360. Experimentação social

"Culpa sua, seu pai de merda!"

“Culpa sua, seu pai de merda!”

Deve ter começado na Grã-Bretanha, uma boa terra, mas que ultimamente tem produzido mais minhocas que batatas. Virou moda alguns pais moderninhos não quererem “impingir estereótipos” relacionados ao sexo biológico de seus rebentos. Criam-no como um ser assexuado, dão-lhe nomes neutros como Tempestade, Trovão, Chuva ou outro fenômeno da natureza e permitem que se vistam da maneira que bem entenderem — um menino com roupas de menina, por exemplo — e brinquem com os brinquedos que lhe apetecerem.

Não sei até que ponto tais liberalidades podem ser úteis à formação do caráter da criança. Já me explico: a nossa vida em sociedade prevê determinados padrões que são compartilhados pela comunidade. Promover uma quebra abrupta de tais padrões, longe de ajudar a criança, pode prejudicá-la.

A criança pode entrar em um vórtice de confusão; deve-se sim ensiná-las a respeitar as pessoas independentemente do que elas sejam, da sua aparência, da sua cor, ou seja, promover uma mudança de pensamento, de atitudes.

Esse tipo de maluquice é própria dos nossos tempos, em que as pessoas pensam com as gônadas em vez de fazê-lo com o cérebro. Além do mais, é um tipo de experimentação social inaceitável, uma engenharia social em pequena escala: pais não têm o direito de fazer de seus filhos cobaias. É desumano para a criança, que vai crescer num mundo em que há expectativas sociais.

Não é praticando a iconoclastia, permitindo que um menino vá à escola de tutu cor-de-rosa ou de vestido que o mundo vai mudar: isso é um subterfúgio idiota; é reduzir todos os problemas à forma estética da coisa.

* * *

Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 15/2/2013.

337. Café no escritório

Numa sala sem janelas,
dois homens civilizados
bebericam café,
enquanto discutem amargores.
Café regrado, descafeinado,
em comportados copos plásticos.
Pequeninos, os homens os mantêm
entre polegares e indicadores.
Marmanjos brincando de boneca.

Café amargo, descafeinado,
com adoçante e um pouco ralo.
Levantam-se, despendem-se
com um gosto ruim na boca.

328. Há muito tempo, agora há pouco…

Houve um tempo na política nacional em que as ameaças eram desnecessárias. Com base no poder econômico e respaldo do poder político oligárquico, os famosos coronéis simplesmente mandavam fazer. Não havia muito a questão da ameaça, que servia apenas para afugentar os covardes. Os mais valentes acabavam por receber a “expedição punitiva” na porta de casa.

Aliás, cabe dizer que a patente de coronel concedida a esses políticos advém do fato de, eventualmente, serem vinculados à Guarda Nacional, um título honorífico — compensação pela extinção dos títulos de nobreza concedidos no período monárquico.

Mas, voltando, os políticos de então não se importavam um pingo com a opinião pública: o voto era aberto e o coronel poderia mandar à seção eleitoral seus “fiscais”, para ver se o Zé das Couves, que ganhara um pé de sapato, ganharia o outro, por ter votado “corretamente”, ou se seria agraciado com uma bela sova, por ter sido infiel. O sistema do voto aberto permitiu o controle absoluto do eleitorado no período anterior ao golpe militar de 1930.

Não obstante a nossa moderna democracia — por favor, relevem a expressão: nem sempre o “moderno” é melhor que o passado — ter seus mecanismos de prevenção de abusos, tais expedientes ainda encontram eco na política moderna. A troca de favores é um deles.

Hoje, o político é “um homem de doze dedos”, mas,  volta e meia, baixa o espírito do coronel em alguns. Voltam o pé de sapato, as ameaças, a desarticulada verborragia invectiva. Só que, como se vê em vários casos, a ameaça é filha do desespero; e cabe ao desesperado explicar seus rompantes.

* * *

Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 13/11/2012.

324. Enquanto caminho

Eu sou dum outro tempo,
que a cada instante fica mais longo.
Eu sou dum outro lugar
que a cada momento fica mais longe.
O aqui e o agora
É agora e nunca.
Um grito preso no vidro
dum efêmero perene.

323. Do ouro ao chumbo

Aurea mediocritas, o meio-termo de ouro, lema e meta dos poetas árcades. Meio-termo porque não peca pela falta, nem pelo excesso. Mas a palavra assumiu uma conotação negativa entre nós. O medíocre é indivíduo que além de não ter talento nenhum para destacar-se — não destacar-se não é um pecado em si —, projeta a queda dos demais, nivelando todos “por baixo” e ali procurando mantê-los.

O mal teve início quando os medíocres tomaram as academias, o parlamento; geraram leis e prerrogativas para seus iguais, burocratizaram a sociedade, imobilizando a criatividade. Mantêm sob ameaça o setor produtivo da sociedade com suas ações abstrusas. Como exemplo, o tal “desvio de função”, criação de legisladores ociosos para alimentar advogados de “porta de empresa”.

O medíocre não quer ter esforço. Por isso, mata na concepção a iniciativa alheia. O que antes era aprendizado no ambiente laboral, que dava oportunidades reais de crescimento profissional ao empregado e criava um vínculo com o empregador, passou a ser visto com desconfiança: tanto dos medíocres em geral, quanto do empregador, que, com plena razão, tem receio que aquele fato possa conduzir a um processo trabalhista — que sempre envolve uma reparação financeira; afinal, o real intuito do medíocre é alimentar-se do esforço alheio.

Há hoje faculdades, mas certas coisas somente a rotina de trabalho nos ensina. E perdemos uma parcela importante desse aprendizado por conta dos medíocres que legislam e invejam desde suas cátedras ou banquinhos.

Será que com esse tipo de pensamento canalha e mesquinho, inerente a quase todos nós, chegaremos ao dito mundo desenvolvido? Ou continuaremos a patinar na nossa mediocritas, plumbea mediocritas?

* * *

Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 19/12/2012.

322. Cidades novas

[…]
 Dos mármores partidos e das colunas trágicas
[…]
Giorgios Seféris, VI, de “Mitologia”

Nunca houve mármore por aqui.
Apenas o corpo bárbaro da taipa
e seu esqueleto de ripas.
Houve — e ainda há algures —
o tristonho e roído sorriso do tijolo.
Hoje, somente a porosidade cinza
do concreto, fora do tempo.

314. A democracia sou eu

“Paz, amor e sieg heil!”

L’État c’est moi” — “O Estado sou eu” — é frase atribuída a Luís XIV, Rei da França entre 1643 e 1715. O dito, embora os historiadores não considerem ter saído efetivamente da boca do monarca, contém a ideia da monarquia absolutista, ou seja, regime em que o rei era executivo, legislativo e judiciário. A frase resume o espírito da época.

“A democracia sou eu.” Disse outro Luís, o Inácio Lula da Silva. Não exatamente assim, mas a maneira como ele vem se comportando bem o demonstra. Embora seja dado a bravatas, Lula jamais diria uma frase dessas. Jamais se comprometeria tanto com conceitos que lhe são apenas degraus, como a democracia.

Parte de sua concepção política vaza de seu discurso furado: “Temos de aproveitar o bom momento do País para eleger mais companheiros”, disse o ex-presidente no palanque de Luiz Marinho, candidato a prefeito em São Bernardo do Campo/SP. A ideia de Lula paira sobre um regime de partido único, uma democracia “companheira”. Basta ver algumas declarações: “Precisamos extirpar o DEM da política brasileira”, nas eleições de 2010, e, agora, no comício de Mário Reali, candidato a prefeitura de Diadema/SP, quando comparou a oposição a um câncer.

Sua insistência em dizer que “não sabia de nada” sobre o Mensalão está se mostrando um péssimo álibi. Enquanto Lula tenta esconder o morto no armário, a militância — principalmente pela internet — está arreganhando dentes e falando em “golpe”. O único movimento que vejo é o da decência, de magistrados que estão fazendo seu papel, não obstante terem sido, em grande parte, indicados por Lula ou Dilma. O golpe é apenas contra o democratismo “companheiro”, que há de chegar ao fim.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 25/9/2012.

308. ‘Divide et impera’

De olho no jogo

Recebemos várias reações ao nosso artigo da semana passada (“Oclocracia”, 14/8); alguns fazendo eco, outros criticando-o. E é sobre um dos questionamentos que gostaríamos de rapidamente nos debruçar.

Um leitor questionou o raciocínio alegando que “temos 27 partidos políticos registrados no STE”. Justo. Mas o que significa esse número absurdo de partidos? Conexão plena com o que chamamos de oclocracia ou democracia numérica.

Sabemos — ou deveríamos saber — como se comportam as agremiações políticas no Brasil: não têm projetos políticos. Têm, no máximo, projetos de poder, de conquista do Estado; são mais alcateias que propriamente partidos. Isso, claro, os mais organizados; o resto são apenas amebas que querem fagocitar uma vaguinha em legislativos poeirentos, uma verbinha.

Dizemos isso porque é impossível haver 27 visões de como gerir a República. Se houvesse algum partido que defendesse a monarquia, teríamos, no máximo, umas três ou quatro visões sobre a administração pública. Aposto meu dedo mindinho esmagado por um torno mecânico que esse número não pode ser maior.

É a lógica da democracia numérica: divide et impera, ou seja, divide para dominar; era a máxima de Júlio César e Napoleão. Uma sociedade muito fragmentada não tem setores fortes; ou, no máximo, dois ou três que polarizam o restante de acordo com as conveniências. Fazem um jogo que nos ilude, um caleidoscópio que dá a sensação de infinito num minúsculo prisma de espelhos.

No final das contas, os partidos apenas fazem parte da liturgia da política. Dão aspecto sério a uma sociedade politicamente hedonista; são peça essencial do democratismo, sistema político que apenas quer parecer democrático.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 21/8/2012.

302. Bolicola e McEvo

Evo Morales tomando Coca-Cola

Fanfarronice, palhaçada ou simples vontade de aparecer? Não é possível saber exatamente qual doença acomete o chefe boliviano Evo Morales. Talvez seja uma terrível mistura das três.

Nesta semana, Morales expulsou a Coca-Cola de seu território e decretou a falência do McDonald’s. Não que o McDonald’s do Chaco representasse muita coisa: eram apenas oito lojas no país todo. O que sobra é o ridículo; os atos são intitulados como “o fim do capitalismo” na Bolívia. Já consigo ver uma assembleia em qualquer universidade pública brasileira e um barbudinho seboso levantando a mão para pedir votação de uma “moção de apoio ao povo boliviano”.

É um mero ato simbólico do ridículo que esse tipo de regime gosta de representar. Não tem efeito prático, no máximo, no caso do McDonald’s, fica um saldinho devedor de uns 60 ou 70 desempregados; fica só o risível e expõe a megalomania de pessoas e doutrinas que se creem o único caminho possível.

Esquecendo-se do Chaco Meridional, perdido para o Paraguai nos anos 30, a Bolívia faz do McDonald’s suas Malvinas, um monstro para chamar de seu. Talvez o Estado Plurinacional da Bolívia introduza, em lugar dos itens prescritos, a Bolicola e o McEvo. Feitos por estatais, evidentemente.

301. Futuro relativo

Um passinho pra frente, outro pra trás

O discurso político está cravejado pela noção de ‘futuro’, usada apenas como fuga retórica e nunca como conceito real. Não sei o que pode ser mais nocivo. O futuro é uma armadilha; o futuro depois-que-eu-for-eleito ainda é usado e ainda ilude muita gente.

Basta observar o comportamento do Governo Federal frente à crise econômica internacional. O Brasil teve, nos últimos anos, uma posição economicamente realmente invejável: relativa estabilidade e crescimento baixo, mas constante. Um período bom para pôr em marcha reformas necessárias: política, trabalhista e tributária. Agora, com uma injeção artificial de crédito, tenta-se evitar os efeitos nocivos da crise. O efeito colateral, porém, é o aumento da inadimplência e endividamento das famílias. As carteiras de crédito dos bancos podem tornar-se bolhas insolúveis: uma crise de crédito.

O setor agrícola nacional não fica atrás. A monocultura localizada ainda existe; em vez de o agricultor ter pelo menos duas culturas em suas terras, opta pela momentaneamente mais rentável, o que pode funcionar por 2, 5, 10 anos, mas, cedo ou tarde, colapsa. Basta ver o caso atual da laranja: as frutas ficarão no pé porque não compensa colhê-las. Há uma supersafra, demanda e preço no mercado internacional despencaram, e o mercado interno não tem como absorver o excedente.

Também a indústria. Em vez de procurar modernizar-se, busca no Governo apoio para crises endêmicas, não conseguindo concorrer com os manufaturados chineses. A desindustrialização do País é uma realidade, basta lembrar o caso já antigo da cidade de Americana, que há muito deixou de ser a “Princesa Tecelã”.

Faltou planejamento de longo prazo, faltou competência e, sobretudo, faltou união de toda a sociedade.

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Publicado na Tribuna Impressa em 31/7/2012.

297. A síndrome de Zúñiga – uma doença mexicana

Nicolás Zúñiga y Miranda

Andrés Manuel López Obrador perdeu as eleições presidenciais do México novamente. Já as perdera em 2006, quando a diferença entre ele e o presidente então eleito, Felipe Calderón, não passou de 230 mil votos. López Obrador pediu recontagem de votos, convocou passeatas, acampamentos e, mesmo após as repetidas análises do Instituto Federal Eleitoral mexicano que comprovaram o resultado do pleito, seus sectários declararam-no “presidente legítimo”. O mesmo problema parece delinear-se agora, quando López Obrador perde novamente a presidência para Enrique Peña Nieto, do Partido Revolucionário Institucional — legenda de nome curioso, diga-se de passagem.

Quem pensa que essa estranha conduta de candidatos no México é novidade, engana-se. Nicolás Zúñiga y Miranda, mexicano de aristocráticas origens espanholas, além de candidato endêmico — participou das eleições presidenciais de 1892, 1896, 1904, 1910, 1917 e 1920 — sempre se dizia vítima de fraude e declarava-se presidente legítimo, não obstante o fato de nunca ter conseguido mais de mil votos. Em várias dessas ocasiões, declarou-se “presidente legítimo” do país, então dominado por Porfirio Díaz.

Esse tipo de comportamento político mexicano é resultado de quando um candidato se imbui de ser a contraposição àqueles que estão no poder. Além de Zúñiga e López Obrador, outros mexicanos foram acometidos pela curiosa síndrome: José Vasconcelos (1929), Juan Andreu Amazán (1940) e Salvador Nava, que se declarou “governador legítimo” frente à acusação de fraude nas eleições de 1991 para o Governo do Distrito Federal.

A doença parece grave e seus sintomas, intermitentes. Espero que não seja contagiosa, pois já nos bastam as febres terçãs da esquerda brasileira.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 17/7/2012.

295. Paraguai, Venezuela e o Foro de São Paulo

O Grande Obtuso observa tudo

A decisão do Parlamento de afastar Lugo, em 22/6, por mais que se questione o tempo da ação de impeachment, é legítima dentro do arcabouço legal do Estado paraguaio. Porém, como o ex-presidente é considerado ‘amigo’ pelo Foro de São Paulo (FSP), com a mesma rapidez tão criticada, o Paraguai foi suspenso do Mercado Comum do Sul (Mercosul), em 28/6, e da União de Nações Sul-Americanas (Unasul).

Apenas para elucidar: o FSP é uma agremiação de partidos de esquerda que congrega, entre muitos, PT, Frente Amplio (partido no poder no Uruguai), o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), representante do chavismo, e até mesmo o mui democrático Partido Comunista Cubano. É a Internacional do populismo oportunista.

Com a suspensão do Paraguai, o caminho para o ingresso da Venezuela no Mercosul está pavimentado; o país de Lugo era o único do bloco que não havia ratificado a “República Bolivariana”.

Embora a presidente argentina, Cristina Kirchner, já tenha “decretado” — e até marcado data: final de julho — a entrada da Venezuela no bloco, os outros países ainda estão reticentes justamente por causa da obviedade da ligação dos fatos. O incidente parece ter sido criado para atingir esse objetivo, mesmo com o alto preço de ‘queimar’ um aliado. A ocupação de uma fazenda em Curuguaty, em 20/6, pelos Campesinos, acabou por provocar um confronto com a polícia, no qual foram mortas 17 pessoas e mais de 90 ficaram feridas. Haja vista as táticas do FSP, o episódio todo pode muito bem ter sido orquestrado; se não o foi, veio bem a calhar às intenções do Foro.

A Venezuela no Mercosul será a morte das intenções iniciais do bloco, delineadas no Tratado de Assunção (1991). É o país menos democrático do subcontinente, sua constituição foi entupida de emendas para favorecer Chávez e seus aliados, a Petróleo de Venezuela S/A (PDVSA, estatal de petróleo) tem 80% do PIB e a economia — paraestatal — está absolutamente em frangalhos. O que a Venezuela agregará economicamente?

Logo se vê que o Mercosul está sendo transformado — e não é de hoje — em uma extensão operacional do FSP, o mercado comum do compadrismo e da afinidade ideológica. O mesmo vale para a tal Unasul, que já nasceu com a marca indelével de sua afiliação partidária.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 3/7/2012.

293. Insônia

E quem dorme?

A votação das emendas à Lei de Diretrizes orçamentárias na Câmara de Araraquara foi da tarde de terça ao fim da madrugada de quarta da semana passada (19-20/6). Quarenta emendas: 35 do vereador Carlos Nascimento. Fora as retiradas de pauta, o restante foi todo negado. Uma inolvidável noite de nãos.

Duas coisas ficaram claras na “Noite do Não”. Primeiro, a intransigência e a centralização absurdas da administração municipal, que não aceitou uma só emenda a sua pétrea LDO — o que complementa o papel pífio dos conselhos municipais, esvaziados pelo pouco caso do Governo, como reportagem e editorial desta Tribuna (17/6 págs. A2 e A5) também mostraram. Segundo, o pavoneamento da oposição, que se vale do obstáculo certo — e praticamente intransponível — para fazer palanque eleitoral.

Posso estar sendo cruel no meu curto julgamento — o espaço não me permite mais —, mas não consegui ver reais debates pela cidade. Foram perceptíveis apenas a exposição de egos inflamados e até mesmo alguns gritos. Uma ruidosa e desnecessária vitrine de vaidades.

Nos últimos tempos, principalmente por conta do aumento nos subsídios, cobrou-se ‘respeito’ pela instituição Câmara e seus membros. Porém, para que algo ou alguém seja merecedor de respeito, deve antes inspirá-lo. Não basta ser membro do Legislativo; não basta evocar os votos recebidos. É necessário ter um comportamento condizente com o cargo. A grosso modo, o hábito não faz o monge.

A Câmara precisa esforçar-se mais; precisa trabalhar pela cidade. Nem mesmo uma campanha publicitária é necessária — como foi aventado não faz muito. É simplesmente cumprir seu papel de legisladora; a população, com o tempo, saberá reconhecer.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 26/6/2012.

291. Guarânia time

Fernandito, padre de muchos

O presidente paraguaio, Fernando Lugo, está sendo processado pelo parlamento de seu país por conta de morte em uma mal-fadada operação envolvendo sem-terras e a polícia.

Algumas coisas têm de ficar claras porque há muita gente falando besteira internet a fora.

Primeiro: não é golpe de estado. Embora o próprio mandatário o tenha dito, qualificando o ato administrativo contra sua pessoa como “golpe de estado expresso”, o impeachment é um processo político-administrativo levado a cabo pelo parlamento democraticamente eleito. O problema do caudilhismo latino-americano é ter ilusão na autocracia e nela apoiar-se para governar. O mesmo ocorre no Brasil; o presidente da república não é um autocrata e o parlamento, tão legitimamente eleito como o presidente, tem sim responsabilidades sobre o presidente da república se achar necessário.

Segundo: o processo contra Lugo é resultado de ele ter perdido maioria nas câmaras, hoje dominadas pelo Partido Colorado, e também de várias outras indigestões políticas no decorrer do seu mandato, como seus vários filhos — tendo ainda em vista que ele era sacerdote católico, logo, celibatário; sozinhos, tais fatos são de ordem política e moral, respectivamente, mas acabam tendo peso sobre uma decisão dessa magnitude. Mostram manifestações contra o impeachment; o que significa que o Paraguai é um país com certo nível de democracia, onde descontentes — e até mesmo sectários — podem manifestar-se. É um ótimo sinal.

Terceiro: o movimento que tem surgido na esquerda internética brasileira não tem pé nem cabeça. Não é assunto nosso. A não ser que ela tenha algo a defender, como, p. ex., o presidente Lugo ser membro do Foro de São Paulo, organização que congrega partidos de esquerda — até mesmo o mui democrático Partido Comunista Cubano — e luta por uma hegemonia absoluta nos países da América do Sul. O que explicaria a rapidez de uma “missão” da Unasul — União de Nações Sul-Americanas, esse aborto organizativo que ninguém nem mesmo sabe exatamente o que é — para intromissão em assuntos internos paraguaios. Com a Síria, aliada até outro dia, foram necessários meses e meses para que o Itamaraty se posicionasse decentemente e condenasse os ataques.

E por fim, mas não menos importante: é assunto interno do Paraguai e a resolução deve vir de seus poderes constituídos e de sua população.

290. Política, futebol e religião

Verde, que te quero verde

Diz o ‘velho deitado’ que política, futebol e religião não se discutem. Uma versão mais sucinta fala de “cor e gosto”. Temas e percepções. O grande problema do brasileiro — digo isso porque é o povo que conheço, mas a definição imagino ser expansível à Latinidade — é misturar as coisas.

O cidadão não se contenta em ver o jogo de futebol e torcer pelo seu time. Não. Alguns espíritos de porco têm de sair à rua acelerando carros e berrando. Outro cidadão tem sua fé; ele não se contenta em servir a Deus, tem de sair nos domingos pela manhã para bater de porta em porta e tentar arrebanhar mais almas com um discurso impositivo. Das misturas dessas duas vertentes de manifestação surge a política vista pelo brasileiro que a acompanha: dogmática e escandalosa. O brasileiro acompanha política como quem torce para Corinthians ou Palmeiras: é mau perdedor, é dogmático e crê na infalibilidade dos seus “papas” e só seu time tem razão. “Minha razão é a minha força.”

Essa política futebolística se vê muito pela ‘esquerda festiva’, ou seja, aquela que se encontra ora no poder. Nosso ex-presidente adora uma metáfora do mundo da bola, uma bela alegoria. E também não admite críticas. Essa esquerda e outras ainda mais radicais aninharam-se, por exemplo, na área de Humanas das universidades públicas, ultrapassando mesmo as cansativas assembleias em que se discute, num “samba do crioulo doido”, falta de professores e propõe-se uma “moção de apoio ao povo do Iraque contra a opressão estadunidense”, as doutrinas chegaram mesmo às salas dos professores, onde são os únicos critérios de pesquisa e investigação. Nossa universidade parou nos anos 60.

E são infalíveis. A economia de mercado teve suas turbulências esporádicas — e está tendo uma grave agora, um dolorido espasmo —, porém o Segundo Mundo, que chegou a englobar 33% da Humanidade, hoje se acha reduzido a ilhas de tirania, como Cuba e Coreia do Norte. O resto do Mundo Socialista dissolveu-se por absoluta incompetência econômica; as revoluções populares foram apenas uma cereja no bolo da desgraça. Se não tivessem acabado na contração violenta do começo dos anos 90, os regimes da Europa Oriental teriam definhado por mais uma década e lentamente começariam a abrir-se.

Dizem os acadêmicos: “Ah, mas isso não é o socialismo”. Se não o é; o que seria? O problema do socialismo/comunismo é que ele nunca ultrapassou a barreira da famigerada ditadura do proletariado que, uma vez instalada, deveria dar lugar à lenta dissolução do Estado, a administração descentralizada e local. Nessas linhas, seria um sonho. O grande problema é que a amorfa ditadura do proletariado tornou-se a pétrea ditadura da nomenklatura. E assim foi até a dissolução dos regimes.

Possivelmente, junto com a monarquia absolutista e a república revolucionária, o socialismo é um dos regimes que provou sua incompetência em um longo e largo laboratório de 80 anos. Vivemos um regime de democracia representativa que é péssimo, mas, parafraseando Winston Churchill, ainda é o melhor que eu conheço.

O grande problema da esquerda socialista é que a teoria é ótima. Porém tem um grave defeito: não contou com o fator humano. O ser humano é amigo do poder; o poder o fascina. Logo, se uma camada tem acesso a ele agarra-se como o náufrago à jangada. E o “horizonte luminoso” do socialismo fica como o horizonte real: quando se dá um passo em direção a ele, ele se afasta outro.

E, retomando o enfoque do texto, pode-se dizer que há um apego sacro com a política. Há dogmas, há heresias, há excomungados. Heranças de um catolicismo fetichista? A esquerda mantém a ilusão de que é possível mudar, porém, quando chegou ao poder, entregou-se ao mesmíssimo fisiologismo que domina o Estado brasileiro desde a colônia. Mais do mesmo. O poder é como a maresia: corrompe até ferro. Somos um povo torto, dado a paixões e a vícios como poucos. Nossas grandes qualidades são a falta de caráter — o jeitinho —, o sorriso falso com cerveja, o dogmatismo de ocasião das nossas opiniões, a moleza da nossa alma.

Por isso somos tão insuportáveis.