestação surge a política vista pelo brasileiro que a acompanha: dogmática e escandalosa. O brasileiro acompanha política como quem torce para Corinthians ou Palmeiras: é mau perdedor, é dogmático e crê na infalibilidade dos seus “papas” e só seu time tem razão. “Minha razão é a minha força.”

Essa política futebolística se vê muito pela ‘esquerda festiva’, ou seja, aquela que se encontra ora no poder. Nosso ex-presidente adora uma metáfora do mundo da bola, uma bela alegoria. E também não admite críticas. Essa esquerda e outras ainda mais radicais aninharam-se, por exemplo, na área de Humanas das universidades públicas, ultrapassando mesmo as cansativas assembleias em que se discute, num “samba do crioulo doido”, falta de professores e propõe-se uma “moção de apoio ao povo do Iraque contra a opressão estadunidense”, as doutrinas chegaram mesmo às salas dos professores, onde são os únicos critérios de pesquisa e investigação. Nossa universidade parou nos anos 60.

E são infalíveis. A economia de mercado teve suas turbulências esporádicas — e está tendo uma grave agora, um dolorido espasmo —, porém o Segundo Mundo, que chegou a englobar 33% da Humanidade, hoje se acha reduzido a ilhas de tirania, como Cuba e Coreia do Norte. O resto do Mundo Socialista dissolveu-se por absoluta incompetência econômica; as revoluções populares foram apenas uma cereja no bolo da desgraça. Se não tivessem acabado na contração violenta do começo dos anos 90, os regimes da Europa Oriental teriam definhado por mais uma década e lentamente começariam a abrir-se.

Dizem os acadêmicos: “Ah, mas isso não é o socialismo”. Se não o é; o que seria? O problema do socialismo/comunismo é que ele nunca ultrapassou a barreira da famigerada ditadura do proletariado que, uma vez instalada, deveria dar lugar à lenta dissolução do Estado, a administração descentralizada e local. Nessas linhas, seria um sonho. O grande problema é que a amorfa ditadura do proletariado tornou-se a pétrea ditadura da nomenklatura. E assim foi até a dissolução dos regimes.

Possivelmente, junto com a monarquia absolutista e a república revolucionária, o socialismo é um dos regimes que provou sua incompetência em um longo e largo laboratório de 80 anos. Vivemos um regime de democracia representativa que é péssimo, mas, parafraseando Winston Churchill, ainda é o melhor que eu conheço.

O grande problema da esquerda socialista é que a teoria é ótima. Porém tem um grave defeito: não contou com o fator humano. O ser humano é amigo do poder; o poder o fascina. Logo, se uma camada tem acesso a ele agarra-se como o náufrago à jangada. E o “horizonte luminoso” do socialismo fica como o horizonte real: quando se dá um passo em direção a ele, ele se afasta outro.

E, retomando o enfoque do texto, pode-se dizer que há um apego sacro com a política. Há dogmas, há heresias, há excomungados. Heranças de um catolicismo fetichista? A esquerda mantém a ilusão de que é possível mudar, porém, quando chegou ao poder, entregou-se ao mesmíssimo fisiologismo que domina o Estado brasileiro desde a colônia. Mais do mesmo. O poder é como a maresia: corrompe até ferro. Somos um povo torto, dado a paixões e a vícios como poucos. Nossas grandes qualidades são a falta de caráter — o jeitinho —, o sorriso falso com cerveja, o dogmatismo de ocasião das nossas opiniões, a moleza da nossa alma.

Por isso somos tão insuportáveis.

289. O escudo da ignorância

Assim como no auge da Idade Média, os dogmas continuam existindo. Antes, afirmava-se que o universo era finito; quem dissesse o contrário, ia para a fogueira. A diferença é que as chamas das fogueiras modernas são a reprovação e troça pública; coisa muito mais fácil de lidar. Ainda mais quando se trata de um amontoado de asneiras.

Nos e-mails corporativos da empresa em que você trabalha — se for o caso —, há um rodapé com dizeres do tipo: “Verifique a real necessidade de imprimir seus e-mails; preserve a natureza”. É um tipo de mensagem comum incitando a economia de papel para “preservar a natureza”, “preservar a Mata Atlântica”. Afirmação que vem blindada, tratada como verdade imperativa; um verdadeiro escudo de ignorância acerca do assunto.

A intenção real é a economia de papel, o que é um valor legítimo por si mesmo; assim como apagar as lâmpadas quando se sai de um recinto, desligar aparelhos elétricos. Uma questão de bom senso e economia. Mas não que esse tipo de comportamento vá salvar alguma coisa.

Na questão do papel, primeiro, ele é feito com madeira de plantações industriais especialmente para esse fim. Não se faz papel de madeira nativa, ou alguém realmente acha que há papel de mogno? Geralmente é feito de eucalipto, cujas fibras têm a mesma densidade e uniformidade na hora do cozimento da madeira para extração da celulose. Ou seja, fazer papel de madeiras duras ou variadas, além de inviável, resultaria — se for possível — em um papel de péssima qualidade.

As plantações de eucalipto para esse fim, por ora, concentram-se em Minas Gerais e São Paulo e estão em áreas em eram originalmente de alguma monocultura como cana ou laranja. Ou seja, não há desmatamento para produção de papel.

Outra lenda é que o eucalipto “mata” ou “seca” o solo. Acredita-se que esse tipo de boataria venha justamente de grupelhos ecológicos a soldo de países interessados em manter o monopólio da produção de celulose, como a Finlândia, por exemplo, atualmente ainda a maior produtora mundial da matéria-prima. Como simples curiosidade, veja onde estão sediadas as organizações ecológicas mais famosas como Greenpeace, WWF e outras. São quase todas ‘multinacionais’ do lobby verde, localizadas “lá em cima”.

O eucalipto é ecológico, gera renda e tira os agricultores da monocultura. Então, antes de acreditar em qualquer coisa apenas porque tem o revestimento, a proteção do politicamente correto e tratá-la como dogma e combatê-la por simples e pura ignorância. Certamente que tudo deve ser usado com a devida economia, mas que fique claro o motivo correto e que não seja baseado em lendas ou estórias mal-contadas.

281. A república do assombro

Este é o meu 30º texto de opinião publicado na Tribuna Impressa de Araraquara. Enjoy it.

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Vai precisar rezar muito mesmo

Se Lula sente-se no direito de cobrar um magistrado da mais alta corte do País — e isso veio à tona —, imagine o que não acontecia quando ele era presidente da República. Esse tipo de manobra só mostra a faceta mais óbvia da podridão que lastreia a coisa pública brasileira. Nossa república — coitada — de bem comum a cosa nostra.

Nem a doença do ex-presidente tira-lhe a empáfia, a aura de ungido. O mais curioso é que esse tipo de personalidade, o caudilho, é algo muito hispano-americano. Talvez o aparecimento de Lula seja indício que estamos nos integrando à América Latina, para bem e para mal.

Há alguns dias, Barack Obama fez uma insinuação sobre o possível veto da Suprema Corte americana a uma lei aprovada pelo Congresso e bastou para desencadear uma minicrise. Porque, na sociedade americana, a intenção corresponde à materialidade de uma ação.

Muitos de nós — e vejo isso com assombro — veem como natural que “o Cara” tenha esse tipo de influência. Que a barafunda é mera invenção da Veja, do PSDB, de FHC ou do monstro fictício mais à mão. Estamos acostumados ao absurdo; não nos causa mais repulsa. A insensatez é a nossa rotina política e social.

É encostado à parede e já sem fôlego que constatamos uma deterioração sem par da situação política. Uma argentinização — leia-se a Argentina sob o kirchnerismo — do Brasil. E quanto mais tempo PT et caterva ficarem no poder, mais profunda será a vigilância, a censura, o controle da vida dos cidadãos por um Estado mastodôntico e onipresente.

Tomemos consciência; ou afundemos no lodaçal das pequenezas, ignorando o que há ao redor. É o que eles desejam.

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Publicado em 5/6/2012.

279. “Dom Camilo e seu pequeno mundo”, Giovannino Guareschi

O autor e seu bigode

Foice, martelo e cruz

Em uma cidadezinha da Planície do Pó, na convulsão social e econômica da Itália do pós-guerra. Eis o cenário de “Dom Camilo e seu pequeno mundo”.

Giovannino Guareschi (1908-1968) faz uma alegoria das contendas políticas daquele triste período italiano, opondo o pároco da cidadezinha — Dom Camilo — e o administrador comunista Giuseppe Bottazzi, mais conhecido como Peppone.

Embora haja uma eterna rixa entre os dois, na verdade, são o que costuma chamar de inimigos cordiais. Gente que, apesar de duas posições ideológicas — a Democracia Cristã versus o Partido Comunista Italiano —, têm em mente o bem comum da cidade, embora não deixem de marcar suas posições de modo bem irreverente.

Dividido em pequenos contos, “Dom Camilo…” é o primeiro livro da série baseada nessa alegoria, que soma seis volumes, publicados entre 1948 e 1996, sendo que os quatro últimos são póstumos. Uma literatura que, como diria o próprio Guareschi no seu “Zibaldino”, “é bela e instrutiva”.

Dom Camilo e seu pequeno mundo – Difel/Bertrand do Brasil – preço variável

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Publicado com alguns cortes na Tribuna Impressa de Araraquara em 3/6/2012.

278. O Marquês de Pombal e o português

O Marquês de Pombal em sua glória. Detalhe de pintura de Louis-Michel van Loo e Claude Joseph Vernet (1766)

O texto abaixo foi desenvolvido como atividade acadêmica, mas que foi erroneamente interpretada. Logo, não serviu como atividade. Há algumas considerações interessantes que gostaria de dividir com os meus leitores. Afinal, o texto ficaria apodrecendo no fundo de um pen drive.

Peço desculpas pela empolação acadêmica. Às vezes, ela é necessária para um igualmente empolado — e empoleirado — interlocutor.

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A imposição do português como idioma único no período pombalino tem ainda relação com a ideologia de formação dos estados nacionais (sécs. XV-XVI). Um povo, um rei, uma língua. Embora só tenha ocorrido tardiamente no Brasil (por falta de gente ou por displicência?), na Europa, a imposição de um dialeto sobre os demais de um território nacional era a regra. Assim ocorreu com o francês (o dialeto da Ilha de França, a região de Paris), que foi tornado obrigatório nas cortes de justiça por decreto (1539). O mesmo ocorreu com o castelhano que se sobrepôs ao galego, ao catalão e até mesmo adotou um nome nacional, “espanhol”.

A questão do Marquês de Pombal com o português dividia-se em: 1) uma administração mais eficiente (por isso a “unidade” linguística de Portugal e domínios foi buscada); 2) a “condenação” à língua geral tem relação direta com os jesuítas, expulsos em 1760, que a usavam para catequese dos índios e que atingiu mesmo foros de língua literária, tendo sido compilada e normalizada pelos religiosos.

A língua geral de base tupi, ao que parece, deixou-nos (aos falantes do Interior paulista, sul de Minas, norte do Paraná, Goiás e Mato Grosso do Sul) um r retroflexo. Sílvia Figueiredo Brandão, em seu “Nas trilhas do -r retroflexo” (Signum, Estud. Ling., Londrina, n. 10/2, p.265-283, dez. 2007), sobre o fonema que não está presente em nenhuma outra área do português, que há um esforço dos filólogos em determinar o ponto de irradiação (São Paulo) e o meio de difusão (entradas e bandeiras) do r retroflexo. Se é algo que tem relação com os bandeirantes, o fonema tem base na língua geral, pois os bandeirantes, muitos deles falavam um português “atravessado”, sendo sua língua materna a língua geral “criada” pelos jesuítas.

O mote principal das reformas pombalinas não era a língua em si; o predomínio esperado do português era um instrumento para o objetivo maior: a unidade política e cultural do império português. Tal como se lê no famoso gramático castelhano Antonio de Nebrija, “a língua sempre foi companheira do Império”[1]. Ideia também reforçada pelos gramáticos lusos Fernão de Oliveira (1540), João de Barros (1540) e Duarte Nunes do Lião (1606)[2].

A questão da ‘imposição’ da língua portuguesa no Estado do Pará e no Estado do Maranhão[3] pela Lei do Diretório de 1757 passa primeiramente pela questão da expulsão da Companhia de Jesus de Portugal e seu império colonial. De um ponto de vista “oficial”, os jesuítas, além de não respeitarem as ordens reais prévias — deduz-se pelo parágrafo 6º da Lei de 1757 —, tampouco obedeciam à diretriz aprovada pelo concílio de Trento (1562), “[…] o qual impunha o uso do latim nas atividades litúrgicas católicas” (GOULARTE, 2007).

A missão primeva dos jesuítas era a catequese e a língua geral amazônica — por eles mesmos compilada a partir do tupi. Era mais fácil proceder à catequização com essa língua franca, o que ajudou enormemente em sua difusão mesmo entre os descendentes dos colonos portugueses.

Embora os textos consultados não façam diferenciação, a Lei do Diretório faz referências às atuais regiões Norte e Nordeste do País, cuja variante da língua geral era diferente. No Norte, a língua geral amazônica — ainda hoje falada em São Gabriel da Cachoeira/AM e uma das línguas oficiais do município — e a língua geral paulista, codialetos entre si. Além do mais “não há documentos que comprovem a extensão do Diretório a toda a Colônia, o que leva a crer que isso não tenha ocorrido” (FÀVERO, 2005).

A intenção do Marquês de Pombal era o controle temporal de vastas áreas da colônia que, por conta da administração do ensino, estavam de facto na mão da Companhia de Jesus. A substituição do ensino ministrado pela Companhia por um ensino estatal era uma arma de efetivo domínio e controle. O próprio texto da Lei deixa transparecer uma ideia de polidez e assimilação linguística:

Sempre foi máxima inalteravelmente praticada em todas as Nações, que conquistaram novos Domínios, introduzir logo nos povos conquistados o seu próprio idioma, por ser indisputável, que este é um dos meios mais eficazes para desterrar dos Povos rústicos a barbaridade dos seus antigos costumes; e ter mostrado a experiência, que ao mesmo passo, que se introduz neles o uso da Língua do Príncipe, que os conquistou, se lhes radica também o afeto, a veneração, e a obediência ao mesmo Príncipe. (PORTUGAL, 1757; art. 6º), grifos nossos.

A língua do Príncipe. Eis o “português-padrão” de então. Se bem que apoiado nos gramáticos já citados, mormente em João de Barros. O texto acusa ainda que, em vez de se proceder a introdução do idioma

[…] se praticou tanto pelo contrário, que só cuidaram os primeiros Conquistadores estabelecer nela o uso da Língua, que chamaram geral; invenção verdadeiramente abominável, e diabólica, para que privados os Índios de todos aqueles meios, que os podiam civilizar, permanecessem na rústica, e bárbara sujeição, em que até agora se conservavam. (PORTUGAL, 1757, art. 6º)

Os adjetivos que qualificam a língua geral não deixam dúvida do lugar que lhe caberá na nova organização estatal almejada pelo Marquês de Pombal. Valendo-se ainda de preceitos religiosos (antijesuítas, mas de fundo cristão), qualifica negativamente a língua geral.

A língua tem um papel primordial no novo Estado pombalino, por isso a preocupação de difundi-la, impô-la, “dar-lhe esplendor” (afinal, é a língua do Príncipe).

REFERÊNCIAS

FÁVERO, Leonor Lopes. Século XVIII – A língua portuguesa no Brasil e o discurso do poder. In: GONÇALVES, M. et al. Gramática e humanismo, vol. 1. Universidade Católica Portuguesa: Braga, 2005.

GOULARTE, Raquel da Silva. O ‘ensino’ do português para os índios do Brasil: um percurso de intenções. Anais. 16º Congresso de leitura do Brasil: Campinas, 2007. Disponível em: <http://alb.com.br/arquivo-morto/edicoes_anteriores/anais16/sem04pdf/sm04ss03_04.pdf>, acessado em 8.mai.2012

PORTUGAL. Lei do Diretório (1755, 1757). 1757. Disponível em <http://www.nacaomestica.org/diretorio_dos_indios.htm>, acessado em 8.mai.2012.

TROUCHE, Lygia Maria Gonçalves. O Marquês de Pombal e a Implantação da Língua Portuguesa no Brasil – Reflexões sobre a proposta do Diretório de 1757. Cadernos do CNLF, Série IV, no. 12 -Semiótica, Discurso, Leitura, História da Língua Portuguesa e Neurolinguística Aplicada – IV Congresso nacional de Linguística e Filologia, 2000.


[1] Apud FÁVERO, 2005, p. 317-330.

[2] Idem, ibidem.

[3] Divisões coloniais muito mais amplas que as atuais unidades homônimas; o próprio termo ‘estado’ deve ser lido não com o significado que a ele damos hoje.

211. Nascimento

Este não: é predestinado.
Vai perder a vida
por uns ingratos:
Nós.

210. Reflexão natalina

Natal é um período de reflexão; mas também cabe uma reflexão sobre o próprio Natal: o que significava e o que se tornou. Das notícias relacionadas à data publicadas por esta Tribuna*, grande parte remete-se a reclamações: o movimento do comércio não está bom; falta iluminação decorativa nas ruas.

Pergunto-me se o Natal resume-se a isso. Além, claro, da sanha consumista, do cheiro de tender, das ruas abarrotadas, das filas intermináveis, das músicas com harpa paraguaia nos alto-falantes das lojas, de esquálidos papais-noéis esvaecendo-se em suor entre os enchimentos e a tortura da roupa vermelha. Presentes que trazem apenas o entusiasmo do instante em que são abertos.

A decoração pisca sobre nossas cabeças; paira no ar um desânimo abafado e calorento de neve falsa a trinta graus. Falar em Deus ou em Jesus Cristo é visto com maus olhos pelos cépticos de plantão. Mas não custa lembrar que as decorações de Natal e os manjares à data associados não são o motivo da festa; é a comemoração que os traz como consequência.

O intuito maior é reunir a família para lembrar o porquê da confraternização; que por um segundo que seja, lembremo-nos daquele que se ofereceu em sacrifício por nós. Lembremos da família ausente, dos amigos.

Na balança dos valores, a inconsequência do excesso tem pesado mais; todo fim de ano há problemas relacionados — seja na bebida, seja na falta de precauções — que terminam em tétricos brindes nas manchetes de jornal.

Deixo a vocês, leitores, um convite à reflexão.

* * *

* Este texto foi publicado na seção Ponto de Vista do jornal Tribuna Impressa de hoje, 24/12/2011. Disponível no Araraquara.com.

209. A força das palavras

Bíblia manuscrita em latim, da Abadia de Malmesbury, Inglaterra. Fonte: Wikipedia.

Salvo engano, foi em uma já longínqua aula de Linguística que a questão foi posta: quando se nomeia algo, o nome usado passa a ser a coisa. Explico-me melhor: o nome é a coisa. Dirão que enloqueci. Não, não, de modo algum: apesar das várias tentativas, a faculdade de Letras não derreteu meu cérebro. É mais simples do que parece: está na Bíblia. No Gênese, para ser mais exato.

Está lá e é bem simples: Deus disse e a coisa se fez. Os primeiros versículos do Gênese, considero-os o primeiro tratado de Linguística. Um tratado de Linguística ante litteram e ab ovo. E tal poder evocatório da palavra remete-nos a todo um compêndio de palavras mágicas e seu poder de transformação.

Também para os muçulmanos, a declamação da shahada, uma profissão de fé, basta para que, aos olhos de Deus, o que a pronunciou seja considerado um crente. A shahada, independente da língua materna do fiel, é pronunciada em árabe, língua na qual está escrito o Alcorão.

O árabe é a língua litúrgica do Islã, independente da língua falada pela população; temos muçulmanos iranianos, que são de língua materna persa; ou os turcos, cuja língua não tem relação com o árabe, exceto por empréstimos. A língua turca passou por uma depuração nos anos 1920; o turco com excessivos empréstimos do árabe entrou para a história como turco otomano.

Mesmo o Alcorão é mantido em árabe. Suas “traduções” não são assim consideradas. Basta ver as edições em português que são impressas na Arábia Saudita, e que têm por base a tradução do Prof. Dr. Helmi Nasr, não vêm indicadas como traduções, mas como “interpretação do seu sentido em português”. Deduz-se que somente se pode ter acesso à verdade islâmica pela língua árabe.

Na Turquia, entre 1932 e 1950, o adhan — chamado feito pelos muezins do alto das mesquitas, convocando os fiéis para as preces — foi feito em turco. Sua forma árabe foi restaurada pelo primeiro-ministro Adnan Menderes. Possivelmente, os muçulmanos turcos viam naquele chamado em turco algo “pouco natural” ou incompatível com o Islã. Ou seja, a perda do poder evocatório por conta da mudança da língua.

Algo similar ocorre com o catolicismo. Até o Concílio Vaticano II, a língua litúrgica da Igreja era o latim. Usava-se na missa e reservava-se a língua local para a homilia (justo, porque é a parte dos exempla) e toda a força evocatória estava nas formulas presentes nas várias partes da homilia, que também guardavam certas entonações, similares ao canto gregoriano.

O latim ficou restrito a determinadas cerimônias e às missas rezadas pelo Sumo Pontífice; pergunto-me o porquê de uma decisão tão descabida. As orações e profissões de fé católicas ficaram esvaziadas de sentido e de força evocatória. Rezar um Pai Nosso em português não é a mesma coisa que rezá-lo em latim.

Alguns se levantarão e dirão: “então, teríamos de adotar como língua litúrgica o grego, que é a língua do Novo Testamento. A bacia oriental do Mediterrâneo era profundamente helenizada e os Evangelhos ganharam grande difusão por terem sido escritos em língua grega. Mas a Igreja, por Pedro, estabeleceu-se em Roma e adotou determinados símbolos da sociedade sobre a qual se estabeleceu, não se limitando aos pictóricos — como se vê na pictografia paleocristã —, mas encampando também a língua. O latim é a língua da liturgia católica romana e como tal deveria ser restabelecida.

Regras beneditinas, Prólogo (Excerto)

Escuta, filho, os preceitos de mestre, e inclina o ouvido do teu coração; recebe de boa vontade e executa eficazmente o conselho de um bom pai para que voltes, pelo labor de obediência, àquele de quem te afastaste pela desídia da desobediência. A ti, pois, se dirige agora a minha palavra, quem quer que sejas que, renunciando às próprias vontades, empunhas as gloriosas e poderosíssimas armas da obediência para militar sob o Cristo Senhor, verdadeiro Rei.