364. O ‘pibinho’ e suas obviedades

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Gostaria de começar este artigo assim: “Otimistas são uma verdadeira praga”. Mas não posso. A ideia era criticar aqueles que tratam a economia brasileira como algo blindado, inatingível. A maior prova que sustêm é que “a crise europeia não aportou na Botocúndia”.

O lastro atual da economia brasileira é o consumo. Prova da sua importância na produção da riqueza nacional são as reduções de impostos, pensadas para manter os níveis de produção elevados. Parece que a estratégia, embora tenha aquecido as vendas, não foi suficiente para segurar o crescimento econômico: o PIB avançou pífio 0,9%, o menor entre os emergentes. Isso se deve ao fato de a economia brasileira basear-se em consumo e commodities. Nada que possa gerar crescimento sólido.

Os pseudo-otimistas louvavam a distância da crise. Pseudo-otimistas porque não os move a coerência da análise, mas a tara estatista de que o Governo sabe — se é que um dia soube — tratar da questão. Governos primam pela incompetência na área econômica.

Geralmente manipulados, os números são o sintoma mais superficial de doenças perigosas. Há apenas investimentos industriais localizados; os destinados à infraestrutura, feitos pelo poder público, estão à míngua — basta ver as obras da transposição do São Francisco, a Transamazônica da era PT.

O “pibinho” é apenas a verruga de uma metástase. Governo precisa deixar de intervir na economia; o capitalismo de Estado brasileiro tem dado resultados ruins e perigosos. O abstencionismo estatal já nos garantiria condições suficientes para o desenvolvimento interno e para a migração de uma economia primária a uma base de produtos manufaturados, da qual consumo e commodities seriam tributários.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 5/3/2013.

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361. Angústia cubana

"Vamos lá no fundo e eu te mostro a revolução no seu centro."

“Vamos lá no fundo e eu te mostro a revolução no seu centro.”

A chegada da blogueira Yoaní Sánchez nos faz lembrar que Cuba é a terra da infelicidade política. Poucos países modernos foram tão massacrados por tiranias de longa duração. Primeiro, o domínio espanhol, que se estendeu até 1898, ano em que a Guerra Hispano-Americana, entre Espanha e Estados Unidos, deu à ilha independência de jure, mas certos dispositivos de sua constituição — adicionados pela tenebrosa Emenda Platt — davam ao Grande Irmão do Norte a última palavra em questões internas da nova república.

Depois, além do domínio americano, a ditadura de Fulgencio Batista, que se estendeu de 1934 a 1959. Neste último ano, a guerrilha que vinha sendo desenvolvida desde 1953 por Fidel Castro e Che Guevara finalmente chega ao poder. A revolução não era originalmente comunista, como o próprio Fidel ressaltou quando de sua visita aos EUA — país que apoiava o movimento contra Batista. A guinada à esquerda e a aliança com a URSS não passaram de oportunismo, foram apenas uma reação à rápida deterioração da situação diplomática entre a nação caribenha e os EUA.

Desde 1959, a família Castro mantém a ilha como um latifúndio. Sua base econômica é a mesma dos tempos coloniais; o embargo burro dos EUA, antes de minar o regime, é uma eficiente propaganda. Num golpe de marketing, Cuba mostra-se como mártir.

Os que foram recepcionar Yoaní no Aeroporto de Salvador com cartazes pró-Cuba — acusando a blogueira de ser paga pela CIA e exaltando a pátria socialista, entre outras boçalidades — ignoram que o regime, em seus quase 55 anos de mandos e opressões, é muito pior que, por exemplo, o nosso Regime Militar. Mas a ideologia maniqueísta presente na esquerda, além de envenenar, cega.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, 19/2/2013.

360. Experimentação social

"Culpa sua, seu pai de merda!"

“Culpa sua, seu pai de merda!”

Deve ter começado na Grã-Bretanha, uma boa terra, mas que ultimamente tem produzido mais minhocas que batatas. Virou moda alguns pais moderninhos não quererem “impingir estereótipos” relacionados ao sexo biológico de seus rebentos. Criam-no como um ser assexuado, dão-lhe nomes neutros como Tempestade, Trovão, Chuva ou outro fenômeno da natureza e permitem que se vistam da maneira que bem entenderem — um menino com roupas de menina, por exemplo — e brinquem com os brinquedos que lhe apetecerem.

Não sei até que ponto tais liberalidades podem ser úteis à formação do caráter da criança. Já me explico: a nossa vida em sociedade prevê determinados padrões que são compartilhados pela comunidade. Promover uma quebra abrupta de tais padrões, longe de ajudar a criança, pode prejudicá-la.

A criança pode entrar em um vórtice de confusão; deve-se sim ensiná-las a respeitar as pessoas independentemente do que elas sejam, da sua aparência, da sua cor, ou seja, promover uma mudança de pensamento, de atitudes.

Esse tipo de maluquice é própria dos nossos tempos, em que as pessoas pensam com as gônadas em vez de fazê-lo com o cérebro. Além do mais, é um tipo de experimentação social inaceitável, uma engenharia social em pequena escala: pais não têm o direito de fazer de seus filhos cobaias. É desumano para a criança, que vai crescer num mundo em que há expectativas sociais.

Não é praticando a iconoclastia, permitindo que um menino vá à escola de tutu cor-de-rosa ou de vestido que o mundo vai mudar: isso é um subterfúgio idiota; é reduzir todos os problemas à forma estética da coisa.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 15/2/2013.

356. Rescaldo

A comoção é péssima conselheira. E é o que ficará patente nos próximos dias, na cobertura do incêndio da boate Kiss, em Santa Maria, Rio Grande do Sul, no que pode ser o segundo pior incidente do tipo no Brasil, perdendo apenas para o incêndio do Gran Circus Norte-Americano, que ocorreu em Niterói, em 17/12/1961, e vitimou 372 pessoas, crianças em sua maioria.

E a comoção causada pelo incêndio da boate levantará várias questões relativas à segurança e à administração de casas noturnas. Teremos debates intermináveis nos meios de comunicação com especialistas em segurança, que sugerirão mudanças nas leis que regulam o funcionamento desses estabelecimentos. Começará a caça às bruxas, o Poder Público surgirá como depositário inconteste do que é melhor para seus administrados.

Analisando a coisa friamente — além da comoção, a reflexão objetiva é necessária —, segurança é um assunto mais privado que público. Serei sincero em dizer que boates juntam duas coisas que me enchem de pavor: lugar fechado e multidão, ingredientes de grandes desgraças — basta lembramos-nos do incidente do Cine Oberdan, na Capital, em 1938, causado por um falso alarme de incêndio. Resultado: 31 mortos, pisoteados; 30 eram crianças.

Mesmo que a responsabilidade dos donos da boate seja mínima — ao que parece, as vistorias e a documentação estavam em ordem — algum buraco, fresta ou desatenção será achado para condenar os responsáveis, porque pais indignados querem justiça, o que é plausível. Os ânimos e a opinião pública precisam ser aplacados.

Afinal, as desgraças pontuais passam e o Brasil continua sendo o país do samba, do futebol, do Carnaval, da Copa, das Olimpíadas, da inconsequência e da amoralidade; essas duas últimas sim, desgraças perenes.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 29/1/2013.

338. A centopeia política

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Nosso regime é recheado de problemas. É quase uma piada de mau gosto chamá-lo democracia; poderia ter qualquer nome: corporativismo, partidocracia, criptocracia. Chamam-no democracia por moda e conveniência.

A grande falha — uma entre milhares — do sistema político brasileiro são seus partidos. Não os partidos em si, mas a forma que a lei estipula como deve ser formados, que segue legislação federal de caráter unitário.

Em um país tão grande, é impensável que os problemas que afligem, por exemplo, Araraquara, sejam os mesmos da Capital do Estado ou os da cidade de Oiapoque, no Amapá. Por conta do obrigatório caráter nacional, nossos partidos transformaram-se em monstros políticos, centopeias que se escondem sob o pedregulho estatal e atrapalham sua renovação e a diminuição. É óbvio que todo o mecanismo de legalização dos partidos foi criado por eles mesmos e embutido na legislação.

Por que não podemos ter candidatos independentes, como em vários outros lugares do mundo, cujo compromisso não fosse regido por cores partidárias, mas pelo real compromisso para com a população?

Outro dia, navegando pela internet, vi alguns dados sobre as eleições municipais e autonômicas na Espanha. Há municípios cuja população une-se e forma frentes para disputar as eleições, comumente chamadas de uniones. Ou seja, há os grandes partidos, com representação nacional, há partidos regionais — como, por exemplo, na Catalunha, onde os principais agentes políticos são partidos regionais — e há também as pequenas uniões.

Talvez fosse tempo de o Brasil começar a desmantelar o monstro partidista que, com sua coesão, ignora peculiaridades em prol do corporativismo político.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 11/12/2012.

337. Café no escritório

Numa sala sem janelas,
dois homens civilizados
bebericam café,
enquanto discutem amargores.
Café regrado, descafeinado,
em comportados copos plásticos.
Pequeninos, os homens os mantêm
entre polegares e indicadores.
Marmanjos brincando de boneca.

Café amargo, descafeinado,
com adoçante e um pouco ralo.
Levantam-se, despendem-se
com um gosto ruim na boca.

335. O velho novo mundo

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Parece que a América foi descoberta outra vez. Os “colombos” da educação estão fazendo estardalhaço na televisão e em outdoors: reinventaram o ensino médio integrado ao técnico.

Antes de 1998, era assim que o ensino técnico estadual funcionava. Prestava-se o vestibulinho e, sendo aprovado, cursava-se o ensino médio integrado a disciplinas de uma área específica. A grande maioria dos cursos era de quatro anos, um a mais que o ensino médio convencional. A proporção de disciplinas técnicas na grade curricular ia aumentando na passagem dos anos. Era uma opção interessante para quem não tinha tempo ou paciência para fazer um curso superior. E outra: bacharéis ficam avessos a certas atividades excessivamente manuais, mesmo que sejam vinculadas ao seu métier.

Em 1998, o Governo do Estado, amparado na famigerada Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, Lei federal nº 9.394/96), reorganizou o sistema de ensino técnico do Estado, desvinculando o ensino médio em si, que passou a ser ministrado como no resto da rede, do ensino técnico, cujo acesso ficou vinculado a um segundo exame de admissão. A desculpa na época era que muitos faziam o ensino técnico — conhecido por sua boa qualidade — para disputar o vestibular.

A solução deu tão certo, que voltaram ao sistema anterior. Cursar o médio regular e o técnico implica em o aluno ter dupla jornada, o que não raramente atrapalha quem trabalha. Outra: a conclusão das modalidades técnicas — a maioria delas — requer um estágio curricular. Como fazê-lo com dupla jornada escolar?

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Publicado na Tribuna Impressa  de Araraquara em 4/12/2012.

333. A antimedalha de prata

Os gringos detectaram agora; nós já sabíamos há muito tempo que nosso sistema educacional é péssimo. Trata-se apenas de escancarar a obviedade.

O Brasil ficou em 39º em ranking educacional elaborado pela Pearson — uma learning company, como se autointitula —, dentro do projeto The Learning Curve. Trigésimo nono lugar não do mundo todo, mas de 40 países.

Os índices surgiram de um cruzamento de dados de vários organismos internacionais envolvidos com educação e comprovam o fracasso da educação brasileira. Embora tentemos disfarçar com Saresp, Prova Brasil e outras maquiagens vagabundas, a verdade é que estudantes oriundos de nossas escolas, com grandes exceções, são incapazes de, por exemplo, fazer a prova do Pisa — Programme for International Student Assessment.

Nas escolas públicas, é a velha choradeira de salários defasados, instalações ruins e falta de interesse do Poder Público, o que tem sua parcela de verdade. O ensino privado é bom de make-up: apostilas, tablets e outras parafernálias, mas que, sem métodos adequados, não acrescentam nada, como já disse o colunista Francisco Belda há algum tempo.

Em suma, tal situação é fruto da excessiva pedagogização do ensino em detrimento do ensino real; da transformação da escola em “creche para grandes”, da retirada da autoridade do professor e da relativização do valor do conhecimento, que muitos apregoam, mas poucos valorizam efetivamente.

Diretores, coordenadores, secretários municipais e estaduais da Educação, pedagogos, ministro. Tirem seus paletós das cadeiras. Vão para casa; podem fechar as escolas. Como estão, do jeito que vocês as deixaram, mais atrapalham que ajudam. Talvez a Indonésia precise de alguma consultoria de vocês.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 30/11/2012.

327. Análise de um poema de Nego Antão

Boleta de pong-ping.

Eis um haikai revolucionário do mestre da poesia pós-moderna, Nego Antão, morador de rincões em que reina o cinza das telhas de fibrocimento. Como pode existir tanta concisão poética em um dístico — uma forma ocidental clássica —, mas que nos remete à simplicidade do haikai. Seu autor inclusive prefere que a chamemos de haikai. “Crio elas como se criam galinhas num galinheiro: têm penas e boa carne”, explica Antão.

O poema, que não tem título — outra tirada magistral —, narra um jogo de pingue-pongue. Para um leitor desatento, pode ser uma estranha partida de pingue-pongue. Um estrangeiro jogando pingue-pongue na luxuriante atmosfera tropical do nosso país-potência. Mas há mais mistério entre as folhas das bananeiras do que supõe nossa vã filosofia.

Repitamos os versos em voz alta. Sintamos a força e a reverberação de suas aliterações sutis. “Boleta de / pong-ping”. Advirto-os, leitores: há mais.

“Boleta”, um diminutivo pouco usual de bola. Por que não “bolinha”? Na verdade, “boleta” aponta para o “boleto” de pagamento, uma relação consumista e que tem toda liames com o glorioso e radiante momento econômico vivido pelo país. Todos podem comprar. Todos têm seus boletos para pagar, mas Antão não somente celebra as benesses da era Lula, ele põe um elemento feminino, da liberação da mulher do jugo machista, trocando o gênero da palavra: “boleta”. Não apenas os machistas compram, mas também as mulheres, os gays, os transgêneros e os simpatizantes. Antão dá um banho de lirismo em toda a elite branca, cristã, machista e homofóbica com apenas uma palavra. Pergunto-me por que ainda não o indicaram apara o Nobel.

Depois desse glorioso primeiro verso, vejamos o último: “pong-ping”. A inversão do nome do jogo mostra a inversão que a classe trabalhadora, com suas “boletas”, fez na mais-valia, ainda refletindo o primeiro verso. Não apenas mais a elite branca dos olhos azuis compra… os ensebadinhos do subúrbio — o conceito da sebência orgulhosa, tão exaltada por Antão, e também por alguns gêneros musicais como o rap e o funk — também compram, invertendo a situação de domínio. E ainda digo mais: querem estar presentes à globalização, por isso a preferência por não aportuguesar os vocabulários. Mas a inversão dos termos originais também significa a insubmissão à cultura enlatada, manipuladora e planificadora dos Estados Unidos: é a faca apontada para o Tio Sam.

Essa é apenas uma amostra do livro de poemas de Nego Antão. A obra completa consta de cinco pérolas e foi impressa em um conceito ultramoderno de editoração: em uma folha corrida apenas, para que fosse acessível às populações oprimidas.

326. O terço descontente

Quando termina uma eleição e contam-se os votos, a ansiedade fica pela torcida na “corrida dos cavalinhos” — lembra-se desse quadro do programa infantil “Bozo”, leitor? A conta final exclui as abstenções, sejam elas por anulação ou por justificação do voto.

No caso da disputa pela Prefeitura paulistana, os números são assustadores. Veicula-se apenas o porcentual considerado “válido” por critérios estabelecidos em lei. Se incluirmos o número total de eleitores do colégio, as porcentagens são: Fernando Haddad (PT), 3.387.720, ou 39,3%; José Serra (PSDB), 2.708.768, ou 31,4%, e o conjunto de nulos, brancos e abstenções atingiu 2.522.682, ou seja, 29,3%.

A esperteza dos legisladores está em considerar a maioria absoluta dos “votos válidos”, esvaziando qualquer tipo de protesto com o voto nulo ou com a abstenção. Em qualquer outro país sério, tais números causariam uma crise política. Haddad elegeu-se — não obstante a condenação por formação de quadrilha da antiga cúpula do seu partido — com pouco mais de 39% dos votos. Os votos dos descontentes chegaram a quase um terço de todos os eleitores aptos a votar.

O protesto de anular o voto não tem valor legal — o que é cômodo aos políticos, pois a vontade dos descontentes é simplesmente ignorada —, mas deveria servir para que criassem o mínimo de vergonha na cara e revissem seus conceitos. O eleitorado está cansado. A tendência desses números — mesmo com o estardalhaço do TSE pelo “voto útil” — é aumentar, o que vai tirar ainda mais a legitimidade do processo democrático brasileiro.

É hora da reforma política. Já passou da hora.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 30/12/2012.

323. Do ouro ao chumbo

Aurea mediocritas, o meio-termo de ouro, lema e meta dos poetas árcades. Meio-termo porque não peca pela falta, nem pelo excesso. Mas a palavra assumiu uma conotação negativa entre nós. O medíocre é indivíduo que além de não ter talento nenhum para destacar-se — não destacar-se não é um pecado em si —, projeta a queda dos demais, nivelando todos “por baixo” e ali procurando mantê-los.

O mal teve início quando os medíocres tomaram as academias, o parlamento; geraram leis e prerrogativas para seus iguais, burocratizaram a sociedade, imobilizando a criatividade. Mantêm sob ameaça o setor produtivo da sociedade com suas ações abstrusas. Como exemplo, o tal “desvio de função”, criação de legisladores ociosos para alimentar advogados de “porta de empresa”.

O medíocre não quer ter esforço. Por isso, mata na concepção a iniciativa alheia. O que antes era aprendizado no ambiente laboral, que dava oportunidades reais de crescimento profissional ao empregado e criava um vínculo com o empregador, passou a ser visto com desconfiança: tanto dos medíocres em geral, quanto do empregador, que, com plena razão, tem receio que aquele fato possa conduzir a um processo trabalhista — que sempre envolve uma reparação financeira; afinal, o real intuito do medíocre é alimentar-se do esforço alheio.

Há hoje faculdades, mas certas coisas somente a rotina de trabalho nos ensina. E perdemos uma parcela importante desse aprendizado por conta dos medíocres que legislam e invejam desde suas cátedras ou banquinhos.

Será que com esse tipo de pensamento canalha e mesquinho, inerente a quase todos nós, chegaremos ao dito mundo desenvolvido? Ou continuaremos a patinar na nossa mediocritas, plumbea mediocritas?

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 19/12/2012.

322. Cidades novas

[…]
 Dos mármores partidos e das colunas trágicas
[…]
Giorgios Seféris, VI, de “Mitologia”

Nunca houve mármore por aqui.
Apenas o corpo bárbaro da taipa
e seu esqueleto de ripas.
Houve — e ainda há algures —
o tristonho e roído sorriso do tijolo.
Hoje, somente a porosidade cinza
do concreto, fora do tempo.

319. Acabou o amendoim

Quando percebeu que untara
Todas as páginas com gordura
e sal dos amendoins, o poeta
— sim, o poeta —
entrou em desespero.

Seus sebentos e salgados versos
tinham tanta sonoridade
quanto o saquinho que acabara de esvaziar.

O sal dos grãos e o sal dos olhos
tornaram suas páginas
um campo de pedras.

314. A democracia sou eu

“Paz, amor e sieg heil!”

L’État c’est moi” — “O Estado sou eu” — é frase atribuída a Luís XIV, Rei da França entre 1643 e 1715. O dito, embora os historiadores não considerem ter saído efetivamente da boca do monarca, contém a ideia da monarquia absolutista, ou seja, regime em que o rei era executivo, legislativo e judiciário. A frase resume o espírito da época.

“A democracia sou eu.” Disse outro Luís, o Inácio Lula da Silva. Não exatamente assim, mas a maneira como ele vem se comportando bem o demonstra. Embora seja dado a bravatas, Lula jamais diria uma frase dessas. Jamais se comprometeria tanto com conceitos que lhe são apenas degraus, como a democracia.

Parte de sua concepção política vaza de seu discurso furado: “Temos de aproveitar o bom momento do País para eleger mais companheiros”, disse o ex-presidente no palanque de Luiz Marinho, candidato a prefeito em São Bernardo do Campo/SP. A ideia de Lula paira sobre um regime de partido único, uma democracia “companheira”. Basta ver algumas declarações: “Precisamos extirpar o DEM da política brasileira”, nas eleições de 2010, e, agora, no comício de Mário Reali, candidato a prefeitura de Diadema/SP, quando comparou a oposição a um câncer.

Sua insistência em dizer que “não sabia de nada” sobre o Mensalão está se mostrando um péssimo álibi. Enquanto Lula tenta esconder o morto no armário, a militância — principalmente pela internet — está arreganhando dentes e falando em “golpe”. O único movimento que vejo é o da decência, de magistrados que estão fazendo seu papel, não obstante terem sido, em grande parte, indicados por Lula ou Dilma. O golpe é apenas contra o democratismo “companheiro”, que há de chegar ao fim.

* * *

Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 25/9/2012.

313. Olhos gastos

Calça e camiseta amassadas; realmente gastas e velhas. Vinha sempre se esgueirando pelo muro do cemitério, confundindo-se com as manchas de umidade; entrava sempre na mesma floricultura.

— Um buquê de cravos. Cravos vermelhos.

Uma vez não havia cravos vermelhos; teve de contentar-se com os brancos.

No mesmo passo rápido e molambento, passava pelo portão do cemitério. Demorava-se lá um par de horas. Saía sem o buquê de cravos.

O farrapo de gente aparecia toda semana; toda quarta-feira. Além da roupa amassada, o aspecto macilento não ajudava. Passados alguns meses, a funcionária da floricultura teve a reluzente ideia de puxar papo com aquele cliente caladão.

— Calor hoje, não?

— Hum-hum.

Ou então:

— Será que chove?

— Hum-hum.

Lacônico. Talvez fosse uma concordância, uma muda revolta. Talvez.

A funcionária não se dava por vencida:

— Muito querido devia ser esse seu parente…

— Hum-hum.

E o homem, além das roupas gastas, tinha um olhar vago e gasto, como se tivesse sido muito raspado contra o horizonte. Mal recebia as flores, jogava o dinheiro na mão da funcionária e saía rapidamente da loja.

Depois de mais uma visita, a moça resolveu seguir à distância o homem gasto. Viu-o entrar no cemitério; viu-o parar diante de uma sepultura, não sem certa hesitação, e nela depositar o ramalhete. Ficou parado de pé durante umas boas duas horas.

A funcionária voltou para a loja e, no dia seguinte, foi verificar o nome da sepultura. Nada demais, e bem que era uma pessoa que havia morrido em 1955. O homem, por velho que fosse, não tinha 50 anos. Poderia tratar-se de alguma graça alcançada, mas também não parecia ser um daqueles túmulos milagrosos, de anjinhos ou gente piedosa. Assunto de família.

Na semana seguinte, o homem foi novamente à floricultura. Um ramo de cravos vermelhos. Pagou e saiu. No seu encalço, a funcionária.

Passou pelo portão e, no meio caminho principal do cemitério, hesitou. Para espanto da funcionária, foi para o lado oposto àquele da sepultura visitada na semana anterior. O homem pareceu boiar entre as cruzes, como se procurasse algo não nelas, mas acima delas; uma bandeira esfarrapada. Parou diante de outra sepultura;  outro parente, talvez. Outras duas horas de muda contemplação da lápide.

No dia seguinte, a funcionária foi ver de quem se tratava. Outro nome, aparentemente sem ligação com o anterior.

Na quarta seguinte, o homem apareceu de novo. Todo o ritual seguiu-se. E novamente com outra campa. Desta vez, o homem viu a funcionária esgueirando-se atrás de um mausoléu, mas fingiu não vê-la. Fez sua contemplação até quando acho necessário e foi embora.

Ele não apareceu mais na floricultura. Nem na quarta seguinte, nem na outra. Sequer numa terça-feira. Não havia para quem perguntar sobre seu paradeiro. Ninguém sabia quem ele era, de onde vinha, onde morava.

Ele continua por aí. Está agora visitando outro cemitério, presenteando os mortos às cegas.  Mas ele não presenteia os mortos em si. Não, seria uma tolice. Ele apenas homenageia a morte, em um culto íntimo. E não quer intromissão dos vivos.