369. Rogério Skylab

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Rogério Skylab, antes de ser um talentoso artista performático, é um intelectual de primeira grandeza por dois motivos: um, não o alardeia e, dois, não almeja tal posição.

Por detrás de canções com letras contundentes, expõe alguns comportamentos corriqueiros, mas negados com toda força pela sociedade brasileira, em sua grande parte falsa moralista. Falso moralismo porque as pessoas assustam-se com palavras das canções e não conseguem ir além da superfície: uma palavra “obscena” ou “rude” trava-lhes o entendimento e faz nascer a reprovação; às vezes o involuntário humor provocado causa o mesmo tipo de escurecimento da percepção.

Um grande exemplo é a música “Derrame”, do disco “Skylab I” (1999). Usando como mote o acidente vascular, Skylab desconstrói a vida de um homem considerado normal, expondo a transitoriedade de vaidades e até mesmo o isolamento social decorrente das sequelas.

Talvez Skylab não concorde com essa abordagem, ou até mesmo a ache pretensiosa, mas é o que se pode ver além do pasmo inicial ou da recusa do ouvinte em aprofundar-se na letra da canção.

Os eventuais detratores e o senso comum, famintos de eufemismos e de mentiras piedosas, não absorvem a verdade cruel e lírica presente nas letras de Skylab.

153-bis. Fala o Maestro Sérgio de Vasconcellos-Corrêa

Referente à postagem 153, “O misterioso caso do hino que não tem música”, recebi um comentário que me deixou lisonjeado. Trata-se da fala do Maestro Sérgio de Vasconcellos-Corrêa, compositor de uma das versões do hino paulista apresentadas naquela postagem. Com suas declarações, não hesito em incluir o Maestro Sérgio entre os grandes vultos desta terra, que tem consciência do que é ser paulista e do que é liberdade.

Com muita propriedade o Maestro recorre a uma citação de Ibrahim de Almeida Nobre, conhecido pelo epíteto de “Tribuno da Revolução”. Leiam:

Li atentamente o seu “O Misterioso caso do hino que não tem música” e venho, por meio deste comentário, cumprimentá-lo pelo desassombro das suas observações.

Não vou entrar no mérito político da questão, pois minha opinião é a de que, como pau-listas, temos absoluta convicção da nossa postura de brasileiros federalistas, que lutamos no passado e o faremos, custe o custar, a qualquer momento, pela defesa da Constituição Nacional. Cabe aos demais brasileiros, por a mão na consciência, deixar de lado os seus bairrismos e trabalhar, como nós trabalhamos, pelo bem da nossa querida Pátria.Sobre o Hino dos Bandeirantes, colaborando com as suas observações informo:

1. O poema do nosso querido Guilherme de Almeida não foi “adotado” pelo Esta-do de São Paulo, ele venceu o “Concurso” instituído para a escolha da “Letra Oficial” do Hino do Estado de São Paulo.

2. O nosso Hino não tem música oficial, pela simples razão de que: Instituído o concurso para a escolha da música oficial – isso poderá ser constatado através do D. O. – a Comissão Julgadora deu parecer contrário alegando – como ouvi de um dos integrantes da referida comissão – que “a letra era longa demais para um hino”. Ora! A letra não estava em julgamento, ela já era a “Letra Oficial por concurso”.

3. Quando o amigo diz: “algo que era relativamente forte até algumas décadas atrás e hoje está totalmente esvaziado”, não posso deixar de relembrar as palavras de Ibrahim Nobre, do alto do Banco do Estado “… a terra pode ser São Paulo, mas o povo não é mais paulista”.

4. Sobre a falta de interesse do Estado em adotar um dos três hinos remanescentes,é um fato incontestável. Já a sugestão de se abrir um novo concurso, não me pa-rece a melhor solução, pois, iria prejudicar os autores que participaram do pri-meiro e que, nesse caso, seriam obrigados a escrever um novo hino, além da a-gravante de que: tanto o Maestro Spartaco Rossi como o Maestro Mozart Kahil, já não se encontram entre nós.

Minha opinião – que pode parecer suspeita – é a de que a melhor solução seria:

a) A gravação dos três Hinos pela banda e coro da Polícia Militar, ou por qual-quer outra corporação musical.

b) Divulgação dos mesmos através de todos os meios de comunicação (Escolas / Rádio / TV / Internet / Apresentações públicas etc…

c) Escolha final pelo público, através de votação, por meio de urnas eletrônicas que impeçam qualquer tipo de manipulação do resultado.

d) Sobre as citadas: “Canção do Expedicionário” e “Marchas consagradas da Revolução Constitucionalista”, não me parece uma boa solução, pelo fato de que, essas canções, que foram compostas com outros objetivos, perten-cem a outros momentos da nossa história e tem como agravante impeditiva o fato de ser o poema de Guilherme de Almeida, a Letra Oficial do Hino dos Bandeirantes.

A vergonha e o amor pela terra, a que o amigo se refere, não devem ser credita-dos aos paulistas como nós e sim, aos falsos paulistas; àqueles que não sabem – ou não querem – nos representar.

Sou Paulista, com muito orgulho.

Paulistano de quatro costados.

Caipira da Penha, sim Senhor.

Um grande abraço do xará Piratiningano,

Sérgio de Vasconcellos-Corrêa

E aqui, a minha resposta ao Maestro:

Agradeço a leitura e a ilustre visita…

Então, quando digo “adotado”, assim o digo por conta da lei que o institui como hino oficial, ou seja, o resultado do concurso foi feito norma…

De fato, é um pecado que nenhuma das melodias tenha sido escolhida para acompanhar a letra… é fato também que o poema de Guilherme de Almeida é assaz complexa para uma melodia… o verso livre não se adapta bem à monumentalidade que pede um hino… para tal, fosse melhor um texto em decassílabos… mas isso deveria ter sido visto quando da escolha da letra…

Concordo que a questão da escolha deveria ser posta em votação, com ampla divulgação das melodias… se bem que, infelizmente, não conheço a do Maestro Kahil… mas o que esperar de um governo que tem receio de assumir tais posturas? Parece que há uma certa “vergonha” em assumir ser paulista. Lembro-me de um dos discursos do ex-Governador Serra que dizia “os brasileiros de São Paulo”. Tudo bem, é pura verdade, mas por que não usar simplesmente “paulista”, uma vez que brasileiro está subentendido. Além do mais, o migrante ou imigrante que adotou São Paulo como sua terra, é também paulista, uma vez que tal identidade prescinde de documentos… creio eu.

No mais, é assunto polêmico, mas que não pretendo deixar de lado, pois aqui é a minha terra, terra dos meus avós por parte de pai e por escolha dos por parte de mãe.

Um grande abraço,
Sérgio.

Para maiores esclarecimentos, leiam O Misterioso caso do Hino que não tem música.

154. “Nossa Bandeira” e “À Santificada”

Prosseguindo com a série de postagens sobre Guilherme de Almeida, deixo aqui a impressão sobre dois poemas do mesmo tema, a bandeira paulista.

* * *

Há dois poemas de Guilherme de Almeida sobre a bandeira paulista. Uma, Nossa Bandeira, escrita no calor da Revolução de 1932, quando o projeto de Júlio Ribeiro para a bandeira do Brasil republicano foi resgatado para servir de símbolo da Revolução por um Brasil melhor, e outra, feita em 1946, quando da restauração dos símbolos estaduais e municipais pela nova Constituição, e a flâmula de Ribeiro foi adotada oficialmente como bandeira do Estado.

Primeiro, o mais antigo:

Nossa bandeira

Bandeira da minha terra,
Bandeira das treze listas:
São treze lanças de guerra
Cercando o chão dos paulistas!

Prece alternada, responso
Entre a cor branca e a cor preta:
Velas de Martim Afonso,
Sotaina do Padre Anchieta!

Bandeira de Bandeirantes,
Branca e rota de tal sorte,
Que entre os rasgões tremulantes,
Mostrou as sombras da morte.

Riscos negros sobre a prata:
São como o rastro sombrio,
Que na água deixara a chata
Das Monções subido o rio.

Página branca-pautada
Por Deus numa hora suprema,
Para que, um dia, uma espada
Sobre ela escrevesse um poema:

Poema do nosso orgulho
(Eu vibro quando me lembro)
Que vai de nove de julho
A vinte e oito de setembro!

Mapa da pátria guerreira
Traçado pela vitória:
Cada lista é uma trincheira;
Cada trincheira é uma glória!

Tiras retas, firmes: quando
O inimigo surge à frente,
São barras de aço guardando
Nossa terra e nossa gente.

São os dois rápidos brilhos
Do trem de ferro que passa:
Faixa negra dos seus trilhos
Faixa branca da fumaça.

Fuligem das oficinas;
Cal que das cidades empoa;
Fumo negro das usinas
Estirado na garoa!

Linhas que avançam; há nelas,
Correndo num mesmo fito,
O impulso das paralelas
Que procuram o infinito.

Desfile de operários;
É o cafezal alinhado;
São filas de voluntários;
São sulcos do nosso arado!

Bandeira que é o nosso espelho!
Bandeira que é a nossa pista!
Que traz, no topo vermelho,
O Coração do Paulista!

Simples e pungente. O esquema dos versos em redondilha maior aproxima-o aos ritmos poéticos mais populares; o que também vale para a organização de estrofes em quadras, com esquema de rimas ABAB.

O esquema de comparação das faixas pretas e brancas alternadas da bandeira com aspectos encontrados na História paulista deu um sabor pitoresco ao poema.

Agora, o segundo:

À santificada

Voltas ao reduto.
Com sete tarjas de luto,
Seis faixas brancas da paz,
E teu penacho vermelho,
e São Paulo dobra o Joelho,
Ao beijo que tu lhe dás.

Vens…
Tu fostes a condenada.
A réproba incinerada,
Que de um ímpio auto-fé,
Deixa na história em resumo,
Negro carvão, branco fumo,

Vermelho flama de fé.
Retemperou-te a fogueira,
Vens como vinha a bandeira,
Da fornalha de sertão,
Santificou-te o suplício,
Repetiu-se o sacríficio,
De Joana D’Arc e Ruão.

Voltas a nós vigilante,
Mãe, esposa, irmã, amante,
Noiva, filha, volta, pois,
É preciso que proves.
Que existiu um nove
de julho de trinta e dois.

E há uma velha faculdade,
Ensinando a mocidade,
Com ela foi que aprendeu.
E houve um brasão mameluco,
Que disse “Non Ducor, Duco!”
E um São Paulo que disse “EU!”

E houve uma noite de heroísmo,
Que marcou o teu batismo,
De glória: É por isso que
Tens quatro letras gravadas
Nas quatro estrelas douradas
Do topo: M.M.D.C.

Já a garoa, nosso incenso,
Beija o teu pano suspenso,
Ao teu mastro, que é uma cruz,
Vês? É um altar em cada casa,
Sobre a qual estende a asa,
Rajada de sombra e de luz.

Fala! É preciso que fales
De tudo, de Fernão Sales,
De Cunha, Funel e Buri,
De Etentério [?] da Pedreira,
Do soldado da trincheira
Que só falavam de ti.

Lembra a mulher da cantina,
Do hospital e da Oficina,
Beleza do nosso bem!
E as crianças num sorriso,
Jurando: “Se for preciso
nós partiremos também.”

Recorda a campanha do ouro
Acumulando um tesouro,
Que nunca se esgotará!
Depois a prisão, o exílio,
A saudade, o nobre auxílio,
Da mão distante que dá.

E agora…agora de novo
Abençoado este povo.
Que tanto soube esperar
Esperança dos Paulistas,
Bandeira das treze listras
Desfraldada em cada lar.

Reza a oração que dizia:
– Preto e branco, noite e dia,
Pois dia e noite estarei
Como um apóstolo, soldado,
Gente Paulista a teu lado,
Pela lei e pela Grei.

Também em A Santificada a menção às faixas, já como resultado do conflito de 1932. O nome dado ao poema entra em relação com a cerimônia, promovida pelo Estado Novo getulista em 1937: foi queimada porque não representava ainda São Paulo (que não tinha bandeira oficial), mas o esforço dos paulistas pela Constituição. Junto com a Treze Listras, foram queimadas as bandeiras dos vinte e dois Estados existentes então. Fantam-me fontes, mas parece que a paulista foi a primeira a ser queimada…

É por isso a primeira estrofe: “Tu fostes a condenada. / A reproba incinerada, / Que de um ímpio auto-de-fé, / Deixa na história em resumo, / Negro carvão, branco fumo, / Vermelho flama de fé. / Retemperou-te a fogueira, […]”

A disposição é diferente do primeiro poema: estrofes mais longas, de seis versos, mas densos que quadras. Redondilhas também, mas com rimas AABCCB, marcando um retorno no som.

O último verso, “Pela lei, pela grei”, encontra-se inscrito no monumento que comemora a revolução de 1932 no município de Araraquara. Monumento simbolicamente interessante que, quando for possível, dedicarei a ele uma postagem especial.

P. S.: Somente a título e curiosidade, Júlio Ribeiro era mineiro. Radicado em São Paulo e como já dito mais acima, projetou a bandeira para que fosse o pavilhão nacional. Em 1932, acabou por ser o símbolo dos paulistas pela Constituição.

142. As línguas e a percepção que temos delas

Há alguns dias, dei de cara com um livro de letras de música; acho que era de uma banda de rock americana. O volume, além das letras em inglês tinham sua versão na língua de Camões. Soavam todas completamente estúpidas.

Não credito a estupidez aos compositores ou aos ouvintes da banda. O problema é de cognição linguística. Já me explico.

Voltemos ali, rapidamente, ao primeiro parágrafo. Ali está a tão batida perífrase “língua de Camões”, o expoente máximo da poesia de língua portuguesa. Equivale a dizer “a língua de Dante” para o italiano ou “a língua de Góngora” para o castelhano. Antes de escrever “inglês”, pensei em usar “a língua de Milton”. Não me soou bem.

O que pretendo introduzir pode ser taxado de esteriótipo, mas corresponde a uma verdade parcial e maior do que aparenta ser.

O inglês, como sabemos, tem uma estrutura morfossintática relativamente simples (honi soit…), como podemos deduzir, por exemplo, da conjugação de verbos ou do processo de criação de verbos. Ou ainda, posso citar processos curiosos e simples de criação de adjetivos a partir de formas mistas com aspecto de particípio passado, por exemplo, “blackhaired”, para designar uma pessoa que tem os cabelos negros, ou “blue-eyed”, para alguém que tem olhos azuis.

Expressões assim são possíveis em línguas que são sintaticamente mais maleáveis. O que não é o caso do português. Herdamos um sistema relativamente pesado da tradição latina. Morfemas de modo, tempo e pessoa estão em cada forma conjugada. Isso nos dá uma morfologia muito mais fixa no sentido da criação e uso de termos. Pese ainda de, durante o longo processo de passagem do latim para o português, perdemos a noção de caso de manifestação morfêmica, substituído pela relação de caso através de um certo número de preposições.

Esses fatos dão a um texto em língua portuguesa (e românicas em geral) um certo ar de gravidade, frente a um texto em inglês (germânica), de estrutura mais leve pela concisão (apesar de também não ter mais casos, exceto o genitivo de posse).

As letras de rock traduzidas – infelizmente não vou me lembrar de nenhum exemplo factível – lidas em voz alta, soavam francamente ridículas, como se fossem os balbucios de Arnaldo Antunes, ou até coisa pior. Credito o ‘mau som’ das traduções a essa quebra de estrutura, impossível de transpor ao português.

Giorgio Gaber: «Eppure sembra un uomo»

A música que bem cabe como trilha sonora para o ser humano.

Eppure sempra un uomo (G. Gaber, 1970)

Eppure sembra un uomo
vive come un uomo
soffre come un uomo
è un uomo.

Nasce fragile e incerto
poi quando ha la ragione
si nutre di soprusi e di violenza
e vive e non sa il perché della sua esistenza.

È così compromesso
con ogni compromesso
che oramai più nulla né sente né vede
e il compromesso è l’unica sua fede.

Eppure sembra un uomo
vive come un uomo
soffre come un uomo
è un uomo.

Sul muro c’era scritto:
“alzateci il salario!”
l’ha cancellato un grande cartellone
con scritto: “Costa meno il mio sapone”.
Hanno arrestato un ragazzo
che aveva rubato tre mele…
vi prego, fate un po’ di beneficenza
sarete in pace così con la vostra coscienza.

Eppure sembra un uomo
vive come un uomo
soffre come un uomo
è un uomo.

In ditta c’è un salone
lavorano mille persone…
per me è già difficile la vita in due
e credo che prima o poi ci divideremo.
Mio padre è mio padre
mio padre è un brav’uomo
mio padre tratta tutti da cretini:
i vecchi bisogna ammazzarli da bambini.

Eppure sembra un uomo
vive come un uomo
soffre come un uomo
è un uomo?
È un uomo!

133. Viajando

Estação da Luz, São Paulo/SP

Vivre, vivre
Même sans soleil, même sans été
Vivre, vivre
C’est ma dernière volonté

(Vivre/Laat me, Ramses Shaffy)

As viagens que faço são quase sempre de ônibus. E à noite. Gosto da sensação de estar fugindo; não sei de quê e nem para quê, mas gosto. Chegar ao guichê nos últimos momentos do dia civil e pedir uma poltrona no último ônibus.

Aproveito bem alguma frugal refeição em um dos restaurantes da rodoviária, u’a massa e uma cerveja long neck; ou, se não estiver lá com muita fome (sempre há a possibilidade de comer no meio do caminho, na parada que o ônibus faz), tomo uma xícara de café no café mais vazio que houver. Esse é meu critério maior: lugares vazios ou com o mínimo de gente possível. Sempre há nesses cafés os jornais do dia e, como já é fim do dia, vejo as notícias velhas como quem vê uma novidade, afinal, fiquei o dia todo preso num cubículo de paredes pintadas em tons claros e indeterminados e não sei de absolutamente nada. Vejo quem bombardeia quem, quem pressiona quem, qual agremiação política esperneia mais, o que o governo fez de ruim.

São já horas de meter-se no ônibus. Desço até as plataformas e busco a que coincide com o meu bilhete. Entrego bilhete de ônibus e de identidade ao motorista que, sem olhar na minha cara, confere os dados que eu autografei no bilhete do ônibus com o da minha identidade. “Boa viagem”. Acomodo minha única mala no bagageiro superior e sento-me no assento marcado no bilhete; preferencialmente na janela. Reclino o banco.

O ônibus sai. Invade-me novamente a deliciosa sensação de estar fugindo. O ônibus navega na avenida cheia de carros ainda, as lanternas lançam luz avermelhada para dentro do ônibus; mas logo vem o viaduto e um estranho obelisco: é o começo da estrada. A escuridão toma conta do interior do ônibus; as poucas luzes de leitura acionadas não interferem em nada. A cidade e suas neuras vão ficando longe, tanto em distância quanto em existência. Mais para frente, quando o ônibus navega entre os campos, junta-se o escuro que vem de fora; às vezes há lua, outras não. Somente o doce ronronar do ônibus faz-se ouvir, como um gatinho gentil e peludo. A simples sensação que o ônibus vara a escuridão; uma escuridão que passa pela outra, a impressão de que navega pelo mar de terra, entre campinas, montes e vales de rios.

Naquele ônibus, sou apenas mais um, sem nome, sem passado: uma ossada recoberta dos correspondentes músculos e tendões. Deixo as placas contarem-me dos lugares e marcar a quilometragem. É algo que me acalenta, é algo que, no meio da escuridão, faz com que me sinta vivo. Estranhamente vivo.

103-bis. Eminescu em português

Faço um adendo à postagem anterior: cavando pela rede, deparei-me com o trabalho de Daris Basarab, disponível no Scribd, que tem traduções de Luceafărul (1883), Mortua est (1881), Mai am un singur dor (1883), Melancolie (1886), Glossă (1883), Oda (în metru antic) (1883), Peste vârfuri (1883), Criticilor mei (1883), Ce te legeni… (1883), La steaua (1886) e Şi dacă... (1886).

O Diário do Nordeste noticia o trabalho de Luciano Maia, tradutor e organizador do Mihai Eminescu por Luciano Maia: 25 poemas do amor romântico. Trabalho esse que chegou a render uma música de Martinho da Vila: Dentre centenas de mastros, do disco «Brasilatinidade».

62. Música militar

A maioria das pessoas tem um travo quando o assunto é música militar. É compreensível, porque a ligação óbvia é exército, guerra e as desgraças vindouras.

Porém, creio de mal tom excluir algumas categorias de música militar da lista de “manifestações artísticas” (certo, sei da infelicidade dessa expressão, mas é a que me vem), refiro-me prioritariamente ao Mehter Takımı, ou seja, ao conjunto da música militar otomana e ao Fifes and Drums da Nova Inglaterra.

São interessantes não somente pela música, mas também pelo como são apresentadas, com os corpos de músicos em formações de época com seus galões, chapéus tricornes, turbantes e tudo mais. Vale a pena ver. Abaixo, vídeos de ambas.

Fifes and Drums da Nova Inglaterra:

Bursa Mehter Takımı tocando Hoş Gelişler ola:

E a ainda mais clássica otomana, Ceddin Deden, com auxílio de orquestra:

Marcha del Taximetrista

Essa marcha não fica nada devendo ao “Cincinalul în patru ani şi jumătate“: a “Marcha de los Taximetristas” (“Marcha dos Taxistas”) feita na Argentina peronista:

Marcha del Taximetrista

Letra e msnica de Rodolfo Sciammarella

Es nuestra vida engranaje de un destino
y nuestro corazón es el motor
son nuestros ojos los faros del camino
y nuestro freno la fuerza del valor.

Los taximetristas
para el pueblo entero
somos mensajeros
de felicidad.

Los taximetristas
con perseverancia
unen las distancias
de nuestra ciudad.

Los taximetristas
para el pueblo entero
somos mensajeros
de felicidad.

Los taximetristas
somos peronistas
y justicialistas
de verdad…

Con el volante siempre firme en nuestras manos
sabemos desafiar con gran tesón
los rigores del invierno o del verano
día y noche, frío… viento… lluvia y sol.

Áudio.

Através de: http://discosbizarrosargentinos.blogspot.com/

İzmir’in dağlarında çiçekler açar…

A marcha que homenageia o grande Mustafá Kemal Atatürk; pena que a percussão se sobreponha às vozes.

Pela Orquestra Sinfônica da República, numa versão apoteótica:

E numa versão mais tradicional:

Mehterân & Caz Orkestrası

O Rondó alla turca de Wolfgang Amadeus Mozart tocado pelo Mehter takımı de Istambul e pela Orquestra Jazz da TRT, do Concerto do dia da República.