244. Vate de multidões

ImagemNo Dia Nacional da Poesia, nosso homenageado é o ilustre poeta, “benemérito, filantropo, parecerista juramentado de fóruns cíveis e criminaes, vate d’inspiraçon elevada, grão apreciador dos romanceiros geraes, gentilhomem de galantarias notáveis, monoculista ferrenho, de meia-idade, lesto e guapo” Equinócio Pindahyba.

O Doutor Pindahyba teve u’a meteórica carreira telemática, apenas três poemas publicados em um blogue. O que é desconhecido do grande público é que sua obra original, manuscrita em pergaminhos, jaz em uma água-furtada de uma casa de campo em Indaiatuba. Infelizmente, o poeta, com seus dez mastins napolitanos, impede o acesso a ela. “Não sois dignos, bando de sevandijas!”

Aos nossos leitores, uma centelha da luz eterna do poeta das multidões secretas.

“Estes versos os fiz em tençom de porfia com Monoel Bandeira. Sem réplica ficarom.”

Vaquinha-de-Minas-Geraes

Quando eu tinha vinte e dous anos
ganhei uma vaca Nelore.
Quão pouco se me dava
pr’onde ia o diabo da vaca se enfiar todo dia!
Deixava ela lá,
s’entendendo com boizinhos e tourinhos.
Ela parece que gostava,
é certo que nunca me pedio mais nada
(e nem adiantava, que eu mais não daria!).

— A minha vaquinha-de-Minas-Geraes foi minha primeira molher: dei-lhe tanta pancada…!

* * *

Mais aqui: http://equinociopindahyba.blogspot.com/.

222. Álbum de Araraquara

A cidade de Araraquara tem sorte do ponto de vista historiográfico. O “Álbum de Araraquara”, editado em 1915, traz informações detalhadas da política, do comércio e da indústria da cidade que estava em via de comemorar seu primeiro centenário. Além da recolha de curiosidades históricas, é ricamente ilustrado e tem como texto inicial um elogiosa carta de Vicente de Carvalho, o laureado poeta santista.

Está em minhas mãos uma edição fac-similar dos anos 1960 (ao que parece) e que pretendo digitalizá-la e deixá-la disponível para consulta. Abaixo, as primeiras provas de digitalização.

Capa rígida da edição dos anos 1960 que mostra, entre motivos florais, o Paço Municipal (Prefeitura e Câmara)

Folha de rosto

205. Naquele tempo

Cem anos, para nós da era telemática, pode parecer muito tempo. Mas em termos de Humanidade, é pouco. Lendo relatos de quem viveu o final do século 19 e começo do 20, nota-se o abismo que se abriu entre o presente e o passado não tão remoto.

Pensa-se muito em técnicas, indústrias e procedimentos — a palavra tecnologia dá-me certa comichão — mas as mudanças são muito além disso, embora essa seja sua faceta mais aparente. Há mudanças mais profundas: tanto na forma de ver o mundo quanto nos costumes.

Uma boa fonte de comparação desse ontem com o hoje é o livro “São Paulo Naquele Tempo (1895-1915)”, do Prof. Jorge Americano. São basicamente memórias, retalhos, gritos dos pregoeiros, cheiros. Ao mesmo tempo em que é profundamente intimista, suas memórias misturam-se ao cotidiano da metrópole nascente, fazendo parte dela: duas realidades diferentes com pontos de contato. A cidade, de mero cenário, rouba o protagonismo das memórias.

É o tipo de livro que adquire valor de duas maneiras: ou quando é escrito na velhice do autor, ou seja, com distância temporal do tempo narrado ou quando envelhece e ultrapassa o autor, deixando-o na efemeridade da vida. O livro de Americano é contemplado em ambas a características. O professor e reitor da USP escreveu-o na sua aposentadoria, nos anos 50.

Se a cidade — e os costumes — já haviam mudado tanto do começo do século até seus meados, que dirá agora, tempo em que os fatos narrados já completam mais de cem anos. Acabam mesmo por ocorrer alguns problemas na localização de determinados edifícios marcantes, como demonstra o trecho abaixo, extraído do capítulo “Viaduto do Chá, Rua Barão de Itapetininga e Praça da República”:

Quem saísse do centro da cidade pelo Viaduto do Chá deixava à direita a Chácara Rodovalho, onde está o Teatro Municipal, e à esquerda um grupo de casinhas pertencentes à Santa Casa de Misericórdia, onde hoje está a Casa Anglo-Brasileira.

Quem souber o que foi a Casa Anglo-Brasileira… Provavelmente algo que era na mesma calçada da Sede da Light (hoje Shopping Light), em direção à Praça da República.

Quanto aos costumes, nota-se a diferença brutal nas questões do flerte: sempre à distância e em lugares certos, principalmente à saída da missa; os modos mais adocicados. Em suma, o livro do Prof. Jorge acabou por tornar-se referência — a meu ver — de quem quiser devassar a Paulópole em sua Segunda Cidade — se considerarmos que houve três no período de 1860 a 1960, como retrata bem um outro livro cuja referência agora me foge.

Editado pela primeira vez em 1957, “São Paulo Naquele Tempo (1895-1915)” teve reedição em 2004 pelo consórcio editorial Carbono 14/Narrativa-Um/Carrenho Editorial. Ainda do Prof. Jorge, existem as obras “São Paulo Nesse Tempo (1915-1935)” e “São Paulo Neste Tempo (1935-1962)”.

187. Intermitências urbanas

Fotografia das Regiões Metropolitanas de São Paulo e da Baixada Santista tirada pelo Landsat-5 em abril de 2010 (fonte: pt.wikipedia)

Não se trata de Roma, Paris ou qualquer outro lugar eternizado pela literatura. São apenas ruas comuns dum país que não teve ainda tempo suficiente para dedicar-se às belas letras – e pode ser mesmo que o tempo tenha já passado.

Há sim, bem ou mal, alguns lugares consagrados: a praia de Copacabana, a Praça da Sé, a avenida Paulista. Mas o que significa a igreja Matriz de uma cidade do interior? Ainda mais que já foi refeita três ou quatro vezes, ao gosto da época e do progresso rolo-compressor…

Ruas que não devem ter vinte anos, em que tudo parece de uma precariedade assustadora. Seixos emergem do asfalto, calçadas com seus segmentos estraçalhados por um mato grosso que insiste em nascer. Terrenos vazios, gigantescos terrenos vazios. O vento da tarde de outono tirando longas e plangentes notas das arestas das casas.

As áreas extremas das cidades têm esse aspecto; se não são delimitadas bruscamente por largas rodovias que ligam pontos distantes, elas vão lentamente transmutando-se, passando de urbanas a rurais devagar, até que, como quem pede desculpas por uma falha, o último segmento de rua de terra batida morre num descampado.

Agora, o ritmo de crescimento das cidades é bem mais lento do que era há trinta ou quarenta anos; possivelmente essas transições ainda existirão tal como são por um certo tempo. Lembro-me de um trecho do Juó Bananère sobre a rapidez das construções na cidade de São Paulo:

S’immagine che a genti vá pigá un girio disposa du giantáro e quano xiga inda a rua da Gonçolaçó tenía lá un tirreno tutto xiigno co gapino. Intó a genti vai alí p’ra dianti invisitá uno amighe e quano già vurtó, spia p’ro tirreno, nisciuno, ma inveiz stá faziada lá una bunita casa maise bunita da casa do Capitó. (1)

Também nas cidades do interior, por conta da industrialização, sentiu-se o mesmo movimento imobiliário. Vilas que eram dobras do nada, em quarenta ou cinquenta anos tornaram-se centros regionais de peso. Bairros novos surgiram dos pastos e das matas para abrigar a população que crescia.

É curioso que dentro do tecido de algumas cidades interioranas, apesar do adensamento, conservaram-se terrenos sem uso e esse ar de transição; ou que bairros surjam relativamente isolados da área urbana, com quebra da continuidade e que, para se deslocar desses ao núcleo do município, é necessário passar por trajetos curtos de verdadeiras estradas vicinais, muito embora essas já ostentem alguma denominação de rua ou mesmo avenida, traindo a percepção que temos.

 * * *

(1) trecho do texto de Juó Bananére, alcunha literária de Alexandre Ribeiro Marcondes, publicado n’O Pirralho nº 37, de 20/04/1912. Versão estabelecida na antologia constante em Juó Bananere – Irrisor, irrisório, de Carlos Eduardo S. Capela, Edusp/Nankin Editorial, 2009, p. 189.

186. A cidade de cada um

Avenida Tiradentes nos anos 20. Foto: Prefeitura de São Paulo.

“Ninguém deixa sua pátria por turismo definitivo”, disse eu, certa vez, a uma pessoa que se pavoneava de ser oriundi. É lógico e certo ter orgulho de suas origens, seja ela qual for, mas, às vezes, algumas pessoas chegam à pieguice e a uma ideia de “superioridade” que não condiz com a condição inicial de seus antepassados.

Qual paulista pode-se dizer filho da terra, legitimamente? Por direito sanguíneo, muitos poucos. Somos, em grande parte, provenientes de uma imigração recente – o que são meros cento e trinta quarenta anos na história da Humanidade – que encontrou aqui condições não lá muito salutares de convívio com os velhos paulistas. Alcântara Machado mostra-nos isso numa ficção totalmente lastreada na realidade de então.

Nossos maiores não vieram fazer turismo. Ninguém escolhe largar sua terra, sua língua, um lugar que lhe é culturalmente amigável pelas plagas potencialmente hostis do Novo Mundo. É decisão que muito pesou na mente dos nossos avós e que foi alimentada pelas chicotadas da fome e da exclusão social. O imigrante, em seu novo meio, é sempre um deslocado.

Em São Paulo, tanto na cidade como no Estado, os italianos conseguiram estabilizar-se bem. Eram tantos e tão grande número, que terminaram por influenciar definitivamente a paisagem e a economia de uma terra que acordava para seu potencial econômico, primeiro com o café e, depois, com a industrialização. Não me lembro bem quando e nem onde, vi uma estatística que, em algum período dos anos 20, os italianos eram cerca de 80% da população da cidade de São Paulo.

Seus filhos não eram mais italianos. Produziu-se uma rápida mescla: os pais dificilmente transmitiam a língua materna – alguma língua da península que não o italiano – e os filhos viam-se como brasileiros. Por isso a aquisição de nacionalidade por jus sanguinis, como há em alguns países como a Alemanha, por exemplo, soa-nos tão estranha. Filhos de italianos, não importava: nascidos em território nacional, eram brasileiros.

Mesmo esses imigrantes, vindos na esteira de condições precárias da Itália e outros pontos da Europa, logo viam os filhos crescerem e quando percebiam, tinham passado mais da metade da sua vida aqui. Tornavam-se brasileiros não por documentos, mas por hábito.

 * * *

Penso na vida dessas pessoas: largando o pouco que tinham – leia-se aqui tradições e línguas, pois, quase sempre, o imigrante vinha sem nada – em troca de novidades de difícil digestão. Entre alguma nostalgia e o hábito do novo, tornaram-se mais brasileiros do que qualquer outra coisa.

Do mesmo modo, mas em escala menor, é alguém que troca mesmo de cidade. Na verdade, a pátria do homem é a cidade, é a pólis – isso sabiam bem os gregos antigos, unidos pela língua e pela cultura, mas politicamente cada um na sua cidade. A cidade é a verdadeira pátria do homem: a cidade e seu termo, ou seja, seus distritos rurais, mas ligados a um centro urbano.

O homem sabe muito – ou deveria saber – sobre sua pátria pequena: as ruas do centro, as praças; onde ficava a forca ou o pelourinho, as primeiras igrejas levantadas com o suor dos seus maiores. E aqui, seus maiores não são exatamente aqueles que o são por jus sanguinis: fazer parte de uma cidade é ter por maiores seus fundadores e seus primeiros habitantes. Se somos descendente dos imigrantes, somos descendentes da gente que veio depois, mas também nos filiamos a essa tradição mais antiga. Temos direito e dever ao jus territorialis, assim como a nacionalidade de papel.

Quando um homem se muda da sua cidade, há todo um processo de adaptação, não tão dolorido como mudar de pátria, mas também lento e conturbado. Vejamos o exemplo paulista: alguém pode ser da Capital do Estado – e as metrópoles têm um processo mais complicado de pertencimento – e ter de ou querer mudar para uma cidade do interior.

A pátria paulistana marca-se, ao meu ver, pela fragmentação, os inúmeros bairros, mas também pela onipresença de certos locais simbólicos que mantém uma identidade unitária, como, por exemplo o Centro Velho – seja por identidade histórica ou mera questão de passagem diária – ou a avenida Paulista – quantos não usam a avenida para passear, distrair-se? Quer ver um flâneur paulistano? Basta ir à Paulista.

Vamos para o ponto mais histórico do argumento. Vejamos o centro. Durante muito tempo certo político e econômico do Estado. Hoje um pouco relegado a papéis secundários por conta da própria inaptidão de prédios antigos e ruas estreitas às atividades da nova economia. Os prédios mudaram muito, certamente. Basta lembra-se das primeiras fotografias da cidade, produzidas por Militão: São Paulo era uma vila colonial, quase como as cidades históricas de Minas Gerais. Mas as ruas são as mesmas.

Alguém que veja São Paulo como sua pátria pequena e tenha essa consciência, esperará um ônibus no Parque Dom Pedro II e lembrar-se-á, ou por ditos ou por memória iconográfica, que ali existia um grande pântano onde o Tamanduateí fazia volteios e meandros e que a retificação de seu canal e seu exílio para o lado oriental da várzea não é natural. Ou que ao fim da ladeira Porto Geral havia um minúsculo porto, porto de canoas, que servia ao rio que ali passou um dia, hoje, o mar de gente da rua 25 de março.

A Basílica de São Bento não é mais a mesma do final do século XVI, que foi derrubada para dar lugar ao atual e elegante templo, mas se sabe que naquele espaço, delimitado por outras paredes, escondeu-se Amador Bueno da Ribeira do povo que queria aclamá-lo rei à força.

Mesmo o prédio do Colégio, reconstruído talvez como fora em sua fundação. Qual paulistano de verdade, nato ou por adoção, não se sente estremecer diante daquele fêmur do padre Anchieta que lá está? O padre canarino, de pais bascos que, junto com Antônio da Nóbrega, fundou aquele mesmo colégio, um pedaço dele repousa ali, como verdadeira relíquia.

Isso para não citar outros lugares, outros templos com ainda mais partes do nosso passado. Até mesmo lugares esquecidos como a igreja com Cambuci, metralhada durante a revolução de 1924; essa mesma revolução que forçou o então Presidente Carlos de Campos a fugir do Palácio dos Campos Elíseos – então sede do Governo Estadual – de trem, para a estação Guaiaúna, na baixada da Penha. Estação que foi derrubada, reconstruída – e ostentou o nome do velho dignatário até sua desativação, em 2000.

Cada parte de uma cidade, por quem a adota ou a ela pertence, traz à mente esse tipo de detalhe tão caro.

 * * *

Quando alguém deixa a sua cidade, já com caráter e ideias formadas, a adaptação é um pouco traumática. Parece que, por exemplo, uma rua foi sempre daquele jeito, para acomodar aquelas lojas. Ou pior: aquela rua simplesmente é. Ela estava ali ontem? Não se sabe. É como se o emigrado ou trânsfuga passeasse por uma cidade cenográfica. Não sabe mais onde estão aqueles pontos de apoio que, de certa maneira, dava sentido a toda visão da pátria perdida.

Logo vêm as tentativas de algum nexo: informar-se, procurar informações. Mas o processo sempre será falho. Os maiores de cá tem nomes diferentes e até, pode-se dizer, soam vulgares frente aos vultos perdidos, que se afundaram centenas de quilômetros atrás. As praças, as ruas, os edifícios art déco ou de um neoclassismo temporão e molenga parecem desprovidos de sentido, como se fossem de isopor e fossem desabar à primeira chuva. Tudo dota-se de uma artificialidade quase insuportável.

Os nomes das ruas embaralham-se. Certo que em uma esmagadora parte das cidades brasileiras – não arrisco a dizer todas – há a rua Sete de Setembro, uma Dom Pedro II, uma Quinze de Novembro e que em quase todas as cidades paulistas há uma Nove de Julho, uma Regente Feijó, uma Pedro de Toledo, mas se cruzam em desordem, ou não se cruzam, ou passam muito longe da vizinhança com que estávamos acostumados a ligar aqueles nomes: um nome puxa o outro e, para quem muda de cidade, certamente, isso deixa de fazer sentido: um sentimento funâmbulo entre a maravilha da novidade combinatória e o desgosto das quebras dos paradigmas ou previsões.

Cada esquina dobrada, mesmo que já se tenha passado ali dez vezes, parece sempre nova, porque a forma das casas, dos prédios, das placas, não se fixam na retina. É como se cada vez que se passasse ali, as coisas tenham sido remontadas às pressas e algo sempre falta ou sempre sobra.

A vida do imigrante ou qualquer outro nome que se lhe dê é assim: uma pessoa que conhece o nome das ruas, mas não consegue resolver os trajetos, e a confusão com a pátria acaba por infiltrar-se na vida menos sensível, nos pequenos hábitos, no equilíbrio emocional: o nervosismo ou a apatia sem motivo. É a sensação de quem sente o espaço fugir ao seu controle.

184. Reis e heróis

Francisco Adolfo de Varnhagen

Os reis são como os heróis. Se sabemos muito de seus defeitos ou se eles são excessivamente parecidos conosco, deixam de fazer referência a algo mais elevado, tornando-se, portanto, desnecesários. Disso me lembrei por dois motivos: sobre um polêmico filme lançado na Turquia há algum tempo sobre Mustafá Kemâl Atatürk, um herói, por assim dizer; e também por conta do recente casamento do Principe William e da plebeia Catherine Middelton.

Os reis têm um estatuto diferenciado numa sociedade monárquica. Parte-se do pressuposto que ele é melhor do que o resto do povo para poder reinar. Várias casas europeias caíram nesse golpe de republicanizar suas famílias. Tão-logo tornem-se somente outra família britânica, o que lhes garantirá o direito ao reino? Certamente que tais uniões são louvadas, principalmente pelos republicanos que têm interesse na queda da monarquia.

Tendo esse curto raciocínio em mente, deixo aqui o trecho que uma peça de teatro escrita por Francisco Adolfo de Varnhagem, intitulada Amador Bueno, ou a Coroa do Brasil em 1641, publicada em 1858. A peça narra rapidamente a tentativa de aclamar Amador Bueno da Ribeira como rei de São Paulo, separando a capitania do reino de Portugal, que se libertava de Castela com a aclamação do Duque de Bragança como Dom João IV; a interpretação do feito difere de autor para autor. Varnhagem, como Aureliano Leite em 1938, creditam aos ardis espanhóis, cuja motivação seria, em realidade, a anexação das terras paulistas à Coroa de Castela. Alfredo Ellis Jr.; para esses dois autores, a negativa de Amador à aclamação é positiva no sentido de preservação da unidade dos territórios americanos casa de Bragança e pela unidade do futuro Brasil. Ellis Jr. nega o status de herói a Amador, considerando um pusilânime e indigno da Coroa que lhe ofertaram.

Independente das ideologias, Amador nega a Coroa que lhe fora oferecida pelo senatus et popolusque paulistarum.

Em sua peça, Varnhagem coloca na boca de Amador uma curiosa passagem sobre os valores monárquicos. Não se pode esquecer também que a peça vem dedicada à S. M. I. o Imperador Dom Pedro II, igualmente da casa de Bragança, como seu antepassado, Dom João IV, rei de Portugal. Trata-se de um triplo elogio: (1) à pessoa do Imperador reinante, por meio da dedicatória e da citação da casa, (2) à abnegação de Amador Bueno, fiel vassalo dos Bragança e (3) à própria instituição monárquica.

Por fim, o trecho:

Sim, mas no fim das contas, a coroa na minha cabeça não poderia dar a paz e a felicidade! Um trono há mister bases sólidas sobre que assente, e uma coroa só pode servir na cabeça que já para ela nasceu formada. Os reis são na terra uma família à parte de nós; reinam não só pelo esplendor que herdaram de seus maiores, mas também pelo da sua família, —dos mais reis, que todos eles se protegem como parentes que são entre si… E são invioláveis e sagrados por Deus! Estão acima de todos os partidos; pairam noutra atmosfera mais livre de ambições e de paixões más do que a nossa, e não se podem criar ficando os seus parentes peões […] Não nos é dado a nós igualar o que Deus desigualou. Poderiam jamais quaisquer leis terrestres igualar o tigre à inofensiva cotia? Ou a rolinha que geme ao milhafre que a arrebata? […] Que proclame a igualdade na terra a cobra cascavel para mais à vontade administrar a sua peçonha, […].

VARNHAGEN, Amador Bueno ou A coroa do Brasil em 1641, p.14. Imprenta del Atlas: Madri, 1858

 

153-bis. Fala o Maestro Sérgio de Vasconcellos-Corrêa

Referente à postagem 153, “O misterioso caso do hino que não tem música”, recebi um comentário que me deixou lisonjeado. Trata-se da fala do Maestro Sérgio de Vasconcellos-Corrêa, compositor de uma das versões do hino paulista apresentadas naquela postagem. Com suas declarações, não hesito em incluir o Maestro Sérgio entre os grandes vultos desta terra, que tem consciência do que é ser paulista e do que é liberdade.

Com muita propriedade o Maestro recorre a uma citação de Ibrahim de Almeida Nobre, conhecido pelo epíteto de “Tribuno da Revolução”. Leiam:

Li atentamente o seu “O Misterioso caso do hino que não tem música” e venho, por meio deste comentário, cumprimentá-lo pelo desassombro das suas observações.

Não vou entrar no mérito político da questão, pois minha opinião é a de que, como pau-listas, temos absoluta convicção da nossa postura de brasileiros federalistas, que lutamos no passado e o faremos, custe o custar, a qualquer momento, pela defesa da Constituição Nacional. Cabe aos demais brasileiros, por a mão na consciência, deixar de lado os seus bairrismos e trabalhar, como nós trabalhamos, pelo bem da nossa querida Pátria.Sobre o Hino dos Bandeirantes, colaborando com as suas observações informo:

1. O poema do nosso querido Guilherme de Almeida não foi “adotado” pelo Esta-do de São Paulo, ele venceu o “Concurso” instituído para a escolha da “Letra Oficial” do Hino do Estado de São Paulo.

2. O nosso Hino não tem música oficial, pela simples razão de que: Instituído o concurso para a escolha da música oficial – isso poderá ser constatado através do D. O. – a Comissão Julgadora deu parecer contrário alegando – como ouvi de um dos integrantes da referida comissão – que “a letra era longa demais para um hino”. Ora! A letra não estava em julgamento, ela já era a “Letra Oficial por concurso”.

3. Quando o amigo diz: “algo que era relativamente forte até algumas décadas atrás e hoje está totalmente esvaziado”, não posso deixar de relembrar as palavras de Ibrahim Nobre, do alto do Banco do Estado “… a terra pode ser São Paulo, mas o povo não é mais paulista”.

4. Sobre a falta de interesse do Estado em adotar um dos três hinos remanescentes,é um fato incontestável. Já a sugestão de se abrir um novo concurso, não me pa-rece a melhor solução, pois, iria prejudicar os autores que participaram do pri-meiro e que, nesse caso, seriam obrigados a escrever um novo hino, além da a-gravante de que: tanto o Maestro Spartaco Rossi como o Maestro Mozart Kahil, já não se encontram entre nós.

Minha opinião – que pode parecer suspeita – é a de que a melhor solução seria:

a) A gravação dos três Hinos pela banda e coro da Polícia Militar, ou por qual-quer outra corporação musical.

b) Divulgação dos mesmos através de todos os meios de comunicação (Escolas / Rádio / TV / Internet / Apresentações públicas etc…

c) Escolha final pelo público, através de votação, por meio de urnas eletrônicas que impeçam qualquer tipo de manipulação do resultado.

d) Sobre as citadas: “Canção do Expedicionário” e “Marchas consagradas da Revolução Constitucionalista”, não me parece uma boa solução, pelo fato de que, essas canções, que foram compostas com outros objetivos, perten-cem a outros momentos da nossa história e tem como agravante impeditiva o fato de ser o poema de Guilherme de Almeida, a Letra Oficial do Hino dos Bandeirantes.

A vergonha e o amor pela terra, a que o amigo se refere, não devem ser credita-dos aos paulistas como nós e sim, aos falsos paulistas; àqueles que não sabem – ou não querem – nos representar.

Sou Paulista, com muito orgulho.

Paulistano de quatro costados.

Caipira da Penha, sim Senhor.

Um grande abraço do xará Piratiningano,

Sérgio de Vasconcellos-Corrêa

E aqui, a minha resposta ao Maestro:

Agradeço a leitura e a ilustre visita…

Então, quando digo “adotado”, assim o digo por conta da lei que o institui como hino oficial, ou seja, o resultado do concurso foi feito norma…

De fato, é um pecado que nenhuma das melodias tenha sido escolhida para acompanhar a letra… é fato também que o poema de Guilherme de Almeida é assaz complexa para uma melodia… o verso livre não se adapta bem à monumentalidade que pede um hino… para tal, fosse melhor um texto em decassílabos… mas isso deveria ter sido visto quando da escolha da letra…

Concordo que a questão da escolha deveria ser posta em votação, com ampla divulgação das melodias… se bem que, infelizmente, não conheço a do Maestro Kahil… mas o que esperar de um governo que tem receio de assumir tais posturas? Parece que há uma certa “vergonha” em assumir ser paulista. Lembro-me de um dos discursos do ex-Governador Serra que dizia “os brasileiros de São Paulo”. Tudo bem, é pura verdade, mas por que não usar simplesmente “paulista”, uma vez que brasileiro está subentendido. Além do mais, o migrante ou imigrante que adotou São Paulo como sua terra, é também paulista, uma vez que tal identidade prescinde de documentos… creio eu.

No mais, é assunto polêmico, mas que não pretendo deixar de lado, pois aqui é a minha terra, terra dos meus avós por parte de pai e por escolha dos por parte de mãe.

Um grande abraço,
Sérgio.

Para maiores esclarecimentos, leiam O Misterioso caso do Hino que não tem música.

152. Guilherme de Almeida

Provavelmente uma das maiores almas poéticas do solo paulista mas que, por conta de suas posições políticas e seu viés ideológico regionalista, foi banido do currículo da Academia.

Poeta, crítico de cinema, ensaísta, tradutor. Talvez a sua participação intermitente no movimento modernista seja outro motivo para ser deixado de lado. Mesmo assim, é considerado o primeiro “modernista” a ingressar na Academia Brasileira de Letras, em 1930.

Combateu na Revolução Constitucionalista de 1932, obviamente do lado paulista e dedicou vários poemas ao tema, como Moeda Paulista, feito em lembrança da campanha “Ouro para São Paulo”, para levantar fundos para o fronte de batalha, entre outros. Por conta de sua participação no conflito, foi condecorado com a Medalha da Constituição, honraria concedida pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

Moeda Paulista

Moeda Paulista, feita só de alianças,
feita do anel com que Nosso Senhor
uniu na terra duas esperanças:
feita dos elos imortais do amor!

Quanto vale essa moeda? — Vale tudo!
Seu ouro eternizava um grande ideal:
e ela traduz o sacrifício mudo
daquela eternidade de metal.

Ela, que vem na mão dos que se amaram,
Vale esse instante, que não teve fim,
em que dois sonhos juntos se ajoelharam,
quando a felicidade disse :”SIM”.

Vale o que vale a união de duas vidas,
que riram e choraram a uma só voz
e, simbolicamente desunidas,
vão rolar desgraçadamente sós.

Vale a grande renúncia derradeira
das mãos que acariciaram maternais,
o menino que vai para a trincheira,
e que talvez… talvez não volte mais…

Vale mais do que o ouro maciço:
vale a glória de amar, sorrir, chorar,
lutar, morrer e vencer… Vale tudo isso
que moeda alguma poderá comprar!

Também é de Guilherme de Almeida a Exortação, lido no rádio em 7 de 1932, por César Ladeira.

E também é sua a letra de O Passo do Soldado, uma das canções mais emblemáticas da Revolução de 1932, com música de Marcelo Tupinambá (pseudônimo de Fernando Lobo).

O Passo do Soldado

Marca o passo, soldado, não vês,
Que essa terra foi ele quem fez;
Que seu passo é compasso seguro;
Seu passado, o presente e o futuro.

Vem, soldado, que grande tu és.
Tua terra se atira aos teus pés.
Estremece de orgulho e ergue os braços.
Ergue braços e beira os seus passos.

:| Marcha, soldado paulista,
Marca seu passo na história.
Deixa na terra uma pista,
Deixa um rastilho de glória |: (Bis)

Dono de obra extensa em vários campos da palavra escrita, está sepultado no Mausoléu dos Combatentes da Revolução.

É autor também do Hino dos Bandeirantes, adotado com Hino do Estado de São Paulo, da Canção do Expedicionário (da Força Expedicionária Brasileira que lutou ao lado dos Aliados na Segunda Guerra Mundial).

Também é o introdutor do hai-kai na poesia brasileira.

Há muito de São Paulo em sua obra: um amor à história da sua terra e dos homens que a fizeram. Um bom exemplo é o poema Prece a Anchieta:

Prece a Anchieta

Santo: erguesses a cruz na selva escura;
Herói: plantasses nossa velha aldeia;
Mestre: ensinasses a doutrina pura;
Poeta: escrevesses versos sobre a areia!

Golpeia a cruz a foice inculta e dura;
Invade a vila multidão alheia;
Morre a voz santa entre a distância e a altura;
Apaga o poema a onda espumejante e cheia…

Santo, herói, mestre e poeta: — Pela glória
que destes a esta Terra e a sua História,
Pela dor que sofremos sempre nós.

Pelo bem que quisesses a este povo,
O novo Cristo deste Mundo Novo,
Padre José de Anchieta, orai por nós!

E é isso que se ganha no Brasil por querê-lo melhor: desprezo e esquecimento. Como tantos outros vultos que deram sua vida e o melhor de si somem no mar de vacuidade e no menosprezo que existe pela História e pela Cultura.

A modernidade considera a poesia com tons épicos e com temas históricos algo a ser desprezado. Por isso reina a carência de sentido e a subjetividade extrema, que chega às raias do imcompreensível. Para a modernidade Guilherme de Almeida, o vate paulista, não passa de velharia inútil.

Guilherme de Almeida faleceu em São Paulo capital, em 1969. Sua casa, no bairro paulistano das Perdizes, é hoje um museu dedicado à sua obra e à sua memória. O mínimo que o Estado poderia fazer por aquele que foi o vate da gloriosa gesta paulista de 1932.



Ex-libris de Guilherme de Almeida

151. Amadeu Amaral, “O dialeto caipira”

Amadeu Amaral assombra pela sua capacidade. Autodidata, surpreendeu o meio intelectual com seus dotes de escritor, poeta, folclorista, ensaísta e filólogo. Para o campo do estudo da língua, contribuiu com o fantástico “O dialeto caipira” (1920), um documento importantíssimo que mostra bem o quanto o dialeto do interior paulista evoluiu a ponto de ser um germe de uma nova língua (como a relação entre o neerlandês e o africâner) e também demonstra quanto esse estado de língua acabou por recuar e praticamente desaparecer.

Sua obra está já em domínio público e, por tal, disponho aqui a obra acima mencionada, para deleite dos curiosos e estudiosos. Mais informações sobre o bandeirante da Linguística, a cargo da Wikipédia.