252. “Malthus”, Diogo Mainardi – A multiplicação da estupidez

Diogo Mainardi em pose assaz sombria

Quem conhece Diogo Mainardi apenas de suas ácidas crônicas da Veja, pode não imaginar que exista também um Mainardi romancista. E mais, com a qualidade literária que tanto anda em falta.

Longe das pretensas elucubrações e da vacuidade que dominam a literatura brasileira contemporânea, “Malthus” não é apenas um retrato surrealista da sociedade brasileira — algumas passagens podem mesmo evocar o humor da trupe britânica Monty Python — mas uma alegoria feita sobre a base da teoria socioeconômica do economista inglês Thomas Malthus (1766-1834), a respeito do descompasso entre crescimento populacional e produção de alimentos.

Narrando a trajetória de Loyola y Loyola — um sugestivo nome “jesuítico”—, o livro vale-se de alusões à história brasileira e tenta explicar a progressão malthusiana não apenas da população — em certa hora, o personagem é multiplicado por quarenta por seu amigo Ovas Negrão, transformado em beato com poderes mágicos — mas também da própria estupidez humana.

Um livro de leitura rápida e agradável, com prefácio de Ivan Lessa, certamente será lembrado no futuro — juntamente com seu autor — por significar algo em meio ao grande vazio cultural que vivemos.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 25/3/2012.

251. O burrinho sarnento

Obviedade. Se a burocracia se materializasse, seria um burro. Um burro sarnento. Nada contra os burros e asininos em geral, mas, pelas intrincadas veredas da língua, foram eleitos pela tradição popular como símbolo da vontade obstinada, da vontade inamovível do empacar. A sarna apenas enriquece a alegoria: é o símbolo da pestilência, da contaminação, da transmissibilidade do que é ruim.

Nas últimas semanas, vimos o burrinho sarnento trotar pelas plagas araraquarenses: a intransigência da Cohab, que, cegada pela burocracia, ameaçou de despejo um catador e sua família praticamente às vésperas da quitação do imóvel; o outro caso é do idoso de Américo Brasiliense que teve o fornecimento de energia elétrica cortado pela CPFL Paulista porque o titular da ligação — que não morava mais na casa — pediu que seu nome fosse retirado da fatura de consumo. O que apenas é entendido como ‘desligamento’ pela concessionária, simples assim. Sabe-se que a CPFL foi privatizada em 1997, mas parece que ela ainda contém vícios característicos das economias mistas e autarquias. Vícios públicos em ares privados.

A burocracia imobiliza a vida civil e a economia. Licitações que demoram uma eternidade frente à premência de problemas, como bem mostrou matéria da edição de ontem desta Tribuna sobre a vicinal que liga nossa cítrica cidade à vizinha Américo Brasiliense.

Mesmo doente, o burro marcha. Vitima. Escoiceia na escuridão justos e pecadores. Leva nos seus alforjes o papelório incompreensível de leis, decretos e regulamentos. Pasta nossa paciência.

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Artigo publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 24/3/2012.

246. Fábula, parte VI

Parte I * Parte II * Parte III * Parte IV * Parte V

VI

Quanto às indagações que a imprensa fazia sobre a biografia do novo secretário da Casa Civil, o setor de inteligência da Polícia — devidamente aparelhada com membros do partido — produziu um documento de alto sigilo. Na verdade, foram histórias aleatórias escritas por dezenas de funcionários sem que soubessem do que se tratava. Depois, de duas em duas, foram mescladas por terceiros, que não sabiam quem eram os primeiros. Depois, uma nova mescla por outras pessoas e, finalmente, três documentos foram fundidos por um computador automático. O secretário da Casa Civil recebeu das mãos da governadora um documento lacrado e explicou-lhe as condições de produção.

— Leia-o e decore. Mantenha-o no cofre do seu gabinete, o que existe no assoalho, debaixo as sua cadeira. Assim que o ler, queime-o na lareira, recolha as cinzas, macere-as e espalhe-as cada punhado em lugares diferentes.

— Perfeito…

— Argh! Que cheiro estranho que está nessa sua sala. Não me diga que as baratas vieram visitá-lo já?

Explicou à mãe a invasão da sala pelas bases do partido.

— Elas são assim. Nojentas (nem se importam com esse insulto; consideram-no, antes, um elogio). Mas ninguém governa sem elas. Basta manter as escolas com os estoques de açúcar e jornal velho e elas não incomodam. Não têm sede de poder, apenas usam de suas prerrogativas para viver em paz.

E saiu da sala.

Agora instalado no gabinete que foi de seu tutor, trancou a porta e abriu o envelope. Poucas folhas, cerca de 20. Ia começar a leitura quando sentiu baterem à porta. Enfiou rapidamente a papelada na gaveta e destravou a maçaneta.

— Pois não?

— Perdão, senhor secretário. Entrega para o senhor. É de uns amigos.

Agradeceu e pegou o pacote. Fino, chato e retangular.

— Será um livro?

Rasgou o papel e u’a moldura continua os seguintes dizeres entalhados:

“Ler o que aparecer, ver o que apetece e assinar o que convier.”

Ergueu os olhos e nos entalhes de madeira do teto, viu uma espécie de nicho que apenas era visível por quem se sentasse na cadeira ou olhasse desde a janela para aquele ponto. Pediu uma escada e ele mesmo encaixou a moldura ali, e parecia que ela fora feira exatamente para ficar ali. Ele a empurrou com as mãos até que ouviu um clique. A madeira da moldura era do mesmo tipo da do forro.

Feito aquele trabalhinho, sentou-se na cadeira e, olhando para o teto, a moldura parecia mostrar algum trecho das Escrituras no teto das igrejas. Pegou novamente a sua biografia para ler.

242. Novos trilhos

Trilho em Araraquara (foto: Willian Telles)

A Tribuna de sábado (10/3), em sua página A5, noticia, em pequena nota, a apresentação de proposta para criação de um transporte sobre trilhos administrado pela Prefeitura. A iniciativa é do vereador Elias Chediek (PMDB).

Ainda segundo a nota, a linha apresentada iria do Hortênsias ao Pinheirinho, em 11 quilômetros. Pela distância e pelo trajeto, presume-se que utilizará os trilhos que cortam a cidade, tirando deles o transporte de carga e utilizando-os para o transporte de passageiros.

Como simples observador e munícipe, faço as seguintes observações: 1) Parece que a ideia do Contorno Ferroviário é tirar os trilhos do meio da cidade, para que não haja mais divisão física, vencida somente por passagens de nível, viadutos ou passagens inferiores. Se os trilhos continuarem onde estão, a divisão permanecerá, exceto se a Administração providenciar mais viadutos ou faça com que a linha seja subterrânea em alguns pontos, o que parece inviável e altamente custoso. 2) Nosso transporte tem demanda suficiente para o transporte sobre trilhos? Pergunto isso por conta do malfadado VLT — veículo leve sobre trilhos — de Campinas, operado pela finada Fepasa sobre trilhos da extinta Estrada de Ferro Sorocabana. Entre 1990 e 1995, uma linha de 8 km, com oito estações, atendeu a um município com então 850 mil habitantes. Chegou a ser cogitada uma segunda linha, mas o sistema acabou desativado pela pouca funcionalidade que prejudicava seu uso.

Será que a solução do transporte em Araraquara passa pela modalidade ferroviária? Ou bastaria privatizar a CTA [Companhia Tróleibus Araraquara] para que fosse bem provida de meios e recursos?

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Artigo publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, de 13/3/2012.

239. Cor, gosto e raciocínio

Os três homens azuis. Não sei exatamente o que fazem; nunca os entendi

“Sobre cor e gosto, não se discute”, avisa o dito latino medieval. Basta nos lembrarmos da dificuldade que temos com certas nuanças de cor. De gosto então, basta recorrer ao lugar-comum: “cada um tem o seu”.

Se gosto é algo tão particular e variável, não pode ser argumento válido em uma discussão séria. Digo isso porque nós, brasileiros — e também a Latinidade como um todo —, nos valemos de nossos gostos — ou até um “gosto coletivo” — para desclassificar oponentes que também insistem em sustentar gostos como bandeiras.

Na faculdade de Letras, vi uma cena que ilustra bem o fato. Durante uma aula de Literatura Italiana, o professor perguntou o que cada um havia lido da Literatura peninsular antes da faculdade. Respondi que, desde pequeno, gostava de Dom Camilo, personagem de pelo menos três livros de Giovannino Guareschi. O professor cofiou o bigode e disse que Guareschi não era Literatura; porém, a expressão do rosto o traiu: não gostava simplesmente daquele autor porque a obra mostrava certo alinhamento com o pensamento da Democracia Cristã italiana e o professor gostava dos escritores mais à esquerda, como Italo Calvino e Cesare Pavese. Uma questão extraliterária.

De outra feita, presenciei uma discussão entre dois “filosofeiros”, cada um tomou partido pelo seu sábio incensado. Depois de raivosas réplicas e tréplicas, um deles simplesmente disse: “Não gosto de Herr Fulano”.

Não basta dizer “não gosto” a objeções. Não podemos ficar no “não gosto”. Há gente que diz “não gosto do partido X” como “não gosto de berinjela” ou “não gosto do Corinthians”. O pensamento não pode guiar-se por tanta irracionalidade.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 10/3/2012 e também no Araraquara.com.

238. Fábula, parte IV

Parte I * Parte II * Parte III

IV

A investidura do rapaz como suporte-mor não foi muito interessante. A governadora o fez ler um juramento de praxe. Estavam alguns membros do gabinete (não todos), uns deputados da bancada governista e alguns membros da Juventude do partido.

Estava com uma samarra de colheres e um capelo feito de copos. A minguada assembléia deliberou que ele gastasse umas palavras. Palavras de praxe que tampouco despertaram a atenção. Apenas os membros da Juventude anotavam freneticamente o que ele dizia.

Deixou o closet e foi instalado em um escritório que ocupava meio pé direito, na torre esquerda. Também teve direito a um secretário, que escolheu entre a Juventude.

Sua primeira aparição ao lado da governadora sim foi um acontecimento. Foi a recepção de um governador de outro Estado, mas do mesmo partido. Roubou a cena. Saiu nas capas dos jornais; em todas, segurava elegantemente os copos. Pediu exemplares de todos os jornais, recortou-as e colocou-as em portas-retratos em sua mesa.

Seu cotidiano pouco se alterou. Recebia as aulas-micção do secretário da Casa Civil que, para as palestras, levava um fino urinol em estilo Luís XVI e urinava veementemente.

— A Vulgata… o Patrimônio de São Pedro… o Estado Novo.

Para dormir, havia um quarto anexo ao escritório. Um cubículo em que apenas cabia uma cama em 30 graus. Não era rara a manhã em que ele acordava aninhado no ângulo formado entre a cama e a parede.

Recebia membros das Juventudes que lhe pediam favores. Uma sinecura para um irmão aleijado, um médico para a tia maluca, dinheiro para comprimidos. Granjeava. Algumas petições eram atendidas; outras estava fora do seu alcance.

No tempo livre, jogava baralho com o secretário, que lhe ensinara escopa.

*

Bons meses assim se passaram. Recepções, almoços. Sempre com os copos à mão. Esticava os lábios para beber, estalava a língua apreciava qualquer líquido que ali estivesse, mesmo que fosse urina de bode, como uma vez efetivamente foi.

Uma noite, retirou-se morto de cansaço para seu cubículo. Quase adormecia quando percebeu um incessante raspar que ia aumentando de intensidade. Milhares de coisas raspando no chão do escritório.

Abriu a porta e viu que o chão estava coalhado de baratas. Não havia onde pôr o pé; não se via o carpete. Subiam pela mesa, pelas cadeiras.

Quando saiu do pasmo e pensou em gritar por auxílio, um grupo de baratas adiantou-se e subiu na parede. Organizaram-se. Começaram a escrever uma mensagem na parece, usando seus corpos achatados e marrom para formar letras e logo palavras.

“Somos o Comitê de Base do Partido. Ninguém governa sem nós. Hoje somos deste partido; amanhã, seremos do partido que estiver no poder. Mesmo assim, sabemos que o partido começa um período longo de domínio. Quarenta, cinquenta anos. Fazemos parte desse projeto; fazemos parte de todos os projetos de poder. Somos cérebro, somos resistentes. Somos muito mais do que você pode imaginar.”

As baratas haviam liberado uma cadeira para que o rapaz se sentasse. Ele permanecia mudo, apenas lendo as mensagens que se formavam na parede. A casa mudança de texto, um sapatear ensurdecedor.

“Viemos aqui pare selar um pacto com você. Dominamos não apenas o partido, mas também a Assembleia. Nenhum secretário faz nada sem nossa anuência. Somos a revolução que entra por baixo das portas das pessoas. Sabemos tudo, temos agentes em todas as casas do Estado; de todas as casas da república. Nós somos a república e lei, meu jovem, e, para governar, terá de compactuar conosco.”

O rapaz saiu do pasmo.

— Muito bem. Entendi o que vocês são e o que querem. E como podemos tratar tudo isso?

As patas pretas começaram a agitar-se sobre a parede novamente.

“Não nos procure. Escute bem os conselhos dos secretários da governadora. São nossos porta-vozes. Lembre-se que os impérios regem-se sempre pela tirania. Nós somos essa tirania. E não se esqueça de manter as escolas sempre abastecidas com açúcar e jornal velho; é lá que nos alimentamos e doutrinamos a população.”

Findada a última palavra, as dezenas de milhares de baratas saíram rapidamente da sala em tropel. Um cheiro seco empestava o ar. Voltou para o cubículo e tentou pegar no sono. Dormiu mal. Todo o sono estava povoado por baratas de cartola de dançavam e faziam exigências cantando. Acordou suado. O cheiro seco da sala penetrara também no cubículo.

237. Oficializando o vermelho

Bandeira desenhada por Jean-Baptiste Debret

O assunto é amplamente desconhecido, mas não é novo. Típico das benesses promovidas pelas agências de fomento de pós-graduação (Fapesp, CNPq et al.) que promovem todo tipo de maluquice “inédita” com dinheiro público.

O jornalista Ricardo Seyssel, em sua dissertação de mestrado na área de Artes, defende um redesenho da bandeira do Brasil. Entre os motivos da mudança estão:

 1) a configuração da bandeira torna difícil sua reprodução; logo, a simplificação do desenho a facilitaria, já que, segundo o Inmetro, nenhum dos fabricantes de bandeira acerta nas proporções. O famoso e já institucional “nivelar por baixo”: se é difícil, vamos simplificar. Fico pensando em países cujas bandeiras são infinitamente mais difíceis que a nossa, como as que têm algum escudo d’armas, por exemplo, ou mesmo algumas que têm reproduções da bandeira britânica no canto superior direito (notoriamente Austrália e Nova Zelândia). A questão da dificuldade é relativa; ao meu ver, não se sustenta;

2) a ilegibilidade do lema que, segundo outro “especialista” — um designer — está disposto errado. E ainda há o pecado supremo de — oh! — ser “circunspecto a uma ideologia que está no passado”, ou seja, o positivismo. Como se a bandeira tivesse de ser atualizada a cada dez anos. Perdão, mas será que os ingleses querem livrar-se do “Mon Dieu et mon Droit”? Ou os holandeses do “Je maintiendrai”?

3) Ainda segundo o designer entrevistado para o trabalho, a faixa curvada para baixo configura um erro e “transmite uma sensação negativa”. Talvez o especialista tenha em mente um “smile”.

Segundo essa análise, o problema todo está na esfera azul que substituiu o pavilhão imperial na bandeira desenhada por Jean-Baptiste Debret (1768-1848). A solução de Seyssel é substituir a esfera por outra, vermelha sólida, “que seria uma referência à cor do tronco e da florada do pau-brasil”.

Ainda no texto de Tânia Ribeiro — no qual me baseei para escrever o presente texto —, “Analisando a influência da concepção visual sobre quem capta um determinado signo, o pesquisador conclui que, quanto mais representativa do lugar do qual se faz símbolo, mais reconhecida e respeitada é uma bandeira”.

Não seria o contrário? Um símbolo nacional passa a fazer parte do imaginário de uma nacionalidade. Não é simplesmente tão natural quanto um trevo que brota do chão. E representativo por representativo, algo poder ser representativo para um e para outra pessoa, não.

Tenho minhas dúvidas se a bandeira nacional deva ser objeto de alterações. Está muito presente no imaginário; verde e amarelo — Bragança e Habsburgo — são notoriamente as cores nacionais.

O trabalho de Seyssel é de 2006. A inclusão do vermelho, além de dar um ar “nipônico” à bandeira — lembraria muito aquelas horrendas fusões de bandeiras — é uma cor que tem um forte apelo partidístico. Acredito que, apesar dos “especialistas”, a maioria da população opor-se-ia a tais mudanças.

Logo no início da República, no afã de querer livrar-se das cores dinásticas, houve vários projetos — alguns realmente pavorosos — e nenhum vingou.

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Texto original acerca do tema.

236. Quixotismo institucional

Dom Quixote em seus delírios pela pena mestra de Gustave Doré

A polêmica criada pelo Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) com a publicidade do azeite Gallo é, no mínimo, ridícula e despropositada. A leitura nas entrelinhas feita pela ONG ultrapassa o bom senso e, das leituras possíveis, escolhe apenas uma. É tão ridícula que o coordenador nacional da União de Negros pela Igualdade (Unegro), Jerônimo Silva Júnior, em declaração ao Jornal do Brasil, identificou apenas humor e viu ali o mais acertado: no slogan, lê-se “O nosso azeite é rico, o vidro escuro é o segurança”; basta lembrar do fato que os seguranças sempre estão em trajes escuros.

Outra estupidez crassa fica por conta do Ministério Público Federal em Uberlândia/MG, que quer tirar de circulação do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa por conta das acepções no campo semântico de cigano (cigano, ciganaria, ciganagem). Cabe afirmar duas coisas: primeiro, que não se muda o idioma a canetadas. Se existe o registro no dicionário é porque há — ou houve — o uso daquela palavra naquela chave de leitura. Qualquer alteração nesse sentido não passa de censura branca do politicamente correto ou criação de novilíngua (lembrem-se de “1984”).  Segundo, o dicionário registra as acepções “ofensivas” com a rubrica pejorativo. Ao que parece, no MPF ignora-se a função dos dicionários, pois veem monstros onde apenas há moinhos de vento.

Parece que os verbetes ‘condenados’ estão indisponíveis na versão on-line do dicionário. Espero que nenhum funcionário do MPF apareça-me em casa com uma liminar para levar a página do dicionário em que consta ‘cigano’.

Em suma, falsas polêmicas.

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Artigo publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 8/3/2012. Também no Araraquara.com.

233. Fábula, parte II

Parte I aqui.

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II

Acordava e ficava no banheiro do gabinete do secretário da Casa Civil, transformado em sala de estudos. Sempre que ia urinar, o secretário perguntava como estavam os estudos. O rapaz estava sempre às voltas com grandes filósofos e grandes teóricos da economia. O banheiro de estudos não tinha janela e o secretário, por conta da idade, tinha uma péssima mira, o que enchia o chão de poças de urina, quando não respingavam sobre o rapaz.

A cada micção, o secretário palestrava sobre um tema:

— A invasão holandesa…! Grande Maurício de Nassau!

Vários temas.

— O fuzilamento do imperador Maximiliano… Salazar… o plebiscito de 1946… a fundação da União Sul-Africana… Vida e obra de Johann Sebastian Bach… Mem de Sá… a proclamação da República.

O rapaz ficou meses lendo dentro do banheiro. Leu de tudo. Do pouco utilizado código do partido a Marx. Gramsci. Aprendeu rudimentos de inglês. Conhecimentos necessários para construir seu novo passado. No meio de uma de suas leituras, teve a impressão que jamais saíra daquele banheiro. Toda sua vida pregressa, a miséria, o porre de dias pelo meio do mato e sua companheira desdentada pareciam estórias, contos perversos. Sentia-se um novo homem; estava pronto ao papel que a vida lhe destinara. Sentia a mão de Deus.

Em uma agradável tertúlia filosófica no balcão do gabinete — era a primeira vez que o secretário concedia-lhe tal honraria — comunicou suas impressões ao tutor, que ficou radiante de contentamento.

— Ah, mas que rapaz! Fantástico! Tão logo possível, o inscreveremos para receber uma comenda.

Providenciou-se sua ida a um meeting do partido. Na sala abafada da sede da agremiação, cerca de cem jovens falavam de moral, de tradição, de justiça social. Após algumas deliberações da mesa, o rapaz pediu a palavra. Os membros da mesa já estavam devidamente azeitados por verbas vindas do estado e permitiram a alocução do novato.

— Amigos. Camaradas. Companheiros. Nós, da juventude do partido, não podemos permitir que a oposição nos ultraje como tem feito não apenas na assembleia do Estado, mas também no parlamento federal. Urge que tomemos providências. Eles ficaram oito anos no governo e não fizeram nada pelo povo. Nós, em quatro, quanto não fizemos? Nossos programas de transferência de renda… idealizados pela nossa governadora, luminar da ciência política. Eles querem desmontá-los para, novamente, ter a população amedrontada, qual malta de famintos e esfarrapados. Precisamos fazer com que eles entendam o recado, que nos deixem trabalhar! Precisamos de maiores prerrogativas legais que nos permitam ampliar nosso auxilio aos desvalidos. É obrigação do poder público garantir as condições de subsistência da população… nem que para isso tenhamos de revolucionar a sociedade, fazê-la entender que o direito dos povos não pode ser limitado por meros garranchos no papel, traçados por legisladores elitistas e opressores. O poder emana do povo, por isso, temos de assim fazê-lo, sem que seja a ferro e fogo! Devemos torná-lo efetivo… verdade efetiva!

Não conseguiu prosseguir por conta da violenta ovação que se seguiu. Rapidamente o convidaram para a mesa e, ao fim de três reuniões e outras tantas falas vigorosas, foi eleito secretário-geral das Juventudes do Partido.

No mesmo compasso da sua primeira eleição, foi transferido do banheiro do secretário da Casa Civil para o closet da governadora, onde podia manter uma pequena estante com obras de sua predileção, devidamente autorizadas e editadas ad usum Delphini por seu tutor. Também lhe fora conferida liberdade para circular pela sala quando não havia visitas, audiência ou reuniões.

— Estou orgulhosa de você, meu filho.

— Obrigado, Excelência.

— Tenho ainda dois anos de governo. Você começará a aparecer mais comigo, em funções públicas.

Não pôde deixar de estremecer um pouco. Uma coisa eram as Juventudes, ânimos moles como manteiga, moldáveis, açucarados; nos quais era fácil infundir explosões controladas. Outra era pôr-se diante dos vingativos deuses políticos, das raposas velhas da oposição, dos monstros dos subterrâneos do parlamento, que organizavam a política estadual sem pôr o nariz para fora de suas salas, apenas com o poder do nome e um arquejar de sobrancelhas.

A governadora sentiu o receio no silêncio.

— Não se preocupe. É uma função meramente decorativa e você sempre estará assessorado. Ou por mim mesma, ou pelo secretário da Casa Civil. Você será suporte-geral. Estará ao meu lado nas reuniões, coletivas, meetings, comícios…

— Mas, Excelência… o que suporta exatamente o suporte-geral…?

— Não se preocupe. Antes da sua nomeação você fará um estágio com o Giacomo, do Cerimonial. Ele vai lhe ensinar todo o necessário.

— Certo. E onde eu o encontro?

— Em lugar algum.

A conversa acabou ali. A governadora retirou-se e o rapaz foi dormir no closet. Além da história do tal Giacomo, atrapalhava-lhe o sono um estranho e tênue brilho que ele percebeu sair de um dos livros na estante. Pegou-o no escuro e conseguiu identificar que era “O Príncipe”, o tratado político de Nicolau Maquiavel.

232. Fábula, parte I

I

Foi numa tarde quente em que o ar-condicionado estava quebrado que a governadora solteirona teve uma ideia para sua sucessão. Saiu do gabinete e pediu que o motorista a levasse a uma favela na borda da capital, Vila Maquiavel.

Desceu do carro sozinha e caminhou até a frente da última casa da rua. Bateu no portão feito de latas de óleo abertas e amarradas umas às outras. Um rapaz macilento e com olheiras abriu o portão, espantado em ver aquela mulher de tailleur. Não devia ter mais de 20 anos.

— Filho!

— Eu não tenho mãe.

— Tem sim, sou eu.

— Não, a senhora não pode ser a minha mãe. Minha mãe não me deixaria na penúria em que estou ou, pelo menos, estaria aqui comigo… ou estaríamos em outro lugar.

— Eu sou sua mãe. Posso provar.

O rapaz olhou para a mulher não sem certa ressalva.

— Vamos lá.

— Quando eu era jovem, fiz muitas burradas antes de me tornar uma mulher com um pouco mais de cérebro. Uma delas foi ter deitado com um porco…

— Verdade, tem cada homem que é…

— Não, não. Um porco efetivamente.

— A senhora só pode estar brincando! Vamos, deixe-me curtir a miséria em paz! — e tentou fechar o portão. A governadora pôs o pé e impediu.

— Deixe-me acabar, dizer o que vim lhe dizer e, depois, você tire suas conclusões.

O rapaz aquiesceu com um gesto e um ruído.

— Muito bem. Deitei-me com o porco… por conta de uma aposta. Perdi. Apostei com amigas que conseguia beber mais doses de tequila que elas sem vomitar. Perdi. Mas uma delas perdeu o fígado aos poucos, com uma cirrose, ao longo de dolorosos anos.

— Sim… e onde eu entro?

— O pior aconteceu. Fora as escoriações de ter sido montada pelo cachaço a mão esquerda perfurada por um casco, engravidei do porco.

O rapaz tinha os olhos incrédulos e indignados. A governadora continuou.

— Escondi a gravidez até o terceiro mês, mas logo ficou óbvia. Meu pai, pastor de um ramo muito conservador do protestantismo, me fez tirar o feto. Mas tive ajuda de uma turma do laboratório da universidade onde eu estudava. Eles tinham um projeto que consistia em desenvolver os fetos em grandes potes de vidro, alimentando-os por sondas que atravessavam as tampas e faziam as vezes de cordão umbilical. Fui operada e, em vez de abortar, doei o feto àquele grupo de pesquisa. O meu filho, depois de se desenvolver no pote por seis meses, foi criado na creche de funcionários da universidade. De dia, brincava com as outras crianças e, à noite, ia dormir no laboratório, dentro do armário em que guardavam os animais em formol.

“Tempos depois, quando meu pai morreu e meu filho estava com quatro anos, fui resgatá-lo da creche e que surpresa quando descobri que há uma semana ele não aparecia para brincar. Procuramos por toda parte eu e a turma do laboratório. Interditamos o campus, procuramos no diretório dos estudantes entre os hippies que fumavam maconha, nas cátedras das múmias falantes e nada. Meu filho havia desaparecido.

— Muito bem — disse o rapaz após prestar atenção à história toda —, e onde eu entro nisso? Moro na rua desde que me entendo por gente e nunca tive mãe.

— Olhe para mim, rapaz. Não pareço familiar?

— A senhora me é familiar… mas não consigo lembrar de onde.

— Sou governadora do estado.

— Ah! É por culpa sua que estamos nessa situação então. Obras incompletas, desemprego galopante. Sabe quanto tempo estou desempregado? Desde que tenho idade para trabalhar! Vivo recolhendo pedaços e lata e esperando que caminhões com comida tombem na rodovia. Da última vez, foi um caminhão de cerveja. Bebi feito um louco e vaguei bêbado por três dias no meio da mata… acordei num riacho, todo lanhado e com feridas…

— Pois bem. Isso vai acabar. Venha comigo, quero fazer de você meu sucessor…

— Mas eu tenho a minha mulher aqui…

— Deixe-a aí, não vai mais precisar dela.

Pensou um pouco. A moça havia aparecido após o episódio da cerveja e disse estar grávida dele. No final, viu-se que era apenas um caso agudo de obstrução intestinal. Não a punha para fora de casa por dó. A ela, faltavam-lhe dois dentes da frente e tampouco era muito de banho.

— Prefeito. Eu vou.

Entrou no carro com a mãe e foram embora. O filho ainda teve tempo de ver a moça sair pelo portão e gesticular loucamente, em sinal de graves imprecações.

— Não se preocupe. — Limitou-se a dizer a governadora.

Chegaram ao palácio e a mandatária colocou o filho na mão das empregadas:

— Deem um banho nele e ponham-lhe roupas boas. No armário do secretário da Casa Civil tem uns ternos italianos que o secretário não usa mais.

As empregadas, sete, levaram o filho para o porão onde, numa tina, prepararam-lhe um banho. Ficaram intrigadas com duas coisas: os pelos do peito, axilas, pernas e púbis eram rígidos e, em algumas áreas, mudavam de cor entre o branco e o castanho. Também se impressionaram com o tamanho do pênis do rapaz.

— Tonha, você viu aquilo? Deve ter uns 35 centímetros duro…

— Eu vi. Fique quieta. Talvez ele fique aqui conosco. Sabe Deus porque a governadora o trouxe para cá. Se ficar conosco, pedimos um decreto de tombamento e ele será nosso…

Deram-lhe banho e vestiram-lhe. Parecia menos macilento já. Deram-lhe de comer coisas que ele nunca vira: lagostas, canapés, caviar e vinho do Porto. Tomou três garrafas e foi dormir no sofá da famulagem. Acordou acossado por empurrões, era a governadora-mãe.

— Está pronto, meu filho?

Levantou-se e seguiu a mãe por vários corredores escuros e abafados.

— As luzes estão apagadas porque corremos riscos de apagão. Venderam muitos eletrodomésticos para os pobres. Não podem ter dinheiro ou algo que pareça dinheiro nas mãos que se entopem de eletrodomésticos. Até mesmo ar-condicionado!

Batentes de madeira escura. Tapetes vermelhos com detalhes em amarelo. Pequenos aparadores com flores frescas. E os corredores não acabavam.

Finalmente um longo fio de luz. Entraram numa sala: uma grande mesa oval à beira da qual havia vários senhores em bons ternos. À entrada da governadora, levantaram-se. O mais velho da mesa, com ares de burocrata alçou a voz:

— E esse, Excelência, quem é?

— Meu filho e sucessor, senhor Rodrigues.

— Mas como se a senhora sequer é casada. Que filho?

Sem um pingo de constrangimento, a governadora contou a história de ter deitado com um porco na juventude. Todos aqueles senhores, agora sentados, ficaram lívidos. Ao fim do pronunciamento, o Sr. Rodrigues atalhou.

— Todos fazemos das nossas. Quando jovem, na faculdade de Veterinária, deixei-me sodomizar por uma iguana. Ela entrou inteira; o ruim foi que ela morreu lá dentro. Até hoje tenho escamas cravadas na parede do intestino.

— No sítio em que nasci — emendou o secretário de Obras Públicas — enrabávamos as cabras.

E a reunião prosseguiu num tom cordial e amigável, promovido pelo uísque, em que aqueles homens públicos fizeram público seu passado bestial.

— Deitei com todas as minhas primas! — disse o secretário de Recursos Hídricos — Até com a mais feia, que parecia uma fuinha assustada.

Até que foram cortados pela governadora.

— Mas eu quero apresentar meu filho e sucessor: ele.

Fez com que o filho andasse pela sala. Ele estava um pouco vacilante. Estava calor e as costuras do terno pinicavam. O ar-condicionado estava quebrado. Deu umas voltas. Ensaiou um sorriso tímido e, quando a mãe fez sinal, sentou na cabeceira oposta da mesa.

— O partido jamais o aceitará. — Sentenciou o secretário de Transportes.

— Ele não tem o porte adequado. — Disse o secretário de Finanças.

— Calma, senhores. — Pediu a governadora. — É uma questão de tempo. Óbvio que se eu chego agora e o mostro como sucessor, seria uma sandice. Primeiro, filiei-o ao partido. Já fiz isso enquanto ele dormia. Depois, ele vai militar um pouco, galgar alguns degraus com a nossa ajuda e, para tal, fica nomeado o secretário da Casa Civil como tutor do meu filho.

— É com muito prazer que aceito, Excelência.

Assim, o rapaz dormia num quartinho, nos anexos do palácio destinados à famulagem. Dividia o sono como esfregões e baldes. Não raramente, a parte feminina da criadagem ia vê-lo dormir e observar o volume sob as calças do pijama.

231. Letávia, partes III e IV

Um vilarejo

Os textos são de 2005. Creio ter escrito também as partes I e II, mas não me lembro onde estão. Com algumas emendas, são textos que estavam publicados em um dos meus velhos blogues, o Machadada.

* * *

III

Verão em Belavoda. Oito mil seiscentos e trinta e sete habitantes, segundo o último censo, o de 1938. Oito mil seiscentos e trinta e sete habitantes afogados em calor; mesmo em plena Europa, àquelas latitudes, o vale onde se localiza Belavoda — e praticamente toda Letávia — é um lugar particularmente quente. Os meteorologistas não sabem bem explicar o fenômeno, a hipertérmica estiva de Belavoda tem explicações tanto díspares quanto absurdas. Um certo prof. Plewnovicz chegou ao disparate de afirmar que certa espécie de peixe do Tjevá, o bylnje czjórnje ou simplesmente bylnje, — tão apreciado pela população, assado com batatas —, que esse delicioso peixe ósseo clupeiforme, Opisthonema letavica, abundante no Tjevá era o responsável pelo aquecimento do microclima em Belavoda. Tão abundante, que seu preço, para quem o comprava por preguiça de ir pescá-lo, nunca ultrapassava 3 coroas e meia. Segundo a teoria do prof. Plewnovicz, a bexiga natatória do petisco aquático — petisco, visto que é um peixe que não muito grande, oscilando entre 3 e 5 centímetros — produziria excessivo dióxido de carbono, justo no verão, o que, agravado pelo calor e pela topografia do sítio belavodense, produzia calor que ficava estacionado pela ausência de ventos no interior do vale, protegido pelos espigões-mestres das duas cadeias de montanhas que o delimitam.

O artigo, intitulado “O seu jantar o futuro da Letávia”, publicado em fins de 1937 no Nasza Zemljá, jornal oficial do Governo Nacional Oclocrático, causou certa incredulidade no meio científico letavo, porém, tendo sido publicado no jornal oficial, o povo assustou-se. O pobre bylnje czórnje foi banido dos cardápios dos restaurantes; um decreto aprovado pela Dieta declarou-o «inimigo do povo e da Pátria». Outro decreto, alguns dias depois, agraciou com o título de piscis non grato. Criou-se uma espontânea Brigada de Proteção Fluvial, conduzida pessoalmente por Beznjakovicz, que foi aclamado seu secretário-geral; a Brigada deu cabo de milhares de peixes a golpes de bastão nas enseadas do Tjevá próximas a Belavoda. Pouco antes do Natal, auge do cálido inverno, vidros de conserva de bylnje foram quebrados na Praça Czernoczékow por uma multidão enfurecida. No ano-novo de 1938, o Nasza Zemljá, publicou “Livres do flagelo, nosso próximo verão será europeu”. Em julho, mais especificamente em 16 de julho, a temperatura alcançou os insuportáveis 36,5 graus. Os peixes quase desapareceram, porém, o calor veio ainda mais forte. O prof. Plewnovicz foi chamado a dar explicações. Sumira. Ninguém o achava. Descobriu-se que ele havia saído clandestinamente do país cerca de um mês antes — talvez pressentindo o fracasso da sua teoria — com destino à França.

As conservas reapareceram nos mercados, os peixes in natura voltaram para as feiras, bem mais caro, é verdade, umas 60 coroas a libra. A Brigada, do mesmo modo que apareceu, sumiu. Igualmente os decretos sumiram-se da legislação. Ninguém perguntou nada, ninguém respondeu nada. A base alimentícia mudou do bylnje para as perszebálnyje, ou a popular couve-de-bruxelas, depois de uma campanha governamental em prol dos vegetais, tão adaptados ao clima da várzea. Na Praça Czernoczékow foi posto um tabelão: uma pintura representante um Beznjakovicz sorridente, sentado, com guardanapo amarrado ao pescoço, tendo diante de si, um prato fumegante de perszebálnyje cozidas na manteiga. Embaixo dessa bela figuração, um belo lema: “nossos repolhos não fedem”. Logo depois, emitiu-se uma série de selos postais, com as plantas em vários estágios — semente, broto, planta formada, colheita, preparação e um prato pronto, assadas — nos valores de 1, 5, 10, 30, 75 térty e 1 coroa. Fora a moeda comemorativa de 1 coroa e meia.

Passados os peixes, outra teoria que se levantou foram as fricções da placa da Letávia — a placa tectônica elíptica enquistada no meio da Euro-Asiática, tendo 62 quilômetros de raio, a menor do mundo — com a Euro-Asiática. O calor viria de emissões de gases das falhas, por conta do movimento da Terra, principalmente no verão, e as ondas de gás e calor, pelo acidente geográfico, confluíam para o centro do disco, justamente a área de Belavoda. Essa teoria é a mais aceita, inclusive pela Academia de Ciências da Letávia.

Tendo sido apresentado um relatório ao Supremo Condutor, este determinou ao Ministro de Obras Públicas, o camarada Ián Ljebánjovicz Antáll que se concretasse toda a área das falhas. A colossal obra consumiu centenas de milhares de metros cúbicos de concreto; toda a área das falhas ficou com aspecto semelhante a uma represa; isso já no limiar da guerra, ou seja, no fim do inverno de 1939. O verão de 1940 está sendo igualmente quente. A temperatura confirma a vocação de balneário de Belavoda, isso se a Letávia tivesse mar; mas é mediterrânea.

IV

Rua da Avícola, próximo à Praça Czernoczékow; paralelo à praça, duas quadras para cima. Ali há uma agência bancária, a Agência Matriz do Banco Popular e Nacional — Naradnaja i Gassudrastvénnaja Banka, mais conhecido pela abreviação Nagoban —; banco estatal para diversas coisas: fomento à agricultura, empréstimos pessoais para pequenos negócios, para compra de armas — já que a legislação «nacional e oclocrática» permite ao cidadão letavo possuir armas desde que pertença a uma das seis milícias nacionais voluntárias —, e algumas outras coisas. Mas a maior e excelsa função desse banco era a concessão de fundos espontâneos para os parlamentares, assessores de ministros, ministros, pessoas fidedignas e digníssimas indicadas por outras igualmente excelsas e desconhecidas, mas muito poderosas e generosas.

No térreo do prédio da Rua da Avícola, o interior da agência era escuro; móveis e gradis de madeira escura, o odor predominante era da madeira. Logo na entrada, umas mesas e por detrás do gradil algumas outras, destinadas aos supervisores e no fundo, o gabinete do gerente e a porta da Tesouraria; num canto, dois elevadores para acessar os seis andares do colosso de tijolos, inclusive o Departamento de Emissão, responsável pela emissão das coroas letavas e também o gabinete do Presidente do Banco, que é indicação do Ministro das Finanças.

Além da Agência Matriz, o grande Banco possuía outras sete: uma no bairro belavodense de Czétiry Dómoj, outra, já no último distrito da cidade antes da área rural, o de Tjevánnaja; e mais quatro em quatro cidades letavas: Njemántsk, Brátska, Narádna e Czernavoda. Trabalhar na Matriz, na Capital, era a vontade suprema de todos os funcionários alocados fora no interior, sonho de realização pessoal. «A vida está na capital», disse certa vez um auxiliar de escrita, «aqui em Brátska, em meio aos porcos desses camponeses imundos, o que se pode esperar? Só vêm fazer empréstimos para que os porcos não lhes morram de fome. Outro dia, um suinocultor de Bela Bystrica, ali, um distritinho rural da cidade, veio pagar-me a parcela do empréstimo, coisa de umas 200 ou 250 coroas, em linguiças. Eram uns vinte quilos. Eu não podia aceitar o pagamento: “senhor, não temos cofre refrigerado”, argumentei, “fora que pagamento em gêneros, somente com autorização da Matriz”. É, aquela droga daquele decreto, droga não, perdão; aquele infeliz decreto sancionado pela Dieta, que permite que os agricultores e criadores paguem suas dívidas em gêneros. O resultado foi que homem saiu emburradíssimo, pois eu lhe disse que precisava de autorização da Matriz e que demorava uns dois, três dias. “Até lá toda essa linguiça vai estragar!” rebateu o homem exasperado, “eu não tenho geladeira!”. Eu, Dima e Andrei fizemos uma vaquinha e compramos as linguiças, pois o homem começou a espumar de raiva e disse que nos ia denunciar como traidores, falar que nós não tínhamos feito a tropa; o que é facilmente desmentido por documentos, os nossos, mas até conseguirmos fazê-lo, seríamos exonerados e exonerariam as nossas cabeças dos nossos corpos; então nós três compramos todos aqueles quilos de linguiças do camponês; e como toda comida da região da Falha Norte, extremamente apimentada; fiquei dias, quase duas semanas comendo linguiça e chorando à mesa por causa da pimenta; não aguento mais, por isso pedi transferência para Belavoda, para qualquer uma das três, Matriz ou as de bairro. A campanha me enoja!».

Havia ainda um sonho maior ainda, a agência no exterior, em Bautzen, na Alemanha.

230. O diabo mora na tipografia

Teclado de linotipo

Por Roberto Gomes

Revisar textos é tarefa inglória (editar também, mas isto fica para outra ocasião). Por mais neuróticos compulsivos que sejam os revisores, já sabemos de antemão que algo escapará, algum descuido mais ou menos grave ficará para sempre impresso numa página tantas vezes vista e revista. O Fernando Sabino fala disto numa crônica antiga, lembrando um ditado que circula desde Gutenberg pelas oficinas gráficas e que ainda hoje se insinua nos ambientes informatizados: “o diabo mora na tipografia”.

Desde que me meti nisto de editar livros, sou perseguido, no entanto, por uma sina particular. O livro pronto, chegado da gráfica, é retirado do pacote. É um prazer insuperável. O cheiro de livro recém-saído da gráfica só é comparável ao do pão recém-saído do forno. Uma delícia. Depois de conferir capa, contracapa, folhear rapidamente as páginas, de colocar o livro sobre uma mesa ou numa prateleira para ver o efeito, chega o momento crucial: abrir o livro.

É quando entro em pânico. A sina que me persegue é a seguinte: sei que vou abrir aquele livro exatamente numa página que contém um erro, não raro o único erro de todo o livro. Numa editora que dirigi, os funcionários me traziam os livros recém-editados com o coração aos pulos (coração de revisor é muito sensível, como se sabe). Estavam convencidos de que eu abriria numa página com algum erro de revisão. E não dava outra: lá estava a vírgula fora do lugar, o ponto duplicado, o parêntesis que não foi fechado, o travessão inesperado, o s no lugar de um z. Recentemente, abri um livro que editei na página que havia um “ehos” no lugar de um óbvio “ethos”. Como passou despercebido? Impossível. No entanto, lá está o erro não visto,que agora nos salta aos olhos como se fosse um holofote. Brilha para todos os lados, ocupa todo o espaço da mancha impressa, ri de nossos cuidados.

Certa ocasião, eu lia um livro sobre editoração quando, lá pelas tantas, o autor dizia que um livro merece ser editado com máximo cuidado e, portanto, não pode conter nenhum erro. Fiquei chocado com esta afirmação temerária. Não se deve escrever tal coisa, ao menos num livro, pensei. Bom, duas páginas adiante, lá estava o erro: todos os números de página eram impressos em vermelho, menos naquela, onde saiu em preto. Pronto. O diabo, como sempre, dera uma voltinha pela tipografia.

É um problema que merece reflexão. Deve haver, por alguma razão, em algum lugar do cosmos, uma conspiração das letras, das máquinas, das palavras, quem sabe obra de algum espírito brincalhão que se mete entre as páginas. Talvez circulem no mundo palavras em demasia, livros em excesso, páginas redundantes. Os deuses da literatura nos castigam com estas gafes para que não percamos a humildade.

Já em 1980 eu andava atormentado por esta triste sina, quando, em São Paulo, percorria quilométricos corredores de uma Bienal do Livro. Bisbilhota daqui e dali, folheia livros a cada estante, resolvi parar num canto para examinar uma montanha de catálogos coletados na caminhada. Mas minha atenção foi despertada por um sujeito que estava expondo xilogravuras num corredor anexo. Fui bisbilhotar, que é o que mais se faz em Bienais. Era um bom gravurista, chamado Marcelo Soares, munido de chapéu de aba larga e boa lábia nordestina. Conversamos e, lá pelas tantas, descobri o que me levara àquele lugar.

Misturada a outras gravuras, encontrei uma intitulada “Lampião chutando o traseiro do Diabo”. Eis a razão pela qual eu fora à Bienal, pensei. Lampião desferindo um potente chute na bunda do Diabo me pareceu uma imagem perfeita para os dramas que enfrentamos ao editar.

Comprei a gravura, mandei emoldurá-la e até hoje ela está comigo, aqui na parede ao lado, como uma espécie de santo protetor dos sofrentes (ésofrentes mesmo, revisor, não corrija) escrevinhadores e editores e revisores. Com esta xilogravura por perto, me sinto mais tranqüilo, mas, é claro, não livre de erros. Quando eles acontecem, vou até a xilogravura e, como devotos de outros santos devem fazer, converso com Lampião, reclamando não ter sido alertado por este tropeço. Um homem tão poderoso, digo a ele, capaz de colocar em debandada os macacos da Volante, como não me protegeu deste ridículo “ehos”?!

Lampião nem me olha. Limita-se a desferir novo chute na bunda do Diabo.

Bem, ao menos tenho como companheiros vários revisores amigos dos quais me apiedo: a Antônia Schwinden, o Renato Bittencourt Gomes, a Silvana Seffrin, e minha mulher, Iria, que conserta as trapalhadas que digito. Criaturas mais competentes do que eu nesta tarefa, digna de Sísifo, de cavoucar gafes impressas. Rezo por eles a meu santo protetor, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, já que todos vivemos aterrorizados com a possibilidade de uma simples vírgula se transformar num holofote.

* * *

Pego aqui.

229. “Malthus”, Diogo Mainardi

Capa da edição da Record (2006)

O tempo em que considerava Diogo Mainardi um palhaço pago pela CIA já passou. Cresci bastante intelectualmente e livrei-me do maniqueísmo safado que reina neste país, das deduções políticas por gosto.

Deixando os preconceitos de lado, li “Lula é minha anta”, que considero uma coleção de porta-retratos. Cada um com a face tosca da desfaçatez que reina do Brasil e que tem seu expoente máximo na nababesca corte lulista, com direito a até mesmo um Rasputeu.

Mas esqueçamos o “odiado” colunista político da “odiada” Veja. É de outro Mainardi que falo.

A leitura de “Malthus” espantou-me sobremaneira. Basicamente, por três fatos: 1) o uso — nem que seja parcial ou truncado — de um pensamento da filosofia econômica para explicar a “progressão geométrica da estupidez”, como já o diz o também jornalista e escritor Mario Sabino, na orelha do livro; 2) o acerto pleno dessa alegoria e; 3) o recurso ao nonsense como parte da ‘pintura’ da alegoria. Em suma, um livro excelente e recomendável, cuja leitura se faz em uma ou duas sentadas.

Em poucas — mas cheias — páginas, Mainardi dedica-se a contar a trajetória de Loyola y Loyola, uma espécie de trambiqueiro mambembe, cuja principal ocupação é estabelecer-se em algum lugar, até que termina multiplicado por quarenta por um messias redivivo.

Frente à esterilidade e à vacuidade da Literatura brasileira contemporânea, “Malthus” surge e refulge. É digno do epíteto de pérola. Espero sinceramente que, algum dia, façam um filme baseado no livro. Seria algo interessantíssimo de ver.

228. Divertimentos filológicos

Ortografia: metálica, pesada, porém maleável

Um leitor desta Tribuna fez-me a seguinte observação: “Nas receitas que vejo eventualmente transcritas no jornal, noto sempre a grafia muçarela. Assim, com cê-cedilha mesmo. Curioso porque não vejo essa grafia em lugar algum! É sempre mussarela”.

Queijos e ortografia. Dois assuntos muito passionais, nos quais se formam facções e há feras pelejas. Já diria o General de Gaulle, referindo-se à França, que é impossível governar um país com 246 variedades de queijo. Mas, hoje, nosso assunto é a querela ortográfica apresentada.

Quando se entra em um supermercado ou casa de frios, os tabelões e as etiquetas acusam: mussarela. Por que a insistência, então, da padronização de uma grafia, digamos, estranha? Questão de fidelidade.

O nome do queijo vem do italiano mozzarella. É sabido que o ‘z’ do italiano tem a pronúncia /ts/ — como em pizza — ou /dz/. Que também era a função inicial do cê-cedilha no português medieval.

Embora não pronunciemos mais o cê-cedilha como /ts/, simplificado a /s/, mantém-se para a aclimatação ortográfica da mozzarella. As alternativas indicadas pelo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da ABL (Volp) são: mozarela e muzarela, mas que não refletem a realidade da pronúncia.

Apenas por curiosidade: o cê-cedilha surgiu para transcrever um som inexistente em latim, por isso a solução ortográfica criativa. Em italiano, a solução foi adotar o zê para o novo som; em português, francês, espanhol (hoje não mais) e francês, usou-se inicialmente um ‘cz’ — um dígrafo hoje visualmente estranho —; logo o zê foi para baixo do cê e tomou a forma de ‘vírgula’ ou ‘gancho’ que hoje tem. Tanto que cedilha vem do castelhano zedilla, ‘pequeno zê’.

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Artigo publicado na Tribuna Impressa de 23/02/2012. Também disponível no Araraquara.com.

226. Filosofia caseira

Como Sartre, é necessário ter "um olho no peixe e outro no gato"

Terça-feira de Carnaval talvez não seja o dia mais adequado para reflexões aprofundadas, mas, mesmo assim, tentemos um pequeno voo.

Tive muitos colegas que cursaram Filosofia; na USP de São Paulo, os prédios de Letras e Ciências Sociais são vizinhos, o que tornava nosso convívio quase que obrigatório. Gosto de Filosofia. “A República” de Platão é uma obra, em certos aspectos, válida até hoje. Fora a Filosofia política de Maquiavel e Marx.

Mas chamava-me a atenção que os meus colegas sempre citavam filósofos. Claro que não há problema algum em citá-los, mas a coisa sempre se deu sob uma certa escolástica. Em suma: eles se imbuíam daquelas teorias que, como parasitas, matavam qualquer germe de pensamento próprio.

Não estou dizendo que devemos abdicar da leitura dos grandes mestres, mas não é possível que concordemos sempre e em tudo com eles. A academia tem a desvantagem de matar o pensamento próprio; se não tomamos cuidado, tornamo-nos simples replicantes durante graduação, mestrado e doutorado.

“Antes o certo que o duvidoso”, dirá alguém. Mas, se não nos arriscamos fora do já existente, se não criarmos nossas próprias pequenas teorias, estaremos condenados. Nosso amor excessivo à terra firme pode nos manter em uma condição perene de náufragos.

E digo tudo isso não por ódio à academia, mas pela a necessária fuga do academicismo e do dogmatismo. Temos direito de ter nossas próprias teorias; afinal, uma teoria não é a verdade absoluta, mas uma maneira de explicar a realidade observada.

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Texto publicado na Tribuna Impressa de 21/2/2012. Também disponível no Araraquara.com.