360. Experimentação social

"Culpa sua, seu pai de merda!"

“Culpa sua, seu pai de merda!”

Deve ter começado na Grã-Bretanha, uma boa terra, mas que ultimamente tem produzido mais minhocas que batatas. Virou moda alguns pais moderninhos não quererem “impingir estereótipos” relacionados ao sexo biológico de seus rebentos. Criam-no como um ser assexuado, dão-lhe nomes neutros como Tempestade, Trovão, Chuva ou outro fenômeno da natureza e permitem que se vistam da maneira que bem entenderem — um menino com roupas de menina, por exemplo — e brinquem com os brinquedos que lhe apetecerem.

Não sei até que ponto tais liberalidades podem ser úteis à formação do caráter da criança. Já me explico: a nossa vida em sociedade prevê determinados padrões que são compartilhados pela comunidade. Promover uma quebra abrupta de tais padrões, longe de ajudar a criança, pode prejudicá-la.

A criança pode entrar em um vórtice de confusão; deve-se sim ensiná-las a respeitar as pessoas independentemente do que elas sejam, da sua aparência, da sua cor, ou seja, promover uma mudança de pensamento, de atitudes.

Esse tipo de maluquice é própria dos nossos tempos, em que as pessoas pensam com as gônadas em vez de fazê-lo com o cérebro. Além do mais, é um tipo de experimentação social inaceitável, uma engenharia social em pequena escala: pais não têm o direito de fazer de seus filhos cobaias. É desumano para a criança, que vai crescer num mundo em que há expectativas sociais.

Não é praticando a iconoclastia, permitindo que um menino vá à escola de tutu cor-de-rosa ou de vestido que o mundo vai mudar: isso é um subterfúgio idiota; é reduzir todos os problemas à forma estética da coisa.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 15/2/2013.

344. Punição a quem trabalha

É claro que a carga tributária é excessiva e é um peso para os setores produtivos, mas a burocracia estatal e paraestatal é a braquiária que destrói os campos, os cipós que lentamente matam e asfixiam as árvores.

“A burocracia expande-se para satisfazer as necessidades de uma burocracia em expansão.” A frase, certa como a flecha de Guilherme Tell e atribuída tradicionalmente a Oscar Wilde, define bem as intenções do monstro que paralisa a economia: a manutenção de Estado ineficiente, incompetente, dominado por populistas e cujo único motivo de existência é a autoalimentação.

Engana-se quem pensa que a burocracia endêmica é privilégio do setor público. No afã de dominar e controlar a atividade econômica, regula-a excessivamente, esboroando o ânimo em quem poderia gerar mais empregos e criando oportunistas — Jecas Tatu 2.0 — que se valem de empresários incautos para alimentar a indústria dos processos trabalhistas — esta sim, pujante e viçosa.

Ilude-se quem crê que as regulações do mercado pelo Estado sejam vantajosas. Elas criam apenas comodismos e irradiam a burocracia para dentro das empresas, que têm de ajustar seu ritmo por leis obsoletas e contraproducentes. Agências reguladoras, tribunais, câmaras, secretarias de Estado, cartórios, sindicatos — os grandes poleiros das aves de mau agouro que olham com desdém o progresso econômico, tratando seus agentes como inimigos do público.

Enquanto populistas dos mais variados matizes, por monopólio de domínio político, mantêm reféns tanto a sociedade quanto a vida econômica, o empresário — que gera renda e empregos — continua sendo o vilão número um.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 27/12/2012.

327. Análise de um poema de Nego Antão

Boleta de pong-ping.

Eis um haikai revolucionário do mestre da poesia pós-moderna, Nego Antão, morador de rincões em que reina o cinza das telhas de fibrocimento. Como pode existir tanta concisão poética em um dístico — uma forma ocidental clássica —, mas que nos remete à simplicidade do haikai. Seu autor inclusive prefere que a chamemos de haikai. “Crio elas como se criam galinhas num galinheiro: têm penas e boa carne”, explica Antão.

O poema, que não tem título — outra tirada magistral —, narra um jogo de pingue-pongue. Para um leitor desatento, pode ser uma estranha partida de pingue-pongue. Um estrangeiro jogando pingue-pongue na luxuriante atmosfera tropical do nosso país-potência. Mas há mais mistério entre as folhas das bananeiras do que supõe nossa vã filosofia.

Repitamos os versos em voz alta. Sintamos a força e a reverberação de suas aliterações sutis. “Boleta de / pong-ping”. Advirto-os, leitores: há mais.

“Boleta”, um diminutivo pouco usual de bola. Por que não “bolinha”? Na verdade, “boleta” aponta para o “boleto” de pagamento, uma relação consumista e que tem toda liames com o glorioso e radiante momento econômico vivido pelo país. Todos podem comprar. Todos têm seus boletos para pagar, mas Antão não somente celebra as benesses da era Lula, ele põe um elemento feminino, da liberação da mulher do jugo machista, trocando o gênero da palavra: “boleta”. Não apenas os machistas compram, mas também as mulheres, os gays, os transgêneros e os simpatizantes. Antão dá um banho de lirismo em toda a elite branca, cristã, machista e homofóbica com apenas uma palavra. Pergunto-me por que ainda não o indicaram apara o Nobel.

Depois desse glorioso primeiro verso, vejamos o último: “pong-ping”. A inversão do nome do jogo mostra a inversão que a classe trabalhadora, com suas “boletas”, fez na mais-valia, ainda refletindo o primeiro verso. Não apenas mais a elite branca dos olhos azuis compra… os ensebadinhos do subúrbio — o conceito da sebência orgulhosa, tão exaltada por Antão, e também por alguns gêneros musicais como o rap e o funk — também compram, invertendo a situação de domínio. E ainda digo mais: querem estar presentes à globalização, por isso a preferência por não aportuguesar os vocabulários. Mas a inversão dos termos originais também significa a insubmissão à cultura enlatada, manipuladora e planificadora dos Estados Unidos: é a faca apontada para o Tio Sam.

Essa é apenas uma amostra do livro de poemas de Nego Antão. A obra completa consta de cinco pérolas e foi impressa em um conceito ultramoderno de editoração: em uma folha corrida apenas, para que fosse acessível às populações oprimidas.

323. Do ouro ao chumbo

Aurea mediocritas, o meio-termo de ouro, lema e meta dos poetas árcades. Meio-termo porque não peca pela falta, nem pelo excesso. Mas a palavra assumiu uma conotação negativa entre nós. O medíocre é indivíduo que além de não ter talento nenhum para destacar-se — não destacar-se não é um pecado em si —, projeta a queda dos demais, nivelando todos “por baixo” e ali procurando mantê-los.

O mal teve início quando os medíocres tomaram as academias, o parlamento; geraram leis e prerrogativas para seus iguais, burocratizaram a sociedade, imobilizando a criatividade. Mantêm sob ameaça o setor produtivo da sociedade com suas ações abstrusas. Como exemplo, o tal “desvio de função”, criação de legisladores ociosos para alimentar advogados de “porta de empresa”.

O medíocre não quer ter esforço. Por isso, mata na concepção a iniciativa alheia. O que antes era aprendizado no ambiente laboral, que dava oportunidades reais de crescimento profissional ao empregado e criava um vínculo com o empregador, passou a ser visto com desconfiança: tanto dos medíocres em geral, quanto do empregador, que, com plena razão, tem receio que aquele fato possa conduzir a um processo trabalhista — que sempre envolve uma reparação financeira; afinal, o real intuito do medíocre é alimentar-se do esforço alheio.

Há hoje faculdades, mas certas coisas somente a rotina de trabalho nos ensina. E perdemos uma parcela importante desse aprendizado por conta dos medíocres que legislam e invejam desde suas cátedras ou banquinhos.

Será que com esse tipo de pensamento canalha e mesquinho, inerente a quase todos nós, chegaremos ao dito mundo desenvolvido? Ou continuaremos a patinar na nossa mediocritas, plumbea mediocritas?

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 19/12/2012.

312. Cemitério da memória

Cemitério de Bueno de Andrada (foto: Moisés Schini/Tribuna Impressa)

Um adágio popular repete que o brasileiro é um povo sem memória. De fato, a maioria das pessoas só dá importância ao agora ou, no máximo, ao imediatamente futuro. O passado jaz na poeira.

E poeira e mato não faltam no Cemitério de Bueno de Andrada. Apesar dos 362 corpos sepultados entre 1925 e 1967, apenas uma cruz assinala a pretensa sacralidade do local. Esta Tribuna dedicou uma reportagem de duas páginas ao assunto; no interessante texto de Antonio Marquez fica patente o descuido e o pouco caso das autoridades constituídas para com o patrimônio público e a memória coletiva.

Um cemitério não é apenas um local de pranto ou um sagrado — assim considerado pelo lugar central que a morte tem na nossa concepção de mundo —, mas é também um local de memória, de história. O desaparecimento físico do cemitério é um desastre para a história de Araraquara. Desaparecimento sim, porque um pasto com uma cruz não é mais um cemitério, parecendo-se mais com aquelas tristonhas cruzes de beira de estrada que recordam os mortos em acidentes.

Por sorte, existem ainda os registros. A Prefeitura, por sua vez, fala em “cemitério desativado”. E como se desativa um cemitério? Não se trata de um prédio, de uma máquina. Os corpos continuam lá; tiveram suas identificações roubadas por profanadores, mas continuam lá. Os entendidos falam em contaminação do solo. Frente ao descaso com a memória, é mero tecnicismo; um detalhe ínfimo.

O Cemitério de Bueno — que sequer fez 90 anos — é uma triste metáfora do nosso senso de conservação histórica e memória: um pasto cheio de pó e mato.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 18/9/2012.

307. Oclocracia

Socorro!

O fracasso da vida política brasileira tem relação direta com a escola. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1971 levou a cabo a obrigatoriedade do ensino de 1º grau e, sem grandes alterações na infraestrutura existente, todas as crianças — ou boa parte delas — passaram a frequentar a escola. Um inchaço sem o menor planejamento — típico de regimes autoritários — associado a teorias pedagógicas mal aplicadas condenou a educação pública à situação que vemos. Gestores e outros burocratas dirão o oposto; é mera falácia.

O mesmo se dá com a vida política. Todos temos título de eleitor, uma vez que a nossa “Constituição cidadã” democraticamente nos obriga a votar. Ou seja, promovemos uma inclusão forçada de indivíduos que não sentem necessidade de exercer tal direito.

Logo, criamos uma ficção democrática. Uma visão de democracia justificada única e exclusivamente por números: a oclocracia (do grego okhlocratía, o governo da multidão; voraz, amorfo, amoral e inócuo). Os números justificam o eleito; mas se o voto não tem a menor qualidade, a noção de democracia desmorona: abrimos caminhos para os arrivistas, populistas e espertalhões de plantão — os oclocratas, caudilhos, salvadores —, o que favorece ainda vícios como o maniqueísmo — se não é ‘x’, obrigatoriamente é ‘y’ — e injustificável, do qual república e instituições tornam-se reféns.

Enquanto o voto for obrigatório e o descrédito das instituições viger — e não há interesse algum da classe política em qualquer mudança —, será sempre mais fácil arrancar votos fantasiado ou com o toma-lá-dá-cá, justificá-los numericamente e apontar eminências pardas onde elas quase nunca estão.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 14/8/2012.

306. Disse o Rei Miguel

Sua Majestade, o Rei Miguel da Romênia

Dar politica este o sabie cu două tăișuri. Ea garantează democrația și libertățile, dacă este practicată în respectul legii și al instituțiilor. Politica poate însă aduce prejudicii cetățeanului, dacă este aplicată în disprețul eticii, personalizând puterea și nesocotind rostul primordial al instituțiilor Statului.

Mas a política é uma faca de dois gumes. Ela garante democracia e liberdade, se praticada com respeito às leis e às instituições. A política pode também trazer prejuízos aos cidadãos, se for exercida com desrespeito à ética, personalizando o poder e desvirtuando o propósito fundamental das instituições do Estado.

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Parte de discurso proferido do Parlamento romeno em 25/10/2011, quando S.M. o Rei Miguel foi convidado pela casa legislativa para comemoração de seus 90 anos. Texto completo em romeno aqui. Vídeo do discurso com legendas em inglês aqui.

305. “Colombo”, Altan

Columbus dixit

Colombo cru e nu

Mudando um pouco o foco, hoje enveredamos pelas HQs. Ficamos com a obra-prima “Colombo”, do italiano Altan — que inclusive foi colaborador do Pasquim. Um retrato ácido e ligeiramente cruel do grande almirante Cristóvão Colombo é o trabalho do traço jocoso do quadrinista. Dividido em 12 capítulos, conta toda a trajetória do genovês, da infância ao retorno das terras que ele morreu pensando tratarem-se das tão sonhadas Índias.

Além das peripécias-padrão do Almirante, inclua-se aí o bondoso grumete Mário, uma lasciva Isabel de Castela e os índios cínicos com que ele se depara numa terra empesteada de mosquitos. Um diferencial de “Colombo” são as sugestões de trilha sonora e os comentários violentos sob alguns quadrinhos. Imperdível.

“Colombo”, Altan. 102 págs. L&PM Editores

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 12/8/2012

299. A volta de Cacareco, via Romênia

Cacareco na glória de sua vereança

Procurando a fotografia de Zúñiga para ilustrar o post de número 297, acabei encontrando no site de um jornal romeno, o Ghimpele, uma postagem que disserta sobre eleições amalucadas e candidatos bizarros, além de Zúñiga, estava também o famoso caso ocorrido nas eleições municipais paulistanas de 1959, a eleição do Cacareco, rinoceronte do Zoológico de São Paulo, que foi “eleito” vereador com mais de 100 mil votos.

O romeno é uma língua românica, mas com muitas influências húngaras e eslavas; mesmo assim é possível pescar algo do texto original. Abaixo, o excerto sobre a “eleição” do Cacareco. Faltam, porém, os diacríticos.

In anul 1959, un grup de studenti din Sao Paolo, Brazilia, suparati pe sistemul politic corupt, au gasit o metoda inedita de a protesta. Profitand de faptul ca un rinocer de la Gradina Zoologica din orasCacareco (care inseamna “gunoi” sau “deseuri”), se bucura de popularitate in randul localnicilor deranjati la randul lor de sistemul politic corupt, studentii au desemnat animalul ca si candidat pentru alegerile locale. Cu toate ca oficialii din comisia electorala nu au acceptat aceasta candidatura, localnicii au pus fiecare vot in plic si l-au trimis autoritatilor. Corelat cu absenteismul foarte mare, rezultatul a constat in castigarea a 100.000 de voturi pentru Cacareco, mai mult decat oricare alt candidat. Asa cum era de asteptat, alegerile nu au fost validate.

A reportagem do jornal romeno tampouco se esqueceu do Macaco Tião, candidato a prefeito do Rio de Janeiro em 1988. A “candidatura” de Tião foi criada pela revista Casseta Popular (cujos membros deram origem à trupe do programa Casseta e Planeta Urgente) como protesto. Tião obteve 400 mil votos.

Macaco Tião este o maimuta de la gradina zoologica din Rio de Janeiro care a candidat in mod neoficial lapostul de primar al orasului in anul 1988, cand alegerile nu erau bazate pe un sistem electronic. A obtinut 400.000 de voturi si s-a clasat pe locul 3, dar asa cum era de asteptat, voturile sale nu au fost validate. Tião a murit in anul 1996, iar primarul a decretat zi de doliu in onoarea sa. In prezent, statuia lui Tiao Macaco poate fi intalnita la intrarea in gradina zoologica.

Texto completo aqui.

296. Espírito de 1932

Ontem se comemorou o 80º aniversário da Revolução Constitucionalista de 1932. A data passou a ser oficialmente festejada quando, em 1997, foi declarada feriado por lei do governo Mário Covas.

A Revolução de 1932 foi por uma constituição para o Brasil. Getúlio Vargas, perdedor das eleições presidenciais de 1930, e seu partido, a Aliança Liberal, resolveram tomar o poder pela força, não obstante a retumbante derrota eleitoral para o paulista Júlio Prestes, o único presidente eleito do Brasil impedido de assumir.

Vargas triunfou militarmente e instalou-se no poder. Quando sua ridícula quartelada revelou-se apenas sede de poder e centralismo, o Estado de São Paulo, cansado de interventores federais e da progressiva perda de autonomia, resolveu por bem mover-se militarmente por uma nova era constitucional. Saímos perdedores, mas conseguimos a Constituição de 1934 que, ai!, não resistiria ao Estado Novo do Mussolini tupiniquim.

Embora certos historiadores manchados pela retórica oca da historiografia marxista insistam em tentar desmoralizar a Revolução e suas consequências, foi crucial o papel doa Revolução Constitucionalista para a história posterior do País.

Vendo a apatia geral das pessoas, a nossa passividade em determinados assuntos, as preocupações inúteis com consumo, pergunto-me o que houve com aquele povo valente que se levantou em armas para pedir uma constituição. Mesmo a nossa atual Constituição, o que vale? Para que serve além de ser peso de papel em bem iluminados escritórios de advocacia e o que garante além de fantasias? Quem sairia hoje para defender algo além do seu interesse próprio imediato?

O 80º aniversário da Revolução Constitucionalista parece ser o 80º aniversário de uma derrota moral da qual nunca mais nos recuperamos.

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Artigo publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 10/7/2012.

295. Paraguai, Venezuela e o Foro de São Paulo

O Grande Obtuso observa tudo

A decisão do Parlamento de afastar Lugo, em 22/6, por mais que se questione o tempo da ação de impeachment, é legítima dentro do arcabouço legal do Estado paraguaio. Porém, como o ex-presidente é considerado ‘amigo’ pelo Foro de São Paulo (FSP), com a mesma rapidez tão criticada, o Paraguai foi suspenso do Mercado Comum do Sul (Mercosul), em 28/6, e da União de Nações Sul-Americanas (Unasul).

Apenas para elucidar: o FSP é uma agremiação de partidos de esquerda que congrega, entre muitos, PT, Frente Amplio (partido no poder no Uruguai), o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), representante do chavismo, e até mesmo o mui democrático Partido Comunista Cubano. É a Internacional do populismo oportunista.

Com a suspensão do Paraguai, o caminho para o ingresso da Venezuela no Mercosul está pavimentado; o país de Lugo era o único do bloco que não havia ratificado a “República Bolivariana”.

Embora a presidente argentina, Cristina Kirchner, já tenha “decretado” — e até marcado data: final de julho — a entrada da Venezuela no bloco, os outros países ainda estão reticentes justamente por causa da obviedade da ligação dos fatos. O incidente parece ter sido criado para atingir esse objetivo, mesmo com o alto preço de ‘queimar’ um aliado. A ocupação de uma fazenda em Curuguaty, em 20/6, pelos Campesinos, acabou por provocar um confronto com a polícia, no qual foram mortas 17 pessoas e mais de 90 ficaram feridas. Haja vista as táticas do FSP, o episódio todo pode muito bem ter sido orquestrado; se não o foi, veio bem a calhar às intenções do Foro.

A Venezuela no Mercosul será a morte das intenções iniciais do bloco, delineadas no Tratado de Assunção (1991). É o país menos democrático do subcontinente, sua constituição foi entupida de emendas para favorecer Chávez e seus aliados, a Petróleo de Venezuela S/A (PDVSA, estatal de petróleo) tem 80% do PIB e a economia — paraestatal — está absolutamente em frangalhos. O que a Venezuela agregará economicamente?

Logo se vê que o Mercosul está sendo transformado — e não é de hoje — em uma extensão operacional do FSP, o mercado comum do compadrismo e da afinidade ideológica. O mesmo vale para a tal Unasul, que já nasceu com a marca indelével de sua afiliação partidária.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 3/7/2012.

293. Insônia

E quem dorme?

A votação das emendas à Lei de Diretrizes orçamentárias na Câmara de Araraquara foi da tarde de terça ao fim da madrugada de quarta da semana passada (19-20/6). Quarenta emendas: 35 do vereador Carlos Nascimento. Fora as retiradas de pauta, o restante foi todo negado. Uma inolvidável noite de nãos.

Duas coisas ficaram claras na “Noite do Não”. Primeiro, a intransigência e a centralização absurdas da administração municipal, que não aceitou uma só emenda a sua pétrea LDO — o que complementa o papel pífio dos conselhos municipais, esvaziados pelo pouco caso do Governo, como reportagem e editorial desta Tribuna (17/6 págs. A2 e A5) também mostraram. Segundo, o pavoneamento da oposição, que se vale do obstáculo certo — e praticamente intransponível — para fazer palanque eleitoral.

Posso estar sendo cruel no meu curto julgamento — o espaço não me permite mais —, mas não consegui ver reais debates pela cidade. Foram perceptíveis apenas a exposição de egos inflamados e até mesmo alguns gritos. Uma ruidosa e desnecessária vitrine de vaidades.

Nos últimos tempos, principalmente por conta do aumento nos subsídios, cobrou-se ‘respeito’ pela instituição Câmara e seus membros. Porém, para que algo ou alguém seja merecedor de respeito, deve antes inspirá-lo. Não basta ser membro do Legislativo; não basta evocar os votos recebidos. É necessário ter um comportamento condizente com o cargo. A grosso modo, o hábito não faz o monge.

A Câmara precisa esforçar-se mais; precisa trabalhar pela cidade. Nem mesmo uma campanha publicitária é necessária — como foi aventado não faz muito. É simplesmente cumprir seu papel de legisladora; a população, com o tempo, saberá reconhecer.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 26/6/2012.

292. “Eram os deuses astronautas?”, Erich Von Däniken

Domingo, a edição do caderno de cultura Tô Ligado, da Tribuna Impressa de Araraquara, era semitemático. Afinal, era o Dia do Disco Voador. Para fazer jus à data, no Menu Cultural de minha responsabilidade, indiquei um clássico do gênero: “Eram os deuses astronautas?”, de Erich Von Däniken.

Além do que escrevi para o jornal, que está aí logo abaixo, dou um tempero pessoal a coisa. Existia uma edição desse livro na casa da minha mãe, da Melhoramentos, dos anos 70 (cuja capa ilustra o curto artigo). Dos vários livros “doidões” que li — não são muitos, é verdade — esse se preocupa com um mínimo de coerência. Fica para vocês a dica de leitura; ou como diria o suprassumo da cultura brasileira, Chaetano Seboso, “Ou não”.

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Ligação interplanetária

Perguntas que não calam: “Seria o escritor um pinguço?”

Pirado para uns, cientista para outros. Bem ou mal, o ufólogo suíço Erich Von Däniken conseguiu incontáveis admiradores e detratores com seu polêmico “Eram os deuses astronautas?”; a indiferença é impossível.

No livro de 1968, Von Däniken traça liames entre feitos, representações e construções de antigos povos (egípcios, incas) com a possível intervenção extraterrestre. Para o autor, a própria representação de divindades que “vêm do céu” ou “nele estão” aponta para influências vindas de seres oriundos do espaço; ele chega mesmo a propor que a raça humana moderna seria resultado do cruzamento de extraterrestres com primatas.

Embora “Eram os deuses astronautas?” seja sua obra mais conhecida, Von Däniken tem uma produção bibliográfica de cerca de 20 livros, todos voltados para a temática da relação dos seres humanos com a vida inteligente fora da terra.

290. Política, futebol e religião

Verde, que te quero verde

Diz o ‘velho deitado’ que política, futebol e religião não se discutem. Uma versão mais sucinta fala de “cor e gosto”. Temas e percepções. O grande problema do brasileiro — digo isso porque é o povo que conheço, mas a definição imagino ser expansível à Latinidade — é misturar as coisas.

O cidadão não se contenta em ver o jogo de futebol e torcer pelo seu time. Não. Alguns espíritos de porco têm de sair à rua acelerando carros e berrando. Outro cidadão tem sua fé; ele não se contenta em servir a Deus, tem de sair nos domingos pela manhã para bater de porta em porta e tentar arrebanhar mais almas com um discurso impositivo. Das misturas dessas duas vertentes de manifestação surge a política vista pelo brasileiro que a acompanha: dogmática e escandalosa. O brasileiro acompanha política como quem torce para Corinthians ou Palmeiras: é mau perdedor, é dogmático e crê na infalibilidade dos seus “papas” e só seu time tem razão. “Minha razão é a minha força.”

Essa política futebolística se vê muito pela ‘esquerda festiva’, ou seja, aquela que se encontra ora no poder. Nosso ex-presidente adora uma metáfora do mundo da bola, uma bela alegoria. E também não admite críticas. Essa esquerda e outras ainda mais radicais aninharam-se, por exemplo, na área de Humanas das universidades públicas, ultrapassando mesmo as cansativas assembleias em que se discute, num “samba do crioulo doido”, falta de professores e propõe-se uma “moção de apoio ao povo do Iraque contra a opressão estadunidense”, as doutrinas chegaram mesmo às salas dos professores, onde são os únicos critérios de pesquisa e investigação. Nossa universidade parou nos anos 60.

E são infalíveis. A economia de mercado teve suas turbulências esporádicas — e está tendo uma grave agora, um dolorido espasmo —, porém o Segundo Mundo, que chegou a englobar 33% da Humanidade, hoje se acha reduzido a ilhas de tirania, como Cuba e Coreia do Norte. O resto do Mundo Socialista dissolveu-se por absoluta incompetência econômica; as revoluções populares foram apenas uma cereja no bolo da desgraça. Se não tivessem acabado na contração violenta do começo dos anos 90, os regimes da Europa Oriental teriam definhado por mais uma década e lentamente começariam a abrir-se.

Dizem os acadêmicos: “Ah, mas isso não é o socialismo”. Se não o é; o que seria? O problema do socialismo/comunismo é que ele nunca ultrapassou a barreira da famigerada ditadura do proletariado que, uma vez instalada, deveria dar lugar à lenta dissolução do Estado, a administração descentralizada e local. Nessas linhas, seria um sonho. O grande problema é que a amorfa ditadura do proletariado tornou-se a pétrea ditadura da nomenklatura. E assim foi até a dissolução dos regimes.

Possivelmente, junto com a monarquia absolutista e a república revolucionária, o socialismo é um dos regimes que provou sua incompetência em um longo e largo laboratório de 80 anos. Vivemos um regime de democracia representativa que é péssimo, mas, parafraseando Winston Churchill, ainda é o melhor que eu conheço.

O grande problema da esquerda socialista é que a teoria é ótima. Porém tem um grave defeito: não contou com o fator humano. O ser humano é amigo do poder; o poder o fascina. Logo, se uma camada tem acesso a ele agarra-se como o náufrago à jangada. E o “horizonte luminoso” do socialismo fica como o horizonte real: quando se dá um passo em direção a ele, ele se afasta outro.

E, retomando o enfoque do texto, pode-se dizer que há um apego sacro com a política. Há dogmas, há heresias, há excomungados. Heranças de um catolicismo fetichista? A esquerda mantém a ilusão de que é possível mudar, porém, quando chegou ao poder, entregou-se ao mesmíssimo fisiologismo que domina o Estado brasileiro desde a colônia. Mais do mesmo. O poder é como a maresia: corrompe até ferro. Somos um povo torto, dado a paixões e a vícios como poucos. Nossas grandes qualidades são a falta de caráter — o jeitinho —, o sorriso falso com cerveja, o dogmatismo de ocasião das nossas opiniões, a moleza da nossa alma.

Por isso somos tão insuportáveis.

289. O escudo da ignorância

Assim como no auge da Idade Média, os dogmas continuam existindo. Antes, afirmava-se que o universo era finito; quem dissesse o contrário, ia para a fogueira. A diferença é que as chamas das fogueiras modernas são a reprovação e troça pública; coisa muito mais fácil de lidar. Ainda mais quando se trata de um amontoado de asneiras.

Nos e-mails corporativos da empresa em que você trabalha — se for o caso —, há um rodapé com dizeres do tipo: “Verifique a real necessidade de imprimir seus e-mails; preserve a natureza”. É um tipo de mensagem comum incitando a economia de papel para “preservar a natureza”, “preservar a Mata Atlântica”. Afirmação que vem blindada, tratada como verdade imperativa; um verdadeiro escudo de ignorância acerca do assunto.

A intenção real é a economia de papel, o que é um valor legítimo por si mesmo; assim como apagar as lâmpadas quando se sai de um recinto, desligar aparelhos elétricos. Uma questão de bom senso e economia. Mas não que esse tipo de comportamento vá salvar alguma coisa.

Na questão do papel, primeiro, ele é feito com madeira de plantações industriais especialmente para esse fim. Não se faz papel de madeira nativa, ou alguém realmente acha que há papel de mogno? Geralmente é feito de eucalipto, cujas fibras têm a mesma densidade e uniformidade na hora do cozimento da madeira para extração da celulose. Ou seja, fazer papel de madeiras duras ou variadas, além de inviável, resultaria — se for possível — em um papel de péssima qualidade.

As plantações de eucalipto para esse fim, por ora, concentram-se em Minas Gerais e São Paulo e estão em áreas em eram originalmente de alguma monocultura como cana ou laranja. Ou seja, não há desmatamento para produção de papel.

Outra lenda é que o eucalipto “mata” ou “seca” o solo. Acredita-se que esse tipo de boataria venha justamente de grupelhos ecológicos a soldo de países interessados em manter o monopólio da produção de celulose, como a Finlândia, por exemplo, atualmente ainda a maior produtora mundial da matéria-prima. Como simples curiosidade, veja onde estão sediadas as organizações ecológicas mais famosas como Greenpeace, WWF e outras. São quase todas ‘multinacionais’ do lobby verde, localizadas “lá em cima”.

O eucalipto é ecológico, gera renda e tira os agricultores da monocultura. Então, antes de acreditar em qualquer coisa apenas porque tem o revestimento, a proteção do politicamente correto e tratá-la como dogma e combatê-la por simples e pura ignorância. Certamente que tudo deve ser usado com a devida economia, mas que fique claro o motivo correto e que não seja baseado em lendas ou estórias mal-contadas.