192. Ponto no mapa

A noite cai pesada sobre a cidade,
a cidade perdida entre rodovias…
O vento sul assovia seco
nas juntas dos tijolos da Matriz;
seco, agita o chafariz
no silêncio observado apenas
por solitários e ávidos
olhos febris.

164. Fugere urbem

As pernas batem-se em fuga.
A urbe rói os últimos horizontes;
a ideia afunda-se em campos de cana.

150. Reflexões da tarde

Hoje à tarde, enquanto ouvia algumas obras de Bach, lia o encarte do disco que trazia a sua biografia. Reparava nas datas 1710, 1709; Bach vivia em 1709, Pachelbel morrera em 1706. Por esses poucos indícios, percebe-se a existência de alta cultura instalada nas Cortes naquele período: as vidas agitadas dos compositores como regentes das orquestras da cortes, mestres-organistas de Igrejas indica a importância deles e de suas ocupações para a sociedade de então. Que fosse de baixo alcance a alta cultura, mas existia.

Penso agora na nossa dobra de mundo vicentina. Em meados do século XVIII, Pedro Taques fez a sua Nobiliarchia Paulistana, uma obra muito preocupada com linhagens e descendências dos primeiros povoadores da capitania de São Vicente. Há ainda as Memórias para a História da Capitania de São Vicente, publicadas pela Academia das Ciências de Lisboa. São os primeiros vislumbres de produção cultural no planalto, se bem que com uma função ainda pesadamente cronista, mas são Taques e Frei Gaspar os primeiros intelectuais paulistas.

No século XVII, enquanto se produziam algumas das grandes manifestações culturais da Humanidade, principalmente na Europa Germânica e na Itália, o Planalto paulista preocupava-se com sua subsistência econômica tão-somente. Não é de se esperar grandes manifestações culturais em condições tão duras de existência.

Literatura e literatos – um importante indício de cultura – só são detectáveis em São Paulo no século XIX e com o advento do Romantismo. O centro dessa mudança: a instalação da Faculdade de Direito. Ou seja, os interesses culturais ou mesmo a existência cultural (o pensamento voltado para uma produção cultural intencional) só passa a existir depois desse marco. Literatos e filósofos no planalto são personalidades novas nas nossas terras altas: não têm mais duzentos anos.

139. Modus operandi

Primeiro parei de ler jornais – quando ainda me definia como ‘admirador da esquerda’. Achava que todos os jornais mentiam e que a ‘Rolha’ e o ‘Estrago de São Saulo’ queriam ver Antônio Ermírio presidente da República.

Hoje, abstenho-me ainda da televisão e sua indigesta sopa de desgraças. Toda imagem que dela emana, recende a sangue e flato. É impossível que num país tão grande como o nosso, só ocorram desgraças.

Abstenho-me dessas notícias pela minha saúde mental. Hoje observo os relógios do terminal rodoviário como quem vê a Terra girar solta no espaço. Leio e vejo somente o que me interessa; aplaudo o que me agrada, rio da pretensa seriedade e gravidade alheias. Se políticos e figuras públicas fazem o que querem, ¿para que precisam da minha ciência?

Atualmente, preocupo-me em juntar dinheiro para 1) não precisar  mais trabalhar dentro de quinze ou vinte anos e 2) comprar um sítio e enfiar-me lá com a minha esposa, meus livros e meus bichos.

133. Viajando

Estação da Luz, São Paulo/SP

Vivre, vivre
Même sans soleil, même sans été
Vivre, vivre
C’est ma dernière volonté

(Vivre/Laat me, Ramses Shaffy)

As viagens que faço são quase sempre de ônibus. E à noite. Gosto da sensação de estar fugindo; não sei de quê e nem para quê, mas gosto. Chegar ao guichê nos últimos momentos do dia civil e pedir uma poltrona no último ônibus.

Aproveito bem alguma frugal refeição em um dos restaurantes da rodoviária, u’a massa e uma cerveja long neck; ou, se não estiver lá com muita fome (sempre há a possibilidade de comer no meio do caminho, na parada que o ônibus faz), tomo uma xícara de café no café mais vazio que houver. Esse é meu critério maior: lugares vazios ou com o mínimo de gente possível. Sempre há nesses cafés os jornais do dia e, como já é fim do dia, vejo as notícias velhas como quem vê uma novidade, afinal, fiquei o dia todo preso num cubículo de paredes pintadas em tons claros e indeterminados e não sei de absolutamente nada. Vejo quem bombardeia quem, quem pressiona quem, qual agremiação política esperneia mais, o que o governo fez de ruim.

São já horas de meter-se no ônibus. Desço até as plataformas e busco a que coincide com o meu bilhete. Entrego bilhete de ônibus e de identidade ao motorista que, sem olhar na minha cara, confere os dados que eu autografei no bilhete do ônibus com o da minha identidade. “Boa viagem”. Acomodo minha única mala no bagageiro superior e sento-me no assento marcado no bilhete; preferencialmente na janela. Reclino o banco.

O ônibus sai. Invade-me novamente a deliciosa sensação de estar fugindo. O ônibus navega na avenida cheia de carros ainda, as lanternas lançam luz avermelhada para dentro do ônibus; mas logo vem o viaduto e um estranho obelisco: é o começo da estrada. A escuridão toma conta do interior do ônibus; as poucas luzes de leitura acionadas não interferem em nada. A cidade e suas neuras vão ficando longe, tanto em distância quanto em existência. Mais para frente, quando o ônibus navega entre os campos, junta-se o escuro que vem de fora; às vezes há lua, outras não. Somente o doce ronronar do ônibus faz-se ouvir, como um gatinho gentil e peludo. A simples sensação que o ônibus vara a escuridão; uma escuridão que passa pela outra, a impressão de que navega pelo mar de terra, entre campinas, montes e vales de rios.

Naquele ônibus, sou apenas mais um, sem nome, sem passado: uma ossada recoberta dos correspondentes músculos e tendões. Deixo as placas contarem-me dos lugares e marcar a quilometragem. É algo que me acalenta, é algo que, no meio da escuridão, faz com que me sinta vivo. Estranhamente vivo.

128. O recurso de autocompletar e os danos irreversíveis ao meu cérebro

A informática é de fato algo surpreendente. Digo isso recorrendo a um chavão porque não há outra maneira de dizê-lo. É fantástico: escreve-se um texto num processador de texto (como eu sempre faço com os textos do blogue: primeiro um editor de texto; não suporto escrever na maldita janelinha) e de uma digitação imprime-se quantas cópias se desejar. E melhor, com todas as revisões possíveis. O texto não lhe agradou? É só corrigi-lo, editá-lo, manipulá-lo como convier.

Porém, a informática doméstica e seus desdobramentos, como a rede, também estão transformando o meu (o nosso?) cérebro em purê. O raciocínio fica esperando o maldito autocompletar: você põe duas ou três letras do endereço na barra do navegador e veja, que gracioso: ele busca os endereços que coincidem com a combinação de letras, fantástico. E você depois não consegue guardar na cabeça meia-dúzia de endereços de sítios ou de correio eletrônico: há caches, bookmarks, agendas de e-mail. Esqueceu o endereço daquele sítio? Ora, procure no Google. O Google sabe tudo… O Word corrige seus textos, às vezes de modo inconveniente… e o seu raciocínio decresce.

Que será de nós mais adiante? Uns zumbis…

106. Sonhos número 3, 17 e 25

Tudo começou quando eu estava numa biblioteca, há uns cinco anos, quando eu estava com a minha família e alguns amigos fazendo um churrasco. Um churrasco no prédio da Biblioteca Pública do meu bairro. Daí, apareceu-me uma amiga e disse que estava grávida (puxa) de trigêmeos (caramba!) e que eram meus (intercessão da Santíssima Trindade). Findo o episódio, tive de ir fazer uma pesquisa sobre o preço dos botijões de gás; um dos depósitos que visitei era numa rua do Carrão na qual passei parte da minha adolescência. O depósito em si era numa casa cujo terreno era abaixo do nível da rua. Junto à grade, uma caneta amarrada (como nas lotéricas) para que as pessoas pudessem tomar nota dos preços. De dentro do depósito veio um cachorro horroroso, parecido com uma hiena e se pôs a bradar furiosamente por detrás da grade. Assustei-me. Havia duas pessoas comigo, funcionários de algum tipo de agência federal de energia nuclear e que, a certa altura, disseram-me para largar aquilo que íamos almoçar no restaurante da repartição. Qual não foi o meu estranhamento quando descobri que o restaurante era um anexo sobre a estação Artur Alvim do metrô. Do lado da bilheteria havia uma escada e, na ponta da escada, uma funcionária controlava a entrada das pessoas; era necessária a apresentação do crachá. Meus acompanhantes tinham esses crachás pendurados no pescoço e pareciam mais velhos cartões de biblioteca em cartolina verde.

Eu estava um pouco aflito, pois sempre tive receio de infringir as regras e, pior, ser pego na infração. Não deu outra: a mulher da escada barrou-me e tive de descer a rampa da estação, desconsolado e ofendido.

Resolvi procurar outro lugar para comer e essa caminhada me levou até um prado – onde? – que eu sabia que era para os lados de Mogi das Cruzes. Saio da trilha e embrenho-me no mato; encontro uma construção de madeira, como os estereotipados banheiros de acampamento, só que ligeiramente maior. Observo que está trancada, porém, assim que todo o cadeado corroído, ele se solta. A curiosidade me impele a abrir a porta: há uma escada de pedra, devidamente iluminada. Desço e a umidade do ar torna-se patente. A escada termina e transforma-se num longo corredor, o qual percorro não sem certo receio. O corredor termina num grande domo subterrâneo, no qual há máquinas e quatro gigantescos tubos transparentes, do tamanho do túnel do metrô que corta o espaço, surgindo e enterrando-se novamente na rocha. Alguém se aprcebe da minha presença: são operários, mas têm algo diferente, a pele excessivamente amarela. Em vez de me enxotar, recebe-me afavelmente e explica que fazia muito tempo que ninguém entrava ali. Uma multidão daqueles homens amarelos controlava máquinas que eram ligadas aos tubos imensos. O homem que me recebeu explicou-me o que eles faziam ali: davam movimento ao planeta; essa estória da rotação da Terra não era natural e sim artificial e eles eram os responsáveis por manter aquele movimento. Por dentro dos tubos, que descobri estarem cheios de líquido (mas não era água), passavam gigantescos animais que pareciam saídos de um bestiário medieval: com aspecto de batráquios, mas eram pisciformes. Eram eles que, rodando em alta rotação por aquele líquido densíssimo preso nos tubos cravados nas rochas e que circundavam todo o planeta, faziam com que o planeta girasse, criando o dia e a noite.

Enquanto meu solícito guia me explicava como os animais eram alimentadas em imensas câmaras bariátricas, soou um alarme: um dos gigantescos peixes entalara no tubo e começou a prejudicar a rotação. Se o tubo não fosse desobstruído, o dia ficaria um quarto menor. Só havia um jeito de desobstruir o túnel e eles precisavam de uma espécie de inseto (?), mas não era qualquer inseto. Assustado, ofereci-me como voluntário. Nem era tão longe, havia de ir buscá-los na Basílica de São Bento. Havia de ir lá e procurar o monge mais barbudo.

Por sorte, todo aquele complexo dispunha de um trem privado subterrâneo que parava em estações iguais às estações de metrô da linha azul, mas os letreiros estavam russo.

Chegado a São Bento, fui atrás do monge mais barbudo que era não um beneditino, mas um pope ortodoxo, com um imenso crucifixo pendurado ao pescoço por uma corrente dourada de aros grossos. Sem dizer palavra, fez sinal para que eu o acompanhasse e me levou à uma cripta sob o piso da Basílica. No meio da Basília havia um cilindro de pedra. “O que é?”; “É o sarcófago do Fernão Dias… não viu a tampa de bronze no piso, lá em cima?”. Curioso que aquela cripta era a cripta da Catedral da Sé, mas estava sob o piso da Basílica de São Bento. No fundo da cripta, num buraco retangular cortado no chão de pedra, reluzia um ataúde de madeira todo entalhado; na verdade, brilhava tenuamente no escuro, como aqueles brinquedos fosforescentes. “Vamos, me ajuda a remover a tampa”, disse o pope. Empurramos e havia ali um cadáver conservado que brilhava, a luz que do corpo emanava banhou toda a cripta que agora parecia a praça maior de uma cidade espanhola.

O cadáver estava todo ajaezado como se fosse um bispo da idade Média, cheio de paramentos, com um ceptro recurvo e uma mitra. Para espanto meu (e não do pope) o cadáver abriu os olhos e lavntou-se como se houvesse acabado de acordar. Estendeu-me uma pequena bolsa de veludo e deitou-se de novo, a luz começou lentamente a ficar mais fraca. O pope sorriu-me fez sinal para que eu abrisse a bolsa. Dentro? Baratas, umas cinco, mas não comuns: seu exoesqueleto era de marfim (puro marfim, segundo o pope) e suas patas eram de ouro (ouro puro qual esse não há!) que raspavam os cascos umas das outras e o saco. O sonho termina aqui.

100. VII

VII

Por toda parte tudo revirou-se:
do lugar comum a obscuros temas
e mesmo sofrendo tantos dilemas,
mesmo assim, nem boas, nem novas trouxe.

Dos baços inflados à Arcádia doce
não aflorou daí nenhuma gema.
Desde a floresta e da abóbada extrema,
o silêncio como se pétreo fosse.

E desiste, se não encontra madeira
da mesma selva, o hábil escultor?
Urge que seja com nova maneira

que se trate o engenho criador:
goiva, formão e afiada talhadeira;
lenho velho e renovado vigor.

Fuga (II)

Saltou o muro e correu em direção à praça, onde havia o ponto de ônibus. “Pego a primeira coisa que aparecer”, pensou. Chegou, milênios-segundos depois, um ônibus para o metrô. Ao pôr o pé no primeiro degrau do ônibus, ouviu sirenes na rua de baixo: “A polícia já chegou”. Logo dariam de cara com a casa aberta e vazia, cadê o dono, cadê quem mora aqui? Um exame de balística diria que a bala veio do quintal daquela casa, a bala que matrou a matriarca anciã ou a priminha de quatro anos, tanto faz e o dono evadiu-se. Foi ele! O ônibus pôs-se numa lenta e ruidosa marcha, como se avisasse a todos da sua fuga. Pagou a passagem – estou enchendo esse dinheiro de impressões digitais! – e sentou-se ali, longe dos olhos do cobrador, que o fitaram quando ele passou e pagou a passagem com dinheiro muito miúdo. Estava dentro do bolso da calça toda uma miríade de moedas de dez centavos – oh, quantos dom-pedritos!- que caiu indigesta na mão do cobrador.

Três mil milênios depois, o ônibus chegou à estação do metrô e ainda era dia. Numa banca de jornal, comprou uma boina ridícula sem olhar para os olhos do jornaleiro; comprou também um jornal para cobrir o rosto. Entrou no metrô e foi num vagão vazio, no contrafluxo. Três pessoas no vagão e ele não olhou para a cara de nenhuma, cobriu o rosto com o jornal e teve de distrair-se com a coluna de política interna e os editoriais. Mas, para qual estação? A dúvida, ácida, começou a corroer-lhe o cérebro e um suador frio invadiu-lhe cada dobra do corpo. Como será que estaria a rua? Talvez a polícia já tivesse isolado a área; talvez ainda não tivessem descoberto sua fuga, pois os peritos ainda estão olhando para o corpo; logo verão o buraco da bala e, olhando por ele, verão o muro e o seu quintal, de onde o tiro partiu.

Faltavam duas estações para a linha terminar. Na outra ponta, um terminal rodoviário. É isso, pensou consigo. Vai pegar um ônibus para qualquer lugar. O condutor do vagão, entre as banalidades cotidianas anuncia para que se dê o lugar para os mais necessitados, que não se dê esmola, que isso, que aquilo e anuncia a estação terminal. Ele salta e seus olhos já estão à frente, procurando trôpegos os degraus metálicos da escada rolante. Pensa que, agora sim, os peritos deixarão o corpo imóvel de quem quer que seja e se aproximarão do muro olhando, pelo ângulo que a bala cortou o vidro e pegou a pessoa atrás dele, que o projétil veio por cima do muro de blocos descobertos.

Viu-se diante dos guichês das companhias de ônibus. Achou melhor não ir para um lugar muito longe, de cara, pois chamaria a atenção. Pensou em voltar, e entregar-se, mas se imaginou infanticida ou gerontocida sendo currado sem dó por todos os vinte brutamontes na cela de seis metros quadrados; e todas as noites e todas as tardes aquilo se repetiria. Sobreveio-lhe um calafrio forte, que o fez estremecer.

Decidiu por continuar a ir. Pensou nos ônibus. Mas eles não olham o documento de identificação antes do embarque? Talvez uma companhia de ônibus que fizesse trajetos curtos, como pouco além das bordas metropolitanas, os motoristas não se ativessem tanto a esses detalhes. Comprou uma passagem da companhia Alto Moldava de Transportes que fazia trajetos até Pedra Vermelha, ali, logo ali e o bom de Pedra Vermelha era a saída dos grandes eixos de circulação, das grandes rodovias. Saindo da cidade, o ônibus pegaria a grande estrada principal, a Nacional 22 a oeste e, depois de uma horrível cidade dormitório à beira do rodovia, havia a estrada estreita que ia até Pedra Vermelha.

Ele comprou a passagem no guichê e pagou a dinheiro. Com a cara enfiada no jornal, ficou esperando os quinze minutos que o separaram da compra à partida do ônibus com a cara enfiada no jornal, recostado em uma pilastra. Logo se formou a fila de embarque. Preencheu a passagem com nome falso e número de documento falso. A fila foi andando e ele suava, suava, suava. Ele estendeu a mão com a passagem para o motorista e fixou os olhos sobre ele e sobre o boné. Sentiu que seu coração se lhe estouraria no peito a qualquer minuto e já sentia as pernas fraquejarem; o motorista estava em vias de pedir o documento. Olhou novamente: “está com algum problema, meu filho? Está suando e nem tanto calor está”. O corpo seu se regelou dum golpe. Disse que era somente uma gripe. O motorista sorriu-lhe e fez sinal para que entrasse. Depois do susto, acomodado na poltrona, o silêncio era grande dentro do ônibus, a penumbra da noite acentuava a calma do ambiente e a única coisa que ouvia enquanto via o ônibus fazer as manobras para deixar a plataforma era o bater do seu coração, absolutamente descompassado.

Fuga (I)

I
Foi uma besteira. Nunca tinha pegado arma de fogo na mão. Aquela, era do padrinho. Ele, no seu dia de folga. Pegou a arma e mirou. A arma, caída, lançou um projétil que entrou por uma janela e da janela, um grito lancinante saiu. Olhou alguns segundos para a janela da casa vizinha quebrada, nenhuma reação. Pensou, chispas e fagulhas lhe percorriam o cérebro, um calor repentinamente insuportável. Alguém berrou mais longe: “Ouvi barulho de tiro”. Resolveu, por fim, ao cabo de poucos segundos, mover-se e tirou a arma do chão; ele teria matado alguém. A resposta da sua cabeça foi um gigantesco sim. Meu deus! Prisão, junto com aquele monte de gente. A pessoa morta no chão, numa poça de sangue, meu deus! E ele, na cadeia, isso, claro, se sobrevivesse ao linchamento que os vizinhos promoveriam. Depois, algum deles viria à televisão: “a gente nunca suspeitou que morava perto dum assassino sanguinário e impiedoso que teve coragem de matar…”. O pensamento cortou-se. Na janela por onde o tiro entrou moravam mais de dez pessoas. Era uma daquelas casas de aluguel que é alugada para um casal e o cara, depois, traz, primo, irmão, tia, painho e mainha lá do sertão bravio. A bala poderia ter pego qualquer um deles; até dois, de tão pequeno que era ali dentro, ele conhecia. Sua primeira namorada tinha morado ali. Ali tinha acontecido – atrás da janela, fechada – o seu primeiro intercurso. Pegou a arma, correu para dentro e a enrolou num guardanapo de cozinha, com um horrendo morando pintado, e pôs a arma amarrada ainda dentro dum saco plástico.
Começou a ouvir um zum-zum-zum de vozes; a cabeça começou a latejar e ele, começou a suar. Era sábado, nublado. Lembrou-se de pegar a carteira enquanto corria – por sorte – e quando foi sair de casa, viu que havia gente aglomerada no portão da casa vizinha. “já sabem, já sabem!”. O muro de divisa esquerdo da casa dava para a viela. Pôs a carteira no bolso e um envelope com dinheiro que estava, por sorte, sobre a cômoda do quarto; pegou ainda a trouxa da arma e a enfiou na mala a tiracolo; correu para o quintal. Pôs a cabeça acima da linha do muro e viu que a viela estava vazia.