332. Catalunha triunfante

É fato que, sendo fruto da união dinástica entre os reinos de Castela e Aragão, a Espanha é — mesmo 500 anos depois — um país artificial. Vários povos agitam-se sob o lodaçal pesado do espanholismo, cuja face mais tenebrosa hoje é a imposição do castelhano — ou, como dizem, “espanhol” — como “língua comum” a todos os cidadãos do país.

Catalães, bascos e galegos, que têm línguas que não são o espanhol, durante décadas foram obrigados a limitar sua fala ao âmbito doméstico, com grandes prejuízos para a cultura desses povos.

Parece que a Catalunha é a primeira dessas regiões hispânicas a começar um processo de autodeterminação, não sem apupos, críticas e até mesmo ameaças vindas do governo de Madri. Depois da multitudinária manifestação do último 11 de setembro (Dia Nacional da Catalunha), o presidente da Generalitat — o governo autonômico catalão —, Artur Mas, resolveu dissolver o parlamento regional e convocar novas eleições, ocorridas no último domingo.

Embora o partido de Mas, a Convergència i Unió (CiU), almejasse a maioria absoluta do legislativo catalão — 62 cadeiras de 135 —, não a conseguiu; mas partidos que também encarnam o ideário soberanista — com destaque para a Esquerra Republicana Catalana (ERC) — têm dois terços da Casa, o que possibilitará convocar o referendo de autodeterminação para 2014, uma data emblemática para os catalães.

É bem possível que, depois de tanto tempo, comece a tomar corpo um “Adéu, Espanya!”.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 27/11/2012.

321. Giorgios Seféris, V, de “Mitologia”

Giorgios Seféris

V

Jamais os conhecemos.
……………………………… Era a esperança, no fundo de nós,
Que dizia que os havíamos conhecido desde nossa infância.
Vimo-los duas vezes, talvez, depois entraram em seus barcos;
Cargueiros de carvão, cargueiros de cereais, e nossos amigos
Desaparecidos do outro lado do oceano, para sempre.
A aurora nos encontra ao pé da lâmpada fatigada
Desenhando com esforço no papel, desajeitadamente,
Navios, sereias e conchas.
No fim do dia, descemos para o rio
Porque ele nos aponta o caminho para o mar
E passamos nossas noites em subsolos que cheiram a alcatrão.

Nossos amigos partiram.
……………………………….. Talvez jamais os hajamos visto,
Talvez os hajamos encontrado quando o sono ainda
Levava-nos junto da vaga que respira,
Talvez os procuremos porque procuramos essa outra vida
Para lá das estátuas.

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Giorgios Seféris, de “Mitologia” (1933-1934) – Tradução possivelmente de Paulo Rónai.

306. Disse o Rei Miguel

Sua Majestade, o Rei Miguel da Romênia

Dar politica este o sabie cu două tăișuri. Ea garantează democrația și libertățile, dacă este practicată în respectul legii și al instituțiilor. Politica poate însă aduce prejudicii cetățeanului, dacă este aplicată în disprețul eticii, personalizând puterea și nesocotind rostul primordial al instituțiilor Statului.

Mas a política é uma faca de dois gumes. Ela garante democracia e liberdade, se praticada com respeito às leis e às instituições. A política pode também trazer prejuízos aos cidadãos, se for exercida com desrespeito à ética, personalizando o poder e desvirtuando o propósito fundamental das instituições do Estado.

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Parte de discurso proferido do Parlamento romeno em 25/10/2011, quando S.M. o Rei Miguel foi convidado pela casa legislativa para comemoração de seus 90 anos. Texto completo em romeno aqui. Vídeo do discurso com legendas em inglês aqui.

305. “Colombo”, Altan

Columbus dixit

Colombo cru e nu

Mudando um pouco o foco, hoje enveredamos pelas HQs. Ficamos com a obra-prima “Colombo”, do italiano Altan — que inclusive foi colaborador do Pasquim. Um retrato ácido e ligeiramente cruel do grande almirante Cristóvão Colombo é o trabalho do traço jocoso do quadrinista. Dividido em 12 capítulos, conta toda a trajetória do genovês, da infância ao retorno das terras que ele morreu pensando tratarem-se das tão sonhadas Índias.

Além das peripécias-padrão do Almirante, inclua-se aí o bondoso grumete Mário, uma lasciva Isabel de Castela e os índios cínicos com que ele se depara numa terra empesteada de mosquitos. Um diferencial de “Colombo” são as sugestões de trilha sonora e os comentários violentos sob alguns quadrinhos. Imperdível.

“Colombo”, Altan. 102 págs. L&PM Editores

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 12/8/2012

300. Um pouco de numismática – Duas moedas belgas

Apesar de colecionar moedas desde os meus 6 anos, creio que dediquei poucas postagens ao assunto neste blogue (lembro-me apenas de uma, com tom relativamente ácido). Portanto, hoje dedico algumas linhas ao interessantíssimo mundo das moedas.

Muitos não percebem o valor das moedas. Não o monetário, pois hoje, tempos de moeda fiduciária, os itens metálicos ficaram para a representação dos valores menores, mero troco.

Fig. 1 – Família de moedas britânicas (fonte: Wikipédia)

Nem sempre foi assim. O papel-moeda é uma invenção da Idade Média e somente passou a ser o centro das transações no século XIX; antes, o comércio era feito com metal no formato de discos, as moedas. Uma regra que valeu por um bom tempo foi que as moedas de valor menor eram cunhadas em cobre; as de valor mediano, em prata; e as mais valiosas, em ouro. Padrão hoje que, mesmo não sendo mais usual, ainda mantém certa influência, por exemplo, na cunhagem britânica, na qual as moedas 1 penny e 2 pence são de metal similar ao cobre; as de 5, 10, 20 e 50 pence, prateadas; e a de uma libra, dourada (fig. 1).

O Brasil também seguiu esse padrão em boa parte de sua história financeira e numismática. A última moeda de prata para circulação comum é dos anos 30. Depois disso, com a progressiva desvalorização e a passagem para moeda fiduciária, optou-se pela cunhagem em materiais mais baratos, como bronze-alumínio, alumínio, cuproníquel e aço inoxidável.

Mesmo relegadas ao fundo dos bolsos, as moedas ainda podem contar muito a respeito de determinada cultura, suas influências e tradições.

Dois exemplos sobre os quais me debrucei durante uma manhã toda pode dar amostras interessantes do que podemos “arrancar” de informação de meros pedaços de metal timbrados.

São duas moedas belgas: uma de 5 francos, de 1968, e outra de 1 franco, de 1923. São moedas de valor baixo, a primeira de níquel e a segunda de cuproníquel. O que chama a atenção nas moedas belgas é o fato de que até a introdução do euro, elas eram bilíngues. A Bélgica tem uma área de língua holandesa, ao norte, e uma de língua francesa, ao sul, Flandres e Valônia, respectivamente. Mas, com algumas exceções, as moedas não traziam as duas línguas e sim havia sempre duas moedas diferentes para cada valor. Exatamente iguais, exceto onde se lê o nome do país (Belgique ou België) e, no caso da moeda anterior, do período entreguerras, o Goed voor ou Bon pour (“Bom para”).

Fig. 2 – Um franco belga, 1925

Na moeda de 1 franco (fig. 2), em seu reverso, além do Goed voor, vê-se um bastão. A primeira análise pode levar um observador incauto — como fiz inicialmente — a deduzir que se trata do bordão de Esculápio, símbolo do deus romano da Medicina e da Cura (Asclépio, na versão grega). Porém, o bordão de Esculápio não é alado. Em algumas farmácias antigas era comum vê-lo como emblema; porém, o que temos nessa moeda é um caduceu, o bordão de Mercúrio (Hermes), patrono do Comércio. Outro uso moderno desse símbolo é como representação dos sindicatos de comerciários. Logo, sua presença em uma moeda faz menção, obviamente, à função monetária, ao comércio; a função primeva da moeda foi de facilitar o comércio, para substituir a simples troca de gêneros: a moeda como intermediária das relações comerciais. Realmente interessante.

No anverso, o nome do país, België, e uma figura feminina ajoelhada, aparentemente calçando uma bota. Igualmente não se trata de uma simples alegoria feminina para ornar. Embora não tenha achado fontes textuais, faço uma dedução que tem muita chance de estar correta: trata-se da personificação da Bélgica, uma figura feminina representando a pátria.

Fig. 3 – 50 pence (1968-1997)

A ideia de personificação de conceitos, regiões e países nos vem dos romanos. Suas moedas são pródigas em exemplos de personificação, seja de províncias (Britânia – fig. 4, Germânia, Hispânia, Judeia, das que consigo lembrar-me sem recorrer a livros), de conceitos (Justiça, Liberdade, Letícia — Alegria) ou mesmo do Estado romano (Roma, Genius Populi Romani). As personificações conceituais em numismática podem ser tanto de corpo inteiro quanto apenas o busto.

Fig. 4 – Sestércio romano do imperador Antonino Pio (138-160 d.C.) com a Britânia

Entre nós tal conceito também vicejava e ainda viceja. A representação da República presente em nossas cédulas, embora seja a adaptação feita pela Revolução Francesa, evoca essas personificações antigas. A moeda de 50 pence inglesa (fig. 3), até a remodelação de 2008, apresentava a Britânia sentada, apoiando um escudo e uma lança e com um ramo de oliveira na mão esquerda.

No caso da nossa moeda de 1 franco, parece que a Bélgica calça uma bota, tem à cintura uma espada e, do outro lado, um escudo. Pode ser mesmo uma releitura da Britânia ou uma criação propriamente belga, inspirada em velhas personificações. A única informação possível é o nome do gravador, Armand Bonnetain. Não consegui informações adicionais e, infelizmente, na fig. 2 o nome do gravador foi digitalmente apagado, mas pode ser bem percebido na fig. 2A.

Fig. 2A – Um franco belga. O nome do gravador pode ser visto logo acima do pé da Bélgica, do lado esquerdo (clique para ampliar)

Fig. 5 – Cinco francos (acervo do autor)

A moeda de 5 francos também tem detalhes interessantes. Também segue o padrão de bilinguismo, mas uma língua em cada moeda. No reverso, alguns exemplares, Belgique; em outros, België. No centro, um ramo de carvalho simétrico geometricamente estilizado; é possível ver os veios da folhas e, junto com o primeiro par de folhas, as duas características bolotas da planta. À esquerda do ramo, “5”; à direira, “FR”, de franco, compondo o valor facial. Encimando o ramo de carvalho, uma coroa real com fitas esvoaçantes. Trata-se de uma representação heráldica alegórica, uma vez que a monarquia belga não tem uma coroa física, como a inglesa.

No anverso, a representação de Ceres, considerada por romanos e gregos (sob o nome de Deméter) a entidade tutelar da Agricultura. Do lado esquerdo, a data; do direito, uma cornucópia, símbolo romano que representa a Agricultura e o Comércio; trata-se de um chifre de cabra cheio de gêneros agrícolas: trigo, frutas, legumes. Tem relação ao mito da cabra Almateia, que alimentou Júpiter (Zeus) em sua primeira infância. É um símbolo de abundância, que faz eco com a efígie de Ceres. Abaixo do busto, o nome do gravador: Rau, Marcel Rau.

Espero dar continuidade a este tipo de artigo entre as críticas políticas. É bom para desopilar o fígado.

286. “O Dicionário Kazar”, Milorad Pavitch

A fumacinha enciclopédica do cachimbo literário de Milorad Pavitch

Lendo dicionário

Tendo como tema principal a conversão dos cazares ao judaísmo, “O Dicionário Kazar – Romance-enciclopédia em 100.000 palavras” é um romance, como o próprio nome indica, em verbetes. A obra do sérvio Milorad Pavitch apresenta-se como uma obra do século 17 que narra a conversão dos cazares — um povo não-eslavo das estepes entre os mares Cáspio e Negro — com um léxico e com apêndices organizados sob três ópticas diferentes: o Livro Amarelo (pelo judaísmo), o Livro Verde (pelo islamismo) e o Livro Vermelho (pelo cristianismo).

“O Dicionário Kazar”, segundo sua própria introdução, pode ser lido em qualquer sequência, ficando a critério do leitor qual caminho seguir. Chama a atenção ainda o fato de existirem duas edições, uma dita “masculina” e outra “feminina”. A diferença é apenas um parágrafo em certo ponto do livro; mas a alteração de sentido provocada pode ser crucial.

O “Dicionário…” É o primeiro romance de Pavitch e foi publicado originalmente em 1984.

O Dicionário Kazar – Milorad Pavitch – Marco Zero – 300 págs. – Preço variável

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Sugestão publicada na Tribuna Impressa de Araraquara em 18/6/2012.

283. Visita a Lênin

Trata-se de um capítulo de “Gog”, de Giovanni Papini. Está em castelhano, mas não é difícil de acompanhar.

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Lênin em estado avançado de dodói

VISITA A LENIN

Moscú, 3 julio

He estado porfiando casi un mes, pero al fin lo he conseguido. Había venido a Rusia únicamente para conocer a este hombre y no quería marcharme sin haberle oído hablar. Me parece, en su género, uno de los tres o cuatro vivientes que vale la pena de escuchar. Llegar hasta él me ha costado casi veinte dólares —regalos a las mujeres de los comisarios, propinas a los soldados rojos, donativos a los asilos de huérfanos—, pero no lo lamento.

 Decían que Vladimiro Ilitch estaba enfermo, cansado, y que no podía recibir a nadie, a excepción de sus íntimos. No permanece ya en Moscú, sino en una aldea vecina, en una antigua villa de señores, con el acostumbrado peristilo de columnas blancas a la entrada. El viernes por la noche las últimas dificultades habían sido vencidas y el teléfono me advirtió que el domingo se me esperaba. Dijeron a Lenin que mi capital podría  ayudar a los difíciles comienzos de la «Nep» y había consentido en verme.

Fui recibido por la esposa, una mujer gorda y taciturna, que me miró como las enfermeras miran a un nuevo enfermo que entra en la sala. Encontré a Lenin en un pequeño balcón, sentado ante una gran mesa cubierta de grandes hojas de dibujos. Me produjo la impresión de un condenado al cual se le permite gandulear en paz en las últimas horas de su vida. La característica cabeza de tipo mongólico parecía hecha de queso viejo y seco; árida y, sin embargo, blanda. Entre los labios sucios, la calavera mostraba ya la fila siniestra de sus dientes. El cráneo, vasto y desnudo, hacía el efecto de una caja barbárica construida con el hueso frontal de algún monstruo fósil. Dos ojos turbios e inquisitivos de pájaro solitario estaban agazapados dentro de los párpados sanguinolentos.

Las manos jugueteaban con un lápiz de plata: se veía que habían sido grandes y fuertes manos de labrador, pero con su descarnadura anunciaban la muerte. No podré olvidar nunca sus orejas de marfil chupado, tendidas hacia fuera como para coger los últimos sonidos del mundo, antes del gran silencio.

Los primeros minutos del coloquio fueron  más bien penosos. Lenin se esforzaba en estudiarme, pero con aire distraído, como si cumpliese un deber que ahora ya no le importaba. Y yo, ante aquella máscara azafranada y cansada, no tenía valor para hacer las preguntas que me había propuesto. Murmuré al azar un cumplido sobre la gran obra realizada por él en Rusia. Y entonces aquella cara medio muerta se llenó de arrugas espectrales que querían ser una sonrisa sarcástica.

—Pero si todo estaba hecho —exclamó Lenin con un brío inesperado y casi cruel—; todo estaba hecho antes de que llegásemos nosotros. Los extranjeros y los imbéciles suponen que aquí se ha creado algo nuevo. Error de burgueses ciegos. Los bolcheviques no han hecho más que adoptar, desarrollándolo, el régimen instaurado por los zares y que es el único adaptado al pueblo ruso. No se pueden gobernar cien millones de brutos sin el bastón, los espías, la policía secreta, el terror, las horcas, los tribunales militares, las galerías y la tortura. Nosotros hemos cambiado únicamente la clase que fundaba su hegemonía sobre este sistema. Eran sesenta mil nobles y tal vez unos cuarenta mil grandes burócratas; en total, cien mil personas. Hoy se cuenta cerca de dos millones de proletarios y de comunistas. Es  un progreso, un gran progreso, porque los privilegios son veinte veces más numerosos, pero el noventa y ocho por ciento de la población no ha ganado mucho en el cambio. Esté seguro de que no ha ganado nada, y es al mismo tiempo lo que se quiere, lo que se desea, aunque por otra parte era absolutamente inevitable.

Y Lenin comenzó a reír en sordina como un  comerciante que ha engatusado a alguien y contempla alegremente las espaldas del burlado que se va.

— Entonces —murmuré —, ¿y Marx, y el progreso, y lo demás?

— A usted, que es un hombre potente y extranjero — añadió —, se lo podemos decir todo.

Nadie lo creerá. Pero recuerde que Marx mismo nos ha enseñado el valor puramente instrumental y ficticio de las teorías. Dado el estado de Rusia y de Europa me he tenido que servir de la ideología comunista para conseguir mi verdadero fin. En otros países y en otros tiempos hubiera elegido otra.

Marx no era más que un burgués hebreo aferrado a las estadísticas inglesas y admirador secreto del industrialismo. Le faltaba el sentido de la barbarie, y por esta razón era apenas una tercera parte del hombre. Un cerebro saturado de cerveza y de hegelianismo, en el que el amigo Engels esbozaba alguna idea genial. La Revolución rusa es una completa negación de las profecías de Marx. Donde no había casi burguesía, allí ha vencido el comunismo.

»Los hombres, señor Gog, son salvajes espantosos que deben ser dominados por un salvaje sin escrúpulos, como yo. El resto es charlatanería, literatura, filosofía y músicas para uso de los tontos. Y como los salvajes son semejantes a los delincuentes, el principal ideal de todo Gobierno debe ser el de que el país se asemeje lo más posible a un establecimiento penal. La vieja mazmorra zarista es la última palabra de la sabiduría política. Bien meditado, la vida del presidiario es la más adaptada al promedio vulgar de los hombres. No siendo libres, están, al fin, exentos de los peligros y de las molestias de la responsabilidad y se hallan en condiciones de no poder realizar el mal.

Apenas un hombre entra en la prisión, debe, por la fuerza, llevar la vida de un inocente. Además, no tiene pensamientos ni preocupaciones, pues ya están aquí los que piensan y mandan por él; trabaja con el cuerpo, pero su espíritu descansa. Y sabe que todos los días tendrá qué comer y podrá dormir, aunque no trabaje, aunque esté enfermo, y todo esto, sin las preocupaciones que incumben al libre para procurarse su pan cada mañana y un lecho cada noche. Mi sueño es transformar a Rusia en un inmenso establecimiento penal, y no se imagine que lo diga por egoísmo, pues con un tal sistema, los más esclavos y sacrificados son los jefes y los que los secundan.

Lenin calló un momento y se puso a contemplar un diseño que tenía ante sí. Representaba, según me pareció, un palacio alto como una torre, agujereado por innumerables ventanas redondas.

Me atreví a formular una de mis preguntas:

— ¿Y los campesinos?

— Odio a los campesinos — respondió Vladimiro Ilitch con un gesto de asco—, odio al mujik idealizado por aquel reblandecido occidental llamado Turguenev y por aquel hipócrita fauno convertido que se llama Tolstoí. Los campesinos representan todo lo que detesto: el pasado, la fe, la herejía y la manía religiosa, el trabajo manual. Los tolero y los acaricio, pero los odio. Quisiera verlos desaparecer todos, hasta el último. Un electricista vale, para mí, por cien campesinos.

»Se llegará, según espero, a vivir con los alimentos producidos en pocos minutos por las máquinas en nuestras fábricas químicas, y podremos al fin hacer la matanza de todos los labriegos inútiles. La vida en la naturaleza es una vergüenza prehistórica.

»Tenga usted en cuenta que el bolcheviquismo representa una triple guerra: la de los bárbaros científicos contra los intelectuales podridos, del Oriente contra el Occidente y de la ciudad contra el campo. Y en esta guerra no dudaremos en la elección de las armas. El individuo es algo que debe ser suprimido. Es una invención de aquellos gandules griegos o de aquellos fantásticos germanos. Quien resista será extirpado como una pústula maligna. La sangre es el mejor abono ofrecido a la Naturaleza.

»No crea que yo sea cruel. Todos estos fusilamientos y todas estas horcas que se levantan por mi orden me disgustan. Odio a las víctimas, sobre todo porque me obligan a matarlas. Pero no puedo hacer otra cosa. Me vanaglorio de ser el director de una penitenciaría modelo, de un presidio pacífico y bien organizado. Pero  aquí se hallan, como en todas  las prisiones, los rebeldes, los inquietos, aquellos que tienen la estúpida nostalgia de las viejas  ideologías y de las mitologías homicidas. Todos ésos son suprimidos. No puedo permitir que  algunos millares de enfermos comprometan la felicidad futura de millones de hombres. Además, al fin y al cabo, las antiguas sangrías no eran una mala cura para los cuerpos. Hay una cierta voluptuosidad en sentirse amo de la vida y de la muerte. Desde que el viejo Dios fue muerto —no sé si en Francia o en Alemania—, ciertas satisfacciones han sido acaparadas por el  hombre. Yo soy, si quiere, un semidiós local, acampado entre Asia y Europa, y, por tanto, me puedo permitir algún pequeño capricho. Son gustos de los que, después de la decadencia de los paganos, se había perdido el secreto. Los sacrificios humanos tenían algo bueno: eran un símbolo profundo, una alta enseñanza; una fiesta saludable. Y yo, en vez de los himnos de los fieles, siento llegar hasta mí los alaridos de los prisioneros y de los moribundos, y le aseguro que no cambiaría con la novena sinfonía de Beethoven esa sinfonía, canto anunciador de la beatitud próxima.

Y me pareció que el rostro descompuesto y cadavérico de Lenin se inclinaba hacia delante para escuchar una música silenciosa y solemne,  que tan sólo él podía oír. Apareció la señora Krupskaia para decirme que su marido estaba cansado y que tenía necesidad de un poco de reposo.

Me marché en seguida.

He gastado casi veinte dólares para ver a este hombre, pero en verdad no me hace el efecto de que los haya malgastado.

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Fonte: www.ultimoreducto.com/libros/Gog.pdf

278. O Marquês de Pombal e o português

O Marquês de Pombal em sua glória. Detalhe de pintura de Louis-Michel van Loo e Claude Joseph Vernet (1766)

O texto abaixo foi desenvolvido como atividade acadêmica, mas que foi erroneamente interpretada. Logo, não serviu como atividade. Há algumas considerações interessantes que gostaria de dividir com os meus leitores. Afinal, o texto ficaria apodrecendo no fundo de um pen drive.

Peço desculpas pela empolação acadêmica. Às vezes, ela é necessária para um igualmente empolado — e empoleirado — interlocutor.

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A imposição do português como idioma único no período pombalino tem ainda relação com a ideologia de formação dos estados nacionais (sécs. XV-XVI). Um povo, um rei, uma língua. Embora só tenha ocorrido tardiamente no Brasil (por falta de gente ou por displicência?), na Europa, a imposição de um dialeto sobre os demais de um território nacional era a regra. Assim ocorreu com o francês (o dialeto da Ilha de França, a região de Paris), que foi tornado obrigatório nas cortes de justiça por decreto (1539). O mesmo ocorreu com o castelhano que se sobrepôs ao galego, ao catalão e até mesmo adotou um nome nacional, “espanhol”.

A questão do Marquês de Pombal com o português dividia-se em: 1) uma administração mais eficiente (por isso a “unidade” linguística de Portugal e domínios foi buscada); 2) a “condenação” à língua geral tem relação direta com os jesuítas, expulsos em 1760, que a usavam para catequese dos índios e que atingiu mesmo foros de língua literária, tendo sido compilada e normalizada pelos religiosos.

A língua geral de base tupi, ao que parece, deixou-nos (aos falantes do Interior paulista, sul de Minas, norte do Paraná, Goiás e Mato Grosso do Sul) um r retroflexo. Sílvia Figueiredo Brandão, em seu “Nas trilhas do -r retroflexo” (Signum, Estud. Ling., Londrina, n. 10/2, p.265-283, dez. 2007), sobre o fonema que não está presente em nenhuma outra área do português, que há um esforço dos filólogos em determinar o ponto de irradiação (São Paulo) e o meio de difusão (entradas e bandeiras) do r retroflexo. Se é algo que tem relação com os bandeirantes, o fonema tem base na língua geral, pois os bandeirantes, muitos deles falavam um português “atravessado”, sendo sua língua materna a língua geral “criada” pelos jesuítas.

O mote principal das reformas pombalinas não era a língua em si; o predomínio esperado do português era um instrumento para o objetivo maior: a unidade política e cultural do império português. Tal como se lê no famoso gramático castelhano Antonio de Nebrija, “a língua sempre foi companheira do Império”[1]. Ideia também reforçada pelos gramáticos lusos Fernão de Oliveira (1540), João de Barros (1540) e Duarte Nunes do Lião (1606)[2].

A questão da ‘imposição’ da língua portuguesa no Estado do Pará e no Estado do Maranhão[3] pela Lei do Diretório de 1757 passa primeiramente pela questão da expulsão da Companhia de Jesus de Portugal e seu império colonial. De um ponto de vista “oficial”, os jesuítas, além de não respeitarem as ordens reais prévias — deduz-se pelo parágrafo 6º da Lei de 1757 —, tampouco obedeciam à diretriz aprovada pelo concílio de Trento (1562), “[…] o qual impunha o uso do latim nas atividades litúrgicas católicas” (GOULARTE, 2007).

A missão primeva dos jesuítas era a catequese e a língua geral amazônica — por eles mesmos compilada a partir do tupi. Era mais fácil proceder à catequização com essa língua franca, o que ajudou enormemente em sua difusão mesmo entre os descendentes dos colonos portugueses.

Embora os textos consultados não façam diferenciação, a Lei do Diretório faz referências às atuais regiões Norte e Nordeste do País, cuja variante da língua geral era diferente. No Norte, a língua geral amazônica — ainda hoje falada em São Gabriel da Cachoeira/AM e uma das línguas oficiais do município — e a língua geral paulista, codialetos entre si. Além do mais “não há documentos que comprovem a extensão do Diretório a toda a Colônia, o que leva a crer que isso não tenha ocorrido” (FÀVERO, 2005).

A intenção do Marquês de Pombal era o controle temporal de vastas áreas da colônia que, por conta da administração do ensino, estavam de facto na mão da Companhia de Jesus. A substituição do ensino ministrado pela Companhia por um ensino estatal era uma arma de efetivo domínio e controle. O próprio texto da Lei deixa transparecer uma ideia de polidez e assimilação linguística:

Sempre foi máxima inalteravelmente praticada em todas as Nações, que conquistaram novos Domínios, introduzir logo nos povos conquistados o seu próprio idioma, por ser indisputável, que este é um dos meios mais eficazes para desterrar dos Povos rústicos a barbaridade dos seus antigos costumes; e ter mostrado a experiência, que ao mesmo passo, que se introduz neles o uso da Língua do Príncipe, que os conquistou, se lhes radica também o afeto, a veneração, e a obediência ao mesmo Príncipe. (PORTUGAL, 1757; art. 6º), grifos nossos.

A língua do Príncipe. Eis o “português-padrão” de então. Se bem que apoiado nos gramáticos já citados, mormente em João de Barros. O texto acusa ainda que, em vez de se proceder a introdução do idioma

[…] se praticou tanto pelo contrário, que só cuidaram os primeiros Conquistadores estabelecer nela o uso da Língua, que chamaram geral; invenção verdadeiramente abominável, e diabólica, para que privados os Índios de todos aqueles meios, que os podiam civilizar, permanecessem na rústica, e bárbara sujeição, em que até agora se conservavam. (PORTUGAL, 1757, art. 6º)

Os adjetivos que qualificam a língua geral não deixam dúvida do lugar que lhe caberá na nova organização estatal almejada pelo Marquês de Pombal. Valendo-se ainda de preceitos religiosos (antijesuítas, mas de fundo cristão), qualifica negativamente a língua geral.

A língua tem um papel primordial no novo Estado pombalino, por isso a preocupação de difundi-la, impô-la, “dar-lhe esplendor” (afinal, é a língua do Príncipe).

REFERÊNCIAS

FÁVERO, Leonor Lopes. Século XVIII – A língua portuguesa no Brasil e o discurso do poder. In: GONÇALVES, M. et al. Gramática e humanismo, vol. 1. Universidade Católica Portuguesa: Braga, 2005.

GOULARTE, Raquel da Silva. O ‘ensino’ do português para os índios do Brasil: um percurso de intenções. Anais. 16º Congresso de leitura do Brasil: Campinas, 2007. Disponível em: <http://alb.com.br/arquivo-morto/edicoes_anteriores/anais16/sem04pdf/sm04ss03_04.pdf>, acessado em 8.mai.2012

PORTUGAL. Lei do Diretório (1755, 1757). 1757. Disponível em <http://www.nacaomestica.org/diretorio_dos_indios.htm>, acessado em 8.mai.2012.

TROUCHE, Lygia Maria Gonçalves. O Marquês de Pombal e a Implantação da Língua Portuguesa no Brasil – Reflexões sobre a proposta do Diretório de 1757. Cadernos do CNLF, Série IV, no. 12 -Semiótica, Discurso, Leitura, História da Língua Portuguesa e Neurolinguística Aplicada – IV Congresso nacional de Linguística e Filologia, 2000.


[1] Apud FÁVERO, 2005, p. 317-330.

[2] Idem, ibidem.

[3] Divisões coloniais muito mais amplas que as atuais unidades homônimas; o próprio termo ‘estado’ deve ser lido não com o significado que a ele damos hoje.

256. Trinta anos de uma guerra populista

Tropas britânicas na ilha à época da Guerra

Ontem, completaram-se 30 anos da malfadada Guerra das Malvinas. Em 2 de abril de 1982, os argentinos desembarcaram naquelas ilhas do Atlântico Sul, retirando o Union Jack dos britânicos e instalando em seu lugar o Sol de Mayo entre barras celestes.

As Malvinas — ou Falklands, como as chamam seus habitantes — são o centro de uma questão central do imaginário argentino. Nossos hermanos falam de anexação por parte do Reino Unido; britânicos, em reocupação, pois consideram que as ilhas já eram nominalmente suas antes de 1833, ano em que se instalaram ali com colonos. Considera-se que a autoridade argentina sobre as ilhas tenha sido apenas entre 1820 e 1833. Treze anos.

Governos argentinos que se sucederam sempre consideraram as ilhas suas, mas o conturbado século 19 no continente impediu qualquer movimento para a retomada, o que não atenuou o sentimento de perda e remorso.

Em 1982, uma junta militar com baixa popularidade guiada pelo General Leopoldo Galtieri concebeu o ‘Plano Rosario’, que culminou com a tomada das ilhas. A Argentina vislumbrava três pontos favoráveis: 1) ambiente positivo por conta de uma resolução da ONU sobre descolonização; 2) o desinteresse britânico em ilhotas perdidas e; 3) apoio americano àquelas pretensões territoriais. Como sabemos, saiu tudo às avessas.

Agora, temos um governo argentino populista que anda também com baixa popularidade. Inflação, desemprego, insatisfação reinam no país da dinastia Kirchner. E é claro que invocar o fantasma das Malvinas é cômodo: questões sentimentais angariam votos e carisma.

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Texto publicado na Tribuna Impressa de Araraquara de 3/4/2012.

255. “A jangada de pedra”, José Saramago

Península Ibérica à noite

Flutuação ibérica

Portugal e Espanha sempre tiveram um problema de identificação com a Europa: eram ricos e tinham colônias quando o continente trincava-se em guerras; decadentes no período de grande pujança econômica europeia; com regimes ditatoriais enquanto a Europa consolidava a democracia. Os olhares europeus para a Península Ibérica também nunca foram os melhores. “A Europa termina nos Pirineus”, disse certa vez Talleyrand.

É com essa ideia que José Saramago escreveu “A Jangada de Pedra”, de 1986. Iberista convicto, melancolicamente acolhe a separação entre o continente e a “ilha” ibérica. Em uma metáfora surpreendente, a península descola-se da Europa e começa a navegar pelo Atlântico, para desespero de seus habitantes.

Como centro da narrativa, um grupo que se une por acaso e percorre os dois países da agora ilha, registrando suas impressões enquanto a massa de terra navega rumo à América do Norte.

A alegoria pode ser mesmo lida com uma chave bem atual: a crise econômica que assola as duas nações e o papel que elas representam hoje na Europa.

Prêmio Nobel de Literatura, Saramago é conhecido pela obra e pela. Seu inovador modo de colocar diálogos no texto em parágrafos compactos é curioso à leitura da primeira obra, depois, a coisa se torna um pouco cansativa.

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Uma versão ligeiramente alterada saiu na Tribuna Impressa de Araraquara em 1º/4/2012.

213. O euro e a Europa

Bandeira da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (1951-2002)

A eventual saída da Grécia da Eurozona é preocupante: caso a crise europeia se agrave, outros países poderão tomar o mesmo rumo, arruinando a moeda única. Mas o fim do euro e a reintrodução das divisas nacionais não é o pior cenário. Economicamente, um transtorno sem par; moralmente, uma catástrofe sem precedentes.

O euro não é apenas uma moeda. Personifica um continente que exsurgiu das ruínas de uma guerra fratricida; é o símbolo da paz tão almejada pelos europeus nos sombrios anos do pós-guerra.

Em 1951, fundou-se em Paris a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, com escopo comercial, mas buscando a integração e procurando afastar as tradicionais rivalidades. Tinha por signatários Itália, França, Bélgica, Países Baixos, Luxemburgo e Alemanha Ocidental. Tais negociações darão forma ao Tratado de Roma, em 1957, a certidão de nascimento da Comunidade Econômica Europeia, União Europeia depois de 1995.

A relação entre seus membros — 6 em 1957, 27 hoje — não é apenas econômica. Buscou-se uma identidade europeia baseada na convivência e na concórdia.

A moeda única que veio coroar a ideia da Europa empenhada pela paz e não é mera chispa. É passo decisivo que começou em 1979, com a Unidade Monetária Europeia (ECU, na sigla inglesa), moeda escriturária. Em 1999, ainda como moeda “virtual”, passou a chamar-se euro, e em 2001, já como moeda física, materializou a unidade do continente.

Frente à crise financeira instalada e o enfraquecimento de suas instituições, a Europa corre o risco de retroceder — não imediatamente — a um ambiente pré-1914. Monetária e politicamente falando.

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Artigo publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 7/1/2012. Aqui.