369. Rogério Skylab

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Rogério Skylab, antes de ser um talentoso artista performático, é um intelectual de primeira grandeza por dois motivos: um, não o alardeia e, dois, não almeja tal posição.

Por detrás de canções com letras contundentes, expõe alguns comportamentos corriqueiros, mas negados com toda força pela sociedade brasileira, em sua grande parte falsa moralista. Falso moralismo porque as pessoas assustam-se com palavras das canções e não conseguem ir além da superfície: uma palavra “obscena” ou “rude” trava-lhes o entendimento e faz nascer a reprovação; às vezes o involuntário humor provocado causa o mesmo tipo de escurecimento da percepção.

Um grande exemplo é a música “Derrame”, do disco “Skylab I” (1999). Usando como mote o acidente vascular, Skylab desconstrói a vida de um homem considerado normal, expondo a transitoriedade de vaidades e até mesmo o isolamento social decorrente das sequelas.

Talvez Skylab não concorde com essa abordagem, ou até mesmo a ache pretensiosa, mas é o que se pode ver além do pasmo inicial ou da recusa do ouvinte em aprofundar-se na letra da canção.

Os eventuais detratores e o senso comum, famintos de eufemismos e de mentiras piedosas, não absorvem a verdade cruel e lírica presente nas letras de Skylab.

352. Secreções cotidianas

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“Secreções, excreções e desatinos” é um livro de contos de Rubem Fonseca. O nome, por si, já é bastante sugestivo.

Entre vários textos, uma vida além da banalidade cotidiana; um aprofundamento sem igual da rotina até o insofismável, que reflete bem que um rosto na rua é apenas a camada de nata que esconde o leite. Um homem que passa a dedicar-se à copromancia; um assassino que se comporta como um trivial sedutor barato, pústulas curadas com saliva, suicídios frustrados. Coisas que pululam na vida dos nossos vizinhos, das pessoas com quem cruzamos pela rua, e que jamais saberemos.

Rubem Fonseca nos dá um retrato pitoresco e magnífico de pequenas glórias e infâmias. Em suma, um livro humano, muito humano.

“Secreções, excreções e desatinos” – Rubem Fonseca – 141 págs. – Companhia das Letras

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Publicado no Menu Cultural da Tribuna Impressa de Araraquara em 21/1/2013.

346. Juízos literários

Um questionamento que leitores contumazes se fazem — ou se ainda não o fizeram, é mera questão de tempo — é sobre uma definição de literatura. O que é a literatura exatamente. Tal problema pode ser falsamente resolvido de uma forma marota como a famosa definição de que palavra são letras agrupadas entre dois espaços tipográficos, ou seja, literatura “é tudo o que está fixado por meio de letras, como cita Anatol Rosenfeld em seu texto “Literatura e personagem” (lembremo-nos que literatura tem sua raiz em littera, -ae­, efetivamente ‘letra’, ‘sentido claramente expresso pela escrita’).

Rosenfeld faz ainda uma breve explanação sobre caráter ficcional do texto e critérios de valorização estética para que algo seja literário, mas que não vêm obrigatoriamente juntos. Ele cita como exemplo os “Sermões” do Padre Vieira: têm estética, mas são não fictícios. Não raramente, Vieira vale-se de alguma alegoria bíblica para expor um raciocínio sobre alguma situação então corrente. Fora a qualidade estética que têm os “Sermões”.

Fora as definições técnicas e vendo a aparentemente longa má fase da literatura brasileira — qual nosso último grande poeta? Drummond? , nota-se que qualquer definição presente é somente presunçosa. O grande juiz da Literatura é o tempo: nomes que eram considerados ímpares por seus coetâneos caíram no mais sombrio esquecimento — Prosper Merimée, alguém sabe quem é? — enquanto outros, às vezes ignorados em vida, vão fazer parte do cânone. Quem garante que os que hoje estão aí representando — espuriamente — a pretensa Literatura brasileira sobreviverão ao juízo do tempo? O bom será perene.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 6/1/2013.

334. Alfredo Ellis Júnior, historiador

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Ponho aqui à disposição um pequeno texto sobre o historiador paulista Alfredo Ellis Júnior, produzido para a Tribuna Impressa de Araraquara, edição de 27/11/2012.

Ellis Jr. deixou-nos um grande volume de obras literárias e estudos historiográficos que hoje, por motivos ideológicos que dominam a vida acadêmica brasileira, jazem no esquecimento. Mas, aos grandes vultos, resta ainda a esperança que as gerações vindouras os resgatem e os restituam ao lugar de onde jamais deveriam ter saído.

Boa leitura.

327. Análise de um poema de Nego Antão

Boleta de pong-ping.

Eis um haikai revolucionário do mestre da poesia pós-moderna, Nego Antão, morador de rincões em que reina o cinza das telhas de fibrocimento. Como pode existir tanta concisão poética em um dístico — uma forma ocidental clássica —, mas que nos remete à simplicidade do haikai. Seu autor inclusive prefere que a chamemos de haikai. “Crio elas como se criam galinhas num galinheiro: têm penas e boa carne”, explica Antão.

O poema, que não tem título — outra tirada magistral —, narra um jogo de pingue-pongue. Para um leitor desatento, pode ser uma estranha partida de pingue-pongue. Um estrangeiro jogando pingue-pongue na luxuriante atmosfera tropical do nosso país-potência. Mas há mais mistério entre as folhas das bananeiras do que supõe nossa vã filosofia.

Repitamos os versos em voz alta. Sintamos a força e a reverberação de suas aliterações sutis. “Boleta de / pong-ping”. Advirto-os, leitores: há mais.

“Boleta”, um diminutivo pouco usual de bola. Por que não “bolinha”? Na verdade, “boleta” aponta para o “boleto” de pagamento, uma relação consumista e que tem toda liames com o glorioso e radiante momento econômico vivido pelo país. Todos podem comprar. Todos têm seus boletos para pagar, mas Antão não somente celebra as benesses da era Lula, ele põe um elemento feminino, da liberação da mulher do jugo machista, trocando o gênero da palavra: “boleta”. Não apenas os machistas compram, mas também as mulheres, os gays, os transgêneros e os simpatizantes. Antão dá um banho de lirismo em toda a elite branca, cristã, machista e homofóbica com apenas uma palavra. Pergunto-me por que ainda não o indicaram apara o Nobel.

Depois desse glorioso primeiro verso, vejamos o último: “pong-ping”. A inversão do nome do jogo mostra a inversão que a classe trabalhadora, com suas “boletas”, fez na mais-valia, ainda refletindo o primeiro verso. Não apenas mais a elite branca dos olhos azuis compra… os ensebadinhos do subúrbio — o conceito da sebência orgulhosa, tão exaltada por Antão, e também por alguns gêneros musicais como o rap e o funk — também compram, invertendo a situação de domínio. E ainda digo mais: querem estar presentes à globalização, por isso a preferência por não aportuguesar os vocabulários. Mas a inversão dos termos originais também significa a insubmissão à cultura enlatada, manipuladora e planificadora dos Estados Unidos: é a faca apontada para o Tio Sam.

Essa é apenas uma amostra do livro de poemas de Nego Antão. A obra completa consta de cinco pérolas e foi impressa em um conceito ultramoderno de editoração: em uma folha corrida apenas, para que fosse acessível às populações oprimidas.

294. “Meu nome é Vermelho”, Orhan Pamuk

Capa da 2ª edição

No fim da Europa

Uma história de “detetive” em pleno período dourado na Istambul capital do Império Otomano. Eis o mote de “Meu nome é Vermelho” do laureado escritor turco Orhan Pamuk. O sultão reinante manda seu ateliê de pintura executar um livro ilustrado ao estilo ocidental para impressionar o doge de Veneza; porém, o estilo figurativo ocidental é considerado anticorânico e logo o principal artista é morto. A narrativa vai da faceta policial uma história de amor proibido e reflexões sobre Ocidente e Oriente. Um misterioso homem, chamado Negro, volta a Istambul depois de 12 anos e tem apenas três dias para resolver o mistério da morte do artista.

Escrito num estilo de múltiplas vozes protagonistas, o livro lido com atenção ainda pode prover uma rica fonte sobre a vida e a história do Império Otomano daquele período. Talvez o único senão da excelente edição obra de Pamuk — para nós, claro — seja que sua tradução tenha sido feita a partir das edições em francês e em inglês, como costumava ocorrer com os clássicos russos.

“Meu nome é Vermelho” – Orhan Pamuk – Companhia das Letras – 534 págs. Entre R$ 40 e R$ 70

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 2/7/2012.

286. “O Dicionário Kazar”, Milorad Pavitch

A fumacinha enciclopédica do cachimbo literário de Milorad Pavitch

Lendo dicionário

Tendo como tema principal a conversão dos cazares ao judaísmo, “O Dicionário Kazar – Romance-enciclopédia em 100.000 palavras” é um romance, como o próprio nome indica, em verbetes. A obra do sérvio Milorad Pavitch apresenta-se como uma obra do século 17 que narra a conversão dos cazares — um povo não-eslavo das estepes entre os mares Cáspio e Negro — com um léxico e com apêndices organizados sob três ópticas diferentes: o Livro Amarelo (pelo judaísmo), o Livro Verde (pelo islamismo) e o Livro Vermelho (pelo cristianismo).

“O Dicionário Kazar”, segundo sua própria introdução, pode ser lido em qualquer sequência, ficando a critério do leitor qual caminho seguir. Chama a atenção ainda o fato de existirem duas edições, uma dita “masculina” e outra “feminina”. A diferença é apenas um parágrafo em certo ponto do livro; mas a alteração de sentido provocada pode ser crucial.

O “Dicionário…” É o primeiro romance de Pavitch e foi publicado originalmente em 1984.

O Dicionário Kazar – Milorad Pavitch – Marco Zero – 300 págs. – Preço variável

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Sugestão publicada na Tribuna Impressa de Araraquara em 18/6/2012.

283. Visita a Lênin

Trata-se de um capítulo de “Gog”, de Giovanni Papini. Está em castelhano, mas não é difícil de acompanhar.

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Lênin em estado avançado de dodói

VISITA A LENIN

Moscú, 3 julio

He estado porfiando casi un mes, pero al fin lo he conseguido. Había venido a Rusia únicamente para conocer a este hombre y no quería marcharme sin haberle oído hablar. Me parece, en su género, uno de los tres o cuatro vivientes que vale la pena de escuchar. Llegar hasta él me ha costado casi veinte dólares —regalos a las mujeres de los comisarios, propinas a los soldados rojos, donativos a los asilos de huérfanos—, pero no lo lamento.

 Decían que Vladimiro Ilitch estaba enfermo, cansado, y que no podía recibir a nadie, a excepción de sus íntimos. No permanece ya en Moscú, sino en una aldea vecina, en una antigua villa de señores, con el acostumbrado peristilo de columnas blancas a la entrada. El viernes por la noche las últimas dificultades habían sido vencidas y el teléfono me advirtió que el domingo se me esperaba. Dijeron a Lenin que mi capital podría  ayudar a los difíciles comienzos de la «Nep» y había consentido en verme.

Fui recibido por la esposa, una mujer gorda y taciturna, que me miró como las enfermeras miran a un nuevo enfermo que entra en la sala. Encontré a Lenin en un pequeño balcón, sentado ante una gran mesa cubierta de grandes hojas de dibujos. Me produjo la impresión de un condenado al cual se le permite gandulear en paz en las últimas horas de su vida. La característica cabeza de tipo mongólico parecía hecha de queso viejo y seco; árida y, sin embargo, blanda. Entre los labios sucios, la calavera mostraba ya la fila siniestra de sus dientes. El cráneo, vasto y desnudo, hacía el efecto de una caja barbárica construida con el hueso frontal de algún monstruo fósil. Dos ojos turbios e inquisitivos de pájaro solitario estaban agazapados dentro de los párpados sanguinolentos.

Las manos jugueteaban con un lápiz de plata: se veía que habían sido grandes y fuertes manos de labrador, pero con su descarnadura anunciaban la muerte. No podré olvidar nunca sus orejas de marfil chupado, tendidas hacia fuera como para coger los últimos sonidos del mundo, antes del gran silencio.

Los primeros minutos del coloquio fueron  más bien penosos. Lenin se esforzaba en estudiarme, pero con aire distraído, como si cumpliese un deber que ahora ya no le importaba. Y yo, ante aquella máscara azafranada y cansada, no tenía valor para hacer las preguntas que me había propuesto. Murmuré al azar un cumplido sobre la gran obra realizada por él en Rusia. Y entonces aquella cara medio muerta se llenó de arrugas espectrales que querían ser una sonrisa sarcástica.

—Pero si todo estaba hecho —exclamó Lenin con un brío inesperado y casi cruel—; todo estaba hecho antes de que llegásemos nosotros. Los extranjeros y los imbéciles suponen que aquí se ha creado algo nuevo. Error de burgueses ciegos. Los bolcheviques no han hecho más que adoptar, desarrollándolo, el régimen instaurado por los zares y que es el único adaptado al pueblo ruso. No se pueden gobernar cien millones de brutos sin el bastón, los espías, la policía secreta, el terror, las horcas, los tribunales militares, las galerías y la tortura. Nosotros hemos cambiado únicamente la clase que fundaba su hegemonía sobre este sistema. Eran sesenta mil nobles y tal vez unos cuarenta mil grandes burócratas; en total, cien mil personas. Hoy se cuenta cerca de dos millones de proletarios y de comunistas. Es  un progreso, un gran progreso, porque los privilegios son veinte veces más numerosos, pero el noventa y ocho por ciento de la población no ha ganado mucho en el cambio. Esté seguro de que no ha ganado nada, y es al mismo tiempo lo que se quiere, lo que se desea, aunque por otra parte era absolutamente inevitable.

Y Lenin comenzó a reír en sordina como un  comerciante que ha engatusado a alguien y contempla alegremente las espaldas del burlado que se va.

— Entonces —murmuré —, ¿y Marx, y el progreso, y lo demás?

— A usted, que es un hombre potente y extranjero — añadió —, se lo podemos decir todo.

Nadie lo creerá. Pero recuerde que Marx mismo nos ha enseñado el valor puramente instrumental y ficticio de las teorías. Dado el estado de Rusia y de Europa me he tenido que servir de la ideología comunista para conseguir mi verdadero fin. En otros países y en otros tiempos hubiera elegido otra.

Marx no era más que un burgués hebreo aferrado a las estadísticas inglesas y admirador secreto del industrialismo. Le faltaba el sentido de la barbarie, y por esta razón era apenas una tercera parte del hombre. Un cerebro saturado de cerveza y de hegelianismo, en el que el amigo Engels esbozaba alguna idea genial. La Revolución rusa es una completa negación de las profecías de Marx. Donde no había casi burguesía, allí ha vencido el comunismo.

»Los hombres, señor Gog, son salvajes espantosos que deben ser dominados por un salvaje sin escrúpulos, como yo. El resto es charlatanería, literatura, filosofía y músicas para uso de los tontos. Y como los salvajes son semejantes a los delincuentes, el principal ideal de todo Gobierno debe ser el de que el país se asemeje lo más posible a un establecimiento penal. La vieja mazmorra zarista es la última palabra de la sabiduría política. Bien meditado, la vida del presidiario es la más adaptada al promedio vulgar de los hombres. No siendo libres, están, al fin, exentos de los peligros y de las molestias de la responsabilidad y se hallan en condiciones de no poder realizar el mal.

Apenas un hombre entra en la prisión, debe, por la fuerza, llevar la vida de un inocente. Además, no tiene pensamientos ni preocupaciones, pues ya están aquí los que piensan y mandan por él; trabaja con el cuerpo, pero su espíritu descansa. Y sabe que todos los días tendrá qué comer y podrá dormir, aunque no trabaje, aunque esté enfermo, y todo esto, sin las preocupaciones que incumben al libre para procurarse su pan cada mañana y un lecho cada noche. Mi sueño es transformar a Rusia en un inmenso establecimiento penal, y no se imagine que lo diga por egoísmo, pues con un tal sistema, los más esclavos y sacrificados son los jefes y los que los secundan.

Lenin calló un momento y se puso a contemplar un diseño que tenía ante sí. Representaba, según me pareció, un palacio alto como una torre, agujereado por innumerables ventanas redondas.

Me atreví a formular una de mis preguntas:

— ¿Y los campesinos?

— Odio a los campesinos — respondió Vladimiro Ilitch con un gesto de asco—, odio al mujik idealizado por aquel reblandecido occidental llamado Turguenev y por aquel hipócrita fauno convertido que se llama Tolstoí. Los campesinos representan todo lo que detesto: el pasado, la fe, la herejía y la manía religiosa, el trabajo manual. Los tolero y los acaricio, pero los odio. Quisiera verlos desaparecer todos, hasta el último. Un electricista vale, para mí, por cien campesinos.

»Se llegará, según espero, a vivir con los alimentos producidos en pocos minutos por las máquinas en nuestras fábricas químicas, y podremos al fin hacer la matanza de todos los labriegos inútiles. La vida en la naturaleza es una vergüenza prehistórica.

»Tenga usted en cuenta que el bolcheviquismo representa una triple guerra: la de los bárbaros científicos contra los intelectuales podridos, del Oriente contra el Occidente y de la ciudad contra el campo. Y en esta guerra no dudaremos en la elección de las armas. El individuo es algo que debe ser suprimido. Es una invención de aquellos gandules griegos o de aquellos fantásticos germanos. Quien resista será extirpado como una pústula maligna. La sangre es el mejor abono ofrecido a la Naturaleza.

»No crea que yo sea cruel. Todos estos fusilamientos y todas estas horcas que se levantan por mi orden me disgustan. Odio a las víctimas, sobre todo porque me obligan a matarlas. Pero no puedo hacer otra cosa. Me vanaglorio de ser el director de una penitenciaría modelo, de un presidio pacífico y bien organizado. Pero  aquí se hallan, como en todas  las prisiones, los rebeldes, los inquietos, aquellos que tienen la estúpida nostalgia de las viejas  ideologías y de las mitologías homicidas. Todos ésos son suprimidos. No puedo permitir que  algunos millares de enfermos comprometan la felicidad futura de millones de hombres. Además, al fin y al cabo, las antiguas sangrías no eran una mala cura para los cuerpos. Hay una cierta voluptuosidad en sentirse amo de la vida y de la muerte. Desde que el viejo Dios fue muerto —no sé si en Francia o en Alemania—, ciertas satisfacciones han sido acaparadas por el  hombre. Yo soy, si quiere, un semidiós local, acampado entre Asia y Europa, y, por tanto, me puedo permitir algún pequeño capricho. Son gustos de los que, después de la decadencia de los paganos, se había perdido el secreto. Los sacrificios humanos tenían algo bueno: eran un símbolo profundo, una alta enseñanza; una fiesta saludable. Y yo, en vez de los himnos de los fieles, siento llegar hasta mí los alaridos de los prisioneros y de los moribundos, y le aseguro que no cambiaría con la novena sinfonía de Beethoven esa sinfonía, canto anunciador de la beatitud próxima.

Y me pareció que el rostro descompuesto y cadavérico de Lenin se inclinaba hacia delante para escuchar una música silenciosa y solemne,  que tan sólo él podía oír. Apareció la señora Krupskaia para decirme que su marido estaba cansado y que tenía necesidad de un poco de reposo.

Me marché en seguida.

He gastado casi veinte dólares para ver a este hombre, pero en verdad no me hace el efecto de que los haya malgastado.

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Fonte: www.ultimoreducto.com/libros/Gog.pdf

280. Longa noite

Antes de qualquer julgamento, leia o texto até o fim.

Longa noite

Todos parecem sentir que a casa está na mais perfeita ordem, e alguns até são loucos o bastante para acreditar que o grande sinal de saúde cultural do país são eles próprios.

Se há uma coisa que, quanto mais você perde, menos sente falta dela, é a inteligência. Uso a palavra não no sentido vulgar de habilidadezinhas mensuráveis, mas no de percepção da realidade. Quanto menos você percebe, menos percebe que não percebe. Quase que invariavelmente, a perda vem por isso acompanhada de um sentimento de plenitude, de segurança, quase de infalibilidade. É claro: quanto mais burro você fica, menos atina com as contradições e dificuldades, e tudo lhe parece explicável em meia dúzia de palavras. Se as palavras vêm com a chancela da intelligentzia falante, então, meu filho, nada mais no mundo pode se opor à força avassaladora dos chavões que, num estalar de dedos, respondem a todas as perguntas, dirimem todas as dúvidas e instalam, com soberana tranqüilidade, o império do consenso final. Refiro-me especialmente a expressões como “desigualdade social”, “diversidade”, “fundamentalismo”, “direitos”, “extremismo”, “intolerância”, “tortura”, “medieval”, “racismo”, “ditadura”, “crença religiosa” e similares. O leitor pode, se quiser, completar o repertório mediante breve consulta às seções de opinião da chamada “grande imprensa”. Na mais ousada das hipóteses, não passam de uns vinte ou trinta vocábulos. Existe algo, entre os céus e a terra, que esses termos não exprimam com perfeição, não expliquem nos seus mais mínimos detalhes, não transmutem em conclusões inabaláveis que só um louco ousaria contestar? Em torno deles gira a mente brasileira hoje em dia, incapaz de conceber o que quer que esteja para além do que esse exíguo vocabulário pode abranger.

Que essas certezas sejam ostentadas por pessoas que ao mesmo tempo fazem profissão-de-fé relativista e até mesmo neguem peremptoriamente a existência de verdades objetivas, eis uma prova suplementar daquilo que eu vinha dizendo: quanto menos você entende, menos entende que não entende. Ao inverso da economia, onde vigora o princípio da escassez, na esfera da inteligência rege o princípio da abundância: quanto mais falta, mais dá a impressão de que sobra. A estupidez completa, se tão sublime ideal se pudesse atingir, corresponderia assim à plena auto-satisfação universal.

O mais eloqüente indício é o fato de que, num país onde há trinta anos não se publica um romance, uma novela, uma peça de teatro que valha a pena ler, ninguém dê pela falta de uma coisa outrora tão abundante, tão rica nestas plagas, que era a – como se chamava mesmo? – “literatura”. Digo que essa entidade sumiu porque – creiam – não cesso de procurá-la. Vasculho catálogos de editoras, reviro a internet em busca desites literários, leio dezenas de obras de ficção e poesias que seus autores têm o sadismo de me enviar, e no fim das contas encontrei o quê? Nada. Tudo é monstruosamente bobo, vazio, presunçoso e escrito em língua de orangotangos. No máximo aponta aqui e ali algum talento anêmico, que para vingar precisaria ainda de muita leitura, experiência da vida e uns bons tabefes.

Mas, assim como não vejo nenhuma obra de literatura imaginativa que mereça atenção, muito menos deparo, nas resenhas de jornais e nas revistas “de cultura” que não cessam de aparecer, com alguém que se dê conta do descalabro, do supremo escândalo intelectual que é um país de quase duzentos milhões de habitantes, com uma universidade em cada esquina, sem nenhuma literatura superior. Ninguém se mostra assustado, ninguém reclama, ninguém diz um “ai”. Todos parecem sentir que a casa está na mais perfeita ordem, e alguns até são loucos o bastante para acreditar que o grande sinal de saúde cultural do país são eles próprios. Pois não houve até um ministro da Cultura que assegurou estar a nossa produção cultural atravessando um dos seus momentos mais brilhantes, mais criativos? Media, decerto, pelo número de shows de funk.

Estão vendo como, no reino da inteligência, a escassez é abundância?

Mas o pior não é a penúria quantitativa.

Da Independência até os anos 70 do século XX, a história social e psicológica do Brasil aparecia, translúcida, na literatura nacional. Lendo os livros de Machado de Assis, Raul Pompéia, Lima Barreto, Antônio de Alcântara Machado, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado, Marques Rebelo, José Geraldo Vieira, Ciro dos Anjos, Octávio de Faria, Anníbal M. Machado e tantos outros, obtínhamos a imagem vívida da experiência de ser brasileiro, refletida com toda a variedade das suas manifestações regionais e epocais e com toda a complexidade das relações entre alma e História, indivíduo e sociedade.

A partir da década de 80, a literatura brasileira desaparece. A complexa e rica imagem da vida nacional que se via nas obras dos melhores escritores é então substituída por um sistema de estereótipos, vulgares e mecânicos até o desespero, infinitamente repetidos pela TV, pelo jornalismo, pelos livros didáticos e pelos discursos dos políticos.

No mesmo período, o Brasil sofreu mudanças histórico-culturais avassaladoras, que, sem o testemunho da literatura, não podem se integrar no imaginário coletivo nem muito menos tornar-se objeto de reflexão. Foram trinta anos de metamorfoses vividas em estado de sono hipnótico, talvez irrecuperáveis para sempre.

O tom de certeza definitiva com que qualquer bobagem politicamente correta se apresenta hoje como o nec plus ultrada inteligência humana jamais teria se tornado possível sem esse longo período de entorpecimento e de trevas, essa longa noite da inteligência, ao fim da qual estava perdida a simples capacidade de discernir entre o normal e o aberrante, o sensato e o absurdo, a obviedade gritante e o ilogismo impenetrável.

Olavo de Carvalho

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Publicado no Diário do Comércio.

279. “Dom Camilo e seu pequeno mundo”, Giovannino Guareschi

O autor e seu bigode

Foice, martelo e cruz

Em uma cidadezinha da Planície do Pó, na convulsão social e econômica da Itália do pós-guerra. Eis o cenário de “Dom Camilo e seu pequeno mundo”.

Giovannino Guareschi (1908-1968) faz uma alegoria das contendas políticas daquele triste período italiano, opondo o pároco da cidadezinha — Dom Camilo — e o administrador comunista Giuseppe Bottazzi, mais conhecido como Peppone.

Embora haja uma eterna rixa entre os dois, na verdade, são o que costuma chamar de inimigos cordiais. Gente que, apesar de duas posições ideológicas — a Democracia Cristã versus o Partido Comunista Italiano —, têm em mente o bem comum da cidade, embora não deixem de marcar suas posições de modo bem irreverente.

Dividido em pequenos contos, “Dom Camilo…” é o primeiro livro da série baseada nessa alegoria, que soma seis volumes, publicados entre 1948 e 1996, sendo que os quatro últimos são póstumos. Uma literatura que, como diria o próprio Guareschi no seu “Zibaldino”, “é bela e instrutiva”.

Dom Camilo e seu pequeno mundo – Difel/Bertrand do Brasil – preço variável

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Publicado com alguns cortes na Tribuna Impressa de Araraquara em 3/6/2012.

275. “Bestiário”, Julio Cortázar

Monsieur Cortázar

Animais invisíveis

Bestiário é o nome que dado a obras medievais que reúnem narrativas sobre animais fabulosos ou reais ou que contenham iconografia animalista. O “Bestiário” de Julio Cortázar tem poucos animais; principalmente no conto-título e em “Cefaleia”, no qual aparece a mancúspia, mamífero imaginário.

As ‘bestas’ de Cortázar são sentimentos humanos, sempre majorados, à beira do absurdo e do nauseante. Trata-se do primeiro livro de contos do autor, publicado em 1951 e, segundo o próprio Cortázar, vários dos contos foram escritos como autoterapias psicanalíticas: “Escrevi esses contos sentindo sintomas neuróticos que me molestavam”.

Considerado um dos grandes escritores argentinos — além de Jorge Luis Borges e Ernesto Sabato —, Cortázar marcará nessa recolha o embrião de um estilo que o seguirá pelas obras posteriores, principalmente pela tentativa de vivissecção dos volteios da alma e da mente humana, causando estranhamento pela sua aparente frieza.

“Bestiário”, Júlio Cortázar – várias edições, preço variável

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 27/5/2012.

272. “Contos Gauchescos”, Simões Lopes Neto

O autor (fonte: Wikipédia)

Mais ao Sul

Quando se fala em literatura regionalista, o primeiro nome que surge é Guimarães Rosa, cuja fama monopolizou o ideário e o ‘modelo’ dessa vertente. Porém, em latitudes mais altas há também nomes tão grandes quanto, mas pouco divulgados.

João Simões Lopes Neto (1865-1916) é autor de “Contos Gauchescos”, um dos quatro livros que publicou em vida. Como o nome indica, trata-se de uma recolha narrada por um personagem, Blau Nunes, “vaqueano”, ou seja, condutor de gado que conhece muito bem rincões, trilhos e querências dum Rio Grande que foge à turística ideia que temos por conta da Serra Gaúcha. Em 19 contos, há tanto o folclórico quanto o descritivo, que pode servir para “montar” o imaginário gaúcho do final do século 19 e ainda presente em áreas mais antigas, já formadas quando do incentivo à imigração alemã e italiana — predominante na Serra.

A edição de 2008 da gaúcha Artes e Ofícios traz ainda um resumo comentado de cada conto, apresentação, notas e cronologia da vida do autor por Paulo Bentancur. Textos auxiliares de suma importância para o leitor não-gaúcho.

Contos Gauchescos – João Simões Lopes Neto – Artes e Ofícios – 197 págs. R$ 26

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 20/5/2012.

270. “O falecido Mattia Pascal”, Luigi Pirandello

“Assim é, se lhes parece.”

Inaudita liberdade

Talvez na sua cabeça, leitor, já tenha passado o pensamento de largar tudo e sumir. Quem sabe até mesmo ser dado como morto e poder evaporar em paz. É exatamente sobre esse pensamento que o italiano Luigi Pirandello constrói seu fabuloso romance “O falecido Mattia Pascal”.

Pascal, um pobretão que se casa com a filha de uma viúva interesseira, é acossado por dívidas e ainda por cima morrem-lhe a mãe e a filha de colo. Açoitado constantemente pela língua ferina da sogra, foge de casa. Quando, depois de uma maré de sorte, está voltando ao lar, descobre que foi dado como morto e sente-se livre; estranhamente livre.

“Il fu Mattia Pascal” (convenhamos, o ‘fu’ para ‘defunto’ em italiano é muito mais expressivo) é a obra-prima de Pirandello, embora sua produção inclua a igualmente fantástica peça “Seis personagens à procura de autor”. Agraciado com o Nobel de Literatura de 1934, o autor é considerado um dos grandes escritores não apenas da literatura italiana, mas também da universal.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, 13/5/2012.

268. “Malditos paulistas”, Marcos Rey

Jornal, feliz ou infelizmente, é uma caixa de Pandora. A crítica de livro do último domingo teve de ser reduzida por conta de um anúncio de quase meia página; abaixo, a versão integral.

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Capa da 4ª edição, 1991

Cheiro de casa

Basta uma visita à livraria ou um golpe d’olhos nas estantes de casa. Às vezes o romance contemporâneo causa certo engulho por conta de praticamente todas as obras serem estrangeiras, de língua inglesa majoritariamente. Os nomes ingleses de pessoas e lugares boiam na sopa narrativa cuja sintaxe tem o retrogosto da tradução apressada, do português artificial — arredondado e antialérgico —, castelinhos que decoram fundo de aquário.

Mas o gênero tem também suas pérolas no mare nostrum e um de seus grandes expoentes é Marcos Rey.  Na larga obra do escritor paulistano, destacamos “Malditos Paulistas”, romance misto entre o veio policial e o picaresco. Algo no título também sabe a Curzio Malaparte (“Malditos toscanos”).

A narrativa está Centrada na trajetória singular de Raul, carioca que se torna motorista de um suspeito empresário italiano que mora no Morumbi — notadamente um arrivé — e acaba também por tornar-se cúmplice e testemunha de várias situações, no mínimo, curiosas. O espaço da narrativa tem aquele cheiro de casa: entre a Capital e o Guarujá. Nomes mais convenientes e ambientes que podem fazer parte do arcabouço do leitor araraquarense.

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Publicado na Tribuna Impressa  de Araraquara em 6/5/2012.

266. “A misteriosa chama da Rainha Loana”, Umberto Eco

Eco sorrindo

Pelos labirintos da memória

Após um acidente, um livreiro encontra-se desmemoriado. Mas não se trata de uma amnésia comum; ele se lembra apenas do que leu. Todas as suas memórias são trechos de livros, de poemas, e cada trecho evoca alguma familiaridade; algo que o desmemoriado sente, mas não apreende por inteiro, como aquela sensação de quando tentamos nos lembrar de uma palavra e ela vai esconder-se nas profundezas do cérebro, deixando apenas uma impressão fugaz.

A reconstrução da memória pelas referências textuais e icônicas dos anos 30, 40 e 50 é o mote do romance “A misteriosa chama da Rainha Loana”, do escritor e semioticista italiano Umberto Eco. Mais conhecido pelo seu “O nome da rosa”, o autor surpreende pelo romance “ligeiramente autobiográfico” e com a reconstrução da memória de seu personagem faz um apanhado da história da Itália dos anos 1930 até 1990, tempo presente da narrativa.

Ao leitor que for aventurar-se com Eco, duas recomendações: paciência   e boa vontade. “A misteriosa chama…” é um desses romances que mostram que literatura não é somente passatempo ou diversão fácil. Nota: o livro autointitula-se “romance ilustrado”.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 29/4/2012.