361. Angústia cubana

"Vamos lá no fundo e eu te mostro a revolução no seu centro."

“Vamos lá no fundo e eu te mostro a revolução no seu centro.”

A chegada da blogueira Yoaní Sánchez nos faz lembrar que Cuba é a terra da infelicidade política. Poucos países modernos foram tão massacrados por tiranias de longa duração. Primeiro, o domínio espanhol, que se estendeu até 1898, ano em que a Guerra Hispano-Americana, entre Espanha e Estados Unidos, deu à ilha independência de jure, mas certos dispositivos de sua constituição — adicionados pela tenebrosa Emenda Platt — davam ao Grande Irmão do Norte a última palavra em questões internas da nova república.

Depois, além do domínio americano, a ditadura de Fulgencio Batista, que se estendeu de 1934 a 1959. Neste último ano, a guerrilha que vinha sendo desenvolvida desde 1953 por Fidel Castro e Che Guevara finalmente chega ao poder. A revolução não era originalmente comunista, como o próprio Fidel ressaltou quando de sua visita aos EUA — país que apoiava o movimento contra Batista. A guinada à esquerda e a aliança com a URSS não passaram de oportunismo, foram apenas uma reação à rápida deterioração da situação diplomática entre a nação caribenha e os EUA.

Desde 1959, a família Castro mantém a ilha como um latifúndio. Sua base econômica é a mesma dos tempos coloniais; o embargo burro dos EUA, antes de minar o regime, é uma eficiente propaganda. Num golpe de marketing, Cuba mostra-se como mártir.

Os que foram recepcionar Yoaní no Aeroporto de Salvador com cartazes pró-Cuba — acusando a blogueira de ser paga pela CIA e exaltando a pátria socialista, entre outras boçalidades — ignoram que o regime, em seus quase 55 anos de mandos e opressões, é muito pior que, por exemplo, o nosso Regime Militar. Mas a ideologia maniqueísta presente na esquerda, além de envenenar, cega.

* * *

Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, 19/2/2013.

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336. Aos 60 anos do meu pai

Meu pai não gosta de poesia;
Nunca o vi lendo poemas.
Meu pai não é dessas pessoas
que sovacam livros
ou veem o mundo através
de lentes míopes.

Ele apenas fita
o horizonte azul
do verde dos seus olhos.
Um verde simples e honesto.

8/12/2012

335. O velho novo mundo

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Parece que a América foi descoberta outra vez. Os “colombos” da educação estão fazendo estardalhaço na televisão e em outdoors: reinventaram o ensino médio integrado ao técnico.

Antes de 1998, era assim que o ensino técnico estadual funcionava. Prestava-se o vestibulinho e, sendo aprovado, cursava-se o ensino médio integrado a disciplinas de uma área específica. A grande maioria dos cursos era de quatro anos, um a mais que o ensino médio convencional. A proporção de disciplinas técnicas na grade curricular ia aumentando na passagem dos anos. Era uma opção interessante para quem não tinha tempo ou paciência para fazer um curso superior. E outra: bacharéis ficam avessos a certas atividades excessivamente manuais, mesmo que sejam vinculadas ao seu métier.

Em 1998, o Governo do Estado, amparado na famigerada Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, Lei federal nº 9.394/96), reorganizou o sistema de ensino técnico do Estado, desvinculando o ensino médio em si, que passou a ser ministrado como no resto da rede, do ensino técnico, cujo acesso ficou vinculado a um segundo exame de admissão. A desculpa na época era que muitos faziam o ensino técnico — conhecido por sua boa qualidade — para disputar o vestibular.

A solução deu tão certo, que voltaram ao sistema anterior. Cursar o médio regular e o técnico implica em o aluno ter dupla jornada, o que não raramente atrapalha quem trabalha. Outra: a conclusão das modalidades técnicas — a maioria delas — requer um estágio curricular. Como fazê-lo com dupla jornada escolar?

* * *

Publicado na Tribuna Impressa  de Araraquara em 4/12/2012.

329. Os pinheiros de Pondal

O poeta Eduardo Pondal

Na edição de hoje da Tribuna Impressa, jornal diário de Araraquara, está a matéria que produzi sobre o poeta galego Eduardo Pondal. Aqui, um arquivo PDF da página. Espero que gostem.

Sérgio Mendes

323. Do ouro ao chumbo

Aurea mediocritas, o meio-termo de ouro, lema e meta dos poetas árcades. Meio-termo porque não peca pela falta, nem pelo excesso. Mas a palavra assumiu uma conotação negativa entre nós. O medíocre é indivíduo que além de não ter talento nenhum para destacar-se — não destacar-se não é um pecado em si —, projeta a queda dos demais, nivelando todos “por baixo” e ali procurando mantê-los.

O mal teve início quando os medíocres tomaram as academias, o parlamento; geraram leis e prerrogativas para seus iguais, burocratizaram a sociedade, imobilizando a criatividade. Mantêm sob ameaça o setor produtivo da sociedade com suas ações abstrusas. Como exemplo, o tal “desvio de função”, criação de legisladores ociosos para alimentar advogados de “porta de empresa”.

O medíocre não quer ter esforço. Por isso, mata na concepção a iniciativa alheia. O que antes era aprendizado no ambiente laboral, que dava oportunidades reais de crescimento profissional ao empregado e criava um vínculo com o empregador, passou a ser visto com desconfiança: tanto dos medíocres em geral, quanto do empregador, que, com plena razão, tem receio que aquele fato possa conduzir a um processo trabalhista — que sempre envolve uma reparação financeira; afinal, o real intuito do medíocre é alimentar-se do esforço alheio.

Há hoje faculdades, mas certas coisas somente a rotina de trabalho nos ensina. E perdemos uma parcela importante desse aprendizado por conta dos medíocres que legislam e invejam desde suas cátedras ou banquinhos.

Será que com esse tipo de pensamento canalha e mesquinho, inerente a quase todos nós, chegaremos ao dito mundo desenvolvido? Ou continuaremos a patinar na nossa mediocritas, plumbea mediocritas?

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 19/12/2012.

322. Cidades novas

[…]
 Dos mármores partidos e das colunas trágicas
[…]
Giorgios Seféris, VI, de “Mitologia”

Nunca houve mármore por aqui.
Apenas o corpo bárbaro da taipa
e seu esqueleto de ripas.
Houve — e ainda há algures —
o tristonho e roído sorriso do tijolo.
Hoje, somente a porosidade cinza
do concreto, fora do tempo.

312. Cemitério da memória

Cemitério de Bueno de Andrada (foto: Moisés Schini/Tribuna Impressa)

Um adágio popular repete que o brasileiro é um povo sem memória. De fato, a maioria das pessoas só dá importância ao agora ou, no máximo, ao imediatamente futuro. O passado jaz na poeira.

E poeira e mato não faltam no Cemitério de Bueno de Andrada. Apesar dos 362 corpos sepultados entre 1925 e 1967, apenas uma cruz assinala a pretensa sacralidade do local. Esta Tribuna dedicou uma reportagem de duas páginas ao assunto; no interessante texto de Antonio Marquez fica patente o descuido e o pouco caso das autoridades constituídas para com o patrimônio público e a memória coletiva.

Um cemitério não é apenas um local de pranto ou um sagrado — assim considerado pelo lugar central que a morte tem na nossa concepção de mundo —, mas é também um local de memória, de história. O desaparecimento físico do cemitério é um desastre para a história de Araraquara. Desaparecimento sim, porque um pasto com uma cruz não é mais um cemitério, parecendo-se mais com aquelas tristonhas cruzes de beira de estrada que recordam os mortos em acidentes.

Por sorte, existem ainda os registros. A Prefeitura, por sua vez, fala em “cemitério desativado”. E como se desativa um cemitério? Não se trata de um prédio, de uma máquina. Os corpos continuam lá; tiveram suas identificações roubadas por profanadores, mas continuam lá. Os entendidos falam em contaminação do solo. Frente ao descaso com a memória, é mero tecnicismo; um detalhe ínfimo.

O Cemitério de Bueno — que sequer fez 90 anos — é uma triste metáfora do nosso senso de conservação histórica e memória: um pasto cheio de pó e mato.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 18/9/2012.

306. Disse o Rei Miguel

Sua Majestade, o Rei Miguel da Romênia

Dar politica este o sabie cu două tăișuri. Ea garantează democrația și libertățile, dacă este practicată în respectul legii și al instituțiilor. Politica poate însă aduce prejudicii cetățeanului, dacă este aplicată în disprețul eticii, personalizând puterea și nesocotind rostul primordial al instituțiilor Statului.

Mas a política é uma faca de dois gumes. Ela garante democracia e liberdade, se praticada com respeito às leis e às instituições. A política pode também trazer prejuízos aos cidadãos, se for exercida com desrespeito à ética, personalizando o poder e desvirtuando o propósito fundamental das instituições do Estado.

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Parte de discurso proferido do Parlamento romeno em 25/10/2011, quando S.M. o Rei Miguel foi convidado pela casa legislativa para comemoração de seus 90 anos. Texto completo em romeno aqui. Vídeo do discurso com legendas em inglês aqui.

300. Um pouco de numismática – Duas moedas belgas

Apesar de colecionar moedas desde os meus 6 anos, creio que dediquei poucas postagens ao assunto neste blogue (lembro-me apenas de uma, com tom relativamente ácido). Portanto, hoje dedico algumas linhas ao interessantíssimo mundo das moedas.

Muitos não percebem o valor das moedas. Não o monetário, pois hoje, tempos de moeda fiduciária, os itens metálicos ficaram para a representação dos valores menores, mero troco.

Fig. 1 – Família de moedas britânicas (fonte: Wikipédia)

Nem sempre foi assim. O papel-moeda é uma invenção da Idade Média e somente passou a ser o centro das transações no século XIX; antes, o comércio era feito com metal no formato de discos, as moedas. Uma regra que valeu por um bom tempo foi que as moedas de valor menor eram cunhadas em cobre; as de valor mediano, em prata; e as mais valiosas, em ouro. Padrão hoje que, mesmo não sendo mais usual, ainda mantém certa influência, por exemplo, na cunhagem britânica, na qual as moedas 1 penny e 2 pence são de metal similar ao cobre; as de 5, 10, 20 e 50 pence, prateadas; e a de uma libra, dourada (fig. 1).

O Brasil também seguiu esse padrão em boa parte de sua história financeira e numismática. A última moeda de prata para circulação comum é dos anos 30. Depois disso, com a progressiva desvalorização e a passagem para moeda fiduciária, optou-se pela cunhagem em materiais mais baratos, como bronze-alumínio, alumínio, cuproníquel e aço inoxidável.

Mesmo relegadas ao fundo dos bolsos, as moedas ainda podem contar muito a respeito de determinada cultura, suas influências e tradições.

Dois exemplos sobre os quais me debrucei durante uma manhã toda pode dar amostras interessantes do que podemos “arrancar” de informação de meros pedaços de metal timbrados.

São duas moedas belgas: uma de 5 francos, de 1968, e outra de 1 franco, de 1923. São moedas de valor baixo, a primeira de níquel e a segunda de cuproníquel. O que chama a atenção nas moedas belgas é o fato de que até a introdução do euro, elas eram bilíngues. A Bélgica tem uma área de língua holandesa, ao norte, e uma de língua francesa, ao sul, Flandres e Valônia, respectivamente. Mas, com algumas exceções, as moedas não traziam as duas línguas e sim havia sempre duas moedas diferentes para cada valor. Exatamente iguais, exceto onde se lê o nome do país (Belgique ou België) e, no caso da moeda anterior, do período entreguerras, o Goed voor ou Bon pour (“Bom para”).

Fig. 2 – Um franco belga, 1925

Na moeda de 1 franco (fig. 2), em seu reverso, além do Goed voor, vê-se um bastão. A primeira análise pode levar um observador incauto — como fiz inicialmente — a deduzir que se trata do bordão de Esculápio, símbolo do deus romano da Medicina e da Cura (Asclépio, na versão grega). Porém, o bordão de Esculápio não é alado. Em algumas farmácias antigas era comum vê-lo como emblema; porém, o que temos nessa moeda é um caduceu, o bordão de Mercúrio (Hermes), patrono do Comércio. Outro uso moderno desse símbolo é como representação dos sindicatos de comerciários. Logo, sua presença em uma moeda faz menção, obviamente, à função monetária, ao comércio; a função primeva da moeda foi de facilitar o comércio, para substituir a simples troca de gêneros: a moeda como intermediária das relações comerciais. Realmente interessante.

No anverso, o nome do país, België, e uma figura feminina ajoelhada, aparentemente calçando uma bota. Igualmente não se trata de uma simples alegoria feminina para ornar. Embora não tenha achado fontes textuais, faço uma dedução que tem muita chance de estar correta: trata-se da personificação da Bélgica, uma figura feminina representando a pátria.

Fig. 3 – 50 pence (1968-1997)

A ideia de personificação de conceitos, regiões e países nos vem dos romanos. Suas moedas são pródigas em exemplos de personificação, seja de províncias (Britânia – fig. 4, Germânia, Hispânia, Judeia, das que consigo lembrar-me sem recorrer a livros), de conceitos (Justiça, Liberdade, Letícia — Alegria) ou mesmo do Estado romano (Roma, Genius Populi Romani). As personificações conceituais em numismática podem ser tanto de corpo inteiro quanto apenas o busto.

Fig. 4 – Sestércio romano do imperador Antonino Pio (138-160 d.C.) com a Britânia

Entre nós tal conceito também vicejava e ainda viceja. A representação da República presente em nossas cédulas, embora seja a adaptação feita pela Revolução Francesa, evoca essas personificações antigas. A moeda de 50 pence inglesa (fig. 3), até a remodelação de 2008, apresentava a Britânia sentada, apoiando um escudo e uma lança e com um ramo de oliveira na mão esquerda.

No caso da nossa moeda de 1 franco, parece que a Bélgica calça uma bota, tem à cintura uma espada e, do outro lado, um escudo. Pode ser mesmo uma releitura da Britânia ou uma criação propriamente belga, inspirada em velhas personificações. A única informação possível é o nome do gravador, Armand Bonnetain. Não consegui informações adicionais e, infelizmente, na fig. 2 o nome do gravador foi digitalmente apagado, mas pode ser bem percebido na fig. 2A.

Fig. 2A – Um franco belga. O nome do gravador pode ser visto logo acima do pé da Bélgica, do lado esquerdo (clique para ampliar)

Fig. 5 – Cinco francos (acervo do autor)

A moeda de 5 francos também tem detalhes interessantes. Também segue o padrão de bilinguismo, mas uma língua em cada moeda. No reverso, alguns exemplares, Belgique; em outros, België. No centro, um ramo de carvalho simétrico geometricamente estilizado; é possível ver os veios da folhas e, junto com o primeiro par de folhas, as duas características bolotas da planta. À esquerda do ramo, “5”; à direira, “FR”, de franco, compondo o valor facial. Encimando o ramo de carvalho, uma coroa real com fitas esvoaçantes. Trata-se de uma representação heráldica alegórica, uma vez que a monarquia belga não tem uma coroa física, como a inglesa.

No anverso, a representação de Ceres, considerada por romanos e gregos (sob o nome de Deméter) a entidade tutelar da Agricultura. Do lado esquerdo, a data; do direito, uma cornucópia, símbolo romano que representa a Agricultura e o Comércio; trata-se de um chifre de cabra cheio de gêneros agrícolas: trigo, frutas, legumes. Tem relação ao mito da cabra Almateia, que alimentou Júpiter (Zeus) em sua primeira infância. É um símbolo de abundância, que faz eco com a efígie de Ceres. Abaixo do busto, o nome do gravador: Rau, Marcel Rau.

Espero dar continuidade a este tipo de artigo entre as críticas políticas. É bom para desopilar o fígado.

299. A volta de Cacareco, via Romênia

Cacareco na glória de sua vereança

Procurando a fotografia de Zúñiga para ilustrar o post de número 297, acabei encontrando no site de um jornal romeno, o Ghimpele, uma postagem que disserta sobre eleições amalucadas e candidatos bizarros, além de Zúñiga, estava também o famoso caso ocorrido nas eleições municipais paulistanas de 1959, a eleição do Cacareco, rinoceronte do Zoológico de São Paulo, que foi “eleito” vereador com mais de 100 mil votos.

O romeno é uma língua românica, mas com muitas influências húngaras e eslavas; mesmo assim é possível pescar algo do texto original. Abaixo, o excerto sobre a “eleição” do Cacareco. Faltam, porém, os diacríticos.

In anul 1959, un grup de studenti din Sao Paolo, Brazilia, suparati pe sistemul politic corupt, au gasit o metoda inedita de a protesta. Profitand de faptul ca un rinocer de la Gradina Zoologica din orasCacareco (care inseamna “gunoi” sau “deseuri”), se bucura de popularitate in randul localnicilor deranjati la randul lor de sistemul politic corupt, studentii au desemnat animalul ca si candidat pentru alegerile locale. Cu toate ca oficialii din comisia electorala nu au acceptat aceasta candidatura, localnicii au pus fiecare vot in plic si l-au trimis autoritatilor. Corelat cu absenteismul foarte mare, rezultatul a constat in castigarea a 100.000 de voturi pentru Cacareco, mai mult decat oricare alt candidat. Asa cum era de asteptat, alegerile nu au fost validate.

A reportagem do jornal romeno tampouco se esqueceu do Macaco Tião, candidato a prefeito do Rio de Janeiro em 1988. A “candidatura” de Tião foi criada pela revista Casseta Popular (cujos membros deram origem à trupe do programa Casseta e Planeta Urgente) como protesto. Tião obteve 400 mil votos.

Macaco Tião este o maimuta de la gradina zoologica din Rio de Janeiro care a candidat in mod neoficial lapostul de primar al orasului in anul 1988, cand alegerile nu erau bazate pe un sistem electronic. A obtinut 400.000 de voturi si s-a clasat pe locul 3, dar asa cum era de asteptat, voturile sale nu au fost validate. Tião a murit in anul 1996, iar primarul a decretat zi de doliu in onoarea sa. In prezent, statuia lui Tiao Macaco poate fi intalnita la intrarea in gradina zoologica.

Texto completo aqui.

297. A síndrome de Zúñiga – uma doença mexicana

Nicolás Zúñiga y Miranda

Andrés Manuel López Obrador perdeu as eleições presidenciais do México novamente. Já as perdera em 2006, quando a diferença entre ele e o presidente então eleito, Felipe Calderón, não passou de 230 mil votos. López Obrador pediu recontagem de votos, convocou passeatas, acampamentos e, mesmo após as repetidas análises do Instituto Federal Eleitoral mexicano que comprovaram o resultado do pleito, seus sectários declararam-no “presidente legítimo”. O mesmo problema parece delinear-se agora, quando López Obrador perde novamente a presidência para Enrique Peña Nieto, do Partido Revolucionário Institucional — legenda de nome curioso, diga-se de passagem.

Quem pensa que essa estranha conduta de candidatos no México é novidade, engana-se. Nicolás Zúñiga y Miranda, mexicano de aristocráticas origens espanholas, além de candidato endêmico — participou das eleições presidenciais de 1892, 1896, 1904, 1910, 1917 e 1920 — sempre se dizia vítima de fraude e declarava-se presidente legítimo, não obstante o fato de nunca ter conseguido mais de mil votos. Em várias dessas ocasiões, declarou-se “presidente legítimo” do país, então dominado por Porfirio Díaz.

Esse tipo de comportamento político mexicano é resultado de quando um candidato se imbui de ser a contraposição àqueles que estão no poder. Além de Zúñiga e López Obrador, outros mexicanos foram acometidos pela curiosa síndrome: José Vasconcelos (1929), Juan Andreu Amazán (1940) e Salvador Nava, que se declarou “governador legítimo” frente à acusação de fraude nas eleições de 1991 para o Governo do Distrito Federal.

A doença parece grave e seus sintomas, intermitentes. Espero que não seja contagiosa, pois já nos bastam as febres terçãs da esquerda brasileira.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 17/7/2012.

296. Espírito de 1932

Ontem se comemorou o 80º aniversário da Revolução Constitucionalista de 1932. A data passou a ser oficialmente festejada quando, em 1997, foi declarada feriado por lei do governo Mário Covas.

A Revolução de 1932 foi por uma constituição para o Brasil. Getúlio Vargas, perdedor das eleições presidenciais de 1930, e seu partido, a Aliança Liberal, resolveram tomar o poder pela força, não obstante a retumbante derrota eleitoral para o paulista Júlio Prestes, o único presidente eleito do Brasil impedido de assumir.

Vargas triunfou militarmente e instalou-se no poder. Quando sua ridícula quartelada revelou-se apenas sede de poder e centralismo, o Estado de São Paulo, cansado de interventores federais e da progressiva perda de autonomia, resolveu por bem mover-se militarmente por uma nova era constitucional. Saímos perdedores, mas conseguimos a Constituição de 1934 que, ai!, não resistiria ao Estado Novo do Mussolini tupiniquim.

Embora certos historiadores manchados pela retórica oca da historiografia marxista insistam em tentar desmoralizar a Revolução e suas consequências, foi crucial o papel doa Revolução Constitucionalista para a história posterior do País.

Vendo a apatia geral das pessoas, a nossa passividade em determinados assuntos, as preocupações inúteis com consumo, pergunto-me o que houve com aquele povo valente que se levantou em armas para pedir uma constituição. Mesmo a nossa atual Constituição, o que vale? Para que serve além de ser peso de papel em bem iluminados escritórios de advocacia e o que garante além de fantasias? Quem sairia hoje para defender algo além do seu interesse próprio imediato?

O 80º aniversário da Revolução Constitucionalista parece ser o 80º aniversário de uma derrota moral da qual nunca mais nos recuperamos.

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Artigo publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 10/7/2012.

287. A aurora do lulomalufismo

A bênção do capo (Adriana Spaca/Brasil Photo Press/Folhapress)

Leio as colunas de Arnaldo Jabor, mas não sou exatamente aficionado por ele. Porém, aproprio-me a ideia do título de um de seus livros: pornopolítica. O radical grego porno- tem relação com pórne, prostituta na língua de Homero. Logo, basta deduzir o que pode significar pornopolítica.

A aliança entre PP e PT em São Paulo em torno da candidatura de Fernando Haddad à Prefeitura teria tudo para apenas levantar alguns ‘ohs’ de assombro em meia-dúzia de pessoas. Mas a exigência de Maluf para que o próprio Lula viesse ratificar o apoio, a associação dos nomes… é algo que causa, no mínimo, estupefação. Uma Realpolitik despudorada.

Homens com um passado todo de ofensas e sarilhos, agora se abraçam num repulsivo gesto de união política. É nesses momentos cruciais que se percebe que não há projeto de governo, ética, princípios partidários. Nada. O único projeto que existe é o projeto de poder por parte de todos e, principalmente, pela permanência indefinida do PT no poder. Será a aurora sebenta do lulomalufismo? Pode não parecer, mas as duas vertentes têm muito em comum; o que as separa são aparências.

Apesar de tudo, creio que tal ‘união maléfica’ traga ojeriza tanto a parte da militância petista quanto aos ditos malufistas históricos. O restante chafurda na alegria suja, joga fora um passado em nome das conveniências do momento.

Até mesmo a filiação de Delfim Netto ao PMDB, em 2005, fica embaçada quando comparada a essa aliança; se alguém a previsse há 20 anos, poderia ouvir que, no mesmo instante que Lula e Maluf estreitassem as mãos, um buraco negro tragaria todo o Universo. Parece que as coisas mudam; e não necessariamente para melhor.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 19/6/2012.

285. Argentina de novo

Cristina Kirchner com cara de quem sujou as calçolas

Em abril, escrevi neste espaço um artigo sobre a questão das Malvinas. Procurei mostrar como governos que vão perdendo a popularidade submetem-se a práticas de populismo desenfreado. Cristina Fernández de Kirchner, presidente da Nação Argentina, evoca os brios nacionalistas para angariar suporte popular. No Brasil, o nacionalismo é algo fora de moda. Basta um bolsa-alguma-coisa que a situação já está resolvida.

E quando se pensa que nada mais possa vir da margem sul do Rio da Prata, brotam surpresas. A mais recente foi a nacionalização da petroleira YPF, que era controlada pelo grupo espanhol Repsol.

O pior é que todos nós já vimos o filme ruim. Protagonistas diferentes, mas o mesmo populismo estúpido. O ano é 2007; o país, a Bolívia. Evo Morales nacionalizou duas refinarias construídas e mantidas pela Petrobras pela sua polêmica Lei de Hidrocarbonetos. Resultado: apesar da semelhança ideológica entre os governos, o empresariado brasileiro riscou a Bolívia do mapa e o próprio Governo brasileiro esfriou suas relações com o país andino.

A Argentina faz o mesmo erro. Nacionalizando a YPF, que era estatal até os anos 90, ganhou antipatia automática da Espanha — que, querendo ou não, tem razão — e sanções da União Europeia. A excessiva ingerência do Estado na economia só trará prejuízos. Haverá fuga de capitais, principalmente do setor produtivo.

Agora, uma guerra fictícia, de bravatas, com direito a discursos no plenário da ONU. Logo se nota que são soluções desesperadas de uma presidente desequilibrada, escorada na sombra do marido morto, e gerindo um Estado operado por mafiosos a seu mando. Eis o que se tornou a Argentina.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 16/6/2012.

281. A república do assombro

Este é o meu 30º texto de opinião publicado na Tribuna Impressa de Araraquara. Enjoy it.

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Vai precisar rezar muito mesmo

Se Lula sente-se no direito de cobrar um magistrado da mais alta corte do País — e isso veio à tona —, imagine o que não acontecia quando ele era presidente da República. Esse tipo de manobra só mostra a faceta mais óbvia da podridão que lastreia a coisa pública brasileira. Nossa república — coitada — de bem comum a cosa nostra.

Nem a doença do ex-presidente tira-lhe a empáfia, a aura de ungido. O mais curioso é que esse tipo de personalidade, o caudilho, é algo muito hispano-americano. Talvez o aparecimento de Lula seja indício que estamos nos integrando à América Latina, para bem e para mal.

Há alguns dias, Barack Obama fez uma insinuação sobre o possível veto da Suprema Corte americana a uma lei aprovada pelo Congresso e bastou para desencadear uma minicrise. Porque, na sociedade americana, a intenção corresponde à materialidade de uma ação.

Muitos de nós — e vejo isso com assombro — veem como natural que “o Cara” tenha esse tipo de influência. Que a barafunda é mera invenção da Veja, do PSDB, de FHC ou do monstro fictício mais à mão. Estamos acostumados ao absurdo; não nos causa mais repulsa. A insensatez é a nossa rotina política e social.

É encostado à parede e já sem fôlego que constatamos uma deterioração sem par da situação política. Uma argentinização — leia-se a Argentina sob o kirchnerismo — do Brasil. E quanto mais tempo PT et caterva ficarem no poder, mais profunda será a vigilância, a censura, o controle da vida dos cidadãos por um Estado mastodôntico e onipresente.

Tomemos consciência; ou afundemos no lodaçal das pequenezas, ignorando o que há ao redor. É o que eles desejam.

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Publicado em 5/6/2012.