362. Pedro, Rei e Imperador

Pedro I mostrado como Pedro IV, Rei de Portugal

Pedro I mostrado como Pedro IV, Rei de Portugal

É oportuna a exumação de Suas Majestades Imperiais Dom Pedro I, Dona Maria Leopoldina de Áustria e de Dona Amélia de Leuchtenberg, respectivamente Imperador e suas esposas. Os estudos forenses estão sendo feitos pela arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel, da Universidade de São Paulo.

Havia muitos mitos sobre a personalidade dessas figuras históricas, mormente sobre Dom Pedro I, Pai da Pátria, cuja imagem foi vilipendiada pela república que se seguiu ao infame 15 de novembro de 1889.

Pedro de Bragança foi escolhido como Príncipe Regente quando da volta da Família Real portuguesa à Europa. Os ditames das Cortes de Lisboa exigiam a recolonização do Brasil — que então era reino dentro do Reino Unido de Brasil, Portugal e Algarves; Pedro e Maria Leopoldina, atendendo aos anseios populares, declararam, em 1822, o Brasil independente.

O menino Pedro foi criado num ambiente menos rígido que uma corte europeia. Andava a cavalo, misturava-se com o povo. Teve falhas na sua educação formal — daquilo que se espera de um príncipe. Longe de orgulhar-se de tais defeitos, procurou saná-los na educação dos filhos, um dos quais seria o sábio Imperador Pedro II.

Por seus feitos e fama, foram-lhe ofertados os tronos de Espanha e Grécia, reconhecimentos internacionais a sua pessoa; as honras foram gentilmente negadas.

Morreu em 1834, como general português, depois de assumir a Coroa da terra natal apenas para defendê-la do irmão Miguel. Em seu testamento, não fez distinção entre filhos legítimos e naturais. Bom pai, governante exemplar. Que sua memória seja restaurada no brilho daquilo que Pedro realmente foi: o único estadista brasileiro digno de tal título.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 22/2/2012.

353. A solução virá de trem

Parece que finalmente o Governo do Estado acordou para a realidade caótica das rodovias, principalmente no entorno da Capital. É verdade que o Rodoanel tirou bastante tráfego de dentro da cidade de São Paulo, mas algumas ligações continuam caóticas, principalmente para Campinas, São José dos Campos, Sorocaba e Santos, cidades de grande importância econômica e que geram grande fluxo de deslocamento para e da Capital.

O Governo do Estado, pressionado por algumas mancomunidades de municípios e sindicatos ferroviários, lançou edital para a reativação dos trens regionais de passageiros entre a Capital e os destinos-chave acima mencionados. Além disso, Campinas e municípios circunvizinhos estão cobrando a extensão da linha 7 da CPTM, em paralelo com a regional — atualmente, a linha urbana chega até Jundiaí; a 38 km de Campinas —, com tarifas integradas às de São Paulo, o que realmente daria vida à megalópole São Paulo-Campinas.

A linha regional de Campinas já tem uma previsão de extensão até Americana. Começa a inclinar-se para a nossa região: Rio Claro, São Carlos, Araraquara. Um trem mais rápido que o ônibus e sem ter de disputar espaço com os carros seria muito útil para Araraquara; a velocidade estimada para as novas linhas regionais é de 160 km/h. Com as paradas, ganharíamos a Capital em duas horas, contra as quatro e meia de ônibus.

Os investimentos podem chegar à casa dos R$ 20 bilhões, mas trata-se de um projeto de mobilidade a longo prazo, um planejamento de demanda para daqui 20 anos, coisa difícil neste país movido a populismo. Que venham os trens, não pelo saudosismo, mas pela eficiência.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 22/1/2013.

344. Punição a quem trabalha

É claro que a carga tributária é excessiva e é um peso para os setores produtivos, mas a burocracia estatal e paraestatal é a braquiária que destrói os campos, os cipós que lentamente matam e asfixiam as árvores.

“A burocracia expande-se para satisfazer as necessidades de uma burocracia em expansão.” A frase, certa como a flecha de Guilherme Tell e atribuída tradicionalmente a Oscar Wilde, define bem as intenções do monstro que paralisa a economia: a manutenção de Estado ineficiente, incompetente, dominado por populistas e cujo único motivo de existência é a autoalimentação.

Engana-se quem pensa que a burocracia endêmica é privilégio do setor público. No afã de dominar e controlar a atividade econômica, regula-a excessivamente, esboroando o ânimo em quem poderia gerar mais empregos e criando oportunistas — Jecas Tatu 2.0 — que se valem de empresários incautos para alimentar a indústria dos processos trabalhistas — esta sim, pujante e viçosa.

Ilude-se quem crê que as regulações do mercado pelo Estado sejam vantajosas. Elas criam apenas comodismos e irradiam a burocracia para dentro das empresas, que têm de ajustar seu ritmo por leis obsoletas e contraproducentes. Agências reguladoras, tribunais, câmaras, secretarias de Estado, cartórios, sindicatos — os grandes poleiros das aves de mau agouro que olham com desdém o progresso econômico, tratando seus agentes como inimigos do público.

Enquanto populistas dos mais variados matizes, por monopólio de domínio político, mantêm reféns tanto a sociedade quanto a vida econômica, o empresário — que gera renda e empregos — continua sendo o vilão número um.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 27/12/2012.

338. A centopeia política

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Nosso regime é recheado de problemas. É quase uma piada de mau gosto chamá-lo democracia; poderia ter qualquer nome: corporativismo, partidocracia, criptocracia. Chamam-no democracia por moda e conveniência.

A grande falha — uma entre milhares — do sistema político brasileiro são seus partidos. Não os partidos em si, mas a forma que a lei estipula como deve ser formados, que segue legislação federal de caráter unitário.

Em um país tão grande, é impensável que os problemas que afligem, por exemplo, Araraquara, sejam os mesmos da Capital do Estado ou os da cidade de Oiapoque, no Amapá. Por conta do obrigatório caráter nacional, nossos partidos transformaram-se em monstros políticos, centopeias que se escondem sob o pedregulho estatal e atrapalham sua renovação e a diminuição. É óbvio que todo o mecanismo de legalização dos partidos foi criado por eles mesmos e embutido na legislação.

Por que não podemos ter candidatos independentes, como em vários outros lugares do mundo, cujo compromisso não fosse regido por cores partidárias, mas pelo real compromisso para com a população?

Outro dia, navegando pela internet, vi alguns dados sobre as eleições municipais e autonômicas na Espanha. Há municípios cuja população une-se e forma frentes para disputar as eleições, comumente chamadas de uniones. Ou seja, há os grandes partidos, com representação nacional, há partidos regionais — como, por exemplo, na Catalunha, onde os principais agentes políticos são partidos regionais — e há também as pequenas uniões.

Talvez fosse tempo de o Brasil começar a desmantelar o monstro partidista que, com sua coesão, ignora peculiaridades em prol do corporativismo político.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 11/12/2012.

335. O velho novo mundo

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Parece que a América foi descoberta outra vez. Os “colombos” da educação estão fazendo estardalhaço na televisão e em outdoors: reinventaram o ensino médio integrado ao técnico.

Antes de 1998, era assim que o ensino técnico estadual funcionava. Prestava-se o vestibulinho e, sendo aprovado, cursava-se o ensino médio integrado a disciplinas de uma área específica. A grande maioria dos cursos era de quatro anos, um a mais que o ensino médio convencional. A proporção de disciplinas técnicas na grade curricular ia aumentando na passagem dos anos. Era uma opção interessante para quem não tinha tempo ou paciência para fazer um curso superior. E outra: bacharéis ficam avessos a certas atividades excessivamente manuais, mesmo que sejam vinculadas ao seu métier.

Em 1998, o Governo do Estado, amparado na famigerada Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, Lei federal nº 9.394/96), reorganizou o sistema de ensino técnico do Estado, desvinculando o ensino médio em si, que passou a ser ministrado como no resto da rede, do ensino técnico, cujo acesso ficou vinculado a um segundo exame de admissão. A desculpa na época era que muitos faziam o ensino técnico — conhecido por sua boa qualidade — para disputar o vestibular.

A solução deu tão certo, que voltaram ao sistema anterior. Cursar o médio regular e o técnico implica em o aluno ter dupla jornada, o que não raramente atrapalha quem trabalha. Outra: a conclusão das modalidades técnicas — a maioria delas — requer um estágio curricular. Como fazê-lo com dupla jornada escolar?

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Publicado na Tribuna Impressa  de Araraquara em 4/12/2012.

333. A antimedalha de prata

Os gringos detectaram agora; nós já sabíamos há muito tempo que nosso sistema educacional é péssimo. Trata-se apenas de escancarar a obviedade.

O Brasil ficou em 39º em ranking educacional elaborado pela Pearson — uma learning company, como se autointitula —, dentro do projeto The Learning Curve. Trigésimo nono lugar não do mundo todo, mas de 40 países.

Os índices surgiram de um cruzamento de dados de vários organismos internacionais envolvidos com educação e comprovam o fracasso da educação brasileira. Embora tentemos disfarçar com Saresp, Prova Brasil e outras maquiagens vagabundas, a verdade é que estudantes oriundos de nossas escolas, com grandes exceções, são incapazes de, por exemplo, fazer a prova do Pisa — Programme for International Student Assessment.

Nas escolas públicas, é a velha choradeira de salários defasados, instalações ruins e falta de interesse do Poder Público, o que tem sua parcela de verdade. O ensino privado é bom de make-up: apostilas, tablets e outras parafernálias, mas que, sem métodos adequados, não acrescentam nada, como já disse o colunista Francisco Belda há algum tempo.

Em suma, tal situação é fruto da excessiva pedagogização do ensino em detrimento do ensino real; da transformação da escola em “creche para grandes”, da retirada da autoridade do professor e da relativização do valor do conhecimento, que muitos apregoam, mas poucos valorizam efetivamente.

Diretores, coordenadores, secretários municipais e estaduais da Educação, pedagogos, ministro. Tirem seus paletós das cadeiras. Vão para casa; podem fechar as escolas. Como estão, do jeito que vocês as deixaram, mais atrapalham que ajudam. Talvez a Indonésia precise de alguma consultoria de vocês.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 30/11/2012.

332. Catalunha triunfante

É fato que, sendo fruto da união dinástica entre os reinos de Castela e Aragão, a Espanha é — mesmo 500 anos depois — um país artificial. Vários povos agitam-se sob o lodaçal pesado do espanholismo, cuja face mais tenebrosa hoje é a imposição do castelhano — ou, como dizem, “espanhol” — como “língua comum” a todos os cidadãos do país.

Catalães, bascos e galegos, que têm línguas que não são o espanhol, durante décadas foram obrigados a limitar sua fala ao âmbito doméstico, com grandes prejuízos para a cultura desses povos.

Parece que a Catalunha é a primeira dessas regiões hispânicas a começar um processo de autodeterminação, não sem apupos, críticas e até mesmo ameaças vindas do governo de Madri. Depois da multitudinária manifestação do último 11 de setembro (Dia Nacional da Catalunha), o presidente da Generalitat — o governo autonômico catalão —, Artur Mas, resolveu dissolver o parlamento regional e convocar novas eleições, ocorridas no último domingo.

Embora o partido de Mas, a Convergència i Unió (CiU), almejasse a maioria absoluta do legislativo catalão — 62 cadeiras de 135 —, não a conseguiu; mas partidos que também encarnam o ideário soberanista — com destaque para a Esquerra Republicana Catalana (ERC) — têm dois terços da Casa, o que possibilitará convocar o referendo de autodeterminação para 2014, uma data emblemática para os catalães.

É bem possível que, depois de tanto tempo, comece a tomar corpo um “Adéu, Espanya!”.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 27/11/2012.

331. Ao senhor Governador

“Não vejo nada de errado…”

Não sem certo assombro ouvi a declaração do governador Geraldo Alckmin, na última quinta-feira (15), sobre a onda de violência que assola o Estado desde setembro. “[…] senão se cria uma situação muito injusta, quase que uma campanha contra São Paulo. E não é possível fazer isso e ainda criar uma situação de pânico na população”.

Não se trata de criar uma campanha, Sr. Governador. É situação dada. E outra: o pânico não precisa de agente, ele inclusive vai melhor no boca a boca, não precisa de jornais e televisão, ainda mais num país em que jornal é coisa para poucos e televisão é vista somente como entretenimento. O “Jornal Nacional” é somente música de fundo para o jantar da família brasileira.

Com essas palavras, Alckmin externaliza uma concepção errônea — ou não? — e típica de regimes mais fechados: que a culpa das calamidades do povo necessariamente passa pela imprensa. Talvez PSDB e PT partilhem da mesma visão sobre o funesto “controle social” da mídia. Afinal, suas vertentes políticas — a fábrica e a academia — costumam andar de mãos dadas nos partidos políticos de esquerda europeus. Somente aqui que se criaram dois monstros, cada um com meia cabeça.

E enquanto o governador vem com conversa evasiva, o Estado paralelo, operado de dentro dos presídios, continua espalhando o pânico de forma efetiva, com balas e mortos. A sociedade civil está esperando uma resposta adequada ao problema, Governador. Pulso, medidas efetivas. Que os presídios deixem de ser a pós-graduação da criminalidade. Apenas isso.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 20/11/2012.

328. Há muito tempo, agora há pouco…

Houve um tempo na política nacional em que as ameaças eram desnecessárias. Com base no poder econômico e respaldo do poder político oligárquico, os famosos coronéis simplesmente mandavam fazer. Não havia muito a questão da ameaça, que servia apenas para afugentar os covardes. Os mais valentes acabavam por receber a “expedição punitiva” na porta de casa.

Aliás, cabe dizer que a patente de coronel concedida a esses políticos advém do fato de, eventualmente, serem vinculados à Guarda Nacional, um título honorífico — compensação pela extinção dos títulos de nobreza concedidos no período monárquico.

Mas, voltando, os políticos de então não se importavam um pingo com a opinião pública: o voto era aberto e o coronel poderia mandar à seção eleitoral seus “fiscais”, para ver se o Zé das Couves, que ganhara um pé de sapato, ganharia o outro, por ter votado “corretamente”, ou se seria agraciado com uma bela sova, por ter sido infiel. O sistema do voto aberto permitiu o controle absoluto do eleitorado no período anterior ao golpe militar de 1930.

Não obstante a nossa moderna democracia — por favor, relevem a expressão: nem sempre o “moderno” é melhor que o passado — ter seus mecanismos de prevenção de abusos, tais expedientes ainda encontram eco na política moderna. A troca de favores é um deles.

Hoje, o político é “um homem de doze dedos”, mas,  volta e meia, baixa o espírito do coronel em alguns. Voltam o pé de sapato, as ameaças, a desarticulada verborragia invectiva. Só que, como se vê em vários casos, a ameaça é filha do desespero; e cabe ao desesperado explicar seus rompantes.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 13/11/2012.

326. O terço descontente

Quando termina uma eleição e contam-se os votos, a ansiedade fica pela torcida na “corrida dos cavalinhos” — lembra-se desse quadro do programa infantil “Bozo”, leitor? A conta final exclui as abstenções, sejam elas por anulação ou por justificação do voto.

No caso da disputa pela Prefeitura paulistana, os números são assustadores. Veicula-se apenas o porcentual considerado “válido” por critérios estabelecidos em lei. Se incluirmos o número total de eleitores do colégio, as porcentagens são: Fernando Haddad (PT), 3.387.720, ou 39,3%; José Serra (PSDB), 2.708.768, ou 31,4%, e o conjunto de nulos, brancos e abstenções atingiu 2.522.682, ou seja, 29,3%.

A esperteza dos legisladores está em considerar a maioria absoluta dos “votos válidos”, esvaziando qualquer tipo de protesto com o voto nulo ou com a abstenção. Em qualquer outro país sério, tais números causariam uma crise política. Haddad elegeu-se — não obstante a condenação por formação de quadrilha da antiga cúpula do seu partido — com pouco mais de 39% dos votos. Os votos dos descontentes chegaram a quase um terço de todos os eleitores aptos a votar.

O protesto de anular o voto não tem valor legal — o que é cômodo aos políticos, pois a vontade dos descontentes é simplesmente ignorada —, mas deveria servir para que criassem o mínimo de vergonha na cara e revissem seus conceitos. O eleitorado está cansado. A tendência desses números — mesmo com o estardalhaço do TSE pelo “voto útil” — é aumentar, o que vai tirar ainda mais a legitimidade do processo democrático brasileiro.

É hora da reforma política. Já passou da hora.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 30/12/2012.

325. Mortes urbanas

Ruínas de instalação das Indústrias Reunidas Matarazzo em Iguape/SP

Embora o artigo abaixo seja específico sobre a cidade de Araraquara, Interior do Estado de São Paulo, ele retrata bem um fenômeno urbano brasileiro: zonas inteiras que morreram asfixiadas pelas vias de acesso. Com uma política que privilegia sempre o fluxo dos automóveis, a decadência que cantos que ficaram “ilhados” por equipamentos viários é visível principalmente nas grandes cidades. Mas também nas de médio porte o fenômeno é perceptível.

O artigo “Mortes urbanas” foi escrito para a Tribuna Impressa, de Araraquara, e publicado no dia 23/10. O mote é uma reportagem do domingo imediatamente anterior que tratava da decadência do Mercado Municipal da cidade.

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Mortes urbanas

A falta de planejamento urbano é o algoz das cidades. E não se trata de algo pontual, de uma só administração, mas de uma longa tradição de descaso com o aparato urbano.

No Brasil, os deuses do progresso são o trator e a marreta. Divindades violentas e inclementes. Observe ao seu redor, leitor. Se Araraquara existe desde o final do século 18 — embora só tenha “entrado no mapa” em 1817 —, o que pode nos dar noção disso? Nosso passado dourado resume-se a meia dúzia de casarões do começo do século 20, na área central da cidade. Nada mais. Se alguém dissesse que Araraquara foi fundada apenas em 1905, visualmente, seria factível.

Foi a falta de planejamento e o afã da marreta que necrosaram a região do Mercado Municipal, tema de reportagem de Raquel Santana, publicada nesta Tribuna, no último domingo (21/10).

Quando a estrutura que hoje abriga o Terminal de ônibus era a Rodoviária, movimento por ali não deveria faltar. Porém, a Rodoviária foi exilada para a ponta da Via Expressa e a própria Via Expressa foi construída, criando aquela curva esquisita que faz a Rua Zero, e foi erguido o viaduto da Duque de Caxias. O Mercado ficou “ilhado” entre vias de acesso; é vítima desse “progresso mal planejado”.

Pelo que sei, a transferência da Rodoviária e a construção da Via Expressa são da mesma época, a primeira metade dos anos 1980. Juntas, as duas alterações causaram graves desarranjos ao tecido urbano; a maior ferida é o Mercado: isolado num estranho canto e esquecido pela população, que lhe torce o nariz.

Sobreviverá o Mercado à sanha da marreta?

323. Do ouro ao chumbo

Aurea mediocritas, o meio-termo de ouro, lema e meta dos poetas árcades. Meio-termo porque não peca pela falta, nem pelo excesso. Mas a palavra assumiu uma conotação negativa entre nós. O medíocre é indivíduo que além de não ter talento nenhum para destacar-se — não destacar-se não é um pecado em si —, projeta a queda dos demais, nivelando todos “por baixo” e ali procurando mantê-los.

O mal teve início quando os medíocres tomaram as academias, o parlamento; geraram leis e prerrogativas para seus iguais, burocratizaram a sociedade, imobilizando a criatividade. Mantêm sob ameaça o setor produtivo da sociedade com suas ações abstrusas. Como exemplo, o tal “desvio de função”, criação de legisladores ociosos para alimentar advogados de “porta de empresa”.

O medíocre não quer ter esforço. Por isso, mata na concepção a iniciativa alheia. O que antes era aprendizado no ambiente laboral, que dava oportunidades reais de crescimento profissional ao empregado e criava um vínculo com o empregador, passou a ser visto com desconfiança: tanto dos medíocres em geral, quanto do empregador, que, com plena razão, tem receio que aquele fato possa conduzir a um processo trabalhista — que sempre envolve uma reparação financeira; afinal, o real intuito do medíocre é alimentar-se do esforço alheio.

Há hoje faculdades, mas certas coisas somente a rotina de trabalho nos ensina. E perdemos uma parcela importante desse aprendizado por conta dos medíocres que legislam e invejam desde suas cátedras ou banquinhos.

Será que com esse tipo de pensamento canalha e mesquinho, inerente a quase todos nós, chegaremos ao dito mundo desenvolvido? Ou continuaremos a patinar na nossa mediocritas, plumbea mediocritas?

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 19/12/2012.

318. Ressaca

Eu votei, você votou, nós votamos. Elegemos um prefeito. No nosso caso específico, reelegemos quem ocupava a cadeira, Marcelo Barbieri. Não nutro esperanças. Não pense o prefeito, se por acaso deitar os olhos nestas linhas, que é pessoal. Não, procuro sempre ser republicano no sentido mais estrito da palavra. Mesmo que qualquer outro postulante ganhasse, eu estaria desiludido do resultado.

A segunda-feira pós-pleito é de ressaca, tanto dos eleitos, embriagados pela vitória, quanto dos derrotados, pois a derrota também embebeda. Os eleitores também estão com dor de cabeça, daquelas que o simples ato de pôr o pé no chão é trabalhoso. As portas das escolas estão atulhadas de panfletos.

Festa da democracia tivemos, mas não há sal de frutas que cure o enjoo dos próximos quatro anos, quando os eleitos recuarão para seus gabinetes e se dedicarão às habituais intrigas palacianas.

Não obstante a apatia que caracteriza nossas eleições, algumas mudanças na Câmara. Parece que a grita contra o ‘autoaumento’ causou algum estrago eleitoral. O PT regional também sofreu alguns reveses, apesar de o ex-presidente Lula ter dito “que o povão está mais preocupado com a queda do Palmeiras que com o Mensalão” — outra de suas frases de boteco que não condizem com a dignidade do cargo que ocupou —, parece que a coisa não foi bem assim: embora tenha ganhado Boa Esperança do Sul, Rincão e mantido Matão, não reconquistou Araraquara — sofrendo inclusive um “encolhimento proporcional” na Câmara, com sua bancada passando de 3/13 para 3/18 — e ainda perdeu Américo — onde Ademir Gouvêa era candidato à reeleição — e São Carlos — lá Osvaldo Barba também pelejava pelo segundo mandato —, Nova Europa e Motuca.

Parece que o Mensalão, não obstante Lula, teve mais protagonismo que o cadente Palmeiras. Ainda bem.

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Publicado na edição especial da Tribuna Impressa de Araraquara em 8/10/2012.

317. De novo

Hoje é dia de exercermos o nosso dever-direito, dentro de um incongruente marco constitucional. De dois em dois anos, temos de rastejar às urnas para eleger quem pretensamente nos representa. A obrigatoriedade do voto arrasta às seções milhares de pessoas que não têm o menor interesse em tal direito. O STF já bateu o martelo: mesmo sem candidatos, temos de comparecer às urnas para manifestar nosso descontentamento.

Já abordei neste espaço — e não faz muito tempo — a falta de legitimidade que têm nossos pleitos. A democracia cujo único critério de validação são os números — e não qualidade do voto — e seu caráter referendário, por concentrar excessivos poderes nas mãos do Executivo.

É óbvio que uma reforma política está fora de questão. Não interessa aos políticos. Tudo lhes é muito confortável: o presidencialismo de coalizão, a rígida estrutura partidária que não permite agremiações em nível estadual ou federal, o voto proporcional, que dilui a base de representação dos parlamentares e deixa regiões inteiras sem representação e abre espaço para todo o tipo de arrivista: dos mais comuns aos fracassados em suas profissões de origem.

A política, entre nós, não é o como administrar a polis, a coisa pública: virou — e há muito — arrimo de oportunistas, de arrivistas, de gente cujo interesse não são as atribuições do cargo — esta Tribuna mesmo mostrou que muitos candidatos a vereador desconhecem as funções do posto —, mas sim uma sinecura ou um lugar privilegiado para suas atividades paralelas.

E lá vamos nós. De novo.

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Publicado na Tribuna Impressa de 7/10/2012, dia das eleições municipais.

314. A democracia sou eu

“Paz, amor e sieg heil!”

L’État c’est moi” — “O Estado sou eu” — é frase atribuída a Luís XIV, Rei da França entre 1643 e 1715. O dito, embora os historiadores não considerem ter saído efetivamente da boca do monarca, contém a ideia da monarquia absolutista, ou seja, regime em que o rei era executivo, legislativo e judiciário. A frase resume o espírito da época.

“A democracia sou eu.” Disse outro Luís, o Inácio Lula da Silva. Não exatamente assim, mas a maneira como ele vem se comportando bem o demonstra. Embora seja dado a bravatas, Lula jamais diria uma frase dessas. Jamais se comprometeria tanto com conceitos que lhe são apenas degraus, como a democracia.

Parte de sua concepção política vaza de seu discurso furado: “Temos de aproveitar o bom momento do País para eleger mais companheiros”, disse o ex-presidente no palanque de Luiz Marinho, candidato a prefeito em São Bernardo do Campo/SP. A ideia de Lula paira sobre um regime de partido único, uma democracia “companheira”. Basta ver algumas declarações: “Precisamos extirpar o DEM da política brasileira”, nas eleições de 2010, e, agora, no comício de Mário Reali, candidato a prefeitura de Diadema/SP, quando comparou a oposição a um câncer.

Sua insistência em dizer que “não sabia de nada” sobre o Mensalão está se mostrando um péssimo álibi. Enquanto Lula tenta esconder o morto no armário, a militância — principalmente pela internet — está arreganhando dentes e falando em “golpe”. O único movimento que vejo é o da decência, de magistrados que estão fazendo seu papel, não obstante terem sido, em grande parte, indicados por Lula ou Dilma. O golpe é apenas contra o democratismo “companheiro”, que há de chegar ao fim.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 25/9/2012.