329. Os pinheiros de Pondal

O poeta Eduardo Pondal

Na edição de hoje da Tribuna Impressa, jornal diário de Araraquara, está a matéria que produzi sobre o poeta galego Eduardo Pondal. Aqui, um arquivo PDF da página. Espero que gostem.

Sérgio Mendes

327. Análise de um poema de Nego Antão

Boleta de pong-ping.

Eis um haikai revolucionário do mestre da poesia pós-moderna, Nego Antão, morador de rincões em que reina o cinza das telhas de fibrocimento. Como pode existir tanta concisão poética em um dístico — uma forma ocidental clássica —, mas que nos remete à simplicidade do haikai. Seu autor inclusive prefere que a chamemos de haikai. “Crio elas como se criam galinhas num galinheiro: têm penas e boa carne”, explica Antão.

O poema, que não tem título — outra tirada magistral —, narra um jogo de pingue-pongue. Para um leitor desatento, pode ser uma estranha partida de pingue-pongue. Um estrangeiro jogando pingue-pongue na luxuriante atmosfera tropical do nosso país-potência. Mas há mais mistério entre as folhas das bananeiras do que supõe nossa vã filosofia.

Repitamos os versos em voz alta. Sintamos a força e a reverberação de suas aliterações sutis. “Boleta de / pong-ping”. Advirto-os, leitores: há mais.

“Boleta”, um diminutivo pouco usual de bola. Por que não “bolinha”? Na verdade, “boleta” aponta para o “boleto” de pagamento, uma relação consumista e que tem toda liames com o glorioso e radiante momento econômico vivido pelo país. Todos podem comprar. Todos têm seus boletos para pagar, mas Antão não somente celebra as benesses da era Lula, ele põe um elemento feminino, da liberação da mulher do jugo machista, trocando o gênero da palavra: “boleta”. Não apenas os machistas compram, mas também as mulheres, os gays, os transgêneros e os simpatizantes. Antão dá um banho de lirismo em toda a elite branca, cristã, machista e homofóbica com apenas uma palavra. Pergunto-me por que ainda não o indicaram apara o Nobel.

Depois desse glorioso primeiro verso, vejamos o último: “pong-ping”. A inversão do nome do jogo mostra a inversão que a classe trabalhadora, com suas “boletas”, fez na mais-valia, ainda refletindo o primeiro verso. Não apenas mais a elite branca dos olhos azuis compra… os ensebadinhos do subúrbio — o conceito da sebência orgulhosa, tão exaltada por Antão, e também por alguns gêneros musicais como o rap e o funk — também compram, invertendo a situação de domínio. E ainda digo mais: querem estar presentes à globalização, por isso a preferência por não aportuguesar os vocabulários. Mas a inversão dos termos originais também significa a insubmissão à cultura enlatada, manipuladora e planificadora dos Estados Unidos: é a faca apontada para o Tio Sam.

Essa é apenas uma amostra do livro de poemas de Nego Antão. A obra completa consta de cinco pérolas e foi impressa em um conceito ultramoderno de editoração: em uma folha corrida apenas, para que fosse acessível às populações oprimidas.

321. Giorgios Seféris, V, de “Mitologia”

Giorgios Seféris

V

Jamais os conhecemos.
……………………………… Era a esperança, no fundo de nós,
Que dizia que os havíamos conhecido desde nossa infância.
Vimo-los duas vezes, talvez, depois entraram em seus barcos;
Cargueiros de carvão, cargueiros de cereais, e nossos amigos
Desaparecidos do outro lado do oceano, para sempre.
A aurora nos encontra ao pé da lâmpada fatigada
Desenhando com esforço no papel, desajeitadamente,
Navios, sereias e conchas.
No fim do dia, descemos para o rio
Porque ele nos aponta o caminho para o mar
E passamos nossas noites em subsolos que cheiram a alcatrão.

Nossos amigos partiram.
……………………………….. Talvez jamais os hajamos visto,
Talvez os hajamos encontrado quando o sono ainda
Levava-nos junto da vaga que respira,
Talvez os procuremos porque procuramos essa outra vida
Para lá das estátuas.

* * *

Giorgios Seféris, de “Mitologia” (1933-1934) – Tradução possivelmente de Paulo Rónai.

279. “Dom Camilo e seu pequeno mundo”, Giovannino Guareschi

O autor e seu bigode

Foice, martelo e cruz

Em uma cidadezinha da Planície do Pó, na convulsão social e econômica da Itália do pós-guerra. Eis o cenário de “Dom Camilo e seu pequeno mundo”.

Giovannino Guareschi (1908-1968) faz uma alegoria das contendas políticas daquele triste período italiano, opondo o pároco da cidadezinha — Dom Camilo — e o administrador comunista Giuseppe Bottazzi, mais conhecido como Peppone.

Embora haja uma eterna rixa entre os dois, na verdade, são o que costuma chamar de inimigos cordiais. Gente que, apesar de duas posições ideológicas — a Democracia Cristã versus o Partido Comunista Italiano —, têm em mente o bem comum da cidade, embora não deixem de marcar suas posições de modo bem irreverente.

Dividido em pequenos contos, “Dom Camilo…” é o primeiro livro da série baseada nessa alegoria, que soma seis volumes, publicados entre 1948 e 1996, sendo que os quatro últimos são póstumos. Uma literatura que, como diria o próprio Guareschi no seu “Zibaldino”, “é bela e instrutiva”.

Dom Camilo e seu pequeno mundo – Difel/Bertrand do Brasil – preço variável

* * *

Publicado com alguns cortes na Tribuna Impressa de Araraquara em 3/6/2012.

274. Mapa

Curioso como as pessoas procuram por um sentido. O sentido obrigatório; a rua de mão única que leva obrigatoriamente a um castelo de cristal. O sentido, para mim, é algo que me atrapalha. Prefiro ter os fios do pensamento prontos para amarrar-se a qualquer elo, sem obrigatoriedades, em pontos pouco usados. Afinal, a agulha é minha.

Sento-me aqui e tenho este volume de Cortázar entre as mãos. Um homem que vomita coelhitos — perdoem, mas a tradução é lusitana. Talvez eu seja o homem que vomite coelhinhos felpudos que acabam crescendo e destruindo tudo.

É madrugada; silêncio. É a hora que os genes cobram seu peso. Imigrantes que vieram fazer a América, deixando sobre a magra terra europeia a enxada gasta. Gentes do interior, descendentes dos primeiros paulistas, que deixaram as quietudes das paragens remotas iludidas pela sereia das escamas de vidro que é a cidade grande. Eu voltei. Genes gastos de promessas velhas.

No silêncio absurdo da madrugada interiorana, somente os coelhinhos raspam-se pelo livro. Preparo um chá, volto e sento-me no sofá em uma posição confortável. Visto o poncho argentino que trouxe da lua de mel passada no Rio Grande. A caixa diz que o chá é de frutas vermelhas — melancia é vermelha por dentro, não? Um cheiro doce ligeiramente enjoativo invade minhas narinas. Acaricio o papel do livro.

Afinal, para que o sentido obrigatório? Não passa de cadeias.

265. De sonetos, emendas e poesia ruim

Ruim mesmo

Já diz o adágio popular que, às vezes, a emenda fica pior que o soneto. Logo, creio que o soneto de gosto duvidoso intitulado “Aumento para a vereança” precise ser detalhado na sua concepção e construção.

Feito a 26 mãos, trata-se de um amontoado de justificativas injustificáveis e versos que não dizem nada; apenas fazem barulho desnecessário com suas aliterações ruins. A primeira versão do soneto foi renegada pelo leitor: tema ruim e dispendioso. Rimas péssimas, como, por exemplo: “75% do salário do deputado estadual” com “subsídio ao parlamentar municipal”. Há neles o som de latas tombando por uma escada. Fora o mau gosto.

Em ano bissexto, algumas rimas deveriam ser evitadas porque atraem outras. “Eleição” pode casar-se perfeitamente com “rejeição”. As rimas em “ão” são chamadas rimas pobres, mas, neste caso, têm a força de um estouro de canhão.

Um soneto convencional tem 14 versos: dois quartetos e dois tercetos. O nosso “Aumento” tem 13 por questão de quórum. Além do mais, contém várias temáticas díspares: o júbilo discreto, o pouco caso e até mesmo uma saída à Pôncio Pilatos. Ensaiou-se uma emenda, mas a distração fez com que a tinta maculasse irremediavelmente o papel.

São 13 versos, mas, para o décimo quarto, milhares de canetas se levantam. Tem um caráter imperativo, um chamamento embutido. Um grito que una a sociedade e faça com que os poetas entendam que o senso comum que deve prevalecer. Certamente haverá uma evocação coletiva; um verso de sete sílabas — a popularíssima redondilha menor — que fugirá à babosa retórica dodecassílaba do restante: “Reage, Araraquara!¹”.

* * *

Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 24/4/2012.

1) “Reage Araraquara” é o nome do movimento popular que surgiu em resposta ao aumento abusivo dos salários dos vereadores araraquarenses.

264. “99 poemas – Brossa”, Joan Brossa

O poeta catalão em uma de suas performances artísticas

Poesia catalã moderna

Embora haja manuais de metrificação e regras mil, a poesia pode (e talvez deva) ser uma atividade de escrita livre. Temos vários exemplos de ótimos poetas brasileiros, mestres do verso livre, como Drummond e Bandeira. E que tal algo com um saborzinho exótico? Digamos, um pouco mediterrâneo?

Joan Brossa foi um poeta catalão que começou sua trajetória e metrificando, mas logo transcendeu as regras e as réguas, fazendo a sua poesia a iluminação do cotidiano, chispas onde geralmente só há o cinza-tédio. A recomendação de hoje fica por conta de “99 poemas – Brossa”, coletânea organizada por Ronald Polito e Victor Rosa e que traz, como diz o título, 99 poemas de vários livros de Brossa. Um mosaico para quem quiser conhecê-lo.

A edição é bilíngue e permite ao leitor também um passeio pela sonoridade única do idioma catalão que, eu diria – e sou suspeito para fazê-lo -, é a língua feita para a poesia, irmã do provençal dos trovadores. Ao lado dos originais catalães, a tradução destra de Ronald Polito.

Apenas um conselho: poesia tem de ser lida algumas vezes e não como se faz com um romance. Um livro de poemas é um livro para acompanhar o leitor durante meses.

* * *

Crítica publicada na Tribuna Impressa  de Araraquara, em 22/4/2012.

244. Vate de multidões

ImagemNo Dia Nacional da Poesia, nosso homenageado é o ilustre poeta, “benemérito, filantropo, parecerista juramentado de fóruns cíveis e criminaes, vate d’inspiraçon elevada, grão apreciador dos romanceiros geraes, gentilhomem de galantarias notáveis, monoculista ferrenho, de meia-idade, lesto e guapo” Equinócio Pindahyba.

O Doutor Pindahyba teve u’a meteórica carreira telemática, apenas três poemas publicados em um blogue. O que é desconhecido do grande público é que sua obra original, manuscrita em pergaminhos, jaz em uma água-furtada de uma casa de campo em Indaiatuba. Infelizmente, o poeta, com seus dez mastins napolitanos, impede o acesso a ela. “Não sois dignos, bando de sevandijas!”

Aos nossos leitores, uma centelha da luz eterna do poeta das multidões secretas.

“Estes versos os fiz em tençom de porfia com Monoel Bandeira. Sem réplica ficarom.”

Vaquinha-de-Minas-Geraes

Quando eu tinha vinte e dous anos
ganhei uma vaca Nelore.
Quão pouco se me dava
pr’onde ia o diabo da vaca se enfiar todo dia!
Deixava ela lá,
s’entendendo com boizinhos e tourinhos.
Ela parece que gostava,
é certo que nunca me pedio mais nada
(e nem adiantava, que eu mais não daria!).

— A minha vaquinha-de-Minas-Geraes foi minha primeira molher: dei-lhe tanta pancada…!

* * *

Mais aqui: http://equinociopindahyba.blogspot.com/.

215. Big Boring Brasil – Cordel

Recebi um excelente cordel por e-mail. Não é de meu feitio reproduzir simplesmente, mas, neste caso particular, vale a pena.

* * *

Cordel que deixou Rede Globo e Pedro Bial indignados

Antonio Barreto nasceu nas caatingas do sertão baiano, Santa Bárbara/Bahia-Brasil. Professor, poeta e cordelista. Amante da cultura popular, dos livros, da natureza, da poesia e das pessoas que vieram ao Planeta Azul para evoluir espiritualmente. Graduado em Letras Vernáculas e pós-graduado em Psicopedagogia e Literatura Brasileira.

Seu terceiro livro de poemas, “Flores de Umburana”, foi publicado em dezembro de 2006 pelo Selo Letras da Bahia. Vários trabalhos em jornais, revistas e antologias, tendo publicado aproximadamente 100 folhetos de cordel abordando temas ligados à Educação, problemas sociais, futebol, humor e pesquisa, além de vários títulos ainda inéditos.

Antonio Barreto também compõe músicas na temática regional: toadas, xotes e baiões.

BIG BROTHER BRASIL – UM PROGRAMA IMBECIL

Antonio Barreto

Curtir o Pedro Bial
E sentir tanta alegria
É sinal de que você
O mau-gosto aprecia
Dá valor ao que é banal
É preguiçoso mental
E adora baixaria.

Há muito tempo não vejo
Um programa tão ‘fuleiro’
Produzido pela Globo
Visando Ibope e dinheiro
Que além de alienar
Vai por certo atrofiar
A mente do brasileiro.

Me refiro ao brasileiro
Que está em formação
E precisa evoluir
Através da Educação
Mas se torna um refém
Iletrado, ‘zé-ninguém’
Um escravo da ilusão.

Em frente à televisão
Longe da realidade
Onde a bobagem fervilha
Não sabendo essa gente
Desprovida e inocente
Desta enorme ‘armadilha’.

Cuidado, Pedro Bial
Chega de esculhambação
Respeite o trabalhador
Dessa sofrida Nação
Deixe de chamar de heróis
Essas girls e esses boys
Que têm cara de bundão.

O seu pai e a sua mãe,
Querido Pedro Bial,
São verdadeiros heróis
E merecem nosso aval
Pois tiveram que lutar
Pra manter e te educar
Com esforço especial.

Muitos já se sentem mal
Com seu discurso vazio.
Pessoas inteligentes
Se enchem de calafrio
Porque quando você fala
A sua palavra é bala
A ferir o nosso brio.

Um país como Brasil
Carente de educação
Precisa de gente grande
Para dar boa lição
Mas você na rede Globo
Faz esse papel de bobo
Enganando a Nação.

Respeite, Pedro Bienal
Nosso povo brasileiro
Que acorda de madrugada
E trabalha o dia inteiro
Da muito duro, anda rouco
Paga impostos, ganha pouco:
Povo HERÓI, povo guerreiro.

Enquanto a sociedade
Neste momento atual
Se preocupa com a crise
Econômica e social

Você precisa entender
Que queremos aprender
Algo sério – não banal.

Esse programa da Globo
Vem nos mostrar sem engano
Que tudo que ali ocorre
Parece um zoológico humano
Onde impera a esperteza
A malandragem, a baixeza:
Um cenário sub-humano.

A moral e a inteligência
Não são mais valorizadas.
Os “heróis” protagonizam
Um mundo de palhaçadas
Sem critério e sem ética
Em que vaidade e estética
São muito mais que louvadas.

Não se vê força poética
Nem projeto educativo.
Um mar de vulgaridade
Já tornou-se imperativo.
O que se vê realmente
É um programa deprimente
Sem nenhum objetivo.

Talvez haja objetivo
“professor”, Pedro Bial
O que vocês tão querendo
É injetar o banal
Deseducando o Brasil
Nesse Big Brother vil
De lavagem cerebral.

Isso é um desserviço
Mal exemplo à juventude
Que precisa de esperança
Educação e atitude
Porém a mediocridade
Unida à banalidade
Faz com que ninguém estude.

É grande o constrangimento
De pessoas confinadas
Num espaço luxuoso
Curtindo todas baladas:
Corpos “belos” na piscina
A gastar adrenalina:
Nesse mar de palhaçadas.

Se a intenção da Globo
É de nos “emburrecer”
Deixando o povo demente
Refém do seu poder:
Pois saiba que a exceção
(Amantes da educação)
Vai contestar a valer.

A você, Pedro Bial
Um mercador da ilusão
Junto a poderosa Globo
Que conduz nossa Nação
Eu lhe peço esse favor:
Reflita no seu labor
E escute seu coração.

E vocês caros irmãos
Que estão nessa cegueira
Não façam mais ligações
Apoiando essa besteira.
Não deem sua grana à Globo
Isso é papel de bobo:
Fujam dessa baboseira.

E quando chegar ao fim
Desse Big Brother vil
Que em nada contribui
Para o povo varonil
Ninguém vai sentir saudade:
Quem lucra é a sociedade
Do nosso querido Brasil.

E saiba, caro leitor
Que nós somos os culpados

Porque sai do nosso bolso
Esses milhões desejados
Que são ligações diárias
Bastante desnecessárias
Pra esses desocupados.

A loja do BBB
Vendendo só porcaria
Enganando muita gente
Que logo se contagia
Com tanta futilidade
Um mar de vulgaridade
Que nunca terá valia.

Chega de vulgaridade
E apelo sexual.
Não somos só futebol,
baixaria e carnaval.
Queremos Educação
E também evolução
No mundo espiritual.

Cadê a cidadania
Dos nossos educadores
Dos alunos, dos políticos
Poetas, trabalhadores?
Seremos sempre enganados
e vamos ficar calados
diante de enganadores?

Barreto termina assim
Alertando ao Bial:
Reveja logo esse equívoco
Reaja à força do mal.
Eleve o seu coração
Tomando uma decisão
Ou então: siga, animal.

FIM

211. Nascimento

Este não: é predestinado.
Vai perder a vida
por uns ingratos:
Nós.

208. Dos dias quentes

No céu de azul chapado
o bafio do sol quente
sobe em prumo do chão.

O calor, essa virtude;
uma penitência cintilante
de brilhos na água marinha
e areia branca.

Haja pés para correr
sobre a areia quente.
Suor, vermelhidão
e mosquitos que jamais
leram Platão
em sua efêmera vida.

204. História e Geografia

História e Geografia

Uma ilhota provinciana
cerca de paus e cana.
Ruas de lama; almas minerais
esgueiram-se pelas cercas
aquecidas pelo Sol.

Uma ilhota, uma rua,
uma igreja quase nua.

Aves-maria por Dona Pia
e os homens dignos de cartola
chorando seco pelo Imperador.

Fora, paus e cana.
Paus que batem,
murmúrios indistintos
de raiva e fome.

No centro, a ilhota.
Nas bordas, mãos sujas e cana.

“À saúde de Sua Majestade,
que Deus a tenha e conserve…”

Que Deus nos reserve
fado melhor.

* * *

Como música incidental, deixo aqui a Marcha Fúnebre de Napoleão.

200. Reflexões à janela

(escrito originalmente em uma folha de papel sulfite)

Madrugada de 7 de outubro

Olho pela janela para apreciar a noite e sentir melhor a brisa fresca que aplaca o calor do dia ainda guardado em casa. A luz amarelada da iluminação pública tinge de reflexos dourados as arestas das casas e as estranhas torres da pequena igreja da quadra acima.

Vim à janela arrastado pela súbita ideia que a quietude noturna pudesse ajudar-me com um poema. Faz tempo que não os escrevo. Aliás, faz tempo que não escrevo nada muito consistente. Ainda à janela, veio-me a pergunta: “Não é a poesia algo idiota?” A vulgaridade do mundo, em que apenas as sensações carnais e o ter significam algo; a poesia parece ser algo fora do tempo. Perfumaria e afetação. Mas talvez seja a função de uns poucos mantê-la e livrar-nos da rotina; nela acreditar. O mundo não é apenas a vulgaridade do efêmero momento de uma garrafa estilhaçando-se no meio-fio.

192. Ponto no mapa

A noite cai pesada sobre a cidade,
a cidade perdida entre rodovias…
O vento sul assovia seco
nas juntas dos tijolos da Matriz;
seco, agita o chafariz
no silêncio observado apenas
por solitários e ávidos
olhos febris.

186. A cidade de cada um

Avenida Tiradentes nos anos 20. Foto: Prefeitura de São Paulo.

“Ninguém deixa sua pátria por turismo definitivo”, disse eu, certa vez, a uma pessoa que se pavoneava de ser oriundi. É lógico e certo ter orgulho de suas origens, seja ela qual for, mas, às vezes, algumas pessoas chegam à pieguice e a uma ideia de “superioridade” que não condiz com a condição inicial de seus antepassados.

Qual paulista pode-se dizer filho da terra, legitimamente? Por direito sanguíneo, muitos poucos. Somos, em grande parte, provenientes de uma imigração recente – o que são meros cento e trinta quarenta anos na história da Humanidade – que encontrou aqui condições não lá muito salutares de convívio com os velhos paulistas. Alcântara Machado mostra-nos isso numa ficção totalmente lastreada na realidade de então.

Nossos maiores não vieram fazer turismo. Ninguém escolhe largar sua terra, sua língua, um lugar que lhe é culturalmente amigável pelas plagas potencialmente hostis do Novo Mundo. É decisão que muito pesou na mente dos nossos avós e que foi alimentada pelas chicotadas da fome e da exclusão social. O imigrante, em seu novo meio, é sempre um deslocado.

Em São Paulo, tanto na cidade como no Estado, os italianos conseguiram estabilizar-se bem. Eram tantos e tão grande número, que terminaram por influenciar definitivamente a paisagem e a economia de uma terra que acordava para seu potencial econômico, primeiro com o café e, depois, com a industrialização. Não me lembro bem quando e nem onde, vi uma estatística que, em algum período dos anos 20, os italianos eram cerca de 80% da população da cidade de São Paulo.

Seus filhos não eram mais italianos. Produziu-se uma rápida mescla: os pais dificilmente transmitiam a língua materna – alguma língua da península que não o italiano – e os filhos viam-se como brasileiros. Por isso a aquisição de nacionalidade por jus sanguinis, como há em alguns países como a Alemanha, por exemplo, soa-nos tão estranha. Filhos de italianos, não importava: nascidos em território nacional, eram brasileiros.

Mesmo esses imigrantes, vindos na esteira de condições precárias da Itália e outros pontos da Europa, logo viam os filhos crescerem e quando percebiam, tinham passado mais da metade da sua vida aqui. Tornavam-se brasileiros não por documentos, mas por hábito.

 * * *

Penso na vida dessas pessoas: largando o pouco que tinham – leia-se aqui tradições e línguas, pois, quase sempre, o imigrante vinha sem nada – em troca de novidades de difícil digestão. Entre alguma nostalgia e o hábito do novo, tornaram-se mais brasileiros do que qualquer outra coisa.

Do mesmo modo, mas em escala menor, é alguém que troca mesmo de cidade. Na verdade, a pátria do homem é a cidade, é a pólis – isso sabiam bem os gregos antigos, unidos pela língua e pela cultura, mas politicamente cada um na sua cidade. A cidade é a verdadeira pátria do homem: a cidade e seu termo, ou seja, seus distritos rurais, mas ligados a um centro urbano.

O homem sabe muito – ou deveria saber – sobre sua pátria pequena: as ruas do centro, as praças; onde ficava a forca ou o pelourinho, as primeiras igrejas levantadas com o suor dos seus maiores. E aqui, seus maiores não são exatamente aqueles que o são por jus sanguinis: fazer parte de uma cidade é ter por maiores seus fundadores e seus primeiros habitantes. Se somos descendente dos imigrantes, somos descendentes da gente que veio depois, mas também nos filiamos a essa tradição mais antiga. Temos direito e dever ao jus territorialis, assim como a nacionalidade de papel.

Quando um homem se muda da sua cidade, há todo um processo de adaptação, não tão dolorido como mudar de pátria, mas também lento e conturbado. Vejamos o exemplo paulista: alguém pode ser da Capital do Estado – e as metrópoles têm um processo mais complicado de pertencimento – e ter de ou querer mudar para uma cidade do interior.

A pátria paulistana marca-se, ao meu ver, pela fragmentação, os inúmeros bairros, mas também pela onipresença de certos locais simbólicos que mantém uma identidade unitária, como, por exemplo o Centro Velho – seja por identidade histórica ou mera questão de passagem diária – ou a avenida Paulista – quantos não usam a avenida para passear, distrair-se? Quer ver um flâneur paulistano? Basta ir à Paulista.

Vamos para o ponto mais histórico do argumento. Vejamos o centro. Durante muito tempo certo político e econômico do Estado. Hoje um pouco relegado a papéis secundários por conta da própria inaptidão de prédios antigos e ruas estreitas às atividades da nova economia. Os prédios mudaram muito, certamente. Basta lembra-se das primeiras fotografias da cidade, produzidas por Militão: São Paulo era uma vila colonial, quase como as cidades históricas de Minas Gerais. Mas as ruas são as mesmas.

Alguém que veja São Paulo como sua pátria pequena e tenha essa consciência, esperará um ônibus no Parque Dom Pedro II e lembrar-se-á, ou por ditos ou por memória iconográfica, que ali existia um grande pântano onde o Tamanduateí fazia volteios e meandros e que a retificação de seu canal e seu exílio para o lado oriental da várzea não é natural. Ou que ao fim da ladeira Porto Geral havia um minúsculo porto, porto de canoas, que servia ao rio que ali passou um dia, hoje, o mar de gente da rua 25 de março.

A Basílica de São Bento não é mais a mesma do final do século XVI, que foi derrubada para dar lugar ao atual e elegante templo, mas se sabe que naquele espaço, delimitado por outras paredes, escondeu-se Amador Bueno da Ribeira do povo que queria aclamá-lo rei à força.

Mesmo o prédio do Colégio, reconstruído talvez como fora em sua fundação. Qual paulistano de verdade, nato ou por adoção, não se sente estremecer diante daquele fêmur do padre Anchieta que lá está? O padre canarino, de pais bascos que, junto com Antônio da Nóbrega, fundou aquele mesmo colégio, um pedaço dele repousa ali, como verdadeira relíquia.

Isso para não citar outros lugares, outros templos com ainda mais partes do nosso passado. Até mesmo lugares esquecidos como a igreja com Cambuci, metralhada durante a revolução de 1924; essa mesma revolução que forçou o então Presidente Carlos de Campos a fugir do Palácio dos Campos Elíseos – então sede do Governo Estadual – de trem, para a estação Guaiaúna, na baixada da Penha. Estação que foi derrubada, reconstruída – e ostentou o nome do velho dignatário até sua desativação, em 2000.

Cada parte de uma cidade, por quem a adota ou a ela pertence, traz à mente esse tipo de detalhe tão caro.

 * * *

Quando alguém deixa a sua cidade, já com caráter e ideias formadas, a adaptação é um pouco traumática. Parece que, por exemplo, uma rua foi sempre daquele jeito, para acomodar aquelas lojas. Ou pior: aquela rua simplesmente é. Ela estava ali ontem? Não se sabe. É como se o emigrado ou trânsfuga passeasse por uma cidade cenográfica. Não sabe mais onde estão aqueles pontos de apoio que, de certa maneira, dava sentido a toda visão da pátria perdida.

Logo vêm as tentativas de algum nexo: informar-se, procurar informações. Mas o processo sempre será falho. Os maiores de cá tem nomes diferentes e até, pode-se dizer, soam vulgares frente aos vultos perdidos, que se afundaram centenas de quilômetros atrás. As praças, as ruas, os edifícios art déco ou de um neoclassismo temporão e molenga parecem desprovidos de sentido, como se fossem de isopor e fossem desabar à primeira chuva. Tudo dota-se de uma artificialidade quase insuportável.

Os nomes das ruas embaralham-se. Certo que em uma esmagadora parte das cidades brasileiras – não arrisco a dizer todas – há a rua Sete de Setembro, uma Dom Pedro II, uma Quinze de Novembro e que em quase todas as cidades paulistas há uma Nove de Julho, uma Regente Feijó, uma Pedro de Toledo, mas se cruzam em desordem, ou não se cruzam, ou passam muito longe da vizinhança com que estávamos acostumados a ligar aqueles nomes: um nome puxa o outro e, para quem muda de cidade, certamente, isso deixa de fazer sentido: um sentimento funâmbulo entre a maravilha da novidade combinatória e o desgosto das quebras dos paradigmas ou previsões.

Cada esquina dobrada, mesmo que já se tenha passado ali dez vezes, parece sempre nova, porque a forma das casas, dos prédios, das placas, não se fixam na retina. É como se cada vez que se passasse ali, as coisas tenham sido remontadas às pressas e algo sempre falta ou sempre sobra.

A vida do imigrante ou qualquer outro nome que se lhe dê é assim: uma pessoa que conhece o nome das ruas, mas não consegue resolver os trajetos, e a confusão com a pátria acaba por infiltrar-se na vida menos sensível, nos pequenos hábitos, no equilíbrio emocional: o nervosismo ou a apatia sem motivo. É a sensação de quem sente o espaço fugir ao seu controle.