368. Poder e democracia

O Estado democrático, tal como se apresenta hoje entre nós, não é apenas um fingimento: é uma imitação grosseira de instituições, que foram implantadas no Brasil a pancadas legislativas e não seguindo a lógica do desenvolvimento orgânico, ou seja, as instituições corretas a determinada sociedade.

Temos de convir que a democracia representativa é fruto de um longo processo democrático, cujo ápice foi a Revolução Francesa, mas que tem suas origens na Magna Carta, de 1215, considerada a primeira constituição — guardados os devidos limites — e que restringiu o poder do soberano inglês.

Apesar da convulsão da França revolucionária, as instituições democráticas tiveram lenta gestação na Inglaterra e no Reino Unido. Tanto é assim que da Carta Magna ao sufrágio universal foram necessários 700 anos.

Sociedades que sofrem trancos de democracia, como a França da Revolução, acabam por não saber aproveitá-la. A novidade das instituições as torna maleáveis e influenciáveis, e sempre há uma parcela da população interessada em tomar o poder àqueles que caem em desgraça: assim ocorreu na França, que com a queda dos Bourbon viu a república, o terror e — como sempre nos momentos de convulsão social — o surgimento de um espertalhão vestido de púrpura que transformou a república… em uma monarquia imperial!

Também na Rússia revolucionária, onde o poder apenas trocou de mãos: da nobreza burocrática tsarista para a burocracia do Partido Comunista.

Na sociedade ocidental antiga, o poder tem dois pilares: a força e a escolha divina. A força, condição de facto, e a divindade, condição de jure — basta lembrar que os textos religiosos, com ausência de regulações estatais, funcionavam como código civil.

O chefe nas sociedades primitivas de caçadores-coletores era o mais forte, que subjugava os demais pela força, como ainda fazem os animais gregários. Com a aurora das manifestações religiosas, essas rapidamente foram incorporadas ao poder. Em alguns casos, havia chefes-sacerdotes. Assim como hoje as divisões básicas do poder são o executivo, o legislativo e o judiciário, nessa aurora da Humanidade, eram o temporal e o religioso.

Se um rei fosse derrotado pelas armas, significava também que havia perdido a graça para governar. A evolução desse sistema de fundo religioso para a democracia representativa foi feito lentamente, com a introdução progressiva de constituições, parlamentos, laicização do Estado. Ou seja, não surgiu do dia para a noite.

Vemos ainda muitas sociedades que se baseiam na força, consideradas por nós antidemocráticas ou atrasadas.

Nos países em que a democracia foi introduzida sem o condicionamento devido, ou seja, não houve transição e sim uma reviravolta, as instituições democráticas não passam de mamulengos: são facilmente subvertidas pelo poder econômico ou pelo próprio poder político. E o pior: de democrático ficam apenas as cascas; tornam-se frágeis para que messias, tiranos ou associações políticas ergam-se para tirar proveito da situação.

O ciclo que se viu na História é tirania, despotismo esclarecido, democracia restritiva e democracia representativa. Qualquer pulo nas etapas condenará a sociedade a subversões no real papel das instituições.

337. Café no escritório

Numa sala sem janelas,
dois homens civilizados
bebericam café,
enquanto discutem amargores.
Café regrado, descafeinado,
em comportados copos plásticos.
Pequeninos, os homens os mantêm
entre polegares e indicadores.
Marmanjos brincando de boneca.

Café amargo, descafeinado,
com adoçante e um pouco ralo.
Levantam-se, despendem-se
com um gosto ruim na boca.

315. O fetiche do carro

“Voa, urubu albino!”

Araraquara ganha um veículo por hora. É o que nos informa a reportagem de Roberto Schiavon na edição de sábado (29/9) da Tribuna. Fora a queda dos impostos — paliativo para segurar manter o consumo em alta e protelar as reformas estruturais tão necessárias à economia —, a alta tem relação com o fetiche brasileiro por automóvel.

Mal faz 18 anos, o sonho dourado da juventude é tirar carta de condução. Se compra o carro ou o ganha dos pais é irrelevante: o Governo não se importa; as montadoras esfregam as mãos. É o começo do círculo vicioso: o feliz proprietário do veículo automotor não sairá de casa a pé nem para ir à padaria. Tudo será feito de carro, que é não apenas uma comodidade, como também símbolo de status. E quanto mais novo e reluzente, melhor!

Depois, acaba tendo de fazer algo estranho: sair para “caminhar”, porque é saudável. Ora, por que não deixa o carro em casa um pouco? É tarde. Já foi escravizado pelo objeto.

É claro que há exceções, de gente que realmente precisa locomover-se de carro por conta de horários — certamente você tentará se encaixar aqui, nada é tão cômodo quanto o autoengano —, mas uma grande parte da população motorizada o faz por comodidade e tal benesse está custando caro à qualidade de vida urbana: tanto pelo acúmulo de veículos na rua, quanto pelos pontos problemáticos nas principais vias (vide a novela dos balões) e pela cada vez maior falta de civilidade no tráfego: o excesso de velocidade, os equipamentos de som — fora o intrínseco mau gosto musical que os acompanha — e a pressa de não parar para dar passagem a um pedestre ou uma bicicleta.

É o paradoxo dos nossos tempos: quanto mais moderno, mais primitivo.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 2/10/2012.

309. Para entender a releitura

“Mamãe, acabei a releitura. Vem me limpar?”

Vivemos um vale-tudo cultural. Como já diz o nome da variedade de luta, vale tudo. Qualquer pastiche é elevado à condição de obra de arte. Geralmente a incompetência dos artistas modernos é tão grande, que costumam valer-se de imposturas para justificar suas impropriedades. O termo “releitura” ocupa uma posição central nesse “panteão das trevas”.

Não soube fazer, ficou meia-boca? Diga que é uma releitura. Sua trupe é incapaz de decorar os textos como eles foram produzidos por seus autores? Tudo bem. Crie uns figurinos diferentes e diga que é uma “releitura”. Os pós-modernos vão vibrar e poucos perceberão o embuste. E os que perceberem… bem, chame-os de “retrógrados”, “fascistas” e algum outro termo que estiver em voga; desqualifique-os.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 26/7/2012

305. “Colombo”, Altan

Columbus dixit

Colombo cru e nu

Mudando um pouco o foco, hoje enveredamos pelas HQs. Ficamos com a obra-prima “Colombo”, do italiano Altan — que inclusive foi colaborador do Pasquim. Um retrato ácido e ligeiramente cruel do grande almirante Cristóvão Colombo é o trabalho do traço jocoso do quadrinista. Dividido em 12 capítulos, conta toda a trajetória do genovês, da infância ao retorno das terras que ele morreu pensando tratarem-se das tão sonhadas Índias.

Além das peripécias-padrão do Almirante, inclua-se aí o bondoso grumete Mário, uma lasciva Isabel de Castela e os índios cínicos com que ele se depara numa terra empesteada de mosquitos. Um diferencial de “Colombo” são as sugestões de trilha sonora e os comentários violentos sob alguns quadrinhos. Imperdível.

“Colombo”, Altan. 102 págs. L&PM Editores

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 12/8/2012

290. Política, futebol e religião

Verde, que te quero verde

Diz o ‘velho deitado’ que política, futebol e religião não se discutem. Uma versão mais sucinta fala de “cor e gosto”. Temas e percepções. O grande problema do brasileiro — digo isso porque é o povo que conheço, mas a definição imagino ser expansível à Latinidade — é misturar as coisas.

O cidadão não se contenta em ver o jogo de futebol e torcer pelo seu time. Não. Alguns espíritos de porco têm de sair à rua acelerando carros e berrando. Outro cidadão tem sua fé; ele não se contenta em servir a Deus, tem de sair nos domingos pela manhã para bater de porta em porta e tentar arrebanhar mais almas com um discurso impositivo. Das misturas dessas duas vertentes de manifestação surge a política vista pelo brasileiro que a acompanha: dogmática e escandalosa. O brasileiro acompanha política como quem torce para Corinthians ou Palmeiras: é mau perdedor, é dogmático e crê na infalibilidade dos seus “papas” e só seu time tem razão. “Minha razão é a minha força.”

Essa política futebolística se vê muito pela ‘esquerda festiva’, ou seja, aquela que se encontra ora no poder. Nosso ex-presidente adora uma metáfora do mundo da bola, uma bela alegoria. E também não admite críticas. Essa esquerda e outras ainda mais radicais aninharam-se, por exemplo, na área de Humanas das universidades públicas, ultrapassando mesmo as cansativas assembleias em que se discute, num “samba do crioulo doido”, falta de professores e propõe-se uma “moção de apoio ao povo do Iraque contra a opressão estadunidense”, as doutrinas chegaram mesmo às salas dos professores, onde são os únicos critérios de pesquisa e investigação. Nossa universidade parou nos anos 60.

E são infalíveis. A economia de mercado teve suas turbulências esporádicas — e está tendo uma grave agora, um dolorido espasmo —, porém o Segundo Mundo, que chegou a englobar 33% da Humanidade, hoje se acha reduzido a ilhas de tirania, como Cuba e Coreia do Norte. O resto do Mundo Socialista dissolveu-se por absoluta incompetência econômica; as revoluções populares foram apenas uma cereja no bolo da desgraça. Se não tivessem acabado na contração violenta do começo dos anos 90, os regimes da Europa Oriental teriam definhado por mais uma década e lentamente começariam a abrir-se.

Dizem os acadêmicos: “Ah, mas isso não é o socialismo”. Se não o é; o que seria? O problema do socialismo/comunismo é que ele nunca ultrapassou a barreira da famigerada ditadura do proletariado que, uma vez instalada, deveria dar lugar à lenta dissolução do Estado, a administração descentralizada e local. Nessas linhas, seria um sonho. O grande problema é que a amorfa ditadura do proletariado tornou-se a pétrea ditadura da nomenklatura. E assim foi até a dissolução dos regimes.

Possivelmente, junto com a monarquia absolutista e a república revolucionária, o socialismo é um dos regimes que provou sua incompetência em um longo e largo laboratório de 80 anos. Vivemos um regime de democracia representativa que é péssimo, mas, parafraseando Winston Churchill, ainda é o melhor que eu conheço.

O grande problema da esquerda socialista é que a teoria é ótima. Porém tem um grave defeito: não contou com o fator humano. O ser humano é amigo do poder; o poder o fascina. Logo, se uma camada tem acesso a ele agarra-se como o náufrago à jangada. E o “horizonte luminoso” do socialismo fica como o horizonte real: quando se dá um passo em direção a ele, ele se afasta outro.

E, retomando o enfoque do texto, pode-se dizer que há um apego sacro com a política. Há dogmas, há heresias, há excomungados. Heranças de um catolicismo fetichista? A esquerda mantém a ilusão de que é possível mudar, porém, quando chegou ao poder, entregou-se ao mesmíssimo fisiologismo que domina o Estado brasileiro desde a colônia. Mais do mesmo. O poder é como a maresia: corrompe até ferro. Somos um povo torto, dado a paixões e a vícios como poucos. Nossas grandes qualidades são a falta de caráter — o jeitinho —, o sorriso falso com cerveja, o dogmatismo de ocasião das nossas opiniões, a moleza da nossa alma.

Por isso somos tão insuportáveis.

284. O poder pelo poder

Talvez Machiavel explique; talvez

O título pode parecer cruel e maledicente — maquiavélico, no melhor sentido da palavra, talvez —; mas já o explico. O Brasil é uma invenção, uma estranha invenção política à qual simplesmente nos acostumamos. A gênese do país deu-se por processos nos quais não houve nenhum tipo de pressão ou participação de alguma parcela consideração da população.

A própria Independência foi gerada por problemas políticos entre Dom Pedro e as Cortes portuguesas, que culminaram no rompimento político entre Brasil e Portugal e a criação de uma monarquia em um continente de repúblicas.

A nossa república não passou de uma quartelada que foi o ponto culminante do processo de desgaste político da monarquia desde o fim da Guerra do Paraguai (1864-1870). A dita Revolução de 1930 foi um choque entre gente que queria o poder com gente que não queria largar o poder.

Esses fatos históricos mostram apenas de como as mudanças no Estado brasileiro foram sempre uma questão de conveniência a quem estava no poder ou muito próximo a ele. Para nós, brasileiros, o poder político é sempre algo que “vem de cima”. Por isso a pouca ou nenhuma identificação do cidadão com o poder público — ou do eleitor com aquele que é eleito.

Dentro dessa óptica, aqueles que são eleitos para o Executivo e para o Legislativo representam não quem os elegeu, mas simplesmente o poder que exercem. Logo, os mandatários sentem-se no direito de legislar para si ou para partidos. O único projeto que existe não é o de governo, mas sim o projeto de poder.

O país precisa ser ‘refeito’ de ‘baixo para cima’; do ‘menor para o maior’. Logo, o cerne das mudanças tem de ser as câmaras de vereadores e a sua ressignificação frente aos munícipes.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 12/6/2012.

277. O imperativo

Este texto não tem pretensões acadêmicas; é tão-só uma reflexão ilustrativa sobre alguns fatos da nossa língua do dia a dia.

Sabe-se que operamos em um sistema de diglossia. Existe um português escrito, com normas que remetem ao século XVII e XVIII, e existe não um, mas vários portugueses falados, cada qual com suas variações regionais. E, volta e meia, me pego pensando em alguma dessas ‘irregularidades’.

É notório que entre nós paulistas do hinterland, ou seja, de todas as áreas exceto o Litoral, o pronome de tratamento você suplantou o tu. O que era uma forma de tratamento formal (vossa mercê > vosmecê > você) passou a ser tão simplesmente a forma mais comum de tratamento informal. Tanto que para o formal, um novo pronome: o senhor/a senhora que, para mim, guarda certa semelhança de formação com o tratamento formal do romeno, dumneavoastră, como explica o Dicționarul explicativ al limbii române:

DUMNEAVOÁSTRĂ pron. pers. Pronume de politețe pentru persoana a 2-a (singular și plural). [Var.: (pop.) dumnevoástră pron. pers.] –Domnia + voastră.

Ou igualmente ao castelhano usted (vuestra merced > vuested > usted).

Muito bem. O você substituiu o tu como pronome de tratamento informal; as conjugações dos verbos passaram, obviamente, da segunda para a terceira pessoa. Mas, nem todas. Na área de São Paulo se usa o imperativo da segunda pessoa:

a. “Faz isso pra mim?”

b. “Pega esse negócio aí.”

c. “Me traz um sanduíche de atum.”

A explicação que posso deduzir vem mesmo do nome do tempo: imperativo. Como nos ensinavam as professoras na escola — no tempo em que as escolas eram de alguma serventia —, o imperativo serve para exprimir uma ordem, um comando. No português padrão, as frases acima ficariam

a. “Faça isso para mim?”

b. “Pegue esse negócio aí.”

c. “Traga-me um sanduíche de atum.”

Em Portugal, a forma de tratamento formal ainda é o você; o tu reserva-se ao tratamento familiar e àqueles com que se tem algum grau de intimidade.

Para nós, um verbo no imperativo fornece duas informações: 1) uma distância marcada entre emissor e receptor, o que pode ser lido como uma diferença social ou de hierarquia; 2) uma certa antipatia. É óbvio que são informações psicológicas que podem não corresponder à realidade efetiva.

Possivelmente a escolha do imperativo na 2ª pessoa é um resquício de afabilidade, alguma artimanha criada para pôr suavidade a uma ordem, no tempo em que a distinção entre você e tu existia entre a população, amenizando um verbo mais áspero. Assim como o uso generalizado dos diminutivos entre nós.

276. Da moral e dos maus costumes

Alexis de Toqueville

Alexis de Tocqueville viveu entre 1805 e 1859 e, como pensador político, sua grande obra é “A democracia na América”, na qual descreve o sistema democrático americano nos anos 1830. Embora o livro esteja aparentemente longe de nós, algumas conclusões de Tocqueville explicam nossa situação sociopolítica sem pôr nem tirar.

Tocqueville preconizava que o sistema democrático requer uma sólida base moral e que essa deve ser uma moral social de tipo consensual, não imposta pela Igreja — como na Idade Média — ou pelo Estado, mas uma moral pública, nascida no convívio igualitário e nas ponderações da própria sociedade, portanto, cultural.

O sábio francês atribui a mudança da moral religiosa para a laica à Reforma, quando a interpretação bíblica única da Igreja Católica foi quebrada, dando margem à liberdade de interpretação e, consequentemente, mudanças profundas na moral pública.

Nos países profundamente católicos, a sociedade teve o lastro moral da Igreja substituído pelo do Estado; logo, o Estado passou a ditar a moral, afogando a possibilidade de ela surgir do próprio seio da sociedade. E a moral ditada pelo Estado é a própria tirania, já que o movimento deveria ser inverso: da sociedade para o Estado.

A moral estatal é uma aberração. Um exemplo pôde ser visto recentemente: a ministra Izabella Teixeira (Meio Ambiente), na apresentação dos vetos ao Código Florestal, vangloriou-se de que o Brasil era o único país que exigia área de preservação permanente dentro da propriedade privada. Ou seja, um conceito moral vindo do Estado, que influi diretamente na vida de muita gente, e amplamente aplaudido como se fosse panaceia.

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Texto publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 29/5/2012.

248. Crítica literária para jornal – Uma concepção

"Querida, veja! Sugestões de livro!"

No dia 11 de março, a Tribuna Impressa de Araraquara estreou seu “Menu Cultural”: meia página com críticas ou sugestões de livros, discos e filmes. Uma coluna para cada item.

Fiquei responsável pela indicação de livros e, por ora, tenho a vantagem de apenas fazer recomendações, ou seja, recomendar os livros que já li e que são de meu agrado. E disso surge um desafio — palavra banalizada, mas sem sinônimos —: como fazer com que o potencial leitor se interesse pelo livro.

Como estudante de letras, tenho muitos vícios da Teoria Literária, que para a indicação de um livro em cerca de 1,2 mil toques, é mais empecilho do que auxílio. Outra: quantos leitores terão conhecimento de rudimentos de Teoria Literária — como eu mesmo — para poder acompanhar algum raciocínio baseado nessa pretensa ciência?

Para despertar o interesse por aquela leitura, creio que seja necessário valer-se de certas peculiaridades do livro, expor o que sai do comum, adiantar um pedacinho da trama, alguma característica notável do escritor, ou mesmo o fio condutor da narrativa, mas sempre com vocabulário acessível e sem o rançoso léxico da Teoria Literária.

Em suma, é fazer “crítica à moda antiga”, mostrando o “produto”. Como um mascate vende suas fitas de cetim? Mostrando-as ou explicando o complexo processo de fabricação, as máquinas, os nomes técnicos de peças, fibras, corantes, quantos funcionários trabalham na fábrica… basta mostrá-las, fazer o cliente sentir a textura, ver as cores. Só isso.

226. Filosofia caseira

Como Sartre, é necessário ter "um olho no peixe e outro no gato"

Terça-feira de Carnaval talvez não seja o dia mais adequado para reflexões aprofundadas, mas, mesmo assim, tentemos um pequeno voo.

Tive muitos colegas que cursaram Filosofia; na USP de São Paulo, os prédios de Letras e Ciências Sociais são vizinhos, o que tornava nosso convívio quase que obrigatório. Gosto de Filosofia. “A República” de Platão é uma obra, em certos aspectos, válida até hoje. Fora a Filosofia política de Maquiavel e Marx.

Mas chamava-me a atenção que os meus colegas sempre citavam filósofos. Claro que não há problema algum em citá-los, mas a coisa sempre se deu sob uma certa escolástica. Em suma: eles se imbuíam daquelas teorias que, como parasitas, matavam qualquer germe de pensamento próprio.

Não estou dizendo que devemos abdicar da leitura dos grandes mestres, mas não é possível que concordemos sempre e em tudo com eles. A academia tem a desvantagem de matar o pensamento próprio; se não tomamos cuidado, tornamo-nos simples replicantes durante graduação, mestrado e doutorado.

“Antes o certo que o duvidoso”, dirá alguém. Mas, se não nos arriscamos fora do já existente, se não criarmos nossas próprias pequenas teorias, estaremos condenados. Nosso amor excessivo à terra firme pode nos manter em uma condição perene de náufragos.

E digo tudo isso não por ódio à academia, mas pela a necessária fuga do academicismo e do dogmatismo. Temos direito de ter nossas próprias teorias; afinal, uma teoria não é a verdade absoluta, mas uma maneira de explicar a realidade observada.

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Texto publicado na Tribuna Impressa de 21/2/2012. Também disponível no Araraquara.com.

216. Por uma teoria da percepção e do conhecimento

Aula de geometria (fonte: en.wiki)

É com surpresa que vejo certas manifestações. Não tem muito tempo que vi, em um jornal, uma pequena seção que colhe opiniões dos populares sobre algum assunto que esteja em voga no momento, e as publica. Com relação à onda de explosões de caixas eletrônicos, o jornal fez a seguinte pergunta: “Os roubos aos caixas eletrônicos estão se tornando comuns. Será que está virando profissão?”, mais ou menos nesses termos.

Um dos entrevistados respondeu: “Não. Não pode e não deve. Roubar é algo feio e horrível; não deve virar profissão”.

Um terrível problema de “ruído” aqui. O entrevistado não entendeu a ironia existente no termo. Compreendeu-o em sentido literal e manifestou-se contra a ladroagem virar profissão. Louvável opinião, mas problemática pela sua conclusão.

Nosso ambiente cultural é asfixiante, bem se sabe. Reclamávamos do duplo sentido presente nas letras de axé, há 10, 15 anos, e hoje elas nos parecem requintadas por recorrerem a tal mecanismo de metáfora. Principalmente quando há letras de funk obscenas, sem meios termos; o duplo sentido perde a razão de ser. Vira recurso poético.

É claro que tal deficiência de compreensão é fruto de concepções que não valorizam a educação e de um Estado incompetente nesse setor. A fome com a vontade de comer.

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Penso que a percepção-conhecimento — uno-os assim porque os vejo como sendo o mesmo mecanismo — organiza-se como as dimensões geométricas: comprimento (horizontal), altura (vertical) e profundidade (que com as anteriores, cria o volume). Afinal, não é em vão que se utiliza a expressão “linha de pensamento”.

A mente, por sua forma de processar as informações, também podem ser “geometricamente” qualificadas. Para tanto, é preciso passar a geometria tradicional para esta que se propõe uma “geometria do pensamento”.

O comprimento são as informações in natura, colhidas da observação do mundo, sem nenhuma intervenção por quem as coleta.

A altura é a variação que o indivíduo dá ao comprimento. Digamos que o caso da ironia e da metáfora encaixe-se aqui. De uma informação x, no plano, eleva-se uma linha y, deslocando a horizontalidade do termo inicial e provocando o desvio de sentido, criando um raciocínio bidimensional. Em suma, é a intervenção do sujeito pensante na informação inicial; intervenção feita com elementos do próprio mundo, uma alavancagem semântica.

A profundidade são as referências culturais que permitem as ciências e a filosofia; é o pensamento que nasce do olha crítico do objeto horizontal; a interferência na linha outrora direta estabelecida entre objeto e observador. Mais que observador, o sujeito torna-se interventor.

E, por adição, temos três classes de raciocínio, em ordem crescente:

O linear, monodimensional. É baseado no comprimento: são pontos e linhas horizontais entre pontos; nada que fuja da horizontalidade é perceptível. É como a criança vê o mundo em suas primeiras percepções. Refuta a duplicidade; refuta o duplo sentido; refuta a metáfora. Funciona por oposições binárias, de ponto a ponto, sempre horizontal. O pensamento monodimensional aceita os dados do mundo tal como lhe são apresentados, sem questionamentos, sem relações.

O vertical, bidimensional. Conjugando-se os dois planos, há o pensamento que se desloca em aclives e declives, provocando a alteração da informação captada do mundo. É o nível das figuras de linguagem, das oscilações de registro preconizadas pela Linguística. A maioria das pessoas qualificadas como sagazes e inteligentes têm essas duas articulações dimensionais. Os índices de deslocamento vertical, no entanto, também são fornecidos pelo mundo; mas são devidamente interpretados.

O profundo, tridimensional. É a cognição humana por excelência. A articulação das três linhas. Toma-se o conhecimento do mundo pela horizontal, transforma-o alterando-lhe o sentido, na vertical e, cria-se um sentido àquilo, particular para cada indivíduo. É aqui que nascem teorizações sobre o mundo, questionamentos, ideias.

Em linhas gerais, pode-se dizer que são assim organizados:

Monodimensional: X é x, logo, x não pode ser y (opõe-se a).

Bidimensional: X pode ser y, segundo o contexto.

Tridimensional: X pode ser y e também penso que possa ser z. (aqui entra a criação)

Essa singela teoria não tem o intuito de explicar mecanismos cognitivos, mas sim organizá-los espacialmente. Não se deve confundir os escopos.

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Voltando ao caso sintomático apresentado na primeira parte, nosso entrevistado não consegue fazer um movimento vertical, dentro de um pensamento bidimensional. Está preso em um mundo de oposições maniqueístas.

Óbvio que, eventualmente, tais situações monodimensionais produzem-se por mera desatenção. Mas pode ser um índice de que as coisas não estão tão bem quanto dizem.