363. O poleiro dos articulistas e uma nota

poleiro1É fato que há vários tipos de artigos de jornal; eu diria que seus autores são um pouco como pássaros. Há articulistas que são como o pardal, cujo texto é um pipilar estridente e nervoso, porém ágil; outros são como maritacas, exuberantes e gritalhões; outros ainda são lacônicos e observadores, como as corujas. E ainda há articulistas corvos, pavões, cacatuas.

Quando se fala em artigo de opinião, é claro que o articulista não pode deslocar-se ao sabor das vagas do senso comum. Se o faz, é um náufrago do raciocínio, um reles demagogo. Não passará de um pato preso no cercado.

A função do articulista não é deleitar o leitor. Ao contrário, o intuito é incomodá-lo, tirá-lo da confortável poltrona das certezas absolutas, é trazê-lo para o debate, principalmente pela oposição. Pardais concordam com os pardais, mas não com as maritacas e, com a(s) minha(s) pena(s), quero algum tipo de debate e não aplausos de plástico. Debate entre gente que tem as mesmas ideias não passa de convenção de papagaios ou simpósio de puxa-sacos.

Talvez determinadas opiniões que aqui vêm sendo expostas tenham justamente o propósito de incitar discussões. Talvez. Deixo aos leitores o benefício da dúvida.

A nota — Um habitual e atento leitor desta coluna apontou um erro grosseiro no meu artigo “Ação e Reação” (5/2/2013). Quando usei a terceira lei de Newton como metáfora para o assunto tratado no texto, cometi um erro de transcrição e pus ali o enunciado da segunda lei, embora a ideia central baseie-se efetivamente na terceira. Minhas desculpas aos leitores e um agradecimento ao leitor que, argutamente, percebeu a falha, o que é belo e instrutivo.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 26/2/2013.

362. Pedro, Rei e Imperador

Pedro I mostrado como Pedro IV, Rei de Portugal

Pedro I mostrado como Pedro IV, Rei de Portugal

É oportuna a exumação de Suas Majestades Imperiais Dom Pedro I, Dona Maria Leopoldina de Áustria e de Dona Amélia de Leuchtenberg, respectivamente Imperador e suas esposas. Os estudos forenses estão sendo feitos pela arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel, da Universidade de São Paulo.

Havia muitos mitos sobre a personalidade dessas figuras históricas, mormente sobre Dom Pedro I, Pai da Pátria, cuja imagem foi vilipendiada pela república que se seguiu ao infame 15 de novembro de 1889.

Pedro de Bragança foi escolhido como Príncipe Regente quando da volta da Família Real portuguesa à Europa. Os ditames das Cortes de Lisboa exigiam a recolonização do Brasil — que então era reino dentro do Reino Unido de Brasil, Portugal e Algarves; Pedro e Maria Leopoldina, atendendo aos anseios populares, declararam, em 1822, o Brasil independente.

O menino Pedro foi criado num ambiente menos rígido que uma corte europeia. Andava a cavalo, misturava-se com o povo. Teve falhas na sua educação formal — daquilo que se espera de um príncipe. Longe de orgulhar-se de tais defeitos, procurou saná-los na educação dos filhos, um dos quais seria o sábio Imperador Pedro II.

Por seus feitos e fama, foram-lhe ofertados os tronos de Espanha e Grécia, reconhecimentos internacionais a sua pessoa; as honras foram gentilmente negadas.

Morreu em 1834, como general português, depois de assumir a Coroa da terra natal apenas para defendê-la do irmão Miguel. Em seu testamento, não fez distinção entre filhos legítimos e naturais. Bom pai, governante exemplar. Que sua memória seja restaurada no brilho daquilo que Pedro realmente foi: o único estadista brasileiro digno de tal título.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 22/2/2012.

361. Angústia cubana

"Vamos lá no fundo e eu te mostro a revolução no seu centro."

“Vamos lá no fundo e eu te mostro a revolução no seu centro.”

A chegada da blogueira Yoaní Sánchez nos faz lembrar que Cuba é a terra da infelicidade política. Poucos países modernos foram tão massacrados por tiranias de longa duração. Primeiro, o domínio espanhol, que se estendeu até 1898, ano em que a Guerra Hispano-Americana, entre Espanha e Estados Unidos, deu à ilha independência de jure, mas certos dispositivos de sua constituição — adicionados pela tenebrosa Emenda Platt — davam ao Grande Irmão do Norte a última palavra em questões internas da nova república.

Depois, além do domínio americano, a ditadura de Fulgencio Batista, que se estendeu de 1934 a 1959. Neste último ano, a guerrilha que vinha sendo desenvolvida desde 1953 por Fidel Castro e Che Guevara finalmente chega ao poder. A revolução não era originalmente comunista, como o próprio Fidel ressaltou quando de sua visita aos EUA — país que apoiava o movimento contra Batista. A guinada à esquerda e a aliança com a URSS não passaram de oportunismo, foram apenas uma reação à rápida deterioração da situação diplomática entre a nação caribenha e os EUA.

Desde 1959, a família Castro mantém a ilha como um latifúndio. Sua base econômica é a mesma dos tempos coloniais; o embargo burro dos EUA, antes de minar o regime, é uma eficiente propaganda. Num golpe de marketing, Cuba mostra-se como mártir.

Os que foram recepcionar Yoaní no Aeroporto de Salvador com cartazes pró-Cuba — acusando a blogueira de ser paga pela CIA e exaltando a pátria socialista, entre outras boçalidades — ignoram que o regime, em seus quase 55 anos de mandos e opressões, é muito pior que, por exemplo, o nosso Regime Militar. Mas a ideologia maniqueísta presente na esquerda, além de envenenar, cega.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, 19/2/2013.