323. Do ouro ao chumbo

Aurea mediocritas, o meio-termo de ouro, lema e meta dos poetas árcades. Meio-termo porque não peca pela falta, nem pelo excesso. Mas a palavra assumiu uma conotação negativa entre nós. O medíocre é indivíduo que além de não ter talento nenhum para destacar-se — não destacar-se não é um pecado em si —, projeta a queda dos demais, nivelando todos “por baixo” e ali procurando mantê-los.

O mal teve início quando os medíocres tomaram as academias, o parlamento; geraram leis e prerrogativas para seus iguais, burocratizaram a sociedade, imobilizando a criatividade. Mantêm sob ameaça o setor produtivo da sociedade com suas ações abstrusas. Como exemplo, o tal “desvio de função”, criação de legisladores ociosos para alimentar advogados de “porta de empresa”.

O medíocre não quer ter esforço. Por isso, mata na concepção a iniciativa alheia. O que antes era aprendizado no ambiente laboral, que dava oportunidades reais de crescimento profissional ao empregado e criava um vínculo com o empregador, passou a ser visto com desconfiança: tanto dos medíocres em geral, quanto do empregador, que, com plena razão, tem receio que aquele fato possa conduzir a um processo trabalhista — que sempre envolve uma reparação financeira; afinal, o real intuito do medíocre é alimentar-se do esforço alheio.

Há hoje faculdades, mas certas coisas somente a rotina de trabalho nos ensina. E perdemos uma parcela importante desse aprendizado por conta dos medíocres que legislam e invejam desde suas cátedras ou banquinhos.

Será que com esse tipo de pensamento canalha e mesquinho, inerente a quase todos nós, chegaremos ao dito mundo desenvolvido? Ou continuaremos a patinar na nossa mediocritas, plumbea mediocritas?

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 19/12/2012.

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286. “O Dicionário Kazar”, Milorad Pavitch

A fumacinha enciclopédica do cachimbo literário de Milorad Pavitch

Lendo dicionário

Tendo como tema principal a conversão dos cazares ao judaísmo, “O Dicionário Kazar – Romance-enciclopédia em 100.000 palavras” é um romance, como o próprio nome indica, em verbetes. A obra do sérvio Milorad Pavitch apresenta-se como uma obra do século 17 que narra a conversão dos cazares — um povo não-eslavo das estepes entre os mares Cáspio e Negro — com um léxico e com apêndices organizados sob três ópticas diferentes: o Livro Amarelo (pelo judaísmo), o Livro Verde (pelo islamismo) e o Livro Vermelho (pelo cristianismo).

“O Dicionário Kazar”, segundo sua própria introdução, pode ser lido em qualquer sequência, ficando a critério do leitor qual caminho seguir. Chama a atenção ainda o fato de existirem duas edições, uma dita “masculina” e outra “feminina”. A diferença é apenas um parágrafo em certo ponto do livro; mas a alteração de sentido provocada pode ser crucial.

O “Dicionário…” É o primeiro romance de Pavitch e foi publicado originalmente em 1984.

O Dicionário Kazar – Milorad Pavitch – Marco Zero – 300 págs. – Preço variável

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Sugestão publicada na Tribuna Impressa de Araraquara em 18/6/2012.

280. Longa noite

Antes de qualquer julgamento, leia o texto até o fim.

Longa noite

Todos parecem sentir que a casa está na mais perfeita ordem, e alguns até são loucos o bastante para acreditar que o grande sinal de saúde cultural do país são eles próprios.

Se há uma coisa que, quanto mais você perde, menos sente falta dela, é a inteligência. Uso a palavra não no sentido vulgar de habilidadezinhas mensuráveis, mas no de percepção da realidade. Quanto menos você percebe, menos percebe que não percebe. Quase que invariavelmente, a perda vem por isso acompanhada de um sentimento de plenitude, de segurança, quase de infalibilidade. É claro: quanto mais burro você fica, menos atina com as contradições e dificuldades, e tudo lhe parece explicável em meia dúzia de palavras. Se as palavras vêm com a chancela da intelligentzia falante, então, meu filho, nada mais no mundo pode se opor à força avassaladora dos chavões que, num estalar de dedos, respondem a todas as perguntas, dirimem todas as dúvidas e instalam, com soberana tranqüilidade, o império do consenso final. Refiro-me especialmente a expressões como “desigualdade social”, “diversidade”, “fundamentalismo”, “direitos”, “extremismo”, “intolerância”, “tortura”, “medieval”, “racismo”, “ditadura”, “crença religiosa” e similares. O leitor pode, se quiser, completar o repertório mediante breve consulta às seções de opinião da chamada “grande imprensa”. Na mais ousada das hipóteses, não passam de uns vinte ou trinta vocábulos. Existe algo, entre os céus e a terra, que esses termos não exprimam com perfeição, não expliquem nos seus mais mínimos detalhes, não transmutem em conclusões inabaláveis que só um louco ousaria contestar? Em torno deles gira a mente brasileira hoje em dia, incapaz de conceber o que quer que esteja para além do que esse exíguo vocabulário pode abranger.

Que essas certezas sejam ostentadas por pessoas que ao mesmo tempo fazem profissão-de-fé relativista e até mesmo neguem peremptoriamente a existência de verdades objetivas, eis uma prova suplementar daquilo que eu vinha dizendo: quanto menos você entende, menos entende que não entende. Ao inverso da economia, onde vigora o princípio da escassez, na esfera da inteligência rege o princípio da abundância: quanto mais falta, mais dá a impressão de que sobra. A estupidez completa, se tão sublime ideal se pudesse atingir, corresponderia assim à plena auto-satisfação universal.

O mais eloqüente indício é o fato de que, num país onde há trinta anos não se publica um romance, uma novela, uma peça de teatro que valha a pena ler, ninguém dê pela falta de uma coisa outrora tão abundante, tão rica nestas plagas, que era a – como se chamava mesmo? – “literatura”. Digo que essa entidade sumiu porque – creiam – não cesso de procurá-la. Vasculho catálogos de editoras, reviro a internet em busca desites literários, leio dezenas de obras de ficção e poesias que seus autores têm o sadismo de me enviar, e no fim das contas encontrei o quê? Nada. Tudo é monstruosamente bobo, vazio, presunçoso e escrito em língua de orangotangos. No máximo aponta aqui e ali algum talento anêmico, que para vingar precisaria ainda de muita leitura, experiência da vida e uns bons tabefes.

Mas, assim como não vejo nenhuma obra de literatura imaginativa que mereça atenção, muito menos deparo, nas resenhas de jornais e nas revistas “de cultura” que não cessam de aparecer, com alguém que se dê conta do descalabro, do supremo escândalo intelectual que é um país de quase duzentos milhões de habitantes, com uma universidade em cada esquina, sem nenhuma literatura superior. Ninguém se mostra assustado, ninguém reclama, ninguém diz um “ai”. Todos parecem sentir que a casa está na mais perfeita ordem, e alguns até são loucos o bastante para acreditar que o grande sinal de saúde cultural do país são eles próprios. Pois não houve até um ministro da Cultura que assegurou estar a nossa produção cultural atravessando um dos seus momentos mais brilhantes, mais criativos? Media, decerto, pelo número de shows de funk.

Estão vendo como, no reino da inteligência, a escassez é abundância?

Mas o pior não é a penúria quantitativa.

Da Independência até os anos 70 do século XX, a história social e psicológica do Brasil aparecia, translúcida, na literatura nacional. Lendo os livros de Machado de Assis, Raul Pompéia, Lima Barreto, Antônio de Alcântara Machado, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado, Marques Rebelo, José Geraldo Vieira, Ciro dos Anjos, Octávio de Faria, Anníbal M. Machado e tantos outros, obtínhamos a imagem vívida da experiência de ser brasileiro, refletida com toda a variedade das suas manifestações regionais e epocais e com toda a complexidade das relações entre alma e História, indivíduo e sociedade.

A partir da década de 80, a literatura brasileira desaparece. A complexa e rica imagem da vida nacional que se via nas obras dos melhores escritores é então substituída por um sistema de estereótipos, vulgares e mecânicos até o desespero, infinitamente repetidos pela TV, pelo jornalismo, pelos livros didáticos e pelos discursos dos políticos.

No mesmo período, o Brasil sofreu mudanças histórico-culturais avassaladoras, que, sem o testemunho da literatura, não podem se integrar no imaginário coletivo nem muito menos tornar-se objeto de reflexão. Foram trinta anos de metamorfoses vividas em estado de sono hipnótico, talvez irrecuperáveis para sempre.

O tom de certeza definitiva com que qualquer bobagem politicamente correta se apresenta hoje como o nec plus ultrada inteligência humana jamais teria se tornado possível sem esse longo período de entorpecimento e de trevas, essa longa noite da inteligência, ao fim da qual estava perdida a simples capacidade de discernir entre o normal e o aberrante, o sensato e o absurdo, a obviedade gritante e o ilogismo impenetrável.

Olavo de Carvalho

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Publicado no Diário do Comércio.

275. “Bestiário”, Julio Cortázar

Monsieur Cortázar

Animais invisíveis

Bestiário é o nome que dado a obras medievais que reúnem narrativas sobre animais fabulosos ou reais ou que contenham iconografia animalista. O “Bestiário” de Julio Cortázar tem poucos animais; principalmente no conto-título e em “Cefaleia”, no qual aparece a mancúspia, mamífero imaginário.

As ‘bestas’ de Cortázar são sentimentos humanos, sempre majorados, à beira do absurdo e do nauseante. Trata-se do primeiro livro de contos do autor, publicado em 1951 e, segundo o próprio Cortázar, vários dos contos foram escritos como autoterapias psicanalíticas: “Escrevi esses contos sentindo sintomas neuróticos que me molestavam”.

Considerado um dos grandes escritores argentinos — além de Jorge Luis Borges e Ernesto Sabato —, Cortázar marcará nessa recolha o embrião de um estilo que o seguirá pelas obras posteriores, principalmente pela tentativa de vivissecção dos volteios da alma e da mente humana, causando estranhamento pela sua aparente frieza.

“Bestiário”, Júlio Cortázar – várias edições, preço variável

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 27/5/2012.

274. Mapa

Curioso como as pessoas procuram por um sentido. O sentido obrigatório; a rua de mão única que leva obrigatoriamente a um castelo de cristal. O sentido, para mim, é algo que me atrapalha. Prefiro ter os fios do pensamento prontos para amarrar-se a qualquer elo, sem obrigatoriedades, em pontos pouco usados. Afinal, a agulha é minha.

Sento-me aqui e tenho este volume de Cortázar entre as mãos. Um homem que vomita coelhitos — perdoem, mas a tradução é lusitana. Talvez eu seja o homem que vomite coelhinhos felpudos que acabam crescendo e destruindo tudo.

É madrugada; silêncio. É a hora que os genes cobram seu peso. Imigrantes que vieram fazer a América, deixando sobre a magra terra europeia a enxada gasta. Gentes do interior, descendentes dos primeiros paulistas, que deixaram as quietudes das paragens remotas iludidas pela sereia das escamas de vidro que é a cidade grande. Eu voltei. Genes gastos de promessas velhas.

No silêncio absurdo da madrugada interiorana, somente os coelhinhos raspam-se pelo livro. Preparo um chá, volto e sento-me no sofá em uma posição confortável. Visto o poncho argentino que trouxe da lua de mel passada no Rio Grande. A caixa diz que o chá é de frutas vermelhas — melancia é vermelha por dentro, não? Um cheiro doce ligeiramente enjoativo invade minhas narinas. Acaricio o papel do livro.

Afinal, para que o sentido obrigatório? Não passa de cadeias.

272. “Contos Gauchescos”, Simões Lopes Neto

O autor (fonte: Wikipédia)

Mais ao Sul

Quando se fala em literatura regionalista, o primeiro nome que surge é Guimarães Rosa, cuja fama monopolizou o ideário e o ‘modelo’ dessa vertente. Porém, em latitudes mais altas há também nomes tão grandes quanto, mas pouco divulgados.

João Simões Lopes Neto (1865-1916) é autor de “Contos Gauchescos”, um dos quatro livros que publicou em vida. Como o nome indica, trata-se de uma recolha narrada por um personagem, Blau Nunes, “vaqueano”, ou seja, condutor de gado que conhece muito bem rincões, trilhos e querências dum Rio Grande que foge à turística ideia que temos por conta da Serra Gaúcha. Em 19 contos, há tanto o folclórico quanto o descritivo, que pode servir para “montar” o imaginário gaúcho do final do século 19 e ainda presente em áreas mais antigas, já formadas quando do incentivo à imigração alemã e italiana — predominante na Serra.

A edição de 2008 da gaúcha Artes e Ofícios traz ainda um resumo comentado de cada conto, apresentação, notas e cronologia da vida do autor por Paulo Bentancur. Textos auxiliares de suma importância para o leitor não-gaúcho.

Contos Gauchescos – João Simões Lopes Neto – Artes e Ofícios – 197 págs. R$ 26

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 20/5/2012.

270. “O falecido Mattia Pascal”, Luigi Pirandello

“Assim é, se lhes parece.”

Inaudita liberdade

Talvez na sua cabeça, leitor, já tenha passado o pensamento de largar tudo e sumir. Quem sabe até mesmo ser dado como morto e poder evaporar em paz. É exatamente sobre esse pensamento que o italiano Luigi Pirandello constrói seu fabuloso romance “O falecido Mattia Pascal”.

Pascal, um pobretão que se casa com a filha de uma viúva interesseira, é acossado por dívidas e ainda por cima morrem-lhe a mãe e a filha de colo. Açoitado constantemente pela língua ferina da sogra, foge de casa. Quando, depois de uma maré de sorte, está voltando ao lar, descobre que foi dado como morto e sente-se livre; estranhamente livre.

“Il fu Mattia Pascal” (convenhamos, o ‘fu’ para ‘defunto’ em italiano é muito mais expressivo) é a obra-prima de Pirandello, embora sua produção inclua a igualmente fantástica peça “Seis personagens à procura de autor”. Agraciado com o Nobel de Literatura de 1934, o autor é considerado um dos grandes escritores não apenas da literatura italiana, mas também da universal.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, 13/5/2012.

268. “Malditos paulistas”, Marcos Rey

Jornal, feliz ou infelizmente, é uma caixa de Pandora. A crítica de livro do último domingo teve de ser reduzida por conta de um anúncio de quase meia página; abaixo, a versão integral.

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Capa da 4ª edição, 1991

Cheiro de casa

Basta uma visita à livraria ou um golpe d’olhos nas estantes de casa. Às vezes o romance contemporâneo causa certo engulho por conta de praticamente todas as obras serem estrangeiras, de língua inglesa majoritariamente. Os nomes ingleses de pessoas e lugares boiam na sopa narrativa cuja sintaxe tem o retrogosto da tradução apressada, do português artificial — arredondado e antialérgico —, castelinhos que decoram fundo de aquário.

Mas o gênero tem também suas pérolas no mare nostrum e um de seus grandes expoentes é Marcos Rey.  Na larga obra do escritor paulistano, destacamos “Malditos Paulistas”, romance misto entre o veio policial e o picaresco. Algo no título também sabe a Curzio Malaparte (“Malditos toscanos”).

A narrativa está Centrada na trajetória singular de Raul, carioca que se torna motorista de um suspeito empresário italiano que mora no Morumbi — notadamente um arrivé — e acaba também por tornar-se cúmplice e testemunha de várias situações, no mínimo, curiosas. O espaço da narrativa tem aquele cheiro de casa: entre a Capital e o Guarujá. Nomes mais convenientes e ambientes que podem fazer parte do arcabouço do leitor araraquarense.

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Publicado na Tribuna Impressa  de Araraquara em 6/5/2012.

266. “A misteriosa chama da Rainha Loana”, Umberto Eco

Eco sorrindo

Pelos labirintos da memória

Após um acidente, um livreiro encontra-se desmemoriado. Mas não se trata de uma amnésia comum; ele se lembra apenas do que leu. Todas as suas memórias são trechos de livros, de poemas, e cada trecho evoca alguma familiaridade; algo que o desmemoriado sente, mas não apreende por inteiro, como aquela sensação de quando tentamos nos lembrar de uma palavra e ela vai esconder-se nas profundezas do cérebro, deixando apenas uma impressão fugaz.

A reconstrução da memória pelas referências textuais e icônicas dos anos 30, 40 e 50 é o mote do romance “A misteriosa chama da Rainha Loana”, do escritor e semioticista italiano Umberto Eco. Mais conhecido pelo seu “O nome da rosa”, o autor surpreende pelo romance “ligeiramente autobiográfico” e com a reconstrução da memória de seu personagem faz um apanhado da história da Itália dos anos 1930 até 1990, tempo presente da narrativa.

Ao leitor que for aventurar-se com Eco, duas recomendações: paciência   e boa vontade. “A misteriosa chama…” é um desses romances que mostram que literatura não é somente passatempo ou diversão fácil. Nota: o livro autointitula-se “romance ilustrado”.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 29/4/2012.

261. “Pai patrão”, Gavino Ledda

Gavino Ledda

Vida dura

Hoje, o trabalho infantil é considerado um mau hábito dos povos e feramente combatido por autoridades, Governos, secretarias especiais, conselhos tutelares. Há não muito tempo atrás, a vida laboral (profissional é um termo anacrônico neste caso) começava bem cedo: as meninas para as fainas domésticas e os rapazes seguiam o pai para ajudar na profissão e, não raramente, herdá-la.

O romance autobiográfico de Gavino Ledda trata exatamente desta questão. “Pai patrão” é o relato da infância de Ledda, passada nos anos 1940 nas montanhas da Sardenha, pastoreando ovelhas. O pai o tira da escola aos seis anos e põe para cuidar do rebanho familiar; daí em diante seguem-se vários episódios da popularmente chamada “escola da vida”, nas secas e duras montanhas do interior desta rústica ilha italiana.

Incluída na coletânea Letras Italianas da Berlendis & Vertecchia, a edição ainda nos presta um grande favor. Por se tratar de autor pouco conhecido no Brasil (não obstante o fato de haver uma versão cinematográfica de “Pai Patrão”, de 1977), o livro ainda traz o conto “Recanto” e mais alguns escritos. “Recanto” é apresentado em versão bilíngue: a tradução brasileira e o original em sardo.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 15/4/2012.

255. “A jangada de pedra”, José Saramago

Península Ibérica à noite

Flutuação ibérica

Portugal e Espanha sempre tiveram um problema de identificação com a Europa: eram ricos e tinham colônias quando o continente trincava-se em guerras; decadentes no período de grande pujança econômica europeia; com regimes ditatoriais enquanto a Europa consolidava a democracia. Os olhares europeus para a Península Ibérica também nunca foram os melhores. “A Europa termina nos Pirineus”, disse certa vez Talleyrand.

É com essa ideia que José Saramago escreveu “A Jangada de Pedra”, de 1986. Iberista convicto, melancolicamente acolhe a separação entre o continente e a “ilha” ibérica. Em uma metáfora surpreendente, a península descola-se da Europa e começa a navegar pelo Atlântico, para desespero de seus habitantes.

Como centro da narrativa, um grupo que se une por acaso e percorre os dois países da agora ilha, registrando suas impressões enquanto a massa de terra navega rumo à América do Norte.

A alegoria pode ser mesmo lida com uma chave bem atual: a crise econômica que assola as duas nações e o papel que elas representam hoje na Europa.

Prêmio Nobel de Literatura, Saramago é conhecido pela obra e pela. Seu inovador modo de colocar diálogos no texto em parágrafos compactos é curioso à leitura da primeira obra, depois, a coisa se torna um pouco cansativa.

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Uma versão ligeiramente alterada saiu na Tribuna Impressa de Araraquara em 1º/4/2012.

252. “Malthus”, Diogo Mainardi – A multiplicação da estupidez

Diogo Mainardi em pose assaz sombria

Quem conhece Diogo Mainardi apenas de suas ácidas crônicas da Veja, pode não imaginar que exista também um Mainardi romancista. E mais, com a qualidade literária que tanto anda em falta.

Longe das pretensas elucubrações e da vacuidade que dominam a literatura brasileira contemporânea, “Malthus” não é apenas um retrato surrealista da sociedade brasileira — algumas passagens podem mesmo evocar o humor da trupe britânica Monty Python — mas uma alegoria feita sobre a base da teoria socioeconômica do economista inglês Thomas Malthus (1766-1834), a respeito do descompasso entre crescimento populacional e produção de alimentos.

Narrando a trajetória de Loyola y Loyola — um sugestivo nome “jesuítico”—, o livro vale-se de alusões à história brasileira e tenta explicar a progressão malthusiana não apenas da população — em certa hora, o personagem é multiplicado por quarenta por seu amigo Ovas Negrão, transformado em beato com poderes mágicos — mas também da própria estupidez humana.

Um livro de leitura rápida e agradável, com prefácio de Ivan Lessa, certamente será lembrado no futuro — juntamente com seu autor — por significar algo em meio ao grande vazio cultural que vivemos.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 25/3/2012.

251. O burrinho sarnento

Obviedade. Se a burocracia se materializasse, seria um burro. Um burro sarnento. Nada contra os burros e asininos em geral, mas, pelas intrincadas veredas da língua, foram eleitos pela tradição popular como símbolo da vontade obstinada, da vontade inamovível do empacar. A sarna apenas enriquece a alegoria: é o símbolo da pestilência, da contaminação, da transmissibilidade do que é ruim.

Nas últimas semanas, vimos o burrinho sarnento trotar pelas plagas araraquarenses: a intransigência da Cohab, que, cegada pela burocracia, ameaçou de despejo um catador e sua família praticamente às vésperas da quitação do imóvel; o outro caso é do idoso de Américo Brasiliense que teve o fornecimento de energia elétrica cortado pela CPFL Paulista porque o titular da ligação — que não morava mais na casa — pediu que seu nome fosse retirado da fatura de consumo. O que apenas é entendido como ‘desligamento’ pela concessionária, simples assim. Sabe-se que a CPFL foi privatizada em 1997, mas parece que ela ainda contém vícios característicos das economias mistas e autarquias. Vícios públicos em ares privados.

A burocracia imobiliza a vida civil e a economia. Licitações que demoram uma eternidade frente à premência de problemas, como bem mostrou matéria da edição de ontem desta Tribuna sobre a vicinal que liga nossa cítrica cidade à vizinha Américo Brasiliense.

Mesmo doente, o burro marcha. Vitima. Escoiceia na escuridão justos e pecadores. Leva nos seus alforjes o papelório incompreensível de leis, decretos e regulamentos. Pasta nossa paciência.

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Artigo publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 24/3/2012.

250. Fábula VII

Parte I * Parte II * Parte III * Parte IV * Parte V * Parte VI

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VII

“Nasceu em 20 de maio de 1984 em Vilafranca de Taquarembó, no seio de uma família de agricultores. Começou cedo nas lidas do campo, ajudando os pais e os seis irmãos. Logo tomou consciência de sua condição injusta e buscou seus direitos políticos, ingressando, aos 12 anos, nas Juventudes do Partido. Militou por várias causas justas e nobres como a defesa do uso da maconha, contra os abusivos aumentos da passagem de ônibus e contra a crescente elitização do nosso ensino superior, que antes da assunção do Partido ao poder, somente era franqueado aos filhos da elite dominante.

De todas essas glórias, foi aclamado presidente das Juventudes do Partido, segurador-mor do Cerimonial do Governo do Estado e, agora, Secretário da Casa Civil, posto de suma importância dentro da administração estadual.

O secretário, por conta de suas origens, é pessoa humilde, mas não simplória. É amigo cordial e objetivo, características que não impediram seu desenvolvimento intelectual e seu agudo raciocínio, sendo leitor ávido dos grandes teóricos do socialismo.

[…]

Certa vez, em uma festa do grêmio estudantil, vestiu-se de Karl Marx, quase enganando os colegas de curso […]”

O resto tratava de detalhes inúteis como datas, nomes de escolas e colegas de infância. Era ler e decorar.

*

Em cerca de 20 dias de estudo profundo do documento, sentiu-se em condições de livrar-se dele. Lera-o com tanto afinco que personificara o escrito. Era como se fosse sua história real; frente a algo tão bem alinhavado, a outra perdia viço e cor. Não acreditava que bebera tanto a ponto de correr pelado pelo meio do mato. Balançava a cabeça em sutil sinal de reprovação.

Acendeu a lareira e jogou o documento às chamas.

Nesse instante, chegou a secretária particular:

— Senhor secretário: correspondência.

E depositou sobre a mesa um envelope sem remetente. Abriu-o. Uma folha datilografada.

“Caro colega,

É uma honra tê-lo entre nossas hostes da verdade e da justiça. É com prazer que me vejo seu colega e seu tutor — missão confiada pela nossa excelsa governadora.

Gostaria de dizer, em primeiro lugar que, para o exercício efetivo do poder no nosso País não bastam as instituições, o parlamento, as assembleias. São meros aparatos superficiais. Joguetes de criança. O que realmente governa é um hábil jogo de tensões feito pelas pessoas certas, sem vínculos aparentes. Veja: não precisamos gente dentro das redações de jornal, mas temos meios de fazer com que rezem pelo nosso catecismo.

Algo importante é a necessidade de um inimigo à mão. Povo seguro de si não cai em qualquer conversa; por isso, precisamos de inimigos reais ou imaginários. Os mais facilmente demonizados são a oposição e a imprensa — basta que não rezem pelo nosso catecismo. Há outros mais complicados. Vizinhos, disputas territoriais; mas esses ficam para os casos extremos.

Espero vê-lo em breve.

Um grande abraço,

O secretário de Finanças.

P.S.: queime a carta após a leitura.”

A carta foi juntar-se à biografia que ardia na lareira. Inimigos, uma conveniência, quem diria!

247. “Veredicto em Canudos”, Sándor Márai

Sándor Márai (1900-1989), escritor húngaro

“Um dia comecei a escrever sobre o que acreditava ter ficado ‘de fora’ do livro de Euclides da Cunha — ficara de fora, mas ‘poderia ter sido assim’.” Dessa maneira, com palavras do próprio autor, podemos definir o romance húngaro “Veredicto em Canudos” (Ítélet Canudosban, no original magiar).

Sándor Márai, alicerçando a narrativa a partir de uma tradução americana de “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, recria um instante: o estertor do povoado erguido na poeira do Sertão pela fé — loucura? — de Antônio Conselheiro, sem nunca sequer ter pisado no Brasil. O tempo da ação é preciso: “entre as cinco da tarde e as nove horas da noite” de 5 de outubro de 1897, dia anterior à erradicação do povoado.

Narrado em primeira pessoa pelo protagonista — um veterano da guerra que trabalha na Biblioteca Mário de Andrade em São Paulo e possuidor traços singulares —, o romance é uma grande metáfora entre a pretensa sanidade e a aparente loucura, encarnadas respectivamente pelo então Ministro da Guerra — personagem real — e uma estranha mulher emergida da cidadela, como tantas outras almas, mas que, surpreendentemente, conversa em inglês com a autoridade.

Traduzido do húngaro por Paulo Schiller, a obra mostra-se importante adendo ao monumento euclideano, principalmente em seu fator mais humano e por sua universalidade.

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Publicado no Painel Cultural da Tribuna Impressa de Araraquara (18/3/2012).