287. A aurora do lulomalufismo

A bênção do capo (Adriana Spaca/Brasil Photo Press/Folhapress)

Leio as colunas de Arnaldo Jabor, mas não sou exatamente aficionado por ele. Porém, aproprio-me a ideia do título de um de seus livros: pornopolítica. O radical grego porno- tem relação com pórne, prostituta na língua de Homero. Logo, basta deduzir o que pode significar pornopolítica.

A aliança entre PP e PT em São Paulo em torno da candidatura de Fernando Haddad à Prefeitura teria tudo para apenas levantar alguns ‘ohs’ de assombro em meia-dúzia de pessoas. Mas a exigência de Maluf para que o próprio Lula viesse ratificar o apoio, a associação dos nomes… é algo que causa, no mínimo, estupefação. Uma Realpolitik despudorada.

Homens com um passado todo de ofensas e sarilhos, agora se abraçam num repulsivo gesto de união política. É nesses momentos cruciais que se percebe que não há projeto de governo, ética, princípios partidários. Nada. O único projeto que existe é o projeto de poder por parte de todos e, principalmente, pela permanência indefinida do PT no poder. Será a aurora sebenta do lulomalufismo? Pode não parecer, mas as duas vertentes têm muito em comum; o que as separa são aparências.

Apesar de tudo, creio que tal ‘união maléfica’ traga ojeriza tanto a parte da militância petista quanto aos ditos malufistas históricos. O restante chafurda na alegria suja, joga fora um passado em nome das conveniências do momento.

Até mesmo a filiação de Delfim Netto ao PMDB, em 2005, fica embaçada quando comparada a essa aliança; se alguém a previsse há 20 anos, poderia ouvir que, no mesmo instante que Lula e Maluf estreitassem as mãos, um buraco negro tragaria todo o Universo. Parece que as coisas mudam; e não necessariamente para melhor.

* * *

Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 19/6/2012.

282. Bolsos insaciáveis

É quase o título de um filme pornográfico. Mas festa com dinheiro público também é um tipo de pornografia, mais refinada e, ao mesmo tempo, mais nojenta.

Depois de meses de embate, os vereadores da cidade de Araraquara reajustaram seus subsídios que, na próxima legislatura, passarão a  R$ 6.550. Um aumento de 27%.

A situação pegou fogo ontem, em uma sessão que durou 7h30. O primeiro projeto, votado já há algum tempo, queria elevar os vencimentos para cerca de R$ 8 mil, um aumento de 60% sobre o valor atualmente percebido e que englobaria a inflação dos últimos quatro anos, mais projeção de inflação (?!) para os quatro anos seguintes. Afinal, os vencimentos só podem ser reajustados para a legislatura seguinte.

Tiveram de mudar de ideia após um movimento popular chamado “Reage Araraquara” ter conseguido recolher em poucos dias 12 mil assinaturas para protocolar um projeto de lei popular. Bem mais que os 5% do eleitorado exigidos pela Constituição Federal, 8 mil eleitores no caso de Araraquara.

O mais engraçado é o jogo do direito adquirido. Parte dos vereadores fez lobby e disse que “não aceitariam” ganhar menos de R$ 7 mil, ou seja, o salário de um secretário municipal. Curioso, pois grande parte da vereança tem outras atividades e, em tese, não precisaria lançar-se sobre o erário com tanta voracidade. Mas tiveram de recuar.

Possivelmente o mais prejudicado com o desgaste político e eleitoral foi o próprio governo, coalizão PMDB-PSDB-DEM, majoritariamente. A base do governo discutiu entre si e ofendeu-se. Certamente haverá prejuízos políticos para os últimos meses da legislatura.

Em compensação, silenciosamente a oposição — majoritariamente PT — parece ter gostado da confusão toda e certamente capitalizará com o fato, uma vez que foi contra o aumento desde o início e, numa manobra de fundo populista, propôs o congelamento dos vencimentos.

Ontem, para evitar que o caldo entornasse, a conturbada sessão de ontem teve de ser paralisada por 20 minutos. Tempo suficiente para que o vereador Serginho Gonçalves (PMDB) e o membro do Reage Araraquara Marcelo Bonholi se estranhassem no corredor. “Você é um bosta!”, ouviu-se ecoar da boca do rotundo vereador.

Creio que Napeloso pode ser considerado inocente da ofensa. Afinal, ele só exteriorizou o que a classe política pensa do eleitor e cidadão. Tanto em Araraquara quanto em Brasília, os membros dessa casta — uma nobreza podre legitimada por votos comprados — deve mesmo pensar isso de nós: somos uns bostas.

Como já diria Justo Veríssimo, personagem do saudoso Chico Anysio, “Eu quero que o povo se exploda!”

* * *

E ainda haverá queda de braço entre políticos e população. Afinal, ainda não desistiram de aumentar seus ‘tronos’ de 11 assentos para 18.

208. Dos dias quentes

No céu de azul chapado
o bafio do sol quente
sobe em prumo do chão.

O calor, essa virtude;
uma penitência cintilante
de brilhos na água marinha
e areia branca.

Haja pés para correr
sobre a areia quente.
Suor, vermelhidão
e mosquitos que jamais
leram Platão
em sua efêmera vida.

207. Ontem e hoje

Antes o dinheiro valia ouro. Toda cédula era uma espécie de certificado que correspondia a certo peso em ouro que estava depositado no Banco do Brasil. De vez em quando, o Governo dizia que os dez mil-réis não valiam mais meio grama de ouro, mas a quatro décimos de grama do sonante metal; o que permitia a autoridade monetária imprimir mais dinheiro e, de certa forma, fomentar a inflação.

Hoje existe um Banco Central; não existe mais o lastro em outro e a moeda vale porque o Governo diz que assim é. As coisas pareciam mais simples antigamente, não?

* * *

Uma pessoa interessava-se em algum produto — fosse ele comida, uma peça de fazenda, fusíveis, naftalina, tanto faz. Entrava no estabelecimento comercial, quase sempre na mesma rua da casa, batia com os nós dos dedos na madeira do balcão e pedia ao imigrante dono da birosca:

— Seu Giovanni, faça-me lá o favor de dar-me um quilo de batatas e umas pedras de anil.

Bastavam essas palavras e o balbuciante lojista fornecia a mercadoria.

Sono… son due tostoni…

As duas moedas de 80 réis (ou de 100, de acordo com o período), saíam rápidas do bolso e chocavam-se ruidosas sobre o balcão.

— Aí tem, seu Giovanni. Bom dia.

Simples. Rápido. Eficiente.

Vejamos hoje como se dá o mesmo procedimento. É notório que as pequenas vendas já sumiram. Os supermercados acabaram com elas. Nosso personagem terá de pegar o carro (porque morre de preguiça de ir a pé), passar em algumas ruas de trânsito complicado, estacionar o carro, atravessar corredores entulhados de chamarizes. Até chegar às batatas, o comprador está com as mãos cheias de várias coisas. Por sorte, alguém abandonou ali, do lado das batatas, uma cesta plástica. Acho que anil ninguém mais usa… fiquemos apenas com as batatas.

Tem consigo uns seis itens. Aproveitou para pegar uma garrafa de vermute e foi para o caixa rápido, o de até 20 volumes, que de rápido tem muito pouco. Depois de desfilar por um corredor feito de gôndolas abarrotadas de salgadinhos e revistas várias — olha, a Playboy da fulana! — chega ao caixa. Descarrega a cestinha. A interação com a atendente de caixa é dramática. Observem:

— Bom dia.

— Bom dia.

— Nota fiscal paulista…?

— Sim, por favor.

— O CPF?

Diz o número do CPF.

— Não bate, senhor.

Diz de novo. Trocou algum dígito ou a moça digitou errado; passa as compras.

— Para bebida alcoólica preciso da sua data de nascimento, senhor.

Ele diz.

— São vinte e cinco reais e quarenta e nove centavos, senhor.

Isso porque ele entrara apenas para comprar batatas. O anil não há mais, como já dissemos, e saca um cartão para pagar a dívida.

— Crédito ou débito?

— Débito.

A moça passa o cartão.

— Senha.

O homem digita-a no terminal a sua frente.

— Senha incorreta, senhor… digite novamente.

Nervosamente, o homem digita. Alguns segundos de tensão e o estalo da gaveta da caixa registradora abrindo-se dá por recebido o pagamento.

O homem espera em silêncio. A resposta não tarda:

— Ah, a Prefeitura proibiu as sacolinhas de plástico; são antiecológicas. O senhor pode estar comprando a nossa sacola ecológica por quatro reais e cinquenta.

Por sorte, há umas caixas de papelão próximo. O consumidor põe tudo nas caixas, desce uma rampa com as duas mãos ocupadas com a caixa, deposita-a no porta-malas. Põe-se no carro, toma uma fechada na saída do estacionamento, quase pega um ciclista no semáforo e chega em casa com as compras. Tira-as da caixa e nota, não sem uma nesga de desespero no rosto, que esqueceu as batatas no caixa.

201. Uma das tantas faces da morte

Entre minha infância e adolescência, meu pai foi comerciante. Teve uma avícola, gênero de comércio praticamente já extinto e que não deve ser confundido com loja de avicultura. Avícola é o estabelecimento que merca carne de frango apenas, um açougue de frango, por assim dizer. Essa casa comercial de meu pai teve vários endereços; os dois primeiros bem próximos de casa; por questões de movimento, no mesmo prédio.

Na segunda locação, o salão fechava-se por dentro e saía-se dele por uma porta lateral que dava para um corredor interno. Esse corredor escuro, sim, desembocava no portão que dava para a rua. Porém, se alguém caminhasse no sentido contrário ao do portão, desembocava num angusto pátio que era o quintal de uma casa.

Nessa casa morava a irmã da proprietária do ‘condomínio’com o marido e filhos. Não era raro sair da avícola e dar de cara com alguma das crianças, sempre sujinha e cheia de crostas e assustadores olhos claros arregalados. O salão tinha ainda grande vitrôs basculantes na parede do fundo, que davam para o pátio.

Um dia, o pai da proprietária do prédio morreu — um senhor já na casa dos oitenta anos. Morava ali, com a outra filha, na casa do pátio. Fizeram o velório na sala de estar da casa.

Família grande. Por trás da porta, o rumor quase incessante de passos condoídos, gente que viera de longe quando soube da morte do patriarca, até mesmo do Nordeste.

Eu, rapazinho, sentado num banco escutava os passos, prantos abafados e comentários. Meu pai disse-me, a certa altura: “Não faça barulho… respeite a dor dos outros. Quando fecharmos a porta, vamos lá cumprimentar as pessoas e você trate de se comportar”.

Fechamos e ainda era dia, um sábado sob horário de verão. Ao invés de sairmos, fomos pelo outro lado. No pátio havia vários parentes: adultos de cenho franzido e um grupo de crianças amuadas, caladas à força. Entramos eu e meu pai na sala abafada e escura; ele à frente e eu logo atrás. As pessoas estavam dispostas em semicírculo. As mulheres choravam, os homens estavam meditabundos pelos cantos disponíveis no ambiente. Meu pai abaixava-se para cumprimentar que estava sentado e passava para o próximo. Eu fazia o mesmo, sem ter a menor consciência do que estava fazendo: apenas dirigia o olhar a pessoa e dizia-lhe “meus pêsames”. Alguns me davam a mão, outros abraçavam-me e molhavam-me com suas lágrimas e rostos banhados.

Quando terminamos de cumprimentar todos, meu pai ficou de canto e olhou para o centro da sala. O que eu confundira com u’a mesa era um caixão, apoiado em dois móveis que pareciam criados-mudos. Dentro do caixão, o velhinho que eu costumava ver tomando sol. Pálido e murcho. À sua cabeça, u’a armação de metal com um crucifixo de metal amarelado e opaco. Percebi que aos pés do morto, havia um candelabro e nele um círio. Uma das mulheres vinha com uma caixa de fósforos e deu-lhe chama. Uma luz baça tomou conta do recinto: todos pálidos; quase tão pálidos quanto o cadáver.

Ficamos mais alguns instantes. Meu pai,em silêncio. Todos em silêncio. Fora, alguns pássaros davam os últimos trinados do dia; no grupelho de crianças, alguma delas chupava o nariz. Eram menores que eu, provavelmente não tinham ideia do que estava acontecendo ali.

Eu já tinha visto a morte outras vezes. Um tio-avô, meu avô, algum vizinho. Mas sempre a morte estava isolada na segurança dos velórios, no solo sagrado dos cemitérios. Ali não: estava dentro de casa. Ao redor do caixão, além das pessoas, os móveis da casa, os bibelôs da estante, o lustre. O corpo iria embora; o resto ficaria. Como seria o depois? Uma lembrança tão pesada para um ambiente que costuma remeter a uma certa alegria…

Fomos embora e por dias não pensei em outra coisa. No dia seguinte, o carro do serviço funerário encostou e os parentes puseram o caixão no carro. Da calçada, observei o carro descer a avenida. Não voltaria mais, é claro; é sempre assim. Mas a sala, cada objeto presente naquela sala ficou marcado. Tantos anos depois e eu sou ainda capaz de descrevê-los e, possivelmente, reconhecê-los. Um elefante de cerâmica. Uma caneca esmaltada com uma figura defecando. Um porta-retratos com a fotografia de umas crianças.

Não tinha vínculo com aquela gente e nossa visita foi protocolar, por uma questão de respeito. Meu pai nunca gostou de velórios e temas ligados à morte. Fomos embora sem dizer palavra. Mas nele também havia um mal-estar, a sensação de algo fora do lugar, de uma indigestão na alma.

141. Harrie e uma escultura da praça da Sé

Reinventando algo de Cornelis Jacobus Langenhoven, de quem procuro alguma coisa em inglês para ler e não acho nada.

Andava eu pela praça da Sé, como todo dia: saía do metrô e caminhava pra o ponto de ônibus na Benjamin Constant; de súbito, percebi com maiores detalhes uma escultura que vejo todos os dias; até então via, mas não olhava. Hoje, olhei-a. E escultura é mera força de expressão: consiste a obra em grandes cacos de mármore empilhados, como se fossem restos de um grande vaso. A coisa toda tem cerca de uns três ou quatro metros de altura.

No exato momento em que olho a obra, vejo que estão pousados no cimo pelo menos uns dez pombos. Também percebo que Harrie, com seus olhos paquidérmicos desde algum canto, pergunta se eu gosto da escultura. Reflito uns instantes e respondo-lhe:

— Não sei. Talvez seja uma porcaria sem sentido… mas os pombos gostam…

133. Viajando

Estação da Luz, São Paulo/SP

Vivre, vivre
Même sans soleil, même sans été
Vivre, vivre
C’est ma dernière volonté

(Vivre/Laat me, Ramses Shaffy)

As viagens que faço são quase sempre de ônibus. E à noite. Gosto da sensação de estar fugindo; não sei de quê e nem para quê, mas gosto. Chegar ao guichê nos últimos momentos do dia civil e pedir uma poltrona no último ônibus.

Aproveito bem alguma frugal refeição em um dos restaurantes da rodoviária, u’a massa e uma cerveja long neck; ou, se não estiver lá com muita fome (sempre há a possibilidade de comer no meio do caminho, na parada que o ônibus faz), tomo uma xícara de café no café mais vazio que houver. Esse é meu critério maior: lugares vazios ou com o mínimo de gente possível. Sempre há nesses cafés os jornais do dia e, como já é fim do dia, vejo as notícias velhas como quem vê uma novidade, afinal, fiquei o dia todo preso num cubículo de paredes pintadas em tons claros e indeterminados e não sei de absolutamente nada. Vejo quem bombardeia quem, quem pressiona quem, qual agremiação política esperneia mais, o que o governo fez de ruim.

São já horas de meter-se no ônibus. Desço até as plataformas e busco a que coincide com o meu bilhete. Entrego bilhete de ônibus e de identidade ao motorista que, sem olhar na minha cara, confere os dados que eu autografei no bilhete do ônibus com o da minha identidade. “Boa viagem”. Acomodo minha única mala no bagageiro superior e sento-me no assento marcado no bilhete; preferencialmente na janela. Reclino o banco.

O ônibus sai. Invade-me novamente a deliciosa sensação de estar fugindo. O ônibus navega na avenida cheia de carros ainda, as lanternas lançam luz avermelhada para dentro do ônibus; mas logo vem o viaduto e um estranho obelisco: é o começo da estrada. A escuridão toma conta do interior do ônibus; as poucas luzes de leitura acionadas não interferem em nada. A cidade e suas neuras vão ficando longe, tanto em distância quanto em existência. Mais para frente, quando o ônibus navega entre os campos, junta-se o escuro que vem de fora; às vezes há lua, outras não. Somente o doce ronronar do ônibus faz-se ouvir, como um gatinho gentil e peludo. A simples sensação que o ônibus vara a escuridão; uma escuridão que passa pela outra, a impressão de que navega pelo mar de terra, entre campinas, montes e vales de rios.

Naquele ônibus, sou apenas mais um, sem nome, sem passado: uma ossada recoberta dos correspondentes músculos e tendões. Deixo as placas contarem-me dos lugares e marcar a quilometragem. É algo que me acalenta, é algo que, no meio da escuridão, faz com que me sinta vivo. Estranhamente vivo.

129. Manual: (I) Cidade

A largura das ruas deve ser milimetricamente ajustada para os veículos. As casas devem ter acabamento impecável e tudo deve ser bem arborizado. Gente? Muito pouca e nas calçadas; sempre. Nada de esmoleiros ou flanelinhas. A cidade perfeita deve estar isolada da cidade imperfeita – a outra dimensão e necessariamente oposta – por uma redoma de vidro seletivo. A cidade perfeita deve ser ecologicamente correta e auto-sustentável para não depender da cidade imperfeita; nem que para isso, seja criada a imperfeição controlada por meio da manipulação de idéias. E a cidade imperfeita, de formas e gente imperfeitas, que padeça na sua tortuosidade e nos escombros de ideias sob telhados de fibrocimento.

128. O recurso de autocompletar e os danos irreversíveis ao meu cérebro

A informática é de fato algo surpreendente. Digo isso recorrendo a um chavão porque não há outra maneira de dizê-lo. É fantástico: escreve-se um texto num processador de texto (como eu sempre faço com os textos do blogue: primeiro um editor de texto; não suporto escrever na maldita janelinha) e de uma digitação imprime-se quantas cópias se desejar. E melhor, com todas as revisões possíveis. O texto não lhe agradou? É só corrigi-lo, editá-lo, manipulá-lo como convier.

Porém, a informática doméstica e seus desdobramentos, como a rede, também estão transformando o meu (o nosso?) cérebro em purê. O raciocínio fica esperando o maldito autocompletar: você põe duas ou três letras do endereço na barra do navegador e veja, que gracioso: ele busca os endereços que coincidem com a combinação de letras, fantástico. E você depois não consegue guardar na cabeça meia-dúzia de endereços de sítios ou de correio eletrônico: há caches, bookmarks, agendas de e-mail. Esqueceu o endereço daquele sítio? Ora, procure no Google. O Google sabe tudo… O Word corrige seus textos, às vezes de modo inconveniente… e o seu raciocínio decresce.

Que será de nós mais adiante? Uns zumbis…

106. Sonhos número 3, 17 e 25

Tudo começou quando eu estava numa biblioteca, há uns cinco anos, quando eu estava com a minha família e alguns amigos fazendo um churrasco. Um churrasco no prédio da Biblioteca Pública do meu bairro. Daí, apareceu-me uma amiga e disse que estava grávida (puxa) de trigêmeos (caramba!) e que eram meus (intercessão da Santíssima Trindade). Findo o episódio, tive de ir fazer uma pesquisa sobre o preço dos botijões de gás; um dos depósitos que visitei era numa rua do Carrão na qual passei parte da minha adolescência. O depósito em si era numa casa cujo terreno era abaixo do nível da rua. Junto à grade, uma caneta amarrada (como nas lotéricas) para que as pessoas pudessem tomar nota dos preços. De dentro do depósito veio um cachorro horroroso, parecido com uma hiena e se pôs a bradar furiosamente por detrás da grade. Assustei-me. Havia duas pessoas comigo, funcionários de algum tipo de agência federal de energia nuclear e que, a certa altura, disseram-me para largar aquilo que íamos almoçar no restaurante da repartição. Qual não foi o meu estranhamento quando descobri que o restaurante era um anexo sobre a estação Artur Alvim do metrô. Do lado da bilheteria havia uma escada e, na ponta da escada, uma funcionária controlava a entrada das pessoas; era necessária a apresentação do crachá. Meus acompanhantes tinham esses crachás pendurados no pescoço e pareciam mais velhos cartões de biblioteca em cartolina verde.

Eu estava um pouco aflito, pois sempre tive receio de infringir as regras e, pior, ser pego na infração. Não deu outra: a mulher da escada barrou-me e tive de descer a rampa da estação, desconsolado e ofendido.

Resolvi procurar outro lugar para comer e essa caminhada me levou até um prado – onde? – que eu sabia que era para os lados de Mogi das Cruzes. Saio da trilha e embrenho-me no mato; encontro uma construção de madeira, como os estereotipados banheiros de acampamento, só que ligeiramente maior. Observo que está trancada, porém, assim que todo o cadeado corroído, ele se solta. A curiosidade me impele a abrir a porta: há uma escada de pedra, devidamente iluminada. Desço e a umidade do ar torna-se patente. A escada termina e transforma-se num longo corredor, o qual percorro não sem certo receio. O corredor termina num grande domo subterrâneo, no qual há máquinas e quatro gigantescos tubos transparentes, do tamanho do túnel do metrô que corta o espaço, surgindo e enterrando-se novamente na rocha. Alguém se aprcebe da minha presença: são operários, mas têm algo diferente, a pele excessivamente amarela. Em vez de me enxotar, recebe-me afavelmente e explica que fazia muito tempo que ninguém entrava ali. Uma multidão daqueles homens amarelos controlava máquinas que eram ligadas aos tubos imensos. O homem que me recebeu explicou-me o que eles faziam ali: davam movimento ao planeta; essa estória da rotação da Terra não era natural e sim artificial e eles eram os responsáveis por manter aquele movimento. Por dentro dos tubos, que descobri estarem cheios de líquido (mas não era água), passavam gigantescos animais que pareciam saídos de um bestiário medieval: com aspecto de batráquios, mas eram pisciformes. Eram eles que, rodando em alta rotação por aquele líquido densíssimo preso nos tubos cravados nas rochas e que circundavam todo o planeta, faziam com que o planeta girasse, criando o dia e a noite.

Enquanto meu solícito guia me explicava como os animais eram alimentadas em imensas câmaras bariátricas, soou um alarme: um dos gigantescos peixes entalara no tubo e começou a prejudicar a rotação. Se o tubo não fosse desobstruído, o dia ficaria um quarto menor. Só havia um jeito de desobstruir o túnel e eles precisavam de uma espécie de inseto (?), mas não era qualquer inseto. Assustado, ofereci-me como voluntário. Nem era tão longe, havia de ir buscá-los na Basílica de São Bento. Havia de ir lá e procurar o monge mais barbudo.

Por sorte, todo aquele complexo dispunha de um trem privado subterrâneo que parava em estações iguais às estações de metrô da linha azul, mas os letreiros estavam russo.

Chegado a São Bento, fui atrás do monge mais barbudo que era não um beneditino, mas um pope ortodoxo, com um imenso crucifixo pendurado ao pescoço por uma corrente dourada de aros grossos. Sem dizer palavra, fez sinal para que eu o acompanhasse e me levou à uma cripta sob o piso da Basílica. No meio da Basília havia um cilindro de pedra. “O que é?”; “É o sarcófago do Fernão Dias… não viu a tampa de bronze no piso, lá em cima?”. Curioso que aquela cripta era a cripta da Catedral da Sé, mas estava sob o piso da Basílica de São Bento. No fundo da cripta, num buraco retangular cortado no chão de pedra, reluzia um ataúde de madeira todo entalhado; na verdade, brilhava tenuamente no escuro, como aqueles brinquedos fosforescentes. “Vamos, me ajuda a remover a tampa”, disse o pope. Empurramos e havia ali um cadáver conservado que brilhava, a luz que do corpo emanava banhou toda a cripta que agora parecia a praça maior de uma cidade espanhola.

O cadáver estava todo ajaezado como se fosse um bispo da idade Média, cheio de paramentos, com um ceptro recurvo e uma mitra. Para espanto meu (e não do pope) o cadáver abriu os olhos e lavntou-se como se houvesse acabado de acordar. Estendeu-me uma pequena bolsa de veludo e deitou-se de novo, a luz começou lentamente a ficar mais fraca. O pope sorriu-me fez sinal para que eu abrisse a bolsa. Dentro? Baratas, umas cinco, mas não comuns: seu exoesqueleto era de marfim (puro marfim, segundo o pope) e suas patas eram de ouro (ouro puro qual esse não há!) que raspavam os cascos umas das outras e o saco. O sonho termina aqui.

102. Vinagre

Achei uns textos velhos no domingo e estou atrás de outros. Coisas que não reconheço como minhas. Estou calmo e ao mesmo tempo irritável, como é da natureza do ser humano. Odeio telefones e eles tocam o dia todo ao meu redor: são como vendedores insistentes e desagradáveis. Ao mesmo tempo, sinto-me à parte, como já dizia o Mestre, o solitário andar por entre a gente. As ladainhas ao redor, os pequenos problemas que as pessoas se criam que se tornam clamores horríssonos; é, cansei.

92. Via crucis

Provas são um massacre. Poucos discordam. Quem nunca teve u’a ameaça de síncope ou uma cagamerdeira antes de uma prova de Física no colegial? Ou da disciplina mais odiada? No meu caso era Física, dada por um professor nipônico que provavelmente já se foi desta para melhor.

Passei pelo colégio, pela faculdade; mas nada mais chato que prova de concurso público. O que de tais exames não é a sua dificuldade, mas os caminhos tortuosos que temos de percorrer para decidir sobre qual das alternativas é a mais correta. Eu vejo assim, pois, a primeiro momento, qualquer das alternativas parece-me adequada. Nunca respondo de pronto “é a D”, mas excluo as possibilidades das outras. Sempre sobra – espera-se – a resposta certa.

Hoje foi dia de enfrentar a prova para o Magistério municipal. Prestei as provas para as vagas de professor de Língua Portuguesa. Somente ontem, quando imprimi as referências do local da prova é que percebi o quão cedo teria de acordar: para a primeira prova deveria estar no portão do local às sete da manhã. Em miúdos: significa acordar às cinco e meia da manhã, mais cedo do que levanto para trabalhar, meia hora antes. E com um agravante: em pleno domingo.

Cinco e meia, no período do horário de verão, é céu escuro como se fossem três da manhã, mas em alguns instantes, os pássaros começam a anunciar o dia que ainda não pintou o céu. Dez para as seis já estava fora de casa. O bom da primavera é que ainda há aquele ar fresco da manhã, antes do dia quente. Fui para o ponto e peguei o micro-ônibus para a estação.

Quando eu era pequeno, achava que quando eu ia dormir, todos iam também. Achava que o mundo se apagava. Hoje, mesmo sabendo que se trata de uma meia verdade (porque a maioria está dormindo, mas também há muita gente acordada), espanto-me ao ver o micro-ônibus com quase todos os lugares cheios. Aonde vai essa gente? À missa? Acomodo-me num dos bancos livres e tenho de acompanhar, até a estação, a conversa fiada entre motorista e cobrador. O resto dos passageiros, para minha sorte e meu gáudio, ia num silêncio digno de igreja.

Chego na estação Tietê no horário. O local da prova é bem perto e em meia dúzia de passos, eis-me lá. Começa a primeira prova: toda balela da pedoburocracia derrama-se sobre mim. Fora a legislação municipal pedida. Afinal, que quer a Prefeitura? Um professor ou um arremedo de advogado. Há coisas que caem nessas provas que somente depois da admissão do professor é que deveriam ser passadas.

Sorte ou azar, a minha prova específica começava ao meio-dia. Quando deu nove e quinze eu já havia terminado a prova. Tinha quase três horas que não sabia como preenchê-las. Minto, sabia sim: ia ler; mas precisava estabelecer-me num local adequado.

No dia anterior, pensei em ir ao novo Parque da Juventude, construído sobre as ruínas da Casa de Detenção, que estava somente uma estação de metrô adiante. Acabei mudando de ideia muito menos por medo dos cento e onze fantasmas, mas porque se trata de um local aberto e o tempo seguia nublado.

Antes de prosseguir, telefonei para casa, avisando que tudo corria como o programado e para a minha namorada, pois, afinal, hoje era o nosso aniversário de namoro. Tudo do telefone público da estação, porque nas provas de concurso sempre implicam com os celulares e resolvi por bem, deixar o aparelho em casa.

Eu tinha livros na mochila. Dois. Peguei o metrô de volta para o Centro e desembarquei na estação São Bento, onde há, no lado oposto à Basílica, o Café Girondino. Além das várias recordações (fora ali que tomei o primeiro café com a Ju, dias antes de começarmos a namorar), o ambiente é de uma calma sem par. Tirando os dois britânicos que discutiam na mesa defronte à minha, naquele inglês Monty Python.

Café, leitura. O ônibus que pego para o trabalho todos os dias passa exatamente ali, na rua Boa Vista. Todos os dias eu vejo as janelas do Girondino que dão para o Largo de São Bento. Por um instante, achei que o ônibus passaria ali e eu, dessa vez dentro do café, me veria, num curto instante, olhando de dentro do ônibus para as janelas do café.

Como precisava estar às portas do local da prova somente às onze e meia, deliciei-me ali com um cappuccino, uma empada de camarão e palmito e uma lata de água tônica. Tinha comigo “A Ilha do Dia anterior”, do Umberto Eco, mas optei ali numa leitura nova: El pibe que arruinaba las fotos (O moleque que arruinava as fotos), do escritor argentino Hernán Casciari. Escritor esse ainda desconhecido nas plagas tupiniquins e que me fora apresentado certa feita pelo Orlando.

Estar sentado ali, no café, fez-me lembrar de quanto tempo eu não fazia aquilo sozinho. Quando estou sozinho em casa, nada me demove dos propósitos de inércia. Quantos concertos e exposições não perdi? Sempre é necessário que eu seja obrigado a sair para poder gozar de uma ocasião dessas, um amortecedor entre dois períodos de tensão, um vazio que precisava ser preenchido e acaba por mostrar-se jocoso. Pelo menos, hoje a Internet atenua essa perda e determinadas coisas (como arte, por exemplo) podem ser apreciadas virtualmente. Aliás, se não fosse a Internet eu jamais teria descoberto e me interessado por muitas coisas: língua catalã, música militar otomana, Lluís Llach… Dizem que a Internet é caminho para os pornógrafos infantis, para os hackers, e minha mãe sempre me admoesta: “Cuidado, cuidado por onde você anda!”. A Internet está aí: para o bem e para o mal. É um pardieiro de pornografia e tantas coisas, mas também permite acesso a coisas para as quais você teria de se deslocar milhares e milhares de quilômetros. Sejamos parciais!

Era hora de tirar a bunda da cadeira e voltar para fazer a segunda prova, a específica, de Língua portuguesa. Qual não foi o meu espanto, quando tive o caderno de questões na mão, ao perceber que todas (repito para que não se quedem dúvidas: todas) as questões eram baseadas nas medonhas teorias da linguagem de Mikhail Bakhtin e companhia limitada. Coisas que sempre me causaram certo asco. Onde está a gramática? Não se cobrou um único puto tópico de gramática. Só palhaçadas de canastrões e charlatães, de teorias comunicacionais, nem uma única questão que envolvesse diretamente elementos de gramática. É isso que querem construir com a nova escola: boçais. Fazer a disciplina de língua portuguesa uma cretinice sem tamanho. Nada de pensamento, somente categorias pré-prontas, como comida congelada para micro-ondas comparada a algo feito e depurado no fogo do fogão. Já disse Drummond: são tempos de fezes.

Volto para casa, quase no meio da tarde repensando todo meu pensamento em função dessa prova. Somente vem a confirmar o que já é patente: a destruição paulatina do modelo de ensino que existia em troca do duvidoso que resulta em nada. Palmas para a Secretaria da Educação (ou seria da Deseducação?) por um petardo desse tamanho. Somente burocratas imbecis familiarizados como essa caralhada toda entrará no magistério. E serão péssimos professores.

A dor de cabeça me domina. Como e vou tirar um cochilo. Nada melhor e recurso único para os momentos de angústia.

70. Ístria e Quarnerolo

Esqueci-me de enxaguar a boca com o desinfetante bucal. Acabei tomando só o café com leite; esqueci o bolo na geladeira. Tudo por causa de um morto, um morto há muito morto e que nem era destas paragens. De novo Tuone Udaina me aparece nos pensamentos difusos: reclama pelo conto sobre si que comecei a escrever e nunca terminei, nunca passando de Bartoli. Veio-me de manhã à cabeça o homem velho, decrépito, sacristão e barbeiro que, no fim da vida, quando Bartoli o conheceu, babava em quatro línguas pela sua boca sem dentes. Inclusive uma língua que morreu consigo e tem um nome vagamente canino: dálmata. É por ele que se pôde coletar as últimas informações sobre o dálmata, Bartoli fez sua monografia na Academia de Viena com base nos dados do velho barbeiro desdentado. Udaina, como todo vivente, morreu; morreu com a explosão de u’a mina instalada por um anarquista. Perderam-se o dálmata, o meu café da manhã e o enxágue dos meus dentes.

64. Cidade orgânica

Apesar de pegar metrô todos os dias na estação de Artur Alvim, dificilmente passo para o outro lado da linha. Explico-me ao leitor de fora da cidade ou que não conhece a zona Leste: a linha do metrô, paralela com aquela da CPTM, é aberta, ou seja, é metrô de superfície e, para atravessá-la, somente usando de pontes, passarelas ou pelas próprias estações de metrô que fazem o papel. A estação de Artur Alvim ajuda a ligar as duas partes do bairro divididas pela linha, uma ao norte e uma ao sul; quem vem de um dos lados, dificilmente tem o que cheirar do outro, pois entra no metrô e vai direto para o centro.

Tenho um amigo que mora do outro lado e, quando vou visitá-lo, passo pela parte norte da estação. É fácil saber de que lugar se fala. Se você estiver no metrô, sentido Corinthians-Itaquera, nas proximidades da estação de Artur Alvim a qual vou fazer menção está à esquerda, em oposição à elevação ocupada pelos prédios do Conjunto Habitacional.

Aconteceu-me de hoje, tomar uma carona oferecida por uma amiga: “Pego você na Águia de Haia”.Depois de muito tempo sem ali estar, desembarco na estação, mas, em vez de ir tomar o metrô, atravesso passarelas e mezanino e saio do lado norte. Ali é bem diferente do lado sul: há um terminal de ônibus e as coisas têm um aspecto largado. E sim, o ápice, algo novo, muito novo e muito grande na paisagem: um viaduto.

Viadutos não surgem, obviamente do nada mas eu não me lembro de tê-lo visto ser erguido, montado, de ter visto seu exoesqueleto de madeira que lhe daria a forma final. Nada. Por causa da minha indiferença à paisagem, o viaduto surgiu sem pedir licença e sujou ainda mais a paisagem já tão maltratada de Artur Alvim.

Logo a baixo, pois, para sair dos terrenos da estação, é necessário passar exatamente por baixo do viaduto, montes de lixo fora de um contêiner e as indefectíveis marcas pretas das fogueiras já feitas junto às pilastras. Mais um ponto para a degradação.
O viaduto esta lá. Não sei o que liga ao que, mas é feio, grosso, pavoroso monstro de concreto armado, esse material bastardo tão amado pelos engenheiros.

Tempos de ‘Civilization’

Sid Meier, se te pego, te quebro! Dias jogados fora. Sabe o que são dias inteiros praticamente jogados ao nada? Então, é assim que a gente fica quando joga Civilization. É que a droga do jogo é bom, hem. Talvez seja trauma não resolvido, de quem não teve videogame na época certa. Gosto dos joguitos para computador. Os bons propósitos foram para o ralo. As férias, findaram-se. Agora é volta ao trabalho e duas horas de ônibus. É tanto tempo que dá para alternar leitura, audição musical e roncadela. Não escrevi porra nenhuma, não fiz quase nada da montanha do que havia programado e agora, a vida zumbi volta. Se bem que a carga horária da faculdade diminuiu sensivelmente (metade do que foi no semestre passado) e os estágios são de vinte horas. Li algo. Li Bukowski. Não gostam dele, geralmente. Ninguém fala dele. Gostei. É porco, é gosmento, é um pouco real. Leio também uma biografia do Atatürk. É incrível que alguém tão eminente como Atatürk não tenha quase nada sobre si publicado em português; a biografia que leio, minha namorada comprou-a via internet num sebo de Porto Alegre: edição argentina, autor argentino, em castelhano. Talvez seja lobby dos armênios, por que não?