363. O poleiro dos articulistas e uma nota

poleiro1É fato que há vários tipos de artigos de jornal; eu diria que seus autores são um pouco como pássaros. Há articulistas que são como o pardal, cujo texto é um pipilar estridente e nervoso, porém ágil; outros são como maritacas, exuberantes e gritalhões; outros ainda são lacônicos e observadores, como as corujas. E ainda há articulistas corvos, pavões, cacatuas.

Quando se fala em artigo de opinião, é claro que o articulista não pode deslocar-se ao sabor das vagas do senso comum. Se o faz, é um náufrago do raciocínio, um reles demagogo. Não passará de um pato preso no cercado.

A função do articulista não é deleitar o leitor. Ao contrário, o intuito é incomodá-lo, tirá-lo da confortável poltrona das certezas absolutas, é trazê-lo para o debate, principalmente pela oposição. Pardais concordam com os pardais, mas não com as maritacas e, com a(s) minha(s) pena(s), quero algum tipo de debate e não aplausos de plástico. Debate entre gente que tem as mesmas ideias não passa de convenção de papagaios ou simpósio de puxa-sacos.

Talvez determinadas opiniões que aqui vêm sendo expostas tenham justamente o propósito de incitar discussões. Talvez. Deixo aos leitores o benefício da dúvida.

A nota — Um habitual e atento leitor desta coluna apontou um erro grosseiro no meu artigo “Ação e Reação” (5/2/2013). Quando usei a terceira lei de Newton como metáfora para o assunto tratado no texto, cometi um erro de transcrição e pus ali o enunciado da segunda lei, embora a ideia central baseie-se efetivamente na terceira. Minhas desculpas aos leitores e um agradecimento ao leitor que, argutamente, percebeu a falha, o que é belo e instrutivo.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 26/2/2013.

360. Experimentação social

"Culpa sua, seu pai de merda!"

“Culpa sua, seu pai de merda!”

Deve ter começado na Grã-Bretanha, uma boa terra, mas que ultimamente tem produzido mais minhocas que batatas. Virou moda alguns pais moderninhos não quererem “impingir estereótipos” relacionados ao sexo biológico de seus rebentos. Criam-no como um ser assexuado, dão-lhe nomes neutros como Tempestade, Trovão, Chuva ou outro fenômeno da natureza e permitem que se vistam da maneira que bem entenderem — um menino com roupas de menina, por exemplo — e brinquem com os brinquedos que lhe apetecerem.

Não sei até que ponto tais liberalidades podem ser úteis à formação do caráter da criança. Já me explico: a nossa vida em sociedade prevê determinados padrões que são compartilhados pela comunidade. Promover uma quebra abrupta de tais padrões, longe de ajudar a criança, pode prejudicá-la.

A criança pode entrar em um vórtice de confusão; deve-se sim ensiná-las a respeitar as pessoas independentemente do que elas sejam, da sua aparência, da sua cor, ou seja, promover uma mudança de pensamento, de atitudes.

Esse tipo de maluquice é própria dos nossos tempos, em que as pessoas pensam com as gônadas em vez de fazê-lo com o cérebro. Além do mais, é um tipo de experimentação social inaceitável, uma engenharia social em pequena escala: pais não têm o direito de fazer de seus filhos cobaias. É desumano para a criança, que vai crescer num mundo em que há expectativas sociais.

Não é praticando a iconoclastia, permitindo que um menino vá à escola de tutu cor-de-rosa ou de vestido que o mundo vai mudar: isso é um subterfúgio idiota; é reduzir todos os problemas à forma estética da coisa.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 15/2/2013.

338. A centopeia política

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Nosso regime é recheado de problemas. É quase uma piada de mau gosto chamá-lo democracia; poderia ter qualquer nome: corporativismo, partidocracia, criptocracia. Chamam-no democracia por moda e conveniência.

A grande falha — uma entre milhares — do sistema político brasileiro são seus partidos. Não os partidos em si, mas a forma que a lei estipula como deve ser formados, que segue legislação federal de caráter unitário.

Em um país tão grande, é impensável que os problemas que afligem, por exemplo, Araraquara, sejam os mesmos da Capital do Estado ou os da cidade de Oiapoque, no Amapá. Por conta do obrigatório caráter nacional, nossos partidos transformaram-se em monstros políticos, centopeias que se escondem sob o pedregulho estatal e atrapalham sua renovação e a diminuição. É óbvio que todo o mecanismo de legalização dos partidos foi criado por eles mesmos e embutido na legislação.

Por que não podemos ter candidatos independentes, como em vários outros lugares do mundo, cujo compromisso não fosse regido por cores partidárias, mas pelo real compromisso para com a população?

Outro dia, navegando pela internet, vi alguns dados sobre as eleições municipais e autonômicas na Espanha. Há municípios cuja população une-se e forma frentes para disputar as eleições, comumente chamadas de uniones. Ou seja, há os grandes partidos, com representação nacional, há partidos regionais — como, por exemplo, na Catalunha, onde os principais agentes políticos são partidos regionais — e há também as pequenas uniões.

Talvez fosse tempo de o Brasil começar a desmantelar o monstro partidista que, com sua coesão, ignora peculiaridades em prol do corporativismo político.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 11/12/2012.

335. O velho novo mundo

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Parece que a América foi descoberta outra vez. Os “colombos” da educação estão fazendo estardalhaço na televisão e em outdoors: reinventaram o ensino médio integrado ao técnico.

Antes de 1998, era assim que o ensino técnico estadual funcionava. Prestava-se o vestibulinho e, sendo aprovado, cursava-se o ensino médio integrado a disciplinas de uma área específica. A grande maioria dos cursos era de quatro anos, um a mais que o ensino médio convencional. A proporção de disciplinas técnicas na grade curricular ia aumentando na passagem dos anos. Era uma opção interessante para quem não tinha tempo ou paciência para fazer um curso superior. E outra: bacharéis ficam avessos a certas atividades excessivamente manuais, mesmo que sejam vinculadas ao seu métier.

Em 1998, o Governo do Estado, amparado na famigerada Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, Lei federal nº 9.394/96), reorganizou o sistema de ensino técnico do Estado, desvinculando o ensino médio em si, que passou a ser ministrado como no resto da rede, do ensino técnico, cujo acesso ficou vinculado a um segundo exame de admissão. A desculpa na época era que muitos faziam o ensino técnico — conhecido por sua boa qualidade — para disputar o vestibular.

A solução deu tão certo, que voltaram ao sistema anterior. Cursar o médio regular e o técnico implica em o aluno ter dupla jornada, o que não raramente atrapalha quem trabalha. Outra: a conclusão das modalidades técnicas — a maioria delas — requer um estágio curricular. Como fazê-lo com dupla jornada escolar?

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Publicado na Tribuna Impressa  de Araraquara em 4/12/2012.