310. Análise do(s) discurso(s)

Não se trata aqui de nenhuma disciplina acadêmica, como o título pode sugerir. Dedico as próximas linhas a algumas impressões sobre as sabatinas feitas aos candidatos à Prefeitura e publicadas na edição de domingo (26/8) desta Tribuna.

Os primeiros, definidos em sorteio, foram Márcia Lia (PT) e Valter Merlos (PSD).

O discurso de Merlos é a cansativa ladainha do empresário de sucesso. Dá a entender que administrar uma cidade é como fazê-lo com uma empresa. Mas uma empresa privada não tem parlamento; não basta dar ordens, elas precisam ser endossadas pelo Legislativo. Enfim, a ‘gestão de choque’ é uma expressão bonita, mas oca.

O discurso de Márcia Lia, além das temáticas caras à retórica da esquerda, tem um agravante: “Temos de investir muito para fortalecer a Santa Casa e fazer com que a Maternidade Gota de Leite tenha recursos da Presidenta (sic!) Dilma”. É o tipo de declaração que joga por terra qualquer boa intenção. Pois o que se lê nas entrelinhas é que só teremos as verbas caso o PT volte para a Prefeitura, o que quebra o Pacto Federativo. Se um município não recebe verba porque seu prefeito não é do mesmo partido que a presidente da República, fica claro o aparelhamento do Estado por aquele partido, a face mais pavorosa do fisiologismo.

O que, em tese, é discurso vazio. Em Brasília, o PMDB de Barbieri é da base aliada; o PSD de Merlos e Kassab flerta com o Governo Federal. Logo, o repasse de verbas não será um problema.

A candidata deveria ter repensado e dito “recursos do Governo Federal”, que embora não isento de suspeitas, ficaria mais de acordo com um discurso que se quer — ou deveria ser — republicano.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 28/8/2012.

309. Para entender a releitura

“Mamãe, acabei a releitura. Vem me limpar?”

Vivemos um vale-tudo cultural. Como já diz o nome da variedade de luta, vale tudo. Qualquer pastiche é elevado à condição de obra de arte. Geralmente a incompetência dos artistas modernos é tão grande, que costumam valer-se de imposturas para justificar suas impropriedades. O termo “releitura” ocupa uma posição central nesse “panteão das trevas”.

Não soube fazer, ficou meia-boca? Diga que é uma releitura. Sua trupe é incapaz de decorar os textos como eles foram produzidos por seus autores? Tudo bem. Crie uns figurinos diferentes e diga que é uma “releitura”. Os pós-modernos vão vibrar e poucos perceberão o embuste. E os que perceberem… bem, chame-os de “retrógrados”, “fascistas” e algum outro termo que estiver em voga; desqualifique-os.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 26/7/2012

307. Oclocracia

Socorro!

O fracasso da vida política brasileira tem relação direta com a escola. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1971 levou a cabo a obrigatoriedade do ensino de 1º grau e, sem grandes alterações na infraestrutura existente, todas as crianças — ou boa parte delas — passaram a frequentar a escola. Um inchaço sem o menor planejamento — típico de regimes autoritários — associado a teorias pedagógicas mal aplicadas condenou a educação pública à situação que vemos. Gestores e outros burocratas dirão o oposto; é mera falácia.

O mesmo se dá com a vida política. Todos temos título de eleitor, uma vez que a nossa “Constituição cidadã” democraticamente nos obriga a votar. Ou seja, promovemos uma inclusão forçada de indivíduos que não sentem necessidade de exercer tal direito.

Logo, criamos uma ficção democrática. Uma visão de democracia justificada única e exclusivamente por números: a oclocracia (do grego okhlocratía, o governo da multidão; voraz, amorfo, amoral e inócuo). Os números justificam o eleito; mas se o voto não tem a menor qualidade, a noção de democracia desmorona: abrimos caminhos para os arrivistas, populistas e espertalhões de plantão — os oclocratas, caudilhos, salvadores —, o que favorece ainda vícios como o maniqueísmo — se não é ‘x’, obrigatoriamente é ‘y’ — e injustificável, do qual república e instituições tornam-se reféns.

Enquanto o voto for obrigatório e o descrédito das instituições viger — e não há interesse algum da classe política em qualquer mudança —, será sempre mais fácil arrancar votos fantasiado ou com o toma-lá-dá-cá, justificá-los numericamente e apontar eminências pardas onde elas quase nunca estão.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 14/8/2012.

303. Pizzaria Brasília

Zé Dirceu suando

Apesar do escarcéu institucional promovido pelo Supremo Tribunal Federal, grande parte dos que acompanham com algum interesse o julgamento do Mensalão não acredita em punições reais para os envolvidos. No máximo, algo simbólico.

A partir de ontem, começamos a ouvir a defesa de Zé Dirceu et caterva. O esquema financeiro de “azeitamento” da base aliada foi mostrado pelo advogado como invenção do presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson. Embora Jefferson esteja igualmente indiciado no processo e tenha sua parcela de culpa, é inegável seu mérito, em suas próprias palavras, de ter livrado o Brasil de Zé Dirceu. É uma verdade sifilítica, mas, ainda assim, é verdade.

Vimos também as rusgas entre os ministros Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski, na última quinta-feira (2/8), que transformaram o recinto do STF em uma rinha de galos. Esse tipo de acontecimento é só mais um tijolo no mausoléu das instituições brasileiras, sempre desacreditadas.

Assim como as eleições presidenciais são no ano da Copa do Mundo, o Mensalão foi jogado para o período das Olimpíadas. Se foi intencional, foi também um tiro pela culatra: os jogos estavam perdendo em audiência até mesmo para o vetusto seriado mexicano “Chaves”.

Gostaria de poder acreditar em outro desfecho para o julgamento do Mensalão, já apontado como o mais importante da história do País, mas não creio que passará de um grande — outro — oba-oba. Seus réus sairão impunes e com a cabeça erguida, arrogantes e com aura de santos; arrotarão verdades e perseguirão seus detratores. O descrédito das instituições e as tramas frouxas da lei já deram o cardápio há muito tempo: pizza, meia Delúbio, meia Zé Dirceu, acompanhada pelo vinho azedo do desgosto.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 7/8/2012.

302. Bolicola e McEvo

Evo Morales tomando Coca-Cola

Fanfarronice, palhaçada ou simples vontade de aparecer? Não é possível saber exatamente qual doença acomete o chefe boliviano Evo Morales. Talvez seja uma terrível mistura das três.

Nesta semana, Morales expulsou a Coca-Cola de seu território e decretou a falência do McDonald’s. Não que o McDonald’s do Chaco representasse muita coisa: eram apenas oito lojas no país todo. O que sobra é o ridículo; os atos são intitulados como “o fim do capitalismo” na Bolívia. Já consigo ver uma assembleia em qualquer universidade pública brasileira e um barbudinho seboso levantando a mão para pedir votação de uma “moção de apoio ao povo boliviano”.

É um mero ato simbólico do ridículo que esse tipo de regime gosta de representar. Não tem efeito prático, no máximo, no caso do McDonald’s, fica um saldinho devedor de uns 60 ou 70 desempregados; fica só o risível e expõe a megalomania de pessoas e doutrinas que se creem o único caminho possível.

Esquecendo-se do Chaco Meridional, perdido para o Paraguai nos anos 30, a Bolívia faz do McDonald’s suas Malvinas, um monstro para chamar de seu. Talvez o Estado Plurinacional da Bolívia introduza, em lugar dos itens prescritos, a Bolicola e o McEvo. Feitos por estatais, evidentemente.

297. A síndrome de Zúñiga – uma doença mexicana

Nicolás Zúñiga y Miranda

Andrés Manuel López Obrador perdeu as eleições presidenciais do México novamente. Já as perdera em 2006, quando a diferença entre ele e o presidente então eleito, Felipe Calderón, não passou de 230 mil votos. López Obrador pediu recontagem de votos, convocou passeatas, acampamentos e, mesmo após as repetidas análises do Instituto Federal Eleitoral mexicano que comprovaram o resultado do pleito, seus sectários declararam-no “presidente legítimo”. O mesmo problema parece delinear-se agora, quando López Obrador perde novamente a presidência para Enrique Peña Nieto, do Partido Revolucionário Institucional — legenda de nome curioso, diga-se de passagem.

Quem pensa que essa estranha conduta de candidatos no México é novidade, engana-se. Nicolás Zúñiga y Miranda, mexicano de aristocráticas origens espanholas, além de candidato endêmico — participou das eleições presidenciais de 1892, 1896, 1904, 1910, 1917 e 1920 — sempre se dizia vítima de fraude e declarava-se presidente legítimo, não obstante o fato de nunca ter conseguido mais de mil votos. Em várias dessas ocasiões, declarou-se “presidente legítimo” do país, então dominado por Porfirio Díaz.

Esse tipo de comportamento político mexicano é resultado de quando um candidato se imbui de ser a contraposição àqueles que estão no poder. Além de Zúñiga e López Obrador, outros mexicanos foram acometidos pela curiosa síndrome: José Vasconcelos (1929), Juan Andreu Amazán (1940) e Salvador Nava, que se declarou “governador legítimo” frente à acusação de fraude nas eleições de 1991 para o Governo do Distrito Federal.

A doença parece grave e seus sintomas, intermitentes. Espero que não seja contagiosa, pois já nos bastam as febres terçãs da esquerda brasileira.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 17/7/2012.

295. Paraguai, Venezuela e o Foro de São Paulo

O Grande Obtuso observa tudo

A decisão do Parlamento de afastar Lugo, em 22/6, por mais que se questione o tempo da ação de impeachment, é legítima dentro do arcabouço legal do Estado paraguaio. Porém, como o ex-presidente é considerado ‘amigo’ pelo Foro de São Paulo (FSP), com a mesma rapidez tão criticada, o Paraguai foi suspenso do Mercado Comum do Sul (Mercosul), em 28/6, e da União de Nações Sul-Americanas (Unasul).

Apenas para elucidar: o FSP é uma agremiação de partidos de esquerda que congrega, entre muitos, PT, Frente Amplio (partido no poder no Uruguai), o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), representante do chavismo, e até mesmo o mui democrático Partido Comunista Cubano. É a Internacional do populismo oportunista.

Com a suspensão do Paraguai, o caminho para o ingresso da Venezuela no Mercosul está pavimentado; o país de Lugo era o único do bloco que não havia ratificado a “República Bolivariana”.

Embora a presidente argentina, Cristina Kirchner, já tenha “decretado” — e até marcado data: final de julho — a entrada da Venezuela no bloco, os outros países ainda estão reticentes justamente por causa da obviedade da ligação dos fatos. O incidente parece ter sido criado para atingir esse objetivo, mesmo com o alto preço de ‘queimar’ um aliado. A ocupação de uma fazenda em Curuguaty, em 20/6, pelos Campesinos, acabou por provocar um confronto com a polícia, no qual foram mortas 17 pessoas e mais de 90 ficaram feridas. Haja vista as táticas do FSP, o episódio todo pode muito bem ter sido orquestrado; se não o foi, veio bem a calhar às intenções do Foro.

A Venezuela no Mercosul será a morte das intenções iniciais do bloco, delineadas no Tratado de Assunção (1991). É o país menos democrático do subcontinente, sua constituição foi entupida de emendas para favorecer Chávez e seus aliados, a Petróleo de Venezuela S/A (PDVSA, estatal de petróleo) tem 80% do PIB e a economia — paraestatal — está absolutamente em frangalhos. O que a Venezuela agregará economicamente?

Logo se vê que o Mercosul está sendo transformado — e não é de hoje — em uma extensão operacional do FSP, o mercado comum do compadrismo e da afinidade ideológica. O mesmo vale para a tal Unasul, que já nasceu com a marca indelével de sua afiliação partidária.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 3/7/2012.

293. Insônia

E quem dorme?

A votação das emendas à Lei de Diretrizes orçamentárias na Câmara de Araraquara foi da tarde de terça ao fim da madrugada de quarta da semana passada (19-20/6). Quarenta emendas: 35 do vereador Carlos Nascimento. Fora as retiradas de pauta, o restante foi todo negado. Uma inolvidável noite de nãos.

Duas coisas ficaram claras na “Noite do Não”. Primeiro, a intransigência e a centralização absurdas da administração municipal, que não aceitou uma só emenda a sua pétrea LDO — o que complementa o papel pífio dos conselhos municipais, esvaziados pelo pouco caso do Governo, como reportagem e editorial desta Tribuna (17/6 págs. A2 e A5) também mostraram. Segundo, o pavoneamento da oposição, que se vale do obstáculo certo — e praticamente intransponível — para fazer palanque eleitoral.

Posso estar sendo cruel no meu curto julgamento — o espaço não me permite mais —, mas não consegui ver reais debates pela cidade. Foram perceptíveis apenas a exposição de egos inflamados e até mesmo alguns gritos. Uma ruidosa e desnecessária vitrine de vaidades.

Nos últimos tempos, principalmente por conta do aumento nos subsídios, cobrou-se ‘respeito’ pela instituição Câmara e seus membros. Porém, para que algo ou alguém seja merecedor de respeito, deve antes inspirá-lo. Não basta ser membro do Legislativo; não basta evocar os votos recebidos. É necessário ter um comportamento condizente com o cargo. A grosso modo, o hábito não faz o monge.

A Câmara precisa esforçar-se mais; precisa trabalhar pela cidade. Nem mesmo uma campanha publicitária é necessária — como foi aventado não faz muito. É simplesmente cumprir seu papel de legisladora; a população, com o tempo, saberá reconhecer.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 26/6/2012.

292. “Eram os deuses astronautas?”, Erich Von Däniken

Domingo, a edição do caderno de cultura Tô Ligado, da Tribuna Impressa de Araraquara, era semitemático. Afinal, era o Dia do Disco Voador. Para fazer jus à data, no Menu Cultural de minha responsabilidade, indiquei um clássico do gênero: “Eram os deuses astronautas?”, de Erich Von Däniken.

Além do que escrevi para o jornal, que está aí logo abaixo, dou um tempero pessoal a coisa. Existia uma edição desse livro na casa da minha mãe, da Melhoramentos, dos anos 70 (cuja capa ilustra o curto artigo). Dos vários livros “doidões” que li — não são muitos, é verdade — esse se preocupa com um mínimo de coerência. Fica para vocês a dica de leitura; ou como diria o suprassumo da cultura brasileira, Chaetano Seboso, “Ou não”.

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Ligação interplanetária

Perguntas que não calam: “Seria o escritor um pinguço?”

Pirado para uns, cientista para outros. Bem ou mal, o ufólogo suíço Erich Von Däniken conseguiu incontáveis admiradores e detratores com seu polêmico “Eram os deuses astronautas?”; a indiferença é impossível.

No livro de 1968, Von Däniken traça liames entre feitos, representações e construções de antigos povos (egípcios, incas) com a possível intervenção extraterrestre. Para o autor, a própria representação de divindades que “vêm do céu” ou “nele estão” aponta para influências vindas de seres oriundos do espaço; ele chega mesmo a propor que a raça humana moderna seria resultado do cruzamento de extraterrestres com primatas.

Embora “Eram os deuses astronautas?” seja sua obra mais conhecida, Von Däniken tem uma produção bibliográfica de cerca de 20 livros, todos voltados para a temática da relação dos seres humanos com a vida inteligente fora da terra.

291. Guarânia time

Fernandito, padre de muchos

O presidente paraguaio, Fernando Lugo, está sendo processado pelo parlamento de seu país por conta de morte em uma mal-fadada operação envolvendo sem-terras e a polícia.

Algumas coisas têm de ficar claras porque há muita gente falando besteira internet a fora.

Primeiro: não é golpe de estado. Embora o próprio mandatário o tenha dito, qualificando o ato administrativo contra sua pessoa como “golpe de estado expresso”, o impeachment é um processo político-administrativo levado a cabo pelo parlamento democraticamente eleito. O problema do caudilhismo latino-americano é ter ilusão na autocracia e nela apoiar-se para governar. O mesmo ocorre no Brasil; o presidente da república não é um autocrata e o parlamento, tão legitimamente eleito como o presidente, tem sim responsabilidades sobre o presidente da república se achar necessário.

Segundo: o processo contra Lugo é resultado de ele ter perdido maioria nas câmaras, hoje dominadas pelo Partido Colorado, e também de várias outras indigestões políticas no decorrer do seu mandato, como seus vários filhos — tendo ainda em vista que ele era sacerdote católico, logo, celibatário; sozinhos, tais fatos são de ordem política e moral, respectivamente, mas acabam tendo peso sobre uma decisão dessa magnitude. Mostram manifestações contra o impeachment; o que significa que o Paraguai é um país com certo nível de democracia, onde descontentes — e até mesmo sectários — podem manifestar-se. É um ótimo sinal.

Terceiro: o movimento que tem surgido na esquerda internética brasileira não tem pé nem cabeça. Não é assunto nosso. A não ser que ela tenha algo a defender, como, p. ex., o presidente Lugo ser membro do Foro de São Paulo, organização que congrega partidos de esquerda — até mesmo o mui democrático Partido Comunista Cubano — e luta por uma hegemonia absoluta nos países da América do Sul. O que explicaria a rapidez de uma “missão” da Unasul — União de Nações Sul-Americanas, esse aborto organizativo que ninguém nem mesmo sabe exatamente o que é — para intromissão em assuntos internos paraguaios. Com a Síria, aliada até outro dia, foram necessários meses e meses para que o Itamaraty se posicionasse decentemente e condenasse os ataques.

E por fim, mas não menos importante: é assunto interno do Paraguai e a resolução deve vir de seus poderes constituídos e de sua população.

290. Política, futebol e religião

Verde, que te quero verde

Diz o ‘velho deitado’ que política, futebol e religião não se discutem. Uma versão mais sucinta fala de “cor e gosto”. Temas e percepções. O grande problema do brasileiro — digo isso porque é o povo que conheço, mas a definição imagino ser expansível à Latinidade — é misturar as coisas.

O cidadão não se contenta em ver o jogo de futebol e torcer pelo seu time. Não. Alguns espíritos de porco têm de sair à rua acelerando carros e berrando. Outro cidadão tem sua fé; ele não se contenta em servir a Deus, tem de sair nos domingos pela manhã para bater de porta em porta e tentar arrebanhar mais almas com um discurso impositivo. Das misturas dessas duas vertentes de manifestação surge a política vista pelo brasileiro que a acompanha: dogmática e escandalosa. O brasileiro acompanha política como quem torce para Corinthians ou Palmeiras: é mau perdedor, é dogmático e crê na infalibilidade dos seus “papas” e só seu time tem razão. “Minha razão é a minha força.”

Essa política futebolística se vê muito pela ‘esquerda festiva’, ou seja, aquela que se encontra ora no poder. Nosso ex-presidente adora uma metáfora do mundo da bola, uma bela alegoria. E também não admite críticas. Essa esquerda e outras ainda mais radicais aninharam-se, por exemplo, na área de Humanas das universidades públicas, ultrapassando mesmo as cansativas assembleias em que se discute, num “samba do crioulo doido”, falta de professores e propõe-se uma “moção de apoio ao povo do Iraque contra a opressão estadunidense”, as doutrinas chegaram mesmo às salas dos professores, onde são os únicos critérios de pesquisa e investigação. Nossa universidade parou nos anos 60.

E são infalíveis. A economia de mercado teve suas turbulências esporádicas — e está tendo uma grave agora, um dolorido espasmo —, porém o Segundo Mundo, que chegou a englobar 33% da Humanidade, hoje se acha reduzido a ilhas de tirania, como Cuba e Coreia do Norte. O resto do Mundo Socialista dissolveu-se por absoluta incompetência econômica; as revoluções populares foram apenas uma cereja no bolo da desgraça. Se não tivessem acabado na contração violenta do começo dos anos 90, os regimes da Europa Oriental teriam definhado por mais uma década e lentamente começariam a abrir-se.

Dizem os acadêmicos: “Ah, mas isso não é o socialismo”. Se não o é; o que seria? O problema do socialismo/comunismo é que ele nunca ultrapassou a barreira da famigerada ditadura do proletariado que, uma vez instalada, deveria dar lugar à lenta dissolução do Estado, a administração descentralizada e local. Nessas linhas, seria um sonho. O grande problema é que a amorfa ditadura do proletariado tornou-se a pétrea ditadura da nomenklatura. E assim foi até a dissolução dos regimes.

Possivelmente, junto com a monarquia absolutista e a república revolucionária, o socialismo é um dos regimes que provou sua incompetência em um longo e largo laboratório de 80 anos. Vivemos um regime de democracia representativa que é péssimo, mas, parafraseando Winston Churchill, ainda é o melhor que eu conheço.

O grande problema da esquerda socialista é que a teoria é ótima. Porém tem um grave defeito: não contou com o fator humano. O ser humano é amigo do poder; o poder o fascina. Logo, se uma camada tem acesso a ele agarra-se como o náufrago à jangada. E o “horizonte luminoso” do socialismo fica como o horizonte real: quando se dá um passo em direção a ele, ele se afasta outro.

E, retomando o enfoque do texto, pode-se dizer que há um apego sacro com a política. Há dogmas, há heresias, há excomungados. Heranças de um catolicismo fetichista? A esquerda mantém a ilusão de que é possível mudar, porém, quando chegou ao poder, entregou-se ao mesmíssimo fisiologismo que domina o Estado brasileiro desde a colônia. Mais do mesmo. O poder é como a maresia: corrompe até ferro. Somos um povo torto, dado a paixões e a vícios como poucos. Nossas grandes qualidades são a falta de caráter — o jeitinho —, o sorriso falso com cerveja, o dogmatismo de ocasião das nossas opiniões, a moleza da nossa alma.

Por isso somos tão insuportáveis.

288. Gornalismo, Sakamoto e mais do mesmo

Graham Chapman e a metáfora do ‘gorn’

Sim, com g mesmo. A ideia vem de gorn, palavra inexistente na língua inglesa usada pela trupe britânica Monty Python em um de seus esquetes. Nada significa, mas ‘evoca madeira’, algo sólido, segundo o esquete em que aparece. Ou seja: um discurso vazio com uma armadura sólida.

É o que acontece quando o jornalista — ou articulista — se agarra em algum dogma do politicamente correto. Se está do lado ‘certo’ ou ‘dos bons’, considera-se inatingível. Usa o senso comum como escudo.

É o caso recente do texto “Ostentação diante da pobreza deveria ser crime previsto no Código Penal”, do gornalista Leonardo Sakamoto. Não o acompanho; na verdade, desconhecia-o até que o texto citado causou certa enevoamento nas redes sociais.

A partir das falas de uma dondoca colhidas da coluna social da Folha, Sakamoto reza pelo estranho catecismo do marxismo com laivos cristãos. Embora as declarações da socialite tenham sido ligeiramente infelizes, a impressão que se tem é a justificação das violências, dos arrastões nos restaurantes paulistanos pelo fator desigualdade social.

Prega um esquisito pauperismo, na lógica de ‘não tenho nada para roubarem, logo não preciso me preocupar’. O que o senhor Sakamoto ignora — ou finge ignorar — é que pessoas têm bens ou desfrutam de determinados serviços porque trabalharam para tal. Talvez não seja o caso da socialite, mas que, mesmo assim, vive às expensas de alguém que tem alguma atividade econômica.

O que se infere do texto é a famosa invidia brasiliensis. Ou seja, justifica-se o roubo, a apropriação indébita porque ciclano não tem condições de ter aquilo. Vivemos em tempos mais tranquilos do que aqueles que viveram, por exemplo, nossos avós. A universidade está aí; o ensino está aí; é óbvio que as coisas não vêm em bandeja, é preciso certa dose de esforço.

Sakamoto defende, nas entrelinhas, uma cultura do coitadismo, que é o mesmo discurso vagabundo usado, por exemplo, pelo Governo para justificar suas mil bolsas. O que falta entre nós é uma real cultura da dignidade e do trabalho. O curioso que esse pensamento tem um estranho ranço cristão, mesmo vindo da pena de gente que renega o cristianismo como formador do caráter brasileiro e o culpa pelos atrasos do Ocidente. Por isso quando digo que somos um país católico, não é somente por ser ainda a religião da maioria, mas também porque determinados conceitos ficaram presos à formação da nacionalidade: justamente os mais deturpados e os mais prejudiciais. Aquelas coisas do tipo que ter dinheiro é pecado; hoje, para os novos sacerdotes do politicamente correto e da igualdade social — Tocqueville revira-se na tumba —, é crime.

Ter inveja é fácil, mas ela pode ser ruim quando casado com o imediatismo e pode ser boa quando casada com a vontade de progredir. De lamentações, já basta o Jeca.

287. A aurora do lulomalufismo

A bênção do capo (Adriana Spaca/Brasil Photo Press/Folhapress)

Leio as colunas de Arnaldo Jabor, mas não sou exatamente aficionado por ele. Porém, aproprio-me a ideia do título de um de seus livros: pornopolítica. O radical grego porno- tem relação com pórne, prostituta na língua de Homero. Logo, basta deduzir o que pode significar pornopolítica.

A aliança entre PP e PT em São Paulo em torno da candidatura de Fernando Haddad à Prefeitura teria tudo para apenas levantar alguns ‘ohs’ de assombro em meia-dúzia de pessoas. Mas a exigência de Maluf para que o próprio Lula viesse ratificar o apoio, a associação dos nomes… é algo que causa, no mínimo, estupefação. Uma Realpolitik despudorada.

Homens com um passado todo de ofensas e sarilhos, agora se abraçam num repulsivo gesto de união política. É nesses momentos cruciais que se percebe que não há projeto de governo, ética, princípios partidários. Nada. O único projeto que existe é o projeto de poder por parte de todos e, principalmente, pela permanência indefinida do PT no poder. Será a aurora sebenta do lulomalufismo? Pode não parecer, mas as duas vertentes têm muito em comum; o que as separa são aparências.

Apesar de tudo, creio que tal ‘união maléfica’ traga ojeriza tanto a parte da militância petista quanto aos ditos malufistas históricos. O restante chafurda na alegria suja, joga fora um passado em nome das conveniências do momento.

Até mesmo a filiação de Delfim Netto ao PMDB, em 2005, fica embaçada quando comparada a essa aliança; se alguém a previsse há 20 anos, poderia ouvir que, no mesmo instante que Lula e Maluf estreitassem as mãos, um buraco negro tragaria todo o Universo. Parece que as coisas mudam; e não necessariamente para melhor.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 19/6/2012.

285. Argentina de novo

Cristina Kirchner com cara de quem sujou as calçolas

Em abril, escrevi neste espaço um artigo sobre a questão das Malvinas. Procurei mostrar como governos que vão perdendo a popularidade submetem-se a práticas de populismo desenfreado. Cristina Fernández de Kirchner, presidente da Nação Argentina, evoca os brios nacionalistas para angariar suporte popular. No Brasil, o nacionalismo é algo fora de moda. Basta um bolsa-alguma-coisa que a situação já está resolvida.

E quando se pensa que nada mais possa vir da margem sul do Rio da Prata, brotam surpresas. A mais recente foi a nacionalização da petroleira YPF, que era controlada pelo grupo espanhol Repsol.

O pior é que todos nós já vimos o filme ruim. Protagonistas diferentes, mas o mesmo populismo estúpido. O ano é 2007; o país, a Bolívia. Evo Morales nacionalizou duas refinarias construídas e mantidas pela Petrobras pela sua polêmica Lei de Hidrocarbonetos. Resultado: apesar da semelhança ideológica entre os governos, o empresariado brasileiro riscou a Bolívia do mapa e o próprio Governo brasileiro esfriou suas relações com o país andino.

A Argentina faz o mesmo erro. Nacionalizando a YPF, que era estatal até os anos 90, ganhou antipatia automática da Espanha — que, querendo ou não, tem razão — e sanções da União Europeia. A excessiva ingerência do Estado na economia só trará prejuízos. Haverá fuga de capitais, principalmente do setor produtivo.

Agora, uma guerra fictícia, de bravatas, com direito a discursos no plenário da ONU. Logo se nota que são soluções desesperadas de uma presidente desequilibrada, escorada na sombra do marido morto, e gerindo um Estado operado por mafiosos a seu mando. Eis o que se tornou a Argentina.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 16/6/2012.

284. O poder pelo poder

Talvez Machiavel explique; talvez

O título pode parecer cruel e maledicente — maquiavélico, no melhor sentido da palavra, talvez —; mas já o explico. O Brasil é uma invenção, uma estranha invenção política à qual simplesmente nos acostumamos. A gênese do país deu-se por processos nos quais não houve nenhum tipo de pressão ou participação de alguma parcela consideração da população.

A própria Independência foi gerada por problemas políticos entre Dom Pedro e as Cortes portuguesas, que culminaram no rompimento político entre Brasil e Portugal e a criação de uma monarquia em um continente de repúblicas.

A nossa república não passou de uma quartelada que foi o ponto culminante do processo de desgaste político da monarquia desde o fim da Guerra do Paraguai (1864-1870). A dita Revolução de 1930 foi um choque entre gente que queria o poder com gente que não queria largar o poder.

Esses fatos históricos mostram apenas de como as mudanças no Estado brasileiro foram sempre uma questão de conveniência a quem estava no poder ou muito próximo a ele. Para nós, brasileiros, o poder político é sempre algo que “vem de cima”. Por isso a pouca ou nenhuma identificação do cidadão com o poder público — ou do eleitor com aquele que é eleito.

Dentro dessa óptica, aqueles que são eleitos para o Executivo e para o Legislativo representam não quem os elegeu, mas simplesmente o poder que exercem. Logo, os mandatários sentem-se no direito de legislar para si ou para partidos. O único projeto que existe não é o de governo, mas sim o projeto de poder.

O país precisa ser ‘refeito’ de ‘baixo para cima’; do ‘menor para o maior’. Logo, o cerne das mudanças tem de ser as câmaras de vereadores e a sua ressignificação frente aos munícipes.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 12/6/2012.