369. Rogério Skylab

rsk

Rogério Skylab, antes de ser um talentoso artista performático, é um intelectual de primeira grandeza por dois motivos: um, não o alardeia e, dois, não almeja tal posição.

Por detrás de canções com letras contundentes, expõe alguns comportamentos corriqueiros, mas negados com toda força pela sociedade brasileira, em sua grande parte falsa moralista. Falso moralismo porque as pessoas assustam-se com palavras das canções e não conseguem ir além da superfície: uma palavra “obscena” ou “rude” trava-lhes o entendimento e faz nascer a reprovação; às vezes o involuntário humor provocado causa o mesmo tipo de escurecimento da percepção.

Um grande exemplo é a música “Derrame”, do disco “Skylab I” (1999). Usando como mote o acidente vascular, Skylab desconstrói a vida de um homem considerado normal, expondo a transitoriedade de vaidades e até mesmo o isolamento social decorrente das sequelas.

Talvez Skylab não concorde com essa abordagem, ou até mesmo a ache pretensiosa, mas é o que se pode ver além do pasmo inicial ou da recusa do ouvinte em aprofundar-se na letra da canção.

Os eventuais detratores e o senso comum, famintos de eufemismos e de mentiras piedosas, não absorvem a verdade cruel e lírica presente nas letras de Skylab.

329. Os pinheiros de Pondal

O poeta Eduardo Pondal

Na edição de hoje da Tribuna Impressa, jornal diário de Araraquara, está a matéria que produzi sobre o poeta galego Eduardo Pondal. Aqui, um arquivo PDF da página. Espero que gostem.

Sérgio Mendes

313. Olhos gastos

Calça e camiseta amassadas; realmente gastas e velhas. Vinha sempre se esgueirando pelo muro do cemitério, confundindo-se com as manchas de umidade; entrava sempre na mesma floricultura.

— Um buquê de cravos. Cravos vermelhos.

Uma vez não havia cravos vermelhos; teve de contentar-se com os brancos.

No mesmo passo rápido e molambento, passava pelo portão do cemitério. Demorava-se lá um par de horas. Saía sem o buquê de cravos.

O farrapo de gente aparecia toda semana; toda quarta-feira. Além da roupa amassada, o aspecto macilento não ajudava. Passados alguns meses, a funcionária da floricultura teve a reluzente ideia de puxar papo com aquele cliente caladão.

— Calor hoje, não?

— Hum-hum.

Ou então:

— Será que chove?

— Hum-hum.

Lacônico. Talvez fosse uma concordância, uma muda revolta. Talvez.

A funcionária não se dava por vencida:

— Muito querido devia ser esse seu parente…

— Hum-hum.

E o homem, além das roupas gastas, tinha um olhar vago e gasto, como se tivesse sido muito raspado contra o horizonte. Mal recebia as flores, jogava o dinheiro na mão da funcionária e saía rapidamente da loja.

Depois de mais uma visita, a moça resolveu seguir à distância o homem gasto. Viu-o entrar no cemitério; viu-o parar diante de uma sepultura, não sem certa hesitação, e nela depositar o ramalhete. Ficou parado de pé durante umas boas duas horas.

A funcionária voltou para a loja e, no dia seguinte, foi verificar o nome da sepultura. Nada demais, e bem que era uma pessoa que havia morrido em 1955. O homem, por velho que fosse, não tinha 50 anos. Poderia tratar-se de alguma graça alcançada, mas também não parecia ser um daqueles túmulos milagrosos, de anjinhos ou gente piedosa. Assunto de família.

Na semana seguinte, o homem foi novamente à floricultura. Um ramo de cravos vermelhos. Pagou e saiu. No seu encalço, a funcionária.

Passou pelo portão e, no meio caminho principal do cemitério, hesitou. Para espanto da funcionária, foi para o lado oposto àquele da sepultura visitada na semana anterior. O homem pareceu boiar entre as cruzes, como se procurasse algo não nelas, mas acima delas; uma bandeira esfarrapada. Parou diante de outra sepultura;  outro parente, talvez. Outras duas horas de muda contemplação da lápide.

No dia seguinte, a funcionária foi ver de quem se tratava. Outro nome, aparentemente sem ligação com o anterior.

Na quarta seguinte, o homem apareceu de novo. Todo o ritual seguiu-se. E novamente com outra campa. Desta vez, o homem viu a funcionária esgueirando-se atrás de um mausoléu, mas fingiu não vê-la. Fez sua contemplação até quando acho necessário e foi embora.

Ele não apareceu mais na floricultura. Nem na quarta seguinte, nem na outra. Sequer numa terça-feira. Não havia para quem perguntar sobre seu paradeiro. Ninguém sabia quem ele era, de onde vinha, onde morava.

Ele continua por aí. Está agora visitando outro cemitério, presenteando os mortos às cegas.  Mas ele não presenteia os mortos em si. Não, seria uma tolice. Ele apenas homenageia a morte, em um culto íntimo. E não quer intromissão dos vivos.

282. Bolsos insaciáveis

É quase o título de um filme pornográfico. Mas festa com dinheiro público também é um tipo de pornografia, mais refinada e, ao mesmo tempo, mais nojenta.

Depois de meses de embate, os vereadores da cidade de Araraquara reajustaram seus subsídios que, na próxima legislatura, passarão a  R$ 6.550. Um aumento de 27%.

A situação pegou fogo ontem, em uma sessão que durou 7h30. O primeiro projeto, votado já há algum tempo, queria elevar os vencimentos para cerca de R$ 8 mil, um aumento de 60% sobre o valor atualmente percebido e que englobaria a inflação dos últimos quatro anos, mais projeção de inflação (?!) para os quatro anos seguintes. Afinal, os vencimentos só podem ser reajustados para a legislatura seguinte.

Tiveram de mudar de ideia após um movimento popular chamado “Reage Araraquara” ter conseguido recolher em poucos dias 12 mil assinaturas para protocolar um projeto de lei popular. Bem mais que os 5% do eleitorado exigidos pela Constituição Federal, 8 mil eleitores no caso de Araraquara.

O mais engraçado é o jogo do direito adquirido. Parte dos vereadores fez lobby e disse que “não aceitariam” ganhar menos de R$ 7 mil, ou seja, o salário de um secretário municipal. Curioso, pois grande parte da vereança tem outras atividades e, em tese, não precisaria lançar-se sobre o erário com tanta voracidade. Mas tiveram de recuar.

Possivelmente o mais prejudicado com o desgaste político e eleitoral foi o próprio governo, coalizão PMDB-PSDB-DEM, majoritariamente. A base do governo discutiu entre si e ofendeu-se. Certamente haverá prejuízos políticos para os últimos meses da legislatura.

Em compensação, silenciosamente a oposição — majoritariamente PT — parece ter gostado da confusão toda e certamente capitalizará com o fato, uma vez que foi contra o aumento desde o início e, numa manobra de fundo populista, propôs o congelamento dos vencimentos.

Ontem, para evitar que o caldo entornasse, a conturbada sessão de ontem teve de ser paralisada por 20 minutos. Tempo suficiente para que o vereador Serginho Gonçalves (PMDB) e o membro do Reage Araraquara Marcelo Bonholi se estranhassem no corredor. “Você é um bosta!”, ouviu-se ecoar da boca do rotundo vereador.

Creio que Napeloso pode ser considerado inocente da ofensa. Afinal, ele só exteriorizou o que a classe política pensa do eleitor e cidadão. Tanto em Araraquara quanto em Brasília, os membros dessa casta — uma nobreza podre legitimada por votos comprados — deve mesmo pensar isso de nós: somos uns bostas.

Como já diria Justo Veríssimo, personagem do saudoso Chico Anysio, “Eu quero que o povo se exploda!”

* * *

E ainda haverá queda de braço entre políticos e população. Afinal, ainda não desistiram de aumentar seus ‘tronos’ de 11 assentos para 18.

280. Longa noite

Antes de qualquer julgamento, leia o texto até o fim.

Longa noite

Todos parecem sentir que a casa está na mais perfeita ordem, e alguns até são loucos o bastante para acreditar que o grande sinal de saúde cultural do país são eles próprios.

Se há uma coisa que, quanto mais você perde, menos sente falta dela, é a inteligência. Uso a palavra não no sentido vulgar de habilidadezinhas mensuráveis, mas no de percepção da realidade. Quanto menos você percebe, menos percebe que não percebe. Quase que invariavelmente, a perda vem por isso acompanhada de um sentimento de plenitude, de segurança, quase de infalibilidade. É claro: quanto mais burro você fica, menos atina com as contradições e dificuldades, e tudo lhe parece explicável em meia dúzia de palavras. Se as palavras vêm com a chancela da intelligentzia falante, então, meu filho, nada mais no mundo pode se opor à força avassaladora dos chavões que, num estalar de dedos, respondem a todas as perguntas, dirimem todas as dúvidas e instalam, com soberana tranqüilidade, o império do consenso final. Refiro-me especialmente a expressões como “desigualdade social”, “diversidade”, “fundamentalismo”, “direitos”, “extremismo”, “intolerância”, “tortura”, “medieval”, “racismo”, “ditadura”, “crença religiosa” e similares. O leitor pode, se quiser, completar o repertório mediante breve consulta às seções de opinião da chamada “grande imprensa”. Na mais ousada das hipóteses, não passam de uns vinte ou trinta vocábulos. Existe algo, entre os céus e a terra, que esses termos não exprimam com perfeição, não expliquem nos seus mais mínimos detalhes, não transmutem em conclusões inabaláveis que só um louco ousaria contestar? Em torno deles gira a mente brasileira hoje em dia, incapaz de conceber o que quer que esteja para além do que esse exíguo vocabulário pode abranger.

Que essas certezas sejam ostentadas por pessoas que ao mesmo tempo fazem profissão-de-fé relativista e até mesmo neguem peremptoriamente a existência de verdades objetivas, eis uma prova suplementar daquilo que eu vinha dizendo: quanto menos você entende, menos entende que não entende. Ao inverso da economia, onde vigora o princípio da escassez, na esfera da inteligência rege o princípio da abundância: quanto mais falta, mais dá a impressão de que sobra. A estupidez completa, se tão sublime ideal se pudesse atingir, corresponderia assim à plena auto-satisfação universal.

O mais eloqüente indício é o fato de que, num país onde há trinta anos não se publica um romance, uma novela, uma peça de teatro que valha a pena ler, ninguém dê pela falta de uma coisa outrora tão abundante, tão rica nestas plagas, que era a – como se chamava mesmo? – “literatura”. Digo que essa entidade sumiu porque – creiam – não cesso de procurá-la. Vasculho catálogos de editoras, reviro a internet em busca desites literários, leio dezenas de obras de ficção e poesias que seus autores têm o sadismo de me enviar, e no fim das contas encontrei o quê? Nada. Tudo é monstruosamente bobo, vazio, presunçoso e escrito em língua de orangotangos. No máximo aponta aqui e ali algum talento anêmico, que para vingar precisaria ainda de muita leitura, experiência da vida e uns bons tabefes.

Mas, assim como não vejo nenhuma obra de literatura imaginativa que mereça atenção, muito menos deparo, nas resenhas de jornais e nas revistas “de cultura” que não cessam de aparecer, com alguém que se dê conta do descalabro, do supremo escândalo intelectual que é um país de quase duzentos milhões de habitantes, com uma universidade em cada esquina, sem nenhuma literatura superior. Ninguém se mostra assustado, ninguém reclama, ninguém diz um “ai”. Todos parecem sentir que a casa está na mais perfeita ordem, e alguns até são loucos o bastante para acreditar que o grande sinal de saúde cultural do país são eles próprios. Pois não houve até um ministro da Cultura que assegurou estar a nossa produção cultural atravessando um dos seus momentos mais brilhantes, mais criativos? Media, decerto, pelo número de shows de funk.

Estão vendo como, no reino da inteligência, a escassez é abundância?

Mas o pior não é a penúria quantitativa.

Da Independência até os anos 70 do século XX, a história social e psicológica do Brasil aparecia, translúcida, na literatura nacional. Lendo os livros de Machado de Assis, Raul Pompéia, Lima Barreto, Antônio de Alcântara Machado, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado, Marques Rebelo, José Geraldo Vieira, Ciro dos Anjos, Octávio de Faria, Anníbal M. Machado e tantos outros, obtínhamos a imagem vívida da experiência de ser brasileiro, refletida com toda a variedade das suas manifestações regionais e epocais e com toda a complexidade das relações entre alma e História, indivíduo e sociedade.

A partir da década de 80, a literatura brasileira desaparece. A complexa e rica imagem da vida nacional que se via nas obras dos melhores escritores é então substituída por um sistema de estereótipos, vulgares e mecânicos até o desespero, infinitamente repetidos pela TV, pelo jornalismo, pelos livros didáticos e pelos discursos dos políticos.

No mesmo período, o Brasil sofreu mudanças histórico-culturais avassaladoras, que, sem o testemunho da literatura, não podem se integrar no imaginário coletivo nem muito menos tornar-se objeto de reflexão. Foram trinta anos de metamorfoses vividas em estado de sono hipnótico, talvez irrecuperáveis para sempre.

O tom de certeza definitiva com que qualquer bobagem politicamente correta se apresenta hoje como o nec plus ultrada inteligência humana jamais teria se tornado possível sem esse longo período de entorpecimento e de trevas, essa longa noite da inteligência, ao fim da qual estava perdida a simples capacidade de discernir entre o normal e o aberrante, o sensato e o absurdo, a obviedade gritante e o ilogismo impenetrável.

Olavo de Carvalho

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Publicado no Diário do Comércio.

279. “Dom Camilo e seu pequeno mundo”, Giovannino Guareschi

O autor e seu bigode

Foice, martelo e cruz

Em uma cidadezinha da Planície do Pó, na convulsão social e econômica da Itália do pós-guerra. Eis o cenário de “Dom Camilo e seu pequeno mundo”.

Giovannino Guareschi (1908-1968) faz uma alegoria das contendas políticas daquele triste período italiano, opondo o pároco da cidadezinha — Dom Camilo — e o administrador comunista Giuseppe Bottazzi, mais conhecido como Peppone.

Embora haja uma eterna rixa entre os dois, na verdade, são o que costuma chamar de inimigos cordiais. Gente que, apesar de duas posições ideológicas — a Democracia Cristã versus o Partido Comunista Italiano —, têm em mente o bem comum da cidade, embora não deixem de marcar suas posições de modo bem irreverente.

Dividido em pequenos contos, “Dom Camilo…” é o primeiro livro da série baseada nessa alegoria, que soma seis volumes, publicados entre 1948 e 1996, sendo que os quatro últimos são póstumos. Uma literatura que, como diria o próprio Guareschi no seu “Zibaldino”, “é bela e instrutiva”.

Dom Camilo e seu pequeno mundo – Difel/Bertrand do Brasil – preço variável

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Publicado com alguns cortes na Tribuna Impressa de Araraquara em 3/6/2012.

278. O Marquês de Pombal e o português

O Marquês de Pombal em sua glória. Detalhe de pintura de Louis-Michel van Loo e Claude Joseph Vernet (1766)

O texto abaixo foi desenvolvido como atividade acadêmica, mas que foi erroneamente interpretada. Logo, não serviu como atividade. Há algumas considerações interessantes que gostaria de dividir com os meus leitores. Afinal, o texto ficaria apodrecendo no fundo de um pen drive.

Peço desculpas pela empolação acadêmica. Às vezes, ela é necessária para um igualmente empolado — e empoleirado — interlocutor.

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A imposição do português como idioma único no período pombalino tem ainda relação com a ideologia de formação dos estados nacionais (sécs. XV-XVI). Um povo, um rei, uma língua. Embora só tenha ocorrido tardiamente no Brasil (por falta de gente ou por displicência?), na Europa, a imposição de um dialeto sobre os demais de um território nacional era a regra. Assim ocorreu com o francês (o dialeto da Ilha de França, a região de Paris), que foi tornado obrigatório nas cortes de justiça por decreto (1539). O mesmo ocorreu com o castelhano que se sobrepôs ao galego, ao catalão e até mesmo adotou um nome nacional, “espanhol”.

A questão do Marquês de Pombal com o português dividia-se em: 1) uma administração mais eficiente (por isso a “unidade” linguística de Portugal e domínios foi buscada); 2) a “condenação” à língua geral tem relação direta com os jesuítas, expulsos em 1760, que a usavam para catequese dos índios e que atingiu mesmo foros de língua literária, tendo sido compilada e normalizada pelos religiosos.

A língua geral de base tupi, ao que parece, deixou-nos (aos falantes do Interior paulista, sul de Minas, norte do Paraná, Goiás e Mato Grosso do Sul) um r retroflexo. Sílvia Figueiredo Brandão, em seu “Nas trilhas do -r retroflexo” (Signum, Estud. Ling., Londrina, n. 10/2, p.265-283, dez. 2007), sobre o fonema que não está presente em nenhuma outra área do português, que há um esforço dos filólogos em determinar o ponto de irradiação (São Paulo) e o meio de difusão (entradas e bandeiras) do r retroflexo. Se é algo que tem relação com os bandeirantes, o fonema tem base na língua geral, pois os bandeirantes, muitos deles falavam um português “atravessado”, sendo sua língua materna a língua geral “criada” pelos jesuítas.

O mote principal das reformas pombalinas não era a língua em si; o predomínio esperado do português era um instrumento para o objetivo maior: a unidade política e cultural do império português. Tal como se lê no famoso gramático castelhano Antonio de Nebrija, “a língua sempre foi companheira do Império”[1]. Ideia também reforçada pelos gramáticos lusos Fernão de Oliveira (1540), João de Barros (1540) e Duarte Nunes do Lião (1606)[2].

A questão da ‘imposição’ da língua portuguesa no Estado do Pará e no Estado do Maranhão[3] pela Lei do Diretório de 1757 passa primeiramente pela questão da expulsão da Companhia de Jesus de Portugal e seu império colonial. De um ponto de vista “oficial”, os jesuítas, além de não respeitarem as ordens reais prévias — deduz-se pelo parágrafo 6º da Lei de 1757 —, tampouco obedeciam à diretriz aprovada pelo concílio de Trento (1562), “[…] o qual impunha o uso do latim nas atividades litúrgicas católicas” (GOULARTE, 2007).

A missão primeva dos jesuítas era a catequese e a língua geral amazônica — por eles mesmos compilada a partir do tupi. Era mais fácil proceder à catequização com essa língua franca, o que ajudou enormemente em sua difusão mesmo entre os descendentes dos colonos portugueses.

Embora os textos consultados não façam diferenciação, a Lei do Diretório faz referências às atuais regiões Norte e Nordeste do País, cuja variante da língua geral era diferente. No Norte, a língua geral amazônica — ainda hoje falada em São Gabriel da Cachoeira/AM e uma das línguas oficiais do município — e a língua geral paulista, codialetos entre si. Além do mais “não há documentos que comprovem a extensão do Diretório a toda a Colônia, o que leva a crer que isso não tenha ocorrido” (FÀVERO, 2005).

A intenção do Marquês de Pombal era o controle temporal de vastas áreas da colônia que, por conta da administração do ensino, estavam de facto na mão da Companhia de Jesus. A substituição do ensino ministrado pela Companhia por um ensino estatal era uma arma de efetivo domínio e controle. O próprio texto da Lei deixa transparecer uma ideia de polidez e assimilação linguística:

Sempre foi máxima inalteravelmente praticada em todas as Nações, que conquistaram novos Domínios, introduzir logo nos povos conquistados o seu próprio idioma, por ser indisputável, que este é um dos meios mais eficazes para desterrar dos Povos rústicos a barbaridade dos seus antigos costumes; e ter mostrado a experiência, que ao mesmo passo, que se introduz neles o uso da Língua do Príncipe, que os conquistou, se lhes radica também o afeto, a veneração, e a obediência ao mesmo Príncipe. (PORTUGAL, 1757; art. 6º), grifos nossos.

A língua do Príncipe. Eis o “português-padrão” de então. Se bem que apoiado nos gramáticos já citados, mormente em João de Barros. O texto acusa ainda que, em vez de se proceder a introdução do idioma

[…] se praticou tanto pelo contrário, que só cuidaram os primeiros Conquistadores estabelecer nela o uso da Língua, que chamaram geral; invenção verdadeiramente abominável, e diabólica, para que privados os Índios de todos aqueles meios, que os podiam civilizar, permanecessem na rústica, e bárbara sujeição, em que até agora se conservavam. (PORTUGAL, 1757, art. 6º)

Os adjetivos que qualificam a língua geral não deixam dúvida do lugar que lhe caberá na nova organização estatal almejada pelo Marquês de Pombal. Valendo-se ainda de preceitos religiosos (antijesuítas, mas de fundo cristão), qualifica negativamente a língua geral.

A língua tem um papel primordial no novo Estado pombalino, por isso a preocupação de difundi-la, impô-la, “dar-lhe esplendor” (afinal, é a língua do Príncipe).

REFERÊNCIAS

FÁVERO, Leonor Lopes. Século XVIII – A língua portuguesa no Brasil e o discurso do poder. In: GONÇALVES, M. et al. Gramática e humanismo, vol. 1. Universidade Católica Portuguesa: Braga, 2005.

GOULARTE, Raquel da Silva. O ‘ensino’ do português para os índios do Brasil: um percurso de intenções. Anais. 16º Congresso de leitura do Brasil: Campinas, 2007. Disponível em: <http://alb.com.br/arquivo-morto/edicoes_anteriores/anais16/sem04pdf/sm04ss03_04.pdf>, acessado em 8.mai.2012

PORTUGAL. Lei do Diretório (1755, 1757). 1757. Disponível em <http://www.nacaomestica.org/diretorio_dos_indios.htm>, acessado em 8.mai.2012.

TROUCHE, Lygia Maria Gonçalves. O Marquês de Pombal e a Implantação da Língua Portuguesa no Brasil – Reflexões sobre a proposta do Diretório de 1757. Cadernos do CNLF, Série IV, no. 12 -Semiótica, Discurso, Leitura, História da Língua Portuguesa e Neurolinguística Aplicada – IV Congresso nacional de Linguística e Filologia, 2000.


[1] Apud FÁVERO, 2005, p. 317-330.

[2] Idem, ibidem.

[3] Divisões coloniais muito mais amplas que as atuais unidades homônimas; o próprio termo ‘estado’ deve ser lido não com o significado que a ele damos hoje.

277. O imperativo

Este texto não tem pretensões acadêmicas; é tão-só uma reflexão ilustrativa sobre alguns fatos da nossa língua do dia a dia.

Sabe-se que operamos em um sistema de diglossia. Existe um português escrito, com normas que remetem ao século XVII e XVIII, e existe não um, mas vários portugueses falados, cada qual com suas variações regionais. E, volta e meia, me pego pensando em alguma dessas ‘irregularidades’.

É notório que entre nós paulistas do hinterland, ou seja, de todas as áreas exceto o Litoral, o pronome de tratamento você suplantou o tu. O que era uma forma de tratamento formal (vossa mercê > vosmecê > você) passou a ser tão simplesmente a forma mais comum de tratamento informal. Tanto que para o formal, um novo pronome: o senhor/a senhora que, para mim, guarda certa semelhança de formação com o tratamento formal do romeno, dumneavoastră, como explica o Dicționarul explicativ al limbii române:

DUMNEAVOÁSTRĂ pron. pers. Pronume de politețe pentru persoana a 2-a (singular și plural). [Var.: (pop.) dumnevoástră pron. pers.] –Domnia + voastră.

Ou igualmente ao castelhano usted (vuestra merced > vuested > usted).

Muito bem. O você substituiu o tu como pronome de tratamento informal; as conjugações dos verbos passaram, obviamente, da segunda para a terceira pessoa. Mas, nem todas. Na área de São Paulo se usa o imperativo da segunda pessoa:

a. “Faz isso pra mim?”

b. “Pega esse negócio aí.”

c. “Me traz um sanduíche de atum.”

A explicação que posso deduzir vem mesmo do nome do tempo: imperativo. Como nos ensinavam as professoras na escola — no tempo em que as escolas eram de alguma serventia —, o imperativo serve para exprimir uma ordem, um comando. No português padrão, as frases acima ficariam

a. “Faça isso para mim?”

b. “Pegue esse negócio aí.”

c. “Traga-me um sanduíche de atum.”

Em Portugal, a forma de tratamento formal ainda é o você; o tu reserva-se ao tratamento familiar e àqueles com que se tem algum grau de intimidade.

Para nós, um verbo no imperativo fornece duas informações: 1) uma distância marcada entre emissor e receptor, o que pode ser lido como uma diferença social ou de hierarquia; 2) uma certa antipatia. É óbvio que são informações psicológicas que podem não corresponder à realidade efetiva.

Possivelmente a escolha do imperativo na 2ª pessoa é um resquício de afabilidade, alguma artimanha criada para pôr suavidade a uma ordem, no tempo em que a distinção entre você e tu existia entre a população, amenizando um verbo mais áspero. Assim como o uso generalizado dos diminutivos entre nós.

272. “Contos Gauchescos”, Simões Lopes Neto

O autor (fonte: Wikipédia)

Mais ao Sul

Quando se fala em literatura regionalista, o primeiro nome que surge é Guimarães Rosa, cuja fama monopolizou o ideário e o ‘modelo’ dessa vertente. Porém, em latitudes mais altas há também nomes tão grandes quanto, mas pouco divulgados.

João Simões Lopes Neto (1865-1916) é autor de “Contos Gauchescos”, um dos quatro livros que publicou em vida. Como o nome indica, trata-se de uma recolha narrada por um personagem, Blau Nunes, “vaqueano”, ou seja, condutor de gado que conhece muito bem rincões, trilhos e querências dum Rio Grande que foge à turística ideia que temos por conta da Serra Gaúcha. Em 19 contos, há tanto o folclórico quanto o descritivo, que pode servir para “montar” o imaginário gaúcho do final do século 19 e ainda presente em áreas mais antigas, já formadas quando do incentivo à imigração alemã e italiana — predominante na Serra.

A edição de 2008 da gaúcha Artes e Ofícios traz ainda um resumo comentado de cada conto, apresentação, notas e cronologia da vida do autor por Paulo Bentancur. Textos auxiliares de suma importância para o leitor não-gaúcho.

Contos Gauchescos – João Simões Lopes Neto – Artes e Ofícios – 197 págs. R$ 26

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 20/5/2012.

270. “O falecido Mattia Pascal”, Luigi Pirandello

“Assim é, se lhes parece.”

Inaudita liberdade

Talvez na sua cabeça, leitor, já tenha passado o pensamento de largar tudo e sumir. Quem sabe até mesmo ser dado como morto e poder evaporar em paz. É exatamente sobre esse pensamento que o italiano Luigi Pirandello constrói seu fabuloso romance “O falecido Mattia Pascal”.

Pascal, um pobretão que se casa com a filha de uma viúva interesseira, é acossado por dívidas e ainda por cima morrem-lhe a mãe e a filha de colo. Açoitado constantemente pela língua ferina da sogra, foge de casa. Quando, depois de uma maré de sorte, está voltando ao lar, descobre que foi dado como morto e sente-se livre; estranhamente livre.

“Il fu Mattia Pascal” (convenhamos, o ‘fu’ para ‘defunto’ em italiano é muito mais expressivo) é a obra-prima de Pirandello, embora sua produção inclua a igualmente fantástica peça “Seis personagens à procura de autor”. Agraciado com o Nobel de Literatura de 1934, o autor é considerado um dos grandes escritores não apenas da literatura italiana, mas também da universal.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, 13/5/2012.

266. “A misteriosa chama da Rainha Loana”, Umberto Eco

Eco sorrindo

Pelos labirintos da memória

Após um acidente, um livreiro encontra-se desmemoriado. Mas não se trata de uma amnésia comum; ele se lembra apenas do que leu. Todas as suas memórias são trechos de livros, de poemas, e cada trecho evoca alguma familiaridade; algo que o desmemoriado sente, mas não apreende por inteiro, como aquela sensação de quando tentamos nos lembrar de uma palavra e ela vai esconder-se nas profundezas do cérebro, deixando apenas uma impressão fugaz.

A reconstrução da memória pelas referências textuais e icônicas dos anos 30, 40 e 50 é o mote do romance “A misteriosa chama da Rainha Loana”, do escritor e semioticista italiano Umberto Eco. Mais conhecido pelo seu “O nome da rosa”, o autor surpreende pelo romance “ligeiramente autobiográfico” e com a reconstrução da memória de seu personagem faz um apanhado da história da Itália dos anos 1930 até 1990, tempo presente da narrativa.

Ao leitor que for aventurar-se com Eco, duas recomendações: paciência   e boa vontade. “A misteriosa chama…” é um desses romances que mostram que literatura não é somente passatempo ou diversão fácil. Nota: o livro autointitula-se “romance ilustrado”.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 29/4/2012.

264. “99 poemas – Brossa”, Joan Brossa

O poeta catalão em uma de suas performances artísticas

Poesia catalã moderna

Embora haja manuais de metrificação e regras mil, a poesia pode (e talvez deva) ser uma atividade de escrita livre. Temos vários exemplos de ótimos poetas brasileiros, mestres do verso livre, como Drummond e Bandeira. E que tal algo com um saborzinho exótico? Digamos, um pouco mediterrâneo?

Joan Brossa foi um poeta catalão que começou sua trajetória e metrificando, mas logo transcendeu as regras e as réguas, fazendo a sua poesia a iluminação do cotidiano, chispas onde geralmente só há o cinza-tédio. A recomendação de hoje fica por conta de “99 poemas – Brossa”, coletânea organizada por Ronald Polito e Victor Rosa e que traz, como diz o título, 99 poemas de vários livros de Brossa. Um mosaico para quem quiser conhecê-lo.

A edição é bilíngue e permite ao leitor também um passeio pela sonoridade única do idioma catalão que, eu diria – e sou suspeito para fazê-lo -, é a língua feita para a poesia, irmã do provençal dos trovadores. Ao lado dos originais catalães, a tradução destra de Ronald Polito.

Apenas um conselho: poesia tem de ser lida algumas vezes e não como se faz com um romance. Um livro de poemas é um livro para acompanhar o leitor durante meses.

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Crítica publicada na Tribuna Impressa  de Araraquara, em 22/4/2012.

261. “Pai patrão”, Gavino Ledda

Gavino Ledda

Vida dura

Hoje, o trabalho infantil é considerado um mau hábito dos povos e feramente combatido por autoridades, Governos, secretarias especiais, conselhos tutelares. Há não muito tempo atrás, a vida laboral (profissional é um termo anacrônico neste caso) começava bem cedo: as meninas para as fainas domésticas e os rapazes seguiam o pai para ajudar na profissão e, não raramente, herdá-la.

O romance autobiográfico de Gavino Ledda trata exatamente desta questão. “Pai patrão” é o relato da infância de Ledda, passada nos anos 1940 nas montanhas da Sardenha, pastoreando ovelhas. O pai o tira da escola aos seis anos e põe para cuidar do rebanho familiar; daí em diante seguem-se vários episódios da popularmente chamada “escola da vida”, nas secas e duras montanhas do interior desta rústica ilha italiana.

Incluída na coletânea Letras Italianas da Berlendis & Vertecchia, a edição ainda nos presta um grande favor. Por se tratar de autor pouco conhecido no Brasil (não obstante o fato de haver uma versão cinematográfica de “Pai Patrão”, de 1977), o livro ainda traz o conto “Recanto” e mais alguns escritos. “Recanto” é apresentado em versão bilíngue: a tradução brasileira e o original em sardo.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 15/4/2012.

260. Chave inglesa

"Pega o 'to be' aí na caixa pra mim..."

Se você, leitor, tenta aprender um idioma estrangeiro como se fosse matemática, tenha a certeza de que está no caminho errado. Digo isso com base nas tantas pessoas que vejo que “fizeram inglês” há dois, três anos e não conseguem juntar duas frases.

Sim, eu sei que vivemos em um mundo onde conhecimento é poder, é oportunidade. Mas conhecimento sem lastro cultural é apenas informação: hoje você lembra; amanhã não.

Aprender um idioma estrangeiro não é apenas decorar gramática, conjugar verbo e pôr os pronomes no seu devido lugar. O processo de adquirir — sim, o termo é esse — um idioma estrangeiro vai além de pôr etiquetas sobre as palavras da nossa língua materna. O idioma estrangeiro — por mais globalizado que seja, como o inglês — carrega consigo uma cultura. E língua e cultura são indissociáveis.

A língua é espelho e mesa de uma sociedade. Quantos termos de outros idiomas que são simplesmente intraduzíveis por apenas uma palavra, e que temos de recorrer a longas perífrases para explicá-los? Um sem número.

Logo, não adianta você tratar o idioma estrangeiro como “ferramenta”, ele se nega a tal papel. Fugirá de você como uma barata pelas frestas dos móveis da memória. É necessário alimentar o idioma, como um animal de estimação. Leituras, audição de rádio, televisão. Hoje a internet nos permite esses instrumentos imprescindíveis para simular a vivência que a distância nos cerceava.

Se você, leitor, pensa em um mero utilitarismo dessa “ferramenta”, desista. Vá aprender matemática financeira.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 14/4/2012.

244. Vate de multidões

ImagemNo Dia Nacional da Poesia, nosso homenageado é o ilustre poeta, “benemérito, filantropo, parecerista juramentado de fóruns cíveis e criminaes, vate d’inspiraçon elevada, grão apreciador dos romanceiros geraes, gentilhomem de galantarias notáveis, monoculista ferrenho, de meia-idade, lesto e guapo” Equinócio Pindahyba.

O Doutor Pindahyba teve u’a meteórica carreira telemática, apenas três poemas publicados em um blogue. O que é desconhecido do grande público é que sua obra original, manuscrita em pergaminhos, jaz em uma água-furtada de uma casa de campo em Indaiatuba. Infelizmente, o poeta, com seus dez mastins napolitanos, impede o acesso a ela. “Não sois dignos, bando de sevandijas!”

Aos nossos leitores, uma centelha da luz eterna do poeta das multidões secretas.

“Estes versos os fiz em tençom de porfia com Monoel Bandeira. Sem réplica ficarom.”

Vaquinha-de-Minas-Geraes

Quando eu tinha vinte e dous anos
ganhei uma vaca Nelore.
Quão pouco se me dava
pr’onde ia o diabo da vaca se enfiar todo dia!
Deixava ela lá,
s’entendendo com boizinhos e tourinhos.
Ela parece que gostava,
é certo que nunca me pedio mais nada
(e nem adiantava, que eu mais não daria!).

— A minha vaquinha-de-Minas-Geraes foi minha primeira molher: dei-lhe tanta pancada…!

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Mais aqui: http://equinociopindahyba.blogspot.com/.