364. O ‘pibinho’ e suas obviedades

Statism Gun

Gostaria de começar este artigo assim: “Otimistas são uma verdadeira praga”. Mas não posso. A ideia era criticar aqueles que tratam a economia brasileira como algo blindado, inatingível. A maior prova que sustêm é que “a crise europeia não aportou na Botocúndia”.

O lastro atual da economia brasileira é o consumo. Prova da sua importância na produção da riqueza nacional são as reduções de impostos, pensadas para manter os níveis de produção elevados. Parece que a estratégia, embora tenha aquecido as vendas, não foi suficiente para segurar o crescimento econômico: o PIB avançou pífio 0,9%, o menor entre os emergentes. Isso se deve ao fato de a economia brasileira basear-se em consumo e commodities. Nada que possa gerar crescimento sólido.

Os pseudo-otimistas louvavam a distância da crise. Pseudo-otimistas porque não os move a coerência da análise, mas a tara estatista de que o Governo sabe — se é que um dia soube — tratar da questão. Governos primam pela incompetência na área econômica.

Geralmente manipulados, os números são o sintoma mais superficial de doenças perigosas. Há apenas investimentos industriais localizados; os destinados à infraestrutura, feitos pelo poder público, estão à míngua — basta ver as obras da transposição do São Francisco, a Transamazônica da era PT.

O “pibinho” é apenas a verruga de uma metástase. Governo precisa deixar de intervir na economia; o capitalismo de Estado brasileiro tem dado resultados ruins e perigosos. O abstencionismo estatal já nos garantiria condições suficientes para o desenvolvimento interno e para a migração de uma economia primária a uma base de produtos manufaturados, da qual consumo e commodities seriam tributários.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 5/3/2013.

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363. O poleiro dos articulistas e uma nota

poleiro1É fato que há vários tipos de artigos de jornal; eu diria que seus autores são um pouco como pássaros. Há articulistas que são como o pardal, cujo texto é um pipilar estridente e nervoso, porém ágil; outros são como maritacas, exuberantes e gritalhões; outros ainda são lacônicos e observadores, como as corujas. E ainda há articulistas corvos, pavões, cacatuas.

Quando se fala em artigo de opinião, é claro que o articulista não pode deslocar-se ao sabor das vagas do senso comum. Se o faz, é um náufrago do raciocínio, um reles demagogo. Não passará de um pato preso no cercado.

A função do articulista não é deleitar o leitor. Ao contrário, o intuito é incomodá-lo, tirá-lo da confortável poltrona das certezas absolutas, é trazê-lo para o debate, principalmente pela oposição. Pardais concordam com os pardais, mas não com as maritacas e, com a(s) minha(s) pena(s), quero algum tipo de debate e não aplausos de plástico. Debate entre gente que tem as mesmas ideias não passa de convenção de papagaios ou simpósio de puxa-sacos.

Talvez determinadas opiniões que aqui vêm sendo expostas tenham justamente o propósito de incitar discussões. Talvez. Deixo aos leitores o benefício da dúvida.

A nota — Um habitual e atento leitor desta coluna apontou um erro grosseiro no meu artigo “Ação e Reação” (5/2/2013). Quando usei a terceira lei de Newton como metáfora para o assunto tratado no texto, cometi um erro de transcrição e pus ali o enunciado da segunda lei, embora a ideia central baseie-se efetivamente na terceira. Minhas desculpas aos leitores e um agradecimento ao leitor que, argutamente, percebeu a falha, o que é belo e instrutivo.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 26/2/2013.

360. Experimentação social

"Culpa sua, seu pai de merda!"

“Culpa sua, seu pai de merda!”

Deve ter começado na Grã-Bretanha, uma boa terra, mas que ultimamente tem produzido mais minhocas que batatas. Virou moda alguns pais moderninhos não quererem “impingir estereótipos” relacionados ao sexo biológico de seus rebentos. Criam-no como um ser assexuado, dão-lhe nomes neutros como Tempestade, Trovão, Chuva ou outro fenômeno da natureza e permitem que se vistam da maneira que bem entenderem — um menino com roupas de menina, por exemplo — e brinquem com os brinquedos que lhe apetecerem.

Não sei até que ponto tais liberalidades podem ser úteis à formação do caráter da criança. Já me explico: a nossa vida em sociedade prevê determinados padrões que são compartilhados pela comunidade. Promover uma quebra abrupta de tais padrões, longe de ajudar a criança, pode prejudicá-la.

A criança pode entrar em um vórtice de confusão; deve-se sim ensiná-las a respeitar as pessoas independentemente do que elas sejam, da sua aparência, da sua cor, ou seja, promover uma mudança de pensamento, de atitudes.

Esse tipo de maluquice é própria dos nossos tempos, em que as pessoas pensam com as gônadas em vez de fazê-lo com o cérebro. Além do mais, é um tipo de experimentação social inaceitável, uma engenharia social em pequena escala: pais não têm o direito de fazer de seus filhos cobaias. É desumano para a criança, que vai crescer num mundo em que há expectativas sociais.

Não é praticando a iconoclastia, permitindo que um menino vá à escola de tutu cor-de-rosa ou de vestido que o mundo vai mudar: isso é um subterfúgio idiota; é reduzir todos os problemas à forma estética da coisa.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 15/2/2013.

359. Non habemus papam

Bento XVI (Agência EFE)

Bento XVI (Agência EFE)

Bento XVI anunciou ontem sua abdicação para o dia 28. Para uma geração que praticamente só conheceu o papa que aí está e o finado João Paulo II , tal mudança pode ser considerada veloz.

É uma pena que seu pontificado termine tão já. Certamente é por conta da pressão de setores “progressistas” da Igreja. É notório que Bento XVI nutria esperança de reverter alguns estragos causados pelo Concílio Vaticano II (1962-1965) e que era partidário de um retorno à missa tridentina, já regulada  pela carta apostólica Summorum Pontificum cura (A preocupação dos Sumos Pontífices), de 2007.

Nós, católicos leigos ou mesmo não católicos, temos livre-arbítrio e podemos questionar ou seguir diretrizes  da Igreja. Embora cartas, bulas e encíclicas que não tratem especificamente dos dogmas ou questões de fé não sejam consideradas ex cathedra — ou seja, estão fora da dita infalibilidade do Papa — devem ser observadas pelo clero católico.

A questão do retorno do rito tridentino incomoda uma parte do clero, incluindo a autoridade eclesiástica regional, Dom Paulo Sérgio Machado, bispo de São Carlos. Além de sua posição contrária ao rito, num artigo desrespeitoso à parte dos católicos (“O retorno à Idade Média”, que pode ser lido em aqui), o bispo não apenas ridiculariza o retorno ao rito — pelo fato de parte dele ser proferida em latim —, como classifica os que o desejam como “puritanos”, “cabeças de vento” e até mesmo “fariseus”. E arremata o infeliz artigo com uma citação de um socialista francês.

O que me dói é que, provavelmente, o próximo pontífice seja da mesma lavra de Dom Paulo Sérgio. Com tais pensamentos, cada dia que passa, o sedevacantismo — corrente que não reconhece os papas a partir de Paulo VI — parece menos incongruente.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 12/2/2013.

345. Números

Há um dito popular que diz que há mentiras, há grandes mentiras e há a estatística. A blague baseia-se no fato de a opinião pública ser absolutamente manipulável; nem é necessário esconder todos os números ou alterá-los: basta publicar os que são mais convenientes e convenientemente omitir os restantes.

Somos absolutamente influenciáveis pela força dos algarismos: temos uma democracia que se baseia única e exclusivamente em critérios numéricos, independente se o voto foi pensado e repensado ou apenas influenciado por aquele panfletozinho largado “acidentalmente” na porta da seção eleitoral, e somos uma sociedade que se impressiona pela pujança econômica.

Araraquara recebeu muitos investimentos no ano que terminou ontem, mas também foi um ano em que a violência teve uma escalada quase que sem precedentes. Fala-se da “qualidade de vida” araraquarense — acho que as pessoas que dizem isso evitam sair do Centro, do núcleo da Vila Xavier ou da Vila Harmonia. Não conhecem a nova cidade que cresce ao redor, os pés que são já maiores que a cabeça.

Temos de ter em mente que o bem-estar econômico é algo passageiro; basta ver a crise que atinge a Europa do Welfare State. Se o dinheiro se vai, resta para um povo apenas sua dignidade e suas raízes culturais, coisas que entre nós são excessivamente fracas. Ou seja, uma sociedade que unicamente se agrega em volta do dinheiro, sem dele efetivamente fazer bom uso, como os novos ricos que se preocupam unicamente em ostentar.

Espero que 2013 não seja outro ano de “números”, mas um ano de crescimento real, de crescimento da percepção das pessoas de seu papel na sociedade.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 1º/1/2013.

338. A centopeia política

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Nosso regime é recheado de problemas. É quase uma piada de mau gosto chamá-lo democracia; poderia ter qualquer nome: corporativismo, partidocracia, criptocracia. Chamam-no democracia por moda e conveniência.

A grande falha — uma entre milhares — do sistema político brasileiro são seus partidos. Não os partidos em si, mas a forma que a lei estipula como deve ser formados, que segue legislação federal de caráter unitário.

Em um país tão grande, é impensável que os problemas que afligem, por exemplo, Araraquara, sejam os mesmos da Capital do Estado ou os da cidade de Oiapoque, no Amapá. Por conta do obrigatório caráter nacional, nossos partidos transformaram-se em monstros políticos, centopeias que se escondem sob o pedregulho estatal e atrapalham sua renovação e a diminuição. É óbvio que todo o mecanismo de legalização dos partidos foi criado por eles mesmos e embutido na legislação.

Por que não podemos ter candidatos independentes, como em vários outros lugares do mundo, cujo compromisso não fosse regido por cores partidárias, mas pelo real compromisso para com a população?

Outro dia, navegando pela internet, vi alguns dados sobre as eleições municipais e autonômicas na Espanha. Há municípios cuja população une-se e forma frentes para disputar as eleições, comumente chamadas de uniones. Ou seja, há os grandes partidos, com representação nacional, há partidos regionais — como, por exemplo, na Catalunha, onde os principais agentes políticos são partidos regionais — e há também as pequenas uniões.

Talvez fosse tempo de o Brasil começar a desmantelar o monstro partidista que, com sua coesão, ignora peculiaridades em prol do corporativismo político.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 11/12/2012.

335. O velho novo mundo

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Parece que a América foi descoberta outra vez. Os “colombos” da educação estão fazendo estardalhaço na televisão e em outdoors: reinventaram o ensino médio integrado ao técnico.

Antes de 1998, era assim que o ensino técnico estadual funcionava. Prestava-se o vestibulinho e, sendo aprovado, cursava-se o ensino médio integrado a disciplinas de uma área específica. A grande maioria dos cursos era de quatro anos, um a mais que o ensino médio convencional. A proporção de disciplinas técnicas na grade curricular ia aumentando na passagem dos anos. Era uma opção interessante para quem não tinha tempo ou paciência para fazer um curso superior. E outra: bacharéis ficam avessos a certas atividades excessivamente manuais, mesmo que sejam vinculadas ao seu métier.

Em 1998, o Governo do Estado, amparado na famigerada Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, Lei federal nº 9.394/96), reorganizou o sistema de ensino técnico do Estado, desvinculando o ensino médio em si, que passou a ser ministrado como no resto da rede, do ensino técnico, cujo acesso ficou vinculado a um segundo exame de admissão. A desculpa na época era que muitos faziam o ensino técnico — conhecido por sua boa qualidade — para disputar o vestibular.

A solução deu tão certo, que voltaram ao sistema anterior. Cursar o médio regular e o técnico implica em o aluno ter dupla jornada, o que não raramente atrapalha quem trabalha. Outra: a conclusão das modalidades técnicas — a maioria delas — requer um estágio curricular. Como fazê-lo com dupla jornada escolar?

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Publicado na Tribuna Impressa  de Araraquara em 4/12/2012.

333. A antimedalha de prata

Os gringos detectaram agora; nós já sabíamos há muito tempo que nosso sistema educacional é péssimo. Trata-se apenas de escancarar a obviedade.

O Brasil ficou em 39º em ranking educacional elaborado pela Pearson — uma learning company, como se autointitula —, dentro do projeto The Learning Curve. Trigésimo nono lugar não do mundo todo, mas de 40 países.

Os índices surgiram de um cruzamento de dados de vários organismos internacionais envolvidos com educação e comprovam o fracasso da educação brasileira. Embora tentemos disfarçar com Saresp, Prova Brasil e outras maquiagens vagabundas, a verdade é que estudantes oriundos de nossas escolas, com grandes exceções, são incapazes de, por exemplo, fazer a prova do Pisa — Programme for International Student Assessment.

Nas escolas públicas, é a velha choradeira de salários defasados, instalações ruins e falta de interesse do Poder Público, o que tem sua parcela de verdade. O ensino privado é bom de make-up: apostilas, tablets e outras parafernálias, mas que, sem métodos adequados, não acrescentam nada, como já disse o colunista Francisco Belda há algum tempo.

Em suma, tal situação é fruto da excessiva pedagogização do ensino em detrimento do ensino real; da transformação da escola em “creche para grandes”, da retirada da autoridade do professor e da relativização do valor do conhecimento, que muitos apregoam, mas poucos valorizam efetivamente.

Diretores, coordenadores, secretários municipais e estaduais da Educação, pedagogos, ministro. Tirem seus paletós das cadeiras. Vão para casa; podem fechar as escolas. Como estão, do jeito que vocês as deixaram, mais atrapalham que ajudam. Talvez a Indonésia precise de alguma consultoria de vocês.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 30/11/2012.

328. Há muito tempo, agora há pouco…

Houve um tempo na política nacional em que as ameaças eram desnecessárias. Com base no poder econômico e respaldo do poder político oligárquico, os famosos coronéis simplesmente mandavam fazer. Não havia muito a questão da ameaça, que servia apenas para afugentar os covardes. Os mais valentes acabavam por receber a “expedição punitiva” na porta de casa.

Aliás, cabe dizer que a patente de coronel concedida a esses políticos advém do fato de, eventualmente, serem vinculados à Guarda Nacional, um título honorífico — compensação pela extinção dos títulos de nobreza concedidos no período monárquico.

Mas, voltando, os políticos de então não se importavam um pingo com a opinião pública: o voto era aberto e o coronel poderia mandar à seção eleitoral seus “fiscais”, para ver se o Zé das Couves, que ganhara um pé de sapato, ganharia o outro, por ter votado “corretamente”, ou se seria agraciado com uma bela sova, por ter sido infiel. O sistema do voto aberto permitiu o controle absoluto do eleitorado no período anterior ao golpe militar de 1930.

Não obstante a nossa moderna democracia — por favor, relevem a expressão: nem sempre o “moderno” é melhor que o passado — ter seus mecanismos de prevenção de abusos, tais expedientes ainda encontram eco na política moderna. A troca de favores é um deles.

Hoje, o político é “um homem de doze dedos”, mas,  volta e meia, baixa o espírito do coronel em alguns. Voltam o pé de sapato, as ameaças, a desarticulada verborragia invectiva. Só que, como se vê em vários casos, a ameaça é filha do desespero; e cabe ao desesperado explicar seus rompantes.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 13/11/2012.

326. O terço descontente

Quando termina uma eleição e contam-se os votos, a ansiedade fica pela torcida na “corrida dos cavalinhos” — lembra-se desse quadro do programa infantil “Bozo”, leitor? A conta final exclui as abstenções, sejam elas por anulação ou por justificação do voto.

No caso da disputa pela Prefeitura paulistana, os números são assustadores. Veicula-se apenas o porcentual considerado “válido” por critérios estabelecidos em lei. Se incluirmos o número total de eleitores do colégio, as porcentagens são: Fernando Haddad (PT), 3.387.720, ou 39,3%; José Serra (PSDB), 2.708.768, ou 31,4%, e o conjunto de nulos, brancos e abstenções atingiu 2.522.682, ou seja, 29,3%.

A esperteza dos legisladores está em considerar a maioria absoluta dos “votos válidos”, esvaziando qualquer tipo de protesto com o voto nulo ou com a abstenção. Em qualquer outro país sério, tais números causariam uma crise política. Haddad elegeu-se — não obstante a condenação por formação de quadrilha da antiga cúpula do seu partido — com pouco mais de 39% dos votos. Os votos dos descontentes chegaram a quase um terço de todos os eleitores aptos a votar.

O protesto de anular o voto não tem valor legal — o que é cômodo aos políticos, pois a vontade dos descontentes é simplesmente ignorada —, mas deveria servir para que criassem o mínimo de vergonha na cara e revissem seus conceitos. O eleitorado está cansado. A tendência desses números — mesmo com o estardalhaço do TSE pelo “voto útil” — é aumentar, o que vai tirar ainda mais a legitimidade do processo democrático brasileiro.

É hora da reforma política. Já passou da hora.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 30/12/2012.

325. Mortes urbanas

Ruínas de instalação das Indústrias Reunidas Matarazzo em Iguape/SP

Embora o artigo abaixo seja específico sobre a cidade de Araraquara, Interior do Estado de São Paulo, ele retrata bem um fenômeno urbano brasileiro: zonas inteiras que morreram asfixiadas pelas vias de acesso. Com uma política que privilegia sempre o fluxo dos automóveis, a decadência que cantos que ficaram “ilhados” por equipamentos viários é visível principalmente nas grandes cidades. Mas também nas de médio porte o fenômeno é perceptível.

O artigo “Mortes urbanas” foi escrito para a Tribuna Impressa, de Araraquara, e publicado no dia 23/10. O mote é uma reportagem do domingo imediatamente anterior que tratava da decadência do Mercado Municipal da cidade.

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Mortes urbanas

A falta de planejamento urbano é o algoz das cidades. E não se trata de algo pontual, de uma só administração, mas de uma longa tradição de descaso com o aparato urbano.

No Brasil, os deuses do progresso são o trator e a marreta. Divindades violentas e inclementes. Observe ao seu redor, leitor. Se Araraquara existe desde o final do século 18 — embora só tenha “entrado no mapa” em 1817 —, o que pode nos dar noção disso? Nosso passado dourado resume-se a meia dúzia de casarões do começo do século 20, na área central da cidade. Nada mais. Se alguém dissesse que Araraquara foi fundada apenas em 1905, visualmente, seria factível.

Foi a falta de planejamento e o afã da marreta que necrosaram a região do Mercado Municipal, tema de reportagem de Raquel Santana, publicada nesta Tribuna, no último domingo (21/10).

Quando a estrutura que hoje abriga o Terminal de ônibus era a Rodoviária, movimento por ali não deveria faltar. Porém, a Rodoviária foi exilada para a ponta da Via Expressa e a própria Via Expressa foi construída, criando aquela curva esquisita que faz a Rua Zero, e foi erguido o viaduto da Duque de Caxias. O Mercado ficou “ilhado” entre vias de acesso; é vítima desse “progresso mal planejado”.

Pelo que sei, a transferência da Rodoviária e a construção da Via Expressa são da mesma época, a primeira metade dos anos 1980. Juntas, as duas alterações causaram graves desarranjos ao tecido urbano; a maior ferida é o Mercado: isolado num estranho canto e esquecido pela população, que lhe torce o nariz.

Sobreviverá o Mercado à sanha da marreta?

323. Do ouro ao chumbo

Aurea mediocritas, o meio-termo de ouro, lema e meta dos poetas árcades. Meio-termo porque não peca pela falta, nem pelo excesso. Mas a palavra assumiu uma conotação negativa entre nós. O medíocre é indivíduo que além de não ter talento nenhum para destacar-se — não destacar-se não é um pecado em si —, projeta a queda dos demais, nivelando todos “por baixo” e ali procurando mantê-los.

O mal teve início quando os medíocres tomaram as academias, o parlamento; geraram leis e prerrogativas para seus iguais, burocratizaram a sociedade, imobilizando a criatividade. Mantêm sob ameaça o setor produtivo da sociedade com suas ações abstrusas. Como exemplo, o tal “desvio de função”, criação de legisladores ociosos para alimentar advogados de “porta de empresa”.

O medíocre não quer ter esforço. Por isso, mata na concepção a iniciativa alheia. O que antes era aprendizado no ambiente laboral, que dava oportunidades reais de crescimento profissional ao empregado e criava um vínculo com o empregador, passou a ser visto com desconfiança: tanto dos medíocres em geral, quanto do empregador, que, com plena razão, tem receio que aquele fato possa conduzir a um processo trabalhista — que sempre envolve uma reparação financeira; afinal, o real intuito do medíocre é alimentar-se do esforço alheio.

Há hoje faculdades, mas certas coisas somente a rotina de trabalho nos ensina. E perdemos uma parcela importante desse aprendizado por conta dos medíocres que legislam e invejam desde suas cátedras ou banquinhos.

Será que com esse tipo de pensamento canalha e mesquinho, inerente a quase todos nós, chegaremos ao dito mundo desenvolvido? Ou continuaremos a patinar na nossa mediocritas, plumbea mediocritas?

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 19/12/2012.

317. De novo

Hoje é dia de exercermos o nosso dever-direito, dentro de um incongruente marco constitucional. De dois em dois anos, temos de rastejar às urnas para eleger quem pretensamente nos representa. A obrigatoriedade do voto arrasta às seções milhares de pessoas que não têm o menor interesse em tal direito. O STF já bateu o martelo: mesmo sem candidatos, temos de comparecer às urnas para manifestar nosso descontentamento.

Já abordei neste espaço — e não faz muito tempo — a falta de legitimidade que têm nossos pleitos. A democracia cujo único critério de validação são os números — e não qualidade do voto — e seu caráter referendário, por concentrar excessivos poderes nas mãos do Executivo.

É óbvio que uma reforma política está fora de questão. Não interessa aos políticos. Tudo lhes é muito confortável: o presidencialismo de coalizão, a rígida estrutura partidária que não permite agremiações em nível estadual ou federal, o voto proporcional, que dilui a base de representação dos parlamentares e deixa regiões inteiras sem representação e abre espaço para todo o tipo de arrivista: dos mais comuns aos fracassados em suas profissões de origem.

A política, entre nós, não é o como administrar a polis, a coisa pública: virou — e há muito — arrimo de oportunistas, de arrivistas, de gente cujo interesse não são as atribuições do cargo — esta Tribuna mesmo mostrou que muitos candidatos a vereador desconhecem as funções do posto —, mas sim uma sinecura ou um lugar privilegiado para suas atividades paralelas.

E lá vamos nós. De novo.

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Publicado na Tribuna Impressa de 7/10/2012, dia das eleições municipais.

316. O mais fácil

Ficar do lado “justo” ou “certo” é fácil. É igualmente fácil juntar-se ao pensamento dominante e ser mais um replicante. A ilusão que o politicamente correto cria é que cada um é um justiceiro e que tem “pensamento crítico” quando, na verdade, apenas incorpora o pensamento da massa. A grande sacada dos tempos modernos é fazer o indivíduo achar que está pensando por si quando apenas repete dogmas.

É confortável defender o que todo mundo defende, valores abstratos como “democracia”, “liberdade”, “tolerância”. Para ver como são frágeis e manipuláveis, basta pedir que um de seus “paladinos” os defina. As respostas serão de uma vacuidade e de um relativismo impressionantes.

Não é difícil — mas sim ingrato — mostrar como essas bandeiras lindas são pura mentira, construções convenientes. Ingrato porque os “paladinos” apedrejarão de volta. Eles têm licença moral de censurar. O politicamente correto é arbitrário e autoritário. Não admite crítica. Seus adeptos — independentemente da área de atuação, seja arte, cultura ou ativismo, seus nichos prediletos — sentem-se acima do bem e do mal e, logo, com poder de julgar quem não se enquadra em seus preceitos. São ditadores sem pasta. A liberdade que pregam é a subjugação da maioria, o silêncio forçado. É uma ditadura ainda pior que as institucionais, porque se instala na mente do indivíduo e controla-o de dentro.

Seus agentes têm várias faces: ativistas sociais, pedagogos, políticos. Temos de desconfiar deles, dos que insistem em “coletivo”, “bem comum”, “minorias”. Seu trabalho não passa de desinformação; são agentes do velho divide et impera.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 5/10/2012.

314. A democracia sou eu

“Paz, amor e sieg heil!”

L’État c’est moi” — “O Estado sou eu” — é frase atribuída a Luís XIV, Rei da França entre 1643 e 1715. O dito, embora os historiadores não considerem ter saído efetivamente da boca do monarca, contém a ideia da monarquia absolutista, ou seja, regime em que o rei era executivo, legislativo e judiciário. A frase resume o espírito da época.

“A democracia sou eu.” Disse outro Luís, o Inácio Lula da Silva. Não exatamente assim, mas a maneira como ele vem se comportando bem o demonstra. Embora seja dado a bravatas, Lula jamais diria uma frase dessas. Jamais se comprometeria tanto com conceitos que lhe são apenas degraus, como a democracia.

Parte de sua concepção política vaza de seu discurso furado: “Temos de aproveitar o bom momento do País para eleger mais companheiros”, disse o ex-presidente no palanque de Luiz Marinho, candidato a prefeito em São Bernardo do Campo/SP. A ideia de Lula paira sobre um regime de partido único, uma democracia “companheira”. Basta ver algumas declarações: “Precisamos extirpar o DEM da política brasileira”, nas eleições de 2010, e, agora, no comício de Mário Reali, candidato a prefeitura de Diadema/SP, quando comparou a oposição a um câncer.

Sua insistência em dizer que “não sabia de nada” sobre o Mensalão está se mostrando um péssimo álibi. Enquanto Lula tenta esconder o morto no armário, a militância — principalmente pela internet — está arreganhando dentes e falando em “golpe”. O único movimento que vejo é o da decência, de magistrados que estão fazendo seu papel, não obstante terem sido, em grande parte, indicados por Lula ou Dilma. O golpe é apenas contra o democratismo “companheiro”, que há de chegar ao fim.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 25/9/2012.