369. Rogério Skylab

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Rogério Skylab, antes de ser um talentoso artista performático, é um intelectual de primeira grandeza por dois motivos: um, não o alardeia e, dois, não almeja tal posição.

Por detrás de canções com letras contundentes, expõe alguns comportamentos corriqueiros, mas negados com toda força pela sociedade brasileira, em sua grande parte falsa moralista. Falso moralismo porque as pessoas assustam-se com palavras das canções e não conseguem ir além da superfície: uma palavra “obscena” ou “rude” trava-lhes o entendimento e faz nascer a reprovação; às vezes o involuntário humor provocado causa o mesmo tipo de escurecimento da percepção.

Um grande exemplo é a música “Derrame”, do disco “Skylab I” (1999). Usando como mote o acidente vascular, Skylab desconstrói a vida de um homem considerado normal, expondo a transitoriedade de vaidades e até mesmo o isolamento social decorrente das sequelas.

Talvez Skylab não concorde com essa abordagem, ou até mesmo a ache pretensiosa, mas é o que se pode ver além do pasmo inicial ou da recusa do ouvinte em aprofundar-se na letra da canção.

Os eventuais detratores e o senso comum, famintos de eufemismos e de mentiras piedosas, não absorvem a verdade cruel e lírica presente nas letras de Skylab.

364. O ‘pibinho’ e suas obviedades

Statism Gun

Gostaria de começar este artigo assim: “Otimistas são uma verdadeira praga”. Mas não posso. A ideia era criticar aqueles que tratam a economia brasileira como algo blindado, inatingível. A maior prova que sustêm é que “a crise europeia não aportou na Botocúndia”.

O lastro atual da economia brasileira é o consumo. Prova da sua importância na produção da riqueza nacional são as reduções de impostos, pensadas para manter os níveis de produção elevados. Parece que a estratégia, embora tenha aquecido as vendas, não foi suficiente para segurar o crescimento econômico: o PIB avançou pífio 0,9%, o menor entre os emergentes. Isso se deve ao fato de a economia brasileira basear-se em consumo e commodities. Nada que possa gerar crescimento sólido.

Os pseudo-otimistas louvavam a distância da crise. Pseudo-otimistas porque não os move a coerência da análise, mas a tara estatista de que o Governo sabe — se é que um dia soube — tratar da questão. Governos primam pela incompetência na área econômica.

Geralmente manipulados, os números são o sintoma mais superficial de doenças perigosas. Há apenas investimentos industriais localizados; os destinados à infraestrutura, feitos pelo poder público, estão à míngua — basta ver as obras da transposição do São Francisco, a Transamazônica da era PT.

O “pibinho” é apenas a verruga de uma metástase. Governo precisa deixar de intervir na economia; o capitalismo de Estado brasileiro tem dado resultados ruins e perigosos. O abstencionismo estatal já nos garantiria condições suficientes para o desenvolvimento interno e para a migração de uma economia primária a uma base de produtos manufaturados, da qual consumo e commodities seriam tributários.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 5/3/2013.

361. Angústia cubana

"Vamos lá no fundo e eu te mostro a revolução no seu centro."

“Vamos lá no fundo e eu te mostro a revolução no seu centro.”

A chegada da blogueira Yoaní Sánchez nos faz lembrar que Cuba é a terra da infelicidade política. Poucos países modernos foram tão massacrados por tiranias de longa duração. Primeiro, o domínio espanhol, que se estendeu até 1898, ano em que a Guerra Hispano-Americana, entre Espanha e Estados Unidos, deu à ilha independência de jure, mas certos dispositivos de sua constituição — adicionados pela tenebrosa Emenda Platt — davam ao Grande Irmão do Norte a última palavra em questões internas da nova república.

Depois, além do domínio americano, a ditadura de Fulgencio Batista, que se estendeu de 1934 a 1959. Neste último ano, a guerrilha que vinha sendo desenvolvida desde 1953 por Fidel Castro e Che Guevara finalmente chega ao poder. A revolução não era originalmente comunista, como o próprio Fidel ressaltou quando de sua visita aos EUA — país que apoiava o movimento contra Batista. A guinada à esquerda e a aliança com a URSS não passaram de oportunismo, foram apenas uma reação à rápida deterioração da situação diplomática entre a nação caribenha e os EUA.

Desde 1959, a família Castro mantém a ilha como um latifúndio. Sua base econômica é a mesma dos tempos coloniais; o embargo burro dos EUA, antes de minar o regime, é uma eficiente propaganda. Num golpe de marketing, Cuba mostra-se como mártir.

Os que foram recepcionar Yoaní no Aeroporto de Salvador com cartazes pró-Cuba — acusando a blogueira de ser paga pela CIA e exaltando a pátria socialista, entre outras boçalidades — ignoram que o regime, em seus quase 55 anos de mandos e opressões, é muito pior que, por exemplo, o nosso Regime Militar. Mas a ideologia maniqueísta presente na esquerda, além de envenenar, cega.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, 19/2/2013.

360. Experimentação social

"Culpa sua, seu pai de merda!"

“Culpa sua, seu pai de merda!”

Deve ter começado na Grã-Bretanha, uma boa terra, mas que ultimamente tem produzido mais minhocas que batatas. Virou moda alguns pais moderninhos não quererem “impingir estereótipos” relacionados ao sexo biológico de seus rebentos. Criam-no como um ser assexuado, dão-lhe nomes neutros como Tempestade, Trovão, Chuva ou outro fenômeno da natureza e permitem que se vistam da maneira que bem entenderem — um menino com roupas de menina, por exemplo — e brinquem com os brinquedos que lhe apetecerem.

Não sei até que ponto tais liberalidades podem ser úteis à formação do caráter da criança. Já me explico: a nossa vida em sociedade prevê determinados padrões que são compartilhados pela comunidade. Promover uma quebra abrupta de tais padrões, longe de ajudar a criança, pode prejudicá-la.

A criança pode entrar em um vórtice de confusão; deve-se sim ensiná-las a respeitar as pessoas independentemente do que elas sejam, da sua aparência, da sua cor, ou seja, promover uma mudança de pensamento, de atitudes.

Esse tipo de maluquice é própria dos nossos tempos, em que as pessoas pensam com as gônadas em vez de fazê-lo com o cérebro. Além do mais, é um tipo de experimentação social inaceitável, uma engenharia social em pequena escala: pais não têm o direito de fazer de seus filhos cobaias. É desumano para a criança, que vai crescer num mundo em que há expectativas sociais.

Não é praticando a iconoclastia, permitindo que um menino vá à escola de tutu cor-de-rosa ou de vestido que o mundo vai mudar: isso é um subterfúgio idiota; é reduzir todos os problemas à forma estética da coisa.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 15/2/2013.

346. Juízos literários

Um questionamento que leitores contumazes se fazem — ou se ainda não o fizeram, é mera questão de tempo — é sobre uma definição de literatura. O que é a literatura exatamente. Tal problema pode ser falsamente resolvido de uma forma marota como a famosa definição de que palavra são letras agrupadas entre dois espaços tipográficos, ou seja, literatura “é tudo o que está fixado por meio de letras, como cita Anatol Rosenfeld em seu texto “Literatura e personagem” (lembremo-nos que literatura tem sua raiz em littera, -ae­, efetivamente ‘letra’, ‘sentido claramente expresso pela escrita’).

Rosenfeld faz ainda uma breve explanação sobre caráter ficcional do texto e critérios de valorização estética para que algo seja literário, mas que não vêm obrigatoriamente juntos. Ele cita como exemplo os “Sermões” do Padre Vieira: têm estética, mas são não fictícios. Não raramente, Vieira vale-se de alguma alegoria bíblica para expor um raciocínio sobre alguma situação então corrente. Fora a qualidade estética que têm os “Sermões”.

Fora as definições técnicas e vendo a aparentemente longa má fase da literatura brasileira — qual nosso último grande poeta? Drummond? , nota-se que qualquer definição presente é somente presunçosa. O grande juiz da Literatura é o tempo: nomes que eram considerados ímpares por seus coetâneos caíram no mais sombrio esquecimento — Prosper Merimée, alguém sabe quem é? — enquanto outros, às vezes ignorados em vida, vão fazer parte do cânone. Quem garante que os que hoje estão aí representando — espuriamente — a pretensa Literatura brasileira sobreviverão ao juízo do tempo? O bom será perene.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 6/1/2013.

344. Punição a quem trabalha

É claro que a carga tributária é excessiva e é um peso para os setores produtivos, mas a burocracia estatal e paraestatal é a braquiária que destrói os campos, os cipós que lentamente matam e asfixiam as árvores.

“A burocracia expande-se para satisfazer as necessidades de uma burocracia em expansão.” A frase, certa como a flecha de Guilherme Tell e atribuída tradicionalmente a Oscar Wilde, define bem as intenções do monstro que paralisa a economia: a manutenção de Estado ineficiente, incompetente, dominado por populistas e cujo único motivo de existência é a autoalimentação.

Engana-se quem pensa que a burocracia endêmica é privilégio do setor público. No afã de dominar e controlar a atividade econômica, regula-a excessivamente, esboroando o ânimo em quem poderia gerar mais empregos e criando oportunistas — Jecas Tatu 2.0 — que se valem de empresários incautos para alimentar a indústria dos processos trabalhistas — esta sim, pujante e viçosa.

Ilude-se quem crê que as regulações do mercado pelo Estado sejam vantajosas. Elas criam apenas comodismos e irradiam a burocracia para dentro das empresas, que têm de ajustar seu ritmo por leis obsoletas e contraproducentes. Agências reguladoras, tribunais, câmaras, secretarias de Estado, cartórios, sindicatos — os grandes poleiros das aves de mau agouro que olham com desdém o progresso econômico, tratando seus agentes como inimigos do público.

Enquanto populistas dos mais variados matizes, por monopólio de domínio político, mantêm reféns tanto a sociedade quanto a vida econômica, o empresário — que gera renda e empregos — continua sendo o vilão número um.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 27/12/2012.

335. O velho novo mundo

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Parece que a América foi descoberta outra vez. Os “colombos” da educação estão fazendo estardalhaço na televisão e em outdoors: reinventaram o ensino médio integrado ao técnico.

Antes de 1998, era assim que o ensino técnico estadual funcionava. Prestava-se o vestibulinho e, sendo aprovado, cursava-se o ensino médio integrado a disciplinas de uma área específica. A grande maioria dos cursos era de quatro anos, um a mais que o ensino médio convencional. A proporção de disciplinas técnicas na grade curricular ia aumentando na passagem dos anos. Era uma opção interessante para quem não tinha tempo ou paciência para fazer um curso superior. E outra: bacharéis ficam avessos a certas atividades excessivamente manuais, mesmo que sejam vinculadas ao seu métier.

Em 1998, o Governo do Estado, amparado na famigerada Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, Lei federal nº 9.394/96), reorganizou o sistema de ensino técnico do Estado, desvinculando o ensino médio em si, que passou a ser ministrado como no resto da rede, do ensino técnico, cujo acesso ficou vinculado a um segundo exame de admissão. A desculpa na época era que muitos faziam o ensino técnico — conhecido por sua boa qualidade — para disputar o vestibular.

A solução deu tão certo, que voltaram ao sistema anterior. Cursar o médio regular e o técnico implica em o aluno ter dupla jornada, o que não raramente atrapalha quem trabalha. Outra: a conclusão das modalidades técnicas — a maioria delas — requer um estágio curricular. Como fazê-lo com dupla jornada escolar?

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Publicado na Tribuna Impressa  de Araraquara em 4/12/2012.

333. A antimedalha de prata

Os gringos detectaram agora; nós já sabíamos há muito tempo que nosso sistema educacional é péssimo. Trata-se apenas de escancarar a obviedade.

O Brasil ficou em 39º em ranking educacional elaborado pela Pearson — uma learning company, como se autointitula —, dentro do projeto The Learning Curve. Trigésimo nono lugar não do mundo todo, mas de 40 países.

Os índices surgiram de um cruzamento de dados de vários organismos internacionais envolvidos com educação e comprovam o fracasso da educação brasileira. Embora tentemos disfarçar com Saresp, Prova Brasil e outras maquiagens vagabundas, a verdade é que estudantes oriundos de nossas escolas, com grandes exceções, são incapazes de, por exemplo, fazer a prova do Pisa — Programme for International Student Assessment.

Nas escolas públicas, é a velha choradeira de salários defasados, instalações ruins e falta de interesse do Poder Público, o que tem sua parcela de verdade. O ensino privado é bom de make-up: apostilas, tablets e outras parafernálias, mas que, sem métodos adequados, não acrescentam nada, como já disse o colunista Francisco Belda há algum tempo.

Em suma, tal situação é fruto da excessiva pedagogização do ensino em detrimento do ensino real; da transformação da escola em “creche para grandes”, da retirada da autoridade do professor e da relativização do valor do conhecimento, que muitos apregoam, mas poucos valorizam efetivamente.

Diretores, coordenadores, secretários municipais e estaduais da Educação, pedagogos, ministro. Tirem seus paletós das cadeiras. Vão para casa; podem fechar as escolas. Como estão, do jeito que vocês as deixaram, mais atrapalham que ajudam. Talvez a Indonésia precise de alguma consultoria de vocês.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 30/11/2012.

327. Análise de um poema de Nego Antão

Boleta de pong-ping.

Eis um haikai revolucionário do mestre da poesia pós-moderna, Nego Antão, morador de rincões em que reina o cinza das telhas de fibrocimento. Como pode existir tanta concisão poética em um dístico — uma forma ocidental clássica —, mas que nos remete à simplicidade do haikai. Seu autor inclusive prefere que a chamemos de haikai. “Crio elas como se criam galinhas num galinheiro: têm penas e boa carne”, explica Antão.

O poema, que não tem título — outra tirada magistral —, narra um jogo de pingue-pongue. Para um leitor desatento, pode ser uma estranha partida de pingue-pongue. Um estrangeiro jogando pingue-pongue na luxuriante atmosfera tropical do nosso país-potência. Mas há mais mistério entre as folhas das bananeiras do que supõe nossa vã filosofia.

Repitamos os versos em voz alta. Sintamos a força e a reverberação de suas aliterações sutis. “Boleta de / pong-ping”. Advirto-os, leitores: há mais.

“Boleta”, um diminutivo pouco usual de bola. Por que não “bolinha”? Na verdade, “boleta” aponta para o “boleto” de pagamento, uma relação consumista e que tem toda liames com o glorioso e radiante momento econômico vivido pelo país. Todos podem comprar. Todos têm seus boletos para pagar, mas Antão não somente celebra as benesses da era Lula, ele põe um elemento feminino, da liberação da mulher do jugo machista, trocando o gênero da palavra: “boleta”. Não apenas os machistas compram, mas também as mulheres, os gays, os transgêneros e os simpatizantes. Antão dá um banho de lirismo em toda a elite branca, cristã, machista e homofóbica com apenas uma palavra. Pergunto-me por que ainda não o indicaram apara o Nobel.

Depois desse glorioso primeiro verso, vejamos o último: “pong-ping”. A inversão do nome do jogo mostra a inversão que a classe trabalhadora, com suas “boletas”, fez na mais-valia, ainda refletindo o primeiro verso. Não apenas mais a elite branca dos olhos azuis compra… os ensebadinhos do subúrbio — o conceito da sebência orgulhosa, tão exaltada por Antão, e também por alguns gêneros musicais como o rap e o funk — também compram, invertendo a situação de domínio. E ainda digo mais: querem estar presentes à globalização, por isso a preferência por não aportuguesar os vocabulários. Mas a inversão dos termos originais também significa a insubmissão à cultura enlatada, manipuladora e planificadora dos Estados Unidos: é a faca apontada para o Tio Sam.

Essa é apenas uma amostra do livro de poemas de Nego Antão. A obra completa consta de cinco pérolas e foi impressa em um conceito ultramoderno de editoração: em uma folha corrida apenas, para que fosse acessível às populações oprimidas.

326. O terço descontente

Quando termina uma eleição e contam-se os votos, a ansiedade fica pela torcida na “corrida dos cavalinhos” — lembra-se desse quadro do programa infantil “Bozo”, leitor? A conta final exclui as abstenções, sejam elas por anulação ou por justificação do voto.

No caso da disputa pela Prefeitura paulistana, os números são assustadores. Veicula-se apenas o porcentual considerado “válido” por critérios estabelecidos em lei. Se incluirmos o número total de eleitores do colégio, as porcentagens são: Fernando Haddad (PT), 3.387.720, ou 39,3%; José Serra (PSDB), 2.708.768, ou 31,4%, e o conjunto de nulos, brancos e abstenções atingiu 2.522.682, ou seja, 29,3%.

A esperteza dos legisladores está em considerar a maioria absoluta dos “votos válidos”, esvaziando qualquer tipo de protesto com o voto nulo ou com a abstenção. Em qualquer outro país sério, tais números causariam uma crise política. Haddad elegeu-se — não obstante a condenação por formação de quadrilha da antiga cúpula do seu partido — com pouco mais de 39% dos votos. Os votos dos descontentes chegaram a quase um terço de todos os eleitores aptos a votar.

O protesto de anular o voto não tem valor legal — o que é cômodo aos políticos, pois a vontade dos descontentes é simplesmente ignorada —, mas deveria servir para que criassem o mínimo de vergonha na cara e revissem seus conceitos. O eleitorado está cansado. A tendência desses números — mesmo com o estardalhaço do TSE pelo “voto útil” — é aumentar, o que vai tirar ainda mais a legitimidade do processo democrático brasileiro.

É hora da reforma política. Já passou da hora.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 30/12/2012.

323. Do ouro ao chumbo

Aurea mediocritas, o meio-termo de ouro, lema e meta dos poetas árcades. Meio-termo porque não peca pela falta, nem pelo excesso. Mas a palavra assumiu uma conotação negativa entre nós. O medíocre é indivíduo que além de não ter talento nenhum para destacar-se — não destacar-se não é um pecado em si —, projeta a queda dos demais, nivelando todos “por baixo” e ali procurando mantê-los.

O mal teve início quando os medíocres tomaram as academias, o parlamento; geraram leis e prerrogativas para seus iguais, burocratizaram a sociedade, imobilizando a criatividade. Mantêm sob ameaça o setor produtivo da sociedade com suas ações abstrusas. Como exemplo, o tal “desvio de função”, criação de legisladores ociosos para alimentar advogados de “porta de empresa”.

O medíocre não quer ter esforço. Por isso, mata na concepção a iniciativa alheia. O que antes era aprendizado no ambiente laboral, que dava oportunidades reais de crescimento profissional ao empregado e criava um vínculo com o empregador, passou a ser visto com desconfiança: tanto dos medíocres em geral, quanto do empregador, que, com plena razão, tem receio que aquele fato possa conduzir a um processo trabalhista — que sempre envolve uma reparação financeira; afinal, o real intuito do medíocre é alimentar-se do esforço alheio.

Há hoje faculdades, mas certas coisas somente a rotina de trabalho nos ensina. E perdemos uma parcela importante desse aprendizado por conta dos medíocres que legislam e invejam desde suas cátedras ou banquinhos.

Será que com esse tipo de pensamento canalha e mesquinho, inerente a quase todos nós, chegaremos ao dito mundo desenvolvido? Ou continuaremos a patinar na nossa mediocritas, plumbea mediocritas?

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 19/12/2012.

319. Acabou o amendoim

Quando percebeu que untara
Todas as páginas com gordura
e sal dos amendoins, o poeta
— sim, o poeta —
entrou em desespero.

Seus sebentos e salgados versos
tinham tanta sonoridade
quanto o saquinho que acabara de esvaziar.

O sal dos grãos e o sal dos olhos
tornaram suas páginas
um campo de pedras.

316. O mais fácil

Ficar do lado “justo” ou “certo” é fácil. É igualmente fácil juntar-se ao pensamento dominante e ser mais um replicante. A ilusão que o politicamente correto cria é que cada um é um justiceiro e que tem “pensamento crítico” quando, na verdade, apenas incorpora o pensamento da massa. A grande sacada dos tempos modernos é fazer o indivíduo achar que está pensando por si quando apenas repete dogmas.

É confortável defender o que todo mundo defende, valores abstratos como “democracia”, “liberdade”, “tolerância”. Para ver como são frágeis e manipuláveis, basta pedir que um de seus “paladinos” os defina. As respostas serão de uma vacuidade e de um relativismo impressionantes.

Não é difícil — mas sim ingrato — mostrar como essas bandeiras lindas são pura mentira, construções convenientes. Ingrato porque os “paladinos” apedrejarão de volta. Eles têm licença moral de censurar. O politicamente correto é arbitrário e autoritário. Não admite crítica. Seus adeptos — independentemente da área de atuação, seja arte, cultura ou ativismo, seus nichos prediletos — sentem-se acima do bem e do mal e, logo, com poder de julgar quem não se enquadra em seus preceitos. São ditadores sem pasta. A liberdade que pregam é a subjugação da maioria, o silêncio forçado. É uma ditadura ainda pior que as institucionais, porque se instala na mente do indivíduo e controla-o de dentro.

Seus agentes têm várias faces: ativistas sociais, pedagogos, políticos. Temos de desconfiar deles, dos que insistem em “coletivo”, “bem comum”, “minorias”. Seu trabalho não passa de desinformação; são agentes do velho divide et impera.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 5/10/2012.

314. A democracia sou eu

“Paz, amor e sieg heil!”

L’État c’est moi” — “O Estado sou eu” — é frase atribuída a Luís XIV, Rei da França entre 1643 e 1715. O dito, embora os historiadores não considerem ter saído efetivamente da boca do monarca, contém a ideia da monarquia absolutista, ou seja, regime em que o rei era executivo, legislativo e judiciário. A frase resume o espírito da época.

“A democracia sou eu.” Disse outro Luís, o Inácio Lula da Silva. Não exatamente assim, mas a maneira como ele vem se comportando bem o demonstra. Embora seja dado a bravatas, Lula jamais diria uma frase dessas. Jamais se comprometeria tanto com conceitos que lhe são apenas degraus, como a democracia.

Parte de sua concepção política vaza de seu discurso furado: “Temos de aproveitar o bom momento do País para eleger mais companheiros”, disse o ex-presidente no palanque de Luiz Marinho, candidato a prefeito em São Bernardo do Campo/SP. A ideia de Lula paira sobre um regime de partido único, uma democracia “companheira”. Basta ver algumas declarações: “Precisamos extirpar o DEM da política brasileira”, nas eleições de 2010, e, agora, no comício de Mário Reali, candidato a prefeitura de Diadema/SP, quando comparou a oposição a um câncer.

Sua insistência em dizer que “não sabia de nada” sobre o Mensalão está se mostrando um péssimo álibi. Enquanto Lula tenta esconder o morto no armário, a militância — principalmente pela internet — está arreganhando dentes e falando em “golpe”. O único movimento que vejo é o da decência, de magistrados que estão fazendo seu papel, não obstante terem sido, em grande parte, indicados por Lula ou Dilma. O golpe é apenas contra o democratismo “companheiro”, que há de chegar ao fim.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 25/9/2012.

311. As tristes jornadas de Dom Bertrand

S.A.I.R. o Príncipe D. Bertrand (fonte: monarquia.org.br)

Em 28 de agosto, a cidade de Franca, Interior paulista, viu o que certamente foi um dos fatos mais lamentáveis de sua história.

Um simpósio organizado pelo câmpus da Universidade Estadual Paulista (Unesp) naquela cidade contaria com a ilustre presença de S.A.I.R. (Sua Alteza Imperial e Real), o Príncipe Dom Bertrand de Orleans e Bragança, o segundo na linha de sucessão ao Trono imperial se este fosse restaurado.

No momento em que a palestra teria início, o recinto da conferência foi invadido por meia-dúzia de estudantes que, não obstante protestarem contra a presença do Príncipe, dirigiram-lhe grosseiros insultos imotivados, chamando-o, por exemplo, de nazista.

Estudantes todos vinculados ao movimento universitário de esquerda — há outra coisa que não a esquerda na academia brasileira? — cuja visão de democracia restringe-se apenas a esquerda. Que tipo de exemplo queriam dar a não ser de sua profunda falta de civilidade? É isso que a academia tem gerado.

Além da falta da educação, a grande burrice: a Família Imperial Brasileira, retida na França com o início da Segunda Guerra Mundial, nunca teve ligações com os nazistas. É o famoso termo “fascista” que os estudantes usam aleatoriamente para tudo e todos que não estão de acordo com suas ideias totalitárias de esquerda.

Do episódio, duas coisas interessantes: a Unesp de Franca estuda punição àqueles que não sabem respeitar a opinião alheia, e a fundação de uma frente de defesa da monarquia naquela cidade, com cerca de 40 membros.

No caso da defesa da monarquia, foi da adversidade que veio a força.