293. Insônia

E quem dorme?

A votação das emendas à Lei de Diretrizes orçamentárias na Câmara de Araraquara foi da tarde de terça ao fim da madrugada de quarta da semana passada (19-20/6). Quarenta emendas: 35 do vereador Carlos Nascimento. Fora as retiradas de pauta, o restante foi todo negado. Uma inolvidável noite de nãos.

Duas coisas ficaram claras na “Noite do Não”. Primeiro, a intransigência e a centralização absurdas da administração municipal, que não aceitou uma só emenda a sua pétrea LDO — o que complementa o papel pífio dos conselhos municipais, esvaziados pelo pouco caso do Governo, como reportagem e editorial desta Tribuna (17/6 págs. A2 e A5) também mostraram. Segundo, o pavoneamento da oposição, que se vale do obstáculo certo — e praticamente intransponível — para fazer palanque eleitoral.

Posso estar sendo cruel no meu curto julgamento — o espaço não me permite mais —, mas não consegui ver reais debates pela cidade. Foram perceptíveis apenas a exposição de egos inflamados e até mesmo alguns gritos. Uma ruidosa e desnecessária vitrine de vaidades.

Nos últimos tempos, principalmente por conta do aumento nos subsídios, cobrou-se ‘respeito’ pela instituição Câmara e seus membros. Porém, para que algo ou alguém seja merecedor de respeito, deve antes inspirá-lo. Não basta ser membro do Legislativo; não basta evocar os votos recebidos. É necessário ter um comportamento condizente com o cargo. A grosso modo, o hábito não faz o monge.

A Câmara precisa esforçar-se mais; precisa trabalhar pela cidade. Nem mesmo uma campanha publicitária é necessária — como foi aventado não faz muito. É simplesmente cumprir seu papel de legisladora; a população, com o tempo, saberá reconhecer.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 26/6/2012.

265. De sonetos, emendas e poesia ruim

Ruim mesmo

Já diz o adágio popular que, às vezes, a emenda fica pior que o soneto. Logo, creio que o soneto de gosto duvidoso intitulado “Aumento para a vereança” precise ser detalhado na sua concepção e construção.

Feito a 26 mãos, trata-se de um amontoado de justificativas injustificáveis e versos que não dizem nada; apenas fazem barulho desnecessário com suas aliterações ruins. A primeira versão do soneto foi renegada pelo leitor: tema ruim e dispendioso. Rimas péssimas, como, por exemplo: “75% do salário do deputado estadual” com “subsídio ao parlamentar municipal”. Há neles o som de latas tombando por uma escada. Fora o mau gosto.

Em ano bissexto, algumas rimas deveriam ser evitadas porque atraem outras. “Eleição” pode casar-se perfeitamente com “rejeição”. As rimas em “ão” são chamadas rimas pobres, mas, neste caso, têm a força de um estouro de canhão.

Um soneto convencional tem 14 versos: dois quartetos e dois tercetos. O nosso “Aumento” tem 13 por questão de quórum. Além do mais, contém várias temáticas díspares: o júbilo discreto, o pouco caso e até mesmo uma saída à Pôncio Pilatos. Ensaiou-se uma emenda, mas a distração fez com que a tinta maculasse irremediavelmente o papel.

São 13 versos, mas, para o décimo quarto, milhares de canetas se levantam. Tem um caráter imperativo, um chamamento embutido. Um grito que una a sociedade e faça com que os poetas entendam que o senso comum que deve prevalecer. Certamente haverá uma evocação coletiva; um verso de sete sílabas — a popularíssima redondilha menor — que fugirá à babosa retórica dodecassílaba do restante: “Reage, Araraquara!¹”.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 24/4/2012.

1) “Reage Araraquara” é o nome do movimento popular que surgiu em resposta ao aumento abusivo dos salários dos vereadores araraquarenses.

264. “99 poemas – Brossa”, Joan Brossa

O poeta catalão em uma de suas performances artísticas

Poesia catalã moderna

Embora haja manuais de metrificação e regras mil, a poesia pode (e talvez deva) ser uma atividade de escrita livre. Temos vários exemplos de ótimos poetas brasileiros, mestres do verso livre, como Drummond e Bandeira. E que tal algo com um saborzinho exótico? Digamos, um pouco mediterrâneo?

Joan Brossa foi um poeta catalão que começou sua trajetória e metrificando, mas logo transcendeu as regras e as réguas, fazendo a sua poesia a iluminação do cotidiano, chispas onde geralmente só há o cinza-tédio. A recomendação de hoje fica por conta de “99 poemas – Brossa”, coletânea organizada por Ronald Polito e Victor Rosa e que traz, como diz o título, 99 poemas de vários livros de Brossa. Um mosaico para quem quiser conhecê-lo.

A edição é bilíngue e permite ao leitor também um passeio pela sonoridade única do idioma catalão que, eu diria – e sou suspeito para fazê-lo -, é a língua feita para a poesia, irmã do provençal dos trovadores. Ao lado dos originais catalães, a tradução destra de Ronald Polito.

Apenas um conselho: poesia tem de ser lida algumas vezes e não como se faz com um romance. Um livro de poemas é um livro para acompanhar o leitor durante meses.

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Crítica publicada na Tribuna Impressa  de Araraquara, em 22/4/2012.

262. O furo da placa

Placa de Mombuca/SP

A reportagem sobre a escassez de placas em Araraquara, de autoria da jornalista Luiza Pellicani, saiu nesta Tribuna no último sábado (14/4, p. A7). O tema, para alguns, pode parecer desnecessário, porque grande parte das pessoas conhece as entranhas de seus bairros. Mas uma cidade que tem vocação de centro regional atrai muita gente de fora; logo, precisa ser um pouco menos áspera, principalmente no que se refere à localização eficiente.

Imagino que o tema seja também antigo. Lembro-me da minha primeira visita à cidade e que, andando pelo Centro, percebi a falta da sinalização em vários pontos. Talvez seja besteira, mas parece que as placas dos nomes das ruas, além de informarem o nome, trazem certo conforto — principalmente quando se trata de nomes comuns a ruas de quase todas as cidades paulistas: Nove de Julho, Quinze de Novembro, Sete de Setembro, Bandeirantes.

Uma semana antes de a reportagem ter saído, ou seja, em 7/4, durante almoço na casa do meu sogro, meu anfitrião trouxe novamente o assunto das placas e indagou-me se esse não seria um bom tema para um texto de opinião. Fiquei de pensar e, para o artigo de terça seguinte (10/4), acabei trazendo um motivo mais político. Como se diz nas redações, acabei “tomando furo” da colega Luiza.

O que indica também que a preocupação não é apenas minha ou do meu sogro: é ampla a ponto de ter suscitado uma reportagem. O mais curioso é que, no dia em que a matéria foi publicada, consegui perder-me no espaço entre a São Bento (Três) e a Itália (Sete). Precisava ir à Carlos Gomes (Seis), mas não contava com a existência de uma tal “Cinco e Meio”. Senti na pele que as placas são mais do que raras naquele trecho.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara me 17/4/2012.

253. A pátria da imbecilidade

Dante aguentaria a encheção de saco hodierna?

Dante Alighieri (1265-1321) e Monteiro Lobato (1882-1948) estão separados por quase sete séculos. Porém, duas características unem o mestre florentino e o escritor de Taubaté: o fato de serem grandes literatos e a boçalidade com que suas obras foram e são tratadas por pretensos paladinos e guardiães da moral moderna.

Em outubro de 2010, um parecer do Conselho Nacional de Educação recomendou que “Caçadas de Pedrinho” — obra de Monteiro Lobato — fosse retirada da lista de livros indicados para o ensino público por conter trechos “racistas”. Isso porque no livro já há uma nota que diz que “a aventura ocorreu em tempos que os animais silvestres não eram protegidos pelo Ibama e a onça-pintada não estava em extinção”, o popular “explicar a piada”. Depois da celeuma causada na mídia, o parecer foi revisto e o quase-veto foi retificado.

Agora, leio no site da revista Cult que uma ONG italiana quer banir a “Divina Comédia” (escrita por volta de 1307), de Dante Alighieri, por “racismo e discriminação contra homossexuais e muçulmanos”.

O que faltou nos dois casos foi: 1) obras antigas não podem ser lidas com (pré-) conceitos de hoje. Retumba em irremediável anacronia, tanto em Lobato, quanto em Alighieri; 2) veto ou banimento de livros é algo que ofende o cidadão: é chamá-lo de inapto, qualificá-lo como alguém que não tem discernimento e depende do Estado para tal.

Burocratas e ongueiros, no afã de “libertar-nos”, cometem os mais vis atentados à cultura, à Educação e à inteligência. Os brasileiros somos iconoclastas e avessos à leitura, é notório; mas o caso italiano mostra que a imbecilidade não tem pátria.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 27/3/2012.

251. O burrinho sarnento

Obviedade. Se a burocracia se materializasse, seria um burro. Um burro sarnento. Nada contra os burros e asininos em geral, mas, pelas intrincadas veredas da língua, foram eleitos pela tradição popular como símbolo da vontade obstinada, da vontade inamovível do empacar. A sarna apenas enriquece a alegoria: é o símbolo da pestilência, da contaminação, da transmissibilidade do que é ruim.

Nas últimas semanas, vimos o burrinho sarnento trotar pelas plagas araraquarenses: a intransigência da Cohab, que, cegada pela burocracia, ameaçou de despejo um catador e sua família praticamente às vésperas da quitação do imóvel; o outro caso é do idoso de Américo Brasiliense que teve o fornecimento de energia elétrica cortado pela CPFL Paulista porque o titular da ligação — que não morava mais na casa — pediu que seu nome fosse retirado da fatura de consumo. O que apenas é entendido como ‘desligamento’ pela concessionária, simples assim. Sabe-se que a CPFL foi privatizada em 1997, mas parece que ela ainda contém vícios característicos das economias mistas e autarquias. Vícios públicos em ares privados.

A burocracia imobiliza a vida civil e a economia. Licitações que demoram uma eternidade frente à premência de problemas, como bem mostrou matéria da edição de ontem desta Tribuna sobre a vicinal que liga nossa cítrica cidade à vizinha Américo Brasiliense.

Mesmo doente, o burro marcha. Vitima. Escoiceia na escuridão justos e pecadores. Leva nos seus alforjes o papelório incompreensível de leis, decretos e regulamentos. Pasta nossa paciência.

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Artigo publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 24/3/2012.

242. Novos trilhos

Trilho em Araraquara (foto: Willian Telles)

A Tribuna de sábado (10/3), em sua página A5, noticia, em pequena nota, a apresentação de proposta para criação de um transporte sobre trilhos administrado pela Prefeitura. A iniciativa é do vereador Elias Chediek (PMDB).

Ainda segundo a nota, a linha apresentada iria do Hortênsias ao Pinheirinho, em 11 quilômetros. Pela distância e pelo trajeto, presume-se que utilizará os trilhos que cortam a cidade, tirando deles o transporte de carga e utilizando-os para o transporte de passageiros.

Como simples observador e munícipe, faço as seguintes observações: 1) Parece que a ideia do Contorno Ferroviário é tirar os trilhos do meio da cidade, para que não haja mais divisão física, vencida somente por passagens de nível, viadutos ou passagens inferiores. Se os trilhos continuarem onde estão, a divisão permanecerá, exceto se a Administração providenciar mais viadutos ou faça com que a linha seja subterrânea em alguns pontos, o que parece inviável e altamente custoso. 2) Nosso transporte tem demanda suficiente para o transporte sobre trilhos? Pergunto isso por conta do malfadado VLT — veículo leve sobre trilhos — de Campinas, operado pela finada Fepasa sobre trilhos da extinta Estrada de Ferro Sorocabana. Entre 1990 e 1995, uma linha de 8 km, com oito estações, atendeu a um município com então 850 mil habitantes. Chegou a ser cogitada uma segunda linha, mas o sistema acabou desativado pela pouca funcionalidade que prejudicava seu uso.

Será que a solução do transporte em Araraquara passa pela modalidade ferroviária? Ou bastaria privatizar a CTA [Companhia Tróleibus Araraquara] para que fosse bem provida de meios e recursos?

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Artigo publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, de 13/3/2012.

234. A república naufragada

'Alegoria da República' (1896), de Manoel Lopes Rodrigues

Fala-se muito que as instituições estão falidas. Falência moral, não obstante a financeira. Escola, polícia, Congresso, assembleias legislativas, ministérios, prefeituras, tribunais; instituições que estavam falidas em 1930, em 1964, em 2002. Hoje, estão naufragadas. As pessoas perderam a noção das reais funções de tais organismos. Além de não representarem mais nada para a população, são vistos e tratados como “clubinhos”, principalmente os três níveis do legislativo. Um clubinho em que o corporativismo é lei suprema.

O caso Grecco é espelho dessa situação. Primeiro, optou-se manter o vereador na Câmara — certo que com uma votação apertada, mas ficou. Agora, com sua condenação em primeira instância, tentam um “acordo de cavalheiros” para que o vereador saia à francesa. Primeiro, o corporativismo de defendê-lo; agora, o corporativismo de defender o todo do “corpo estranho”.

Rejeitamos tais comportamentos. Indignamo-nos. Rangemos dentes. Porém, é bom lembrar: os políticos são do mesmo estofo que nós. E não apenas as mesmas tripas, mas o mesmo estofo ideológico: são um retrato inclemente da nossa insensatez, do nosso “jeitinho”. A culpa é nossa também, os vícios vêm de nós, pois aqueles que ocupam funções públicas vêm do povo e são lá postos pelo povo.

Muitos de nós já subornamos o guarda para não levar multa. Ou tentamos transpor algum obstáculo burocrático com a ajuda de “pistolão”. Burlar uma norma de trânsito, uma regra institucional ou a prática do peculato e do crime eleitoral têm, em última análise, a mesma semente, a mesma amoralidade, a mesma natureza delituosa, independentemente da abrangência do ato.

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Texto publicado na Tribuna Impressa de Araraquara de 6/3/2012. Também no Araraquara.com.

230. O diabo mora na tipografia

Teclado de linotipo

Por Roberto Gomes

Revisar textos é tarefa inglória (editar também, mas isto fica para outra ocasião). Por mais neuróticos compulsivos que sejam os revisores, já sabemos de antemão que algo escapará, algum descuido mais ou menos grave ficará para sempre impresso numa página tantas vezes vista e revista. O Fernando Sabino fala disto numa crônica antiga, lembrando um ditado que circula desde Gutenberg pelas oficinas gráficas e que ainda hoje se insinua nos ambientes informatizados: “o diabo mora na tipografia”.

Desde que me meti nisto de editar livros, sou perseguido, no entanto, por uma sina particular. O livro pronto, chegado da gráfica, é retirado do pacote. É um prazer insuperável. O cheiro de livro recém-saído da gráfica só é comparável ao do pão recém-saído do forno. Uma delícia. Depois de conferir capa, contracapa, folhear rapidamente as páginas, de colocar o livro sobre uma mesa ou numa prateleira para ver o efeito, chega o momento crucial: abrir o livro.

É quando entro em pânico. A sina que me persegue é a seguinte: sei que vou abrir aquele livro exatamente numa página que contém um erro, não raro o único erro de todo o livro. Numa editora que dirigi, os funcionários me traziam os livros recém-editados com o coração aos pulos (coração de revisor é muito sensível, como se sabe). Estavam convencidos de que eu abriria numa página com algum erro de revisão. E não dava outra: lá estava a vírgula fora do lugar, o ponto duplicado, o parêntesis que não foi fechado, o travessão inesperado, o s no lugar de um z. Recentemente, abri um livro que editei na página que havia um “ehos” no lugar de um óbvio “ethos”. Como passou despercebido? Impossível. No entanto, lá está o erro não visto,que agora nos salta aos olhos como se fosse um holofote. Brilha para todos os lados, ocupa todo o espaço da mancha impressa, ri de nossos cuidados.

Certa ocasião, eu lia um livro sobre editoração quando, lá pelas tantas, o autor dizia que um livro merece ser editado com máximo cuidado e, portanto, não pode conter nenhum erro. Fiquei chocado com esta afirmação temerária. Não se deve escrever tal coisa, ao menos num livro, pensei. Bom, duas páginas adiante, lá estava o erro: todos os números de página eram impressos em vermelho, menos naquela, onde saiu em preto. Pronto. O diabo, como sempre, dera uma voltinha pela tipografia.

É um problema que merece reflexão. Deve haver, por alguma razão, em algum lugar do cosmos, uma conspiração das letras, das máquinas, das palavras, quem sabe obra de algum espírito brincalhão que se mete entre as páginas. Talvez circulem no mundo palavras em demasia, livros em excesso, páginas redundantes. Os deuses da literatura nos castigam com estas gafes para que não percamos a humildade.

Já em 1980 eu andava atormentado por esta triste sina, quando, em São Paulo, percorria quilométricos corredores de uma Bienal do Livro. Bisbilhota daqui e dali, folheia livros a cada estante, resolvi parar num canto para examinar uma montanha de catálogos coletados na caminhada. Mas minha atenção foi despertada por um sujeito que estava expondo xilogravuras num corredor anexo. Fui bisbilhotar, que é o que mais se faz em Bienais. Era um bom gravurista, chamado Marcelo Soares, munido de chapéu de aba larga e boa lábia nordestina. Conversamos e, lá pelas tantas, descobri o que me levara àquele lugar.

Misturada a outras gravuras, encontrei uma intitulada “Lampião chutando o traseiro do Diabo”. Eis a razão pela qual eu fora à Bienal, pensei. Lampião desferindo um potente chute na bunda do Diabo me pareceu uma imagem perfeita para os dramas que enfrentamos ao editar.

Comprei a gravura, mandei emoldurá-la e até hoje ela está comigo, aqui na parede ao lado, como uma espécie de santo protetor dos sofrentes (ésofrentes mesmo, revisor, não corrija) escrevinhadores e editores e revisores. Com esta xilogravura por perto, me sinto mais tranqüilo, mas, é claro, não livre de erros. Quando eles acontecem, vou até a xilogravura e, como devotos de outros santos devem fazer, converso com Lampião, reclamando não ter sido alertado por este tropeço. Um homem tão poderoso, digo a ele, capaz de colocar em debandada os macacos da Volante, como não me protegeu deste ridículo “ehos”?!

Lampião nem me olha. Limita-se a desferir novo chute na bunda do Diabo.

Bem, ao menos tenho como companheiros vários revisores amigos dos quais me apiedo: a Antônia Schwinden, o Renato Bittencourt Gomes, a Silvana Seffrin, e minha mulher, Iria, que conserta as trapalhadas que digito. Criaturas mais competentes do que eu nesta tarefa, digna de Sísifo, de cavoucar gafes impressas. Rezo por eles a meu santo protetor, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, já que todos vivemos aterrorizados com a possibilidade de uma simples vírgula se transformar num holofote.

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Pego aqui.

228. Divertimentos filológicos

Ortografia: metálica, pesada, porém maleável

Um leitor desta Tribuna fez-me a seguinte observação: “Nas receitas que vejo eventualmente transcritas no jornal, noto sempre a grafia muçarela. Assim, com cê-cedilha mesmo. Curioso porque não vejo essa grafia em lugar algum! É sempre mussarela”.

Queijos e ortografia. Dois assuntos muito passionais, nos quais se formam facções e há feras pelejas. Já diria o General de Gaulle, referindo-se à França, que é impossível governar um país com 246 variedades de queijo. Mas, hoje, nosso assunto é a querela ortográfica apresentada.

Quando se entra em um supermercado ou casa de frios, os tabelões e as etiquetas acusam: mussarela. Por que a insistência, então, da padronização de uma grafia, digamos, estranha? Questão de fidelidade.

O nome do queijo vem do italiano mozzarella. É sabido que o ‘z’ do italiano tem a pronúncia /ts/ — como em pizza — ou /dz/. Que também era a função inicial do cê-cedilha no português medieval.

Embora não pronunciemos mais o cê-cedilha como /ts/, simplificado a /s/, mantém-se para a aclimatação ortográfica da mozzarella. As alternativas indicadas pelo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da ABL (Volp) são: mozarela e muzarela, mas que não refletem a realidade da pronúncia.

Apenas por curiosidade: o cê-cedilha surgiu para transcrever um som inexistente em latim, por isso a solução ortográfica criativa. Em italiano, a solução foi adotar o zê para o novo som; em português, francês, espanhol (hoje não mais) e francês, usou-se inicialmente um ‘cz’ — um dígrafo hoje visualmente estranho —; logo o zê foi para baixo do cê e tomou a forma de ‘vírgula’ ou ‘gancho’ que hoje tem. Tanto que cedilha vem do castelhano zedilla, ‘pequeno zê’.

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Artigo publicado na Tribuna Impressa de 23/02/2012. Também disponível no Araraquara.com.

220. A Estrela Morta

Por Rodrigo Brandão

“[O PT] Continua fiel a seus compromissos originários.” Eu, de verdade, não sabia que o Mensalão — cuja prescrição das penas é iminente, sob a inércia do STF, de modo que as sentenças não tenham efeito — fazia parte dos conceitos primitivos do PT. A bandeira da incorruptibilidade caiu.

“Para tanto, constituiu uma estrutura interna democrática, apoiada em decisões coletivas, sem mandonismo nem caciques, pautada pela vontade majoritária das bases.” Após insistência de Lula e Dilma, Marta Suplicy abriu mão da candidatura à prefeitura paulistana e caminho para Fernando Haddad, ex-ministro da Educação. Agora, Marta está com medo de “acordar de mãos dadas com Kassab”. Relaxa e goza. Cadê as prévias? Não enxergo debate. Apenas caciques. Na ânsia estratégica de assumir o Executivo do principal município do Brasil, caiu a bandeira do modelo democrático interno. E ergueu-se a das alianças escusas. Ou José Sarney, por exemplo, é um aliado que inspira credibilidade e, mais, dignidade?

Em 2001, a greve da PM na Bahia, governada à época pelo PFL-DEM, foi defendida pelo PT. Hoje, é reprimida. Caiu a bandeira da coerência entre discurso e prática. Impera o cinismo do silêncio.

O PT chega ao seu trigésimo segundo aniversário deformado em relação ao belíssimo projeto original, de ideais ascendentes e humanitários. Assopra a apagada vela da estrela morta e bate palma para Maquiavel.

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Texto publicado na Tribuna Impressa de Araraquara/SP de 12/2/2012. Disponível também aqui.

Educação estadual lança ‘pacote’ para adoção de nova ortografia

Do Diário Ofícial do Estado de São Paulo – Face comum, p. 1 – vol. 119, n.º 6, 10.01.2009

A Secretaria da Educação terá um pacote de medidas para adotar já a partir de 2009 a alteração ortográfica em suas 5,5 mil escolas. O objetivo é que, neste ano, os 5 milhões de estudantes da rede estadual iniciem mudança gradual na aprendizagem, com seus professores capacitados a orientar essa alteração.
No fim de 2008, a pasta da Educação qualificou cerca de 17 mil professores e professores-coordenadores de oficinas pedagógicas (PCOPs), que têm atribuição de difundir conhecimento na rede de ensino. Este processo terá continuidade já no início deste ano, por intermédio da Rede do Saber (sistema da secretaria que permite comunicação rápida, via Internet, entre todas as escolas e os professores estaduais). Um roteiro com as mudanças será colocado à disposição pela secretaria a todos os 250 mil professores com download pelo site da pasta.
Materiais disponibilizados pela secretaria – guias curriculares e cadernos do professor, por exemplo – terão versão 2009 com a nova ortografia, já que estão sendo produzidos em conformidade com as novas regras. O material didático dos alunos é distribuído pelo Ministério da Educação.
Vídeo com aula sobre as mudanças também será apresentado on-line (via site) pela secretaria, com acesso a todos os educadores da rede.

Da Assessoria de Imprensa da Secretaria da Educação

Educação prepara:

  • Materiais – como guia curricular e caderno do professor – atualizados
  • Capacitações de professores – 17 mil já foram capacitados em 2008
  • Roteiro com mudanças no site da secretaria (www.educacao.sp.gov.br/)
  • Vídeo sobre as mudanças no site da pasta da Educação
  • Acompanhamento contínuo, via Diretorias de Ensino, da aplicação das normas ortográficas