364. O ‘pibinho’ e suas obviedades

Statism Gun

Gostaria de começar este artigo assim: “Otimistas são uma verdadeira praga”. Mas não posso. A ideia era criticar aqueles que tratam a economia brasileira como algo blindado, inatingível. A maior prova que sustêm é que “a crise europeia não aportou na Botocúndia”.

O lastro atual da economia brasileira é o consumo. Prova da sua importância na produção da riqueza nacional são as reduções de impostos, pensadas para manter os níveis de produção elevados. Parece que a estratégia, embora tenha aquecido as vendas, não foi suficiente para segurar o crescimento econômico: o PIB avançou pífio 0,9%, o menor entre os emergentes. Isso se deve ao fato de a economia brasileira basear-se em consumo e commodities. Nada que possa gerar crescimento sólido.

Os pseudo-otimistas louvavam a distância da crise. Pseudo-otimistas porque não os move a coerência da análise, mas a tara estatista de que o Governo sabe — se é que um dia soube — tratar da questão. Governos primam pela incompetência na área econômica.

Geralmente manipulados, os números são o sintoma mais superficial de doenças perigosas. Há apenas investimentos industriais localizados; os destinados à infraestrutura, feitos pelo poder público, estão à míngua — basta ver as obras da transposição do São Francisco, a Transamazônica da era PT.

O “pibinho” é apenas a verruga de uma metástase. Governo precisa deixar de intervir na economia; o capitalismo de Estado brasileiro tem dado resultados ruins e perigosos. O abstencionismo estatal já nos garantiria condições suficientes para o desenvolvimento interno e para a migração de uma economia primária a uma base de produtos manufaturados, da qual consumo e commodities seriam tributários.

* * *

Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 5/3/2013.

353. A solução virá de trem

Parece que finalmente o Governo do Estado acordou para a realidade caótica das rodovias, principalmente no entorno da Capital. É verdade que o Rodoanel tirou bastante tráfego de dentro da cidade de São Paulo, mas algumas ligações continuam caóticas, principalmente para Campinas, São José dos Campos, Sorocaba e Santos, cidades de grande importância econômica e que geram grande fluxo de deslocamento para e da Capital.

O Governo do Estado, pressionado por algumas mancomunidades de municípios e sindicatos ferroviários, lançou edital para a reativação dos trens regionais de passageiros entre a Capital e os destinos-chave acima mencionados. Além disso, Campinas e municípios circunvizinhos estão cobrando a extensão da linha 7 da CPTM, em paralelo com a regional — atualmente, a linha urbana chega até Jundiaí; a 38 km de Campinas —, com tarifas integradas às de São Paulo, o que realmente daria vida à megalópole São Paulo-Campinas.

A linha regional de Campinas já tem uma previsão de extensão até Americana. Começa a inclinar-se para a nossa região: Rio Claro, São Carlos, Araraquara. Um trem mais rápido que o ônibus e sem ter de disputar espaço com os carros seria muito útil para Araraquara; a velocidade estimada para as novas linhas regionais é de 160 km/h. Com as paradas, ganharíamos a Capital em duas horas, contra as quatro e meia de ônibus.

Os investimentos podem chegar à casa dos R$ 20 bilhões, mas trata-se de um projeto de mobilidade a longo prazo, um planejamento de demanda para daqui 20 anos, coisa difícil neste país movido a populismo. Que venham os trens, não pelo saudosismo, mas pela eficiência.

* * *

Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 22/1/2013.

345. Números

Há um dito popular que diz que há mentiras, há grandes mentiras e há a estatística. A blague baseia-se no fato de a opinião pública ser absolutamente manipulável; nem é necessário esconder todos os números ou alterá-los: basta publicar os que são mais convenientes e convenientemente omitir os restantes.

Somos absolutamente influenciáveis pela força dos algarismos: temos uma democracia que se baseia única e exclusivamente em critérios numéricos, independente se o voto foi pensado e repensado ou apenas influenciado por aquele panfletozinho largado “acidentalmente” na porta da seção eleitoral, e somos uma sociedade que se impressiona pela pujança econômica.

Araraquara recebeu muitos investimentos no ano que terminou ontem, mas também foi um ano em que a violência teve uma escalada quase que sem precedentes. Fala-se da “qualidade de vida” araraquarense — acho que as pessoas que dizem isso evitam sair do Centro, do núcleo da Vila Xavier ou da Vila Harmonia. Não conhecem a nova cidade que cresce ao redor, os pés que são já maiores que a cabeça.

Temos de ter em mente que o bem-estar econômico é algo passageiro; basta ver a crise que atinge a Europa do Welfare State. Se o dinheiro se vai, resta para um povo apenas sua dignidade e suas raízes culturais, coisas que entre nós são excessivamente fracas. Ou seja, uma sociedade que unicamente se agrega em volta do dinheiro, sem dele efetivamente fazer bom uso, como os novos ricos que se preocupam unicamente em ostentar.

Espero que 2013 não seja outro ano de “números”, mas um ano de crescimento real, de crescimento da percepção das pessoas de seu papel na sociedade.

* * *

Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 1º/1/2013.

337. Café no escritório

Numa sala sem janelas,
dois homens civilizados
bebericam café,
enquanto discutem amargores.
Café regrado, descafeinado,
em comportados copos plásticos.
Pequeninos, os homens os mantêm
entre polegares e indicadores.
Marmanjos brincando de boneca.

Café amargo, descafeinado,
com adoçante e um pouco ralo.
Levantam-se, despendem-se
com um gosto ruim na boca.

301. Futuro relativo

Um passinho pra frente, outro pra trás

O discurso político está cravejado pela noção de ‘futuro’, usada apenas como fuga retórica e nunca como conceito real. Não sei o que pode ser mais nocivo. O futuro é uma armadilha; o futuro depois-que-eu-for-eleito ainda é usado e ainda ilude muita gente.

Basta observar o comportamento do Governo Federal frente à crise econômica internacional. O Brasil teve, nos últimos anos, uma posição economicamente realmente invejável: relativa estabilidade e crescimento baixo, mas constante. Um período bom para pôr em marcha reformas necessárias: política, trabalhista e tributária. Agora, com uma injeção artificial de crédito, tenta-se evitar os efeitos nocivos da crise. O efeito colateral, porém, é o aumento da inadimplência e endividamento das famílias. As carteiras de crédito dos bancos podem tornar-se bolhas insolúveis: uma crise de crédito.

O setor agrícola nacional não fica atrás. A monocultura localizada ainda existe; em vez de o agricultor ter pelo menos duas culturas em suas terras, opta pela momentaneamente mais rentável, o que pode funcionar por 2, 5, 10 anos, mas, cedo ou tarde, colapsa. Basta ver o caso atual da laranja: as frutas ficarão no pé porque não compensa colhê-las. Há uma supersafra, demanda e preço no mercado internacional despencaram, e o mercado interno não tem como absorver o excedente.

Também a indústria. Em vez de procurar modernizar-se, busca no Governo apoio para crises endêmicas, não conseguindo concorrer com os manufaturados chineses. A desindustrialização do País é uma realidade, basta lembrar o caso já antigo da cidade de Americana, que há muito deixou de ser a “Princesa Tecelã”.

Faltou planejamento de longo prazo, faltou competência e, sobretudo, faltou união de toda a sociedade.

* * *

Publicado na Tribuna Impressa em 31/7/2012.

300. Um pouco de numismática – Duas moedas belgas

Apesar de colecionar moedas desde os meus 6 anos, creio que dediquei poucas postagens ao assunto neste blogue (lembro-me apenas de uma, com tom relativamente ácido). Portanto, hoje dedico algumas linhas ao interessantíssimo mundo das moedas.

Muitos não percebem o valor das moedas. Não o monetário, pois hoje, tempos de moeda fiduciária, os itens metálicos ficaram para a representação dos valores menores, mero troco.

Fig. 1 – Família de moedas britânicas (fonte: Wikipédia)

Nem sempre foi assim. O papel-moeda é uma invenção da Idade Média e somente passou a ser o centro das transações no século XIX; antes, o comércio era feito com metal no formato de discos, as moedas. Uma regra que valeu por um bom tempo foi que as moedas de valor menor eram cunhadas em cobre; as de valor mediano, em prata; e as mais valiosas, em ouro. Padrão hoje que, mesmo não sendo mais usual, ainda mantém certa influência, por exemplo, na cunhagem britânica, na qual as moedas 1 penny e 2 pence são de metal similar ao cobre; as de 5, 10, 20 e 50 pence, prateadas; e a de uma libra, dourada (fig. 1).

O Brasil também seguiu esse padrão em boa parte de sua história financeira e numismática. A última moeda de prata para circulação comum é dos anos 30. Depois disso, com a progressiva desvalorização e a passagem para moeda fiduciária, optou-se pela cunhagem em materiais mais baratos, como bronze-alumínio, alumínio, cuproníquel e aço inoxidável.

Mesmo relegadas ao fundo dos bolsos, as moedas ainda podem contar muito a respeito de determinada cultura, suas influências e tradições.

Dois exemplos sobre os quais me debrucei durante uma manhã toda pode dar amostras interessantes do que podemos “arrancar” de informação de meros pedaços de metal timbrados.

São duas moedas belgas: uma de 5 francos, de 1968, e outra de 1 franco, de 1923. São moedas de valor baixo, a primeira de níquel e a segunda de cuproníquel. O que chama a atenção nas moedas belgas é o fato de que até a introdução do euro, elas eram bilíngues. A Bélgica tem uma área de língua holandesa, ao norte, e uma de língua francesa, ao sul, Flandres e Valônia, respectivamente. Mas, com algumas exceções, as moedas não traziam as duas línguas e sim havia sempre duas moedas diferentes para cada valor. Exatamente iguais, exceto onde se lê o nome do país (Belgique ou België) e, no caso da moeda anterior, do período entreguerras, o Goed voor ou Bon pour (“Bom para”).

Fig. 2 – Um franco belga, 1925

Na moeda de 1 franco (fig. 2), em seu reverso, além do Goed voor, vê-se um bastão. A primeira análise pode levar um observador incauto — como fiz inicialmente — a deduzir que se trata do bordão de Esculápio, símbolo do deus romano da Medicina e da Cura (Asclépio, na versão grega). Porém, o bordão de Esculápio não é alado. Em algumas farmácias antigas era comum vê-lo como emblema; porém, o que temos nessa moeda é um caduceu, o bordão de Mercúrio (Hermes), patrono do Comércio. Outro uso moderno desse símbolo é como representação dos sindicatos de comerciários. Logo, sua presença em uma moeda faz menção, obviamente, à função monetária, ao comércio; a função primeva da moeda foi de facilitar o comércio, para substituir a simples troca de gêneros: a moeda como intermediária das relações comerciais. Realmente interessante.

No anverso, o nome do país, België, e uma figura feminina ajoelhada, aparentemente calçando uma bota. Igualmente não se trata de uma simples alegoria feminina para ornar. Embora não tenha achado fontes textuais, faço uma dedução que tem muita chance de estar correta: trata-se da personificação da Bélgica, uma figura feminina representando a pátria.

Fig. 3 – 50 pence (1968-1997)

A ideia de personificação de conceitos, regiões e países nos vem dos romanos. Suas moedas são pródigas em exemplos de personificação, seja de províncias (Britânia – fig. 4, Germânia, Hispânia, Judeia, das que consigo lembrar-me sem recorrer a livros), de conceitos (Justiça, Liberdade, Letícia — Alegria) ou mesmo do Estado romano (Roma, Genius Populi Romani). As personificações conceituais em numismática podem ser tanto de corpo inteiro quanto apenas o busto.

Fig. 4 – Sestércio romano do imperador Antonino Pio (138-160 d.C.) com a Britânia

Entre nós tal conceito também vicejava e ainda viceja. A representação da República presente em nossas cédulas, embora seja a adaptação feita pela Revolução Francesa, evoca essas personificações antigas. A moeda de 50 pence inglesa (fig. 3), até a remodelação de 2008, apresentava a Britânia sentada, apoiando um escudo e uma lança e com um ramo de oliveira na mão esquerda.

No caso da nossa moeda de 1 franco, parece que a Bélgica calça uma bota, tem à cintura uma espada e, do outro lado, um escudo. Pode ser mesmo uma releitura da Britânia ou uma criação propriamente belga, inspirada em velhas personificações. A única informação possível é o nome do gravador, Armand Bonnetain. Não consegui informações adicionais e, infelizmente, na fig. 2 o nome do gravador foi digitalmente apagado, mas pode ser bem percebido na fig. 2A.

Fig. 2A – Um franco belga. O nome do gravador pode ser visto logo acima do pé da Bélgica, do lado esquerdo (clique para ampliar)

Fig. 5 – Cinco francos (acervo do autor)

A moeda de 5 francos também tem detalhes interessantes. Também segue o padrão de bilinguismo, mas uma língua em cada moeda. No reverso, alguns exemplares, Belgique; em outros, België. No centro, um ramo de carvalho simétrico geometricamente estilizado; é possível ver os veios da folhas e, junto com o primeiro par de folhas, as duas características bolotas da planta. À esquerda do ramo, “5”; à direira, “FR”, de franco, compondo o valor facial. Encimando o ramo de carvalho, uma coroa real com fitas esvoaçantes. Trata-se de uma representação heráldica alegórica, uma vez que a monarquia belga não tem uma coroa física, como a inglesa.

No anverso, a representação de Ceres, considerada por romanos e gregos (sob o nome de Deméter) a entidade tutelar da Agricultura. Do lado esquerdo, a data; do direito, uma cornucópia, símbolo romano que representa a Agricultura e o Comércio; trata-se de um chifre de cabra cheio de gêneros agrícolas: trigo, frutas, legumes. Tem relação ao mito da cabra Almateia, que alimentou Júpiter (Zeus) em sua primeira infância. É um símbolo de abundância, que faz eco com a efígie de Ceres. Abaixo do busto, o nome do gravador: Rau, Marcel Rau.

Espero dar continuidade a este tipo de artigo entre as críticas políticas. É bom para desopilar o fígado.

295. Paraguai, Venezuela e o Foro de São Paulo

O Grande Obtuso observa tudo

A decisão do Parlamento de afastar Lugo, em 22/6, por mais que se questione o tempo da ação de impeachment, é legítima dentro do arcabouço legal do Estado paraguaio. Porém, como o ex-presidente é considerado ‘amigo’ pelo Foro de São Paulo (FSP), com a mesma rapidez tão criticada, o Paraguai foi suspenso do Mercado Comum do Sul (Mercosul), em 28/6, e da União de Nações Sul-Americanas (Unasul).

Apenas para elucidar: o FSP é uma agremiação de partidos de esquerda que congrega, entre muitos, PT, Frente Amplio (partido no poder no Uruguai), o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), representante do chavismo, e até mesmo o mui democrático Partido Comunista Cubano. É a Internacional do populismo oportunista.

Com a suspensão do Paraguai, o caminho para o ingresso da Venezuela no Mercosul está pavimentado; o país de Lugo era o único do bloco que não havia ratificado a “República Bolivariana”.

Embora a presidente argentina, Cristina Kirchner, já tenha “decretado” — e até marcado data: final de julho — a entrada da Venezuela no bloco, os outros países ainda estão reticentes justamente por causa da obviedade da ligação dos fatos. O incidente parece ter sido criado para atingir esse objetivo, mesmo com o alto preço de ‘queimar’ um aliado. A ocupação de uma fazenda em Curuguaty, em 20/6, pelos Campesinos, acabou por provocar um confronto com a polícia, no qual foram mortas 17 pessoas e mais de 90 ficaram feridas. Haja vista as táticas do FSP, o episódio todo pode muito bem ter sido orquestrado; se não o foi, veio bem a calhar às intenções do Foro.

A Venezuela no Mercosul será a morte das intenções iniciais do bloco, delineadas no Tratado de Assunção (1991). É o país menos democrático do subcontinente, sua constituição foi entupida de emendas para favorecer Chávez e seus aliados, a Petróleo de Venezuela S/A (PDVSA, estatal de petróleo) tem 80% do PIB e a economia — paraestatal — está absolutamente em frangalhos. O que a Venezuela agregará economicamente?

Logo se vê que o Mercosul está sendo transformado — e não é de hoje — em uma extensão operacional do FSP, o mercado comum do compadrismo e da afinidade ideológica. O mesmo vale para a tal Unasul, que já nasceu com a marca indelével de sua afiliação partidária.

* * *

Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 3/7/2012.

290. Política, futebol e religião

Verde, que te quero verde

Diz o ‘velho deitado’ que política, futebol e religião não se discutem. Uma versão mais sucinta fala de “cor e gosto”. Temas e percepções. O grande problema do brasileiro — digo isso porque é o povo que conheço, mas a definição imagino ser expansível à Latinidade — é misturar as coisas.

O cidadão não se contenta em ver o jogo de futebol e torcer pelo seu time. Não. Alguns espíritos de porco têm de sair à rua acelerando carros e berrando. Outro cidadão tem sua fé; ele não se contenta em servir a Deus, tem de sair nos domingos pela manhã para bater de porta em porta e tentar arrebanhar mais almas com um discurso impositivo. Das misturas dessas duas vertentes de manifestação surge a política vista pelo brasileiro que a acompanha: dogmática e escandalosa. O brasileiro acompanha política como quem torce para Corinthians ou Palmeiras: é mau perdedor, é dogmático e crê na infalibilidade dos seus “papas” e só seu time tem razão. “Minha razão é a minha força.”

Essa política futebolística se vê muito pela ‘esquerda festiva’, ou seja, aquela que se encontra ora no poder. Nosso ex-presidente adora uma metáfora do mundo da bola, uma bela alegoria. E também não admite críticas. Essa esquerda e outras ainda mais radicais aninharam-se, por exemplo, na área de Humanas das universidades públicas, ultrapassando mesmo as cansativas assembleias em que se discute, num “samba do crioulo doido”, falta de professores e propõe-se uma “moção de apoio ao povo do Iraque contra a opressão estadunidense”, as doutrinas chegaram mesmo às salas dos professores, onde são os únicos critérios de pesquisa e investigação. Nossa universidade parou nos anos 60.

E são infalíveis. A economia de mercado teve suas turbulências esporádicas — e está tendo uma grave agora, um dolorido espasmo —, porém o Segundo Mundo, que chegou a englobar 33% da Humanidade, hoje se acha reduzido a ilhas de tirania, como Cuba e Coreia do Norte. O resto do Mundo Socialista dissolveu-se por absoluta incompetência econômica; as revoluções populares foram apenas uma cereja no bolo da desgraça. Se não tivessem acabado na contração violenta do começo dos anos 90, os regimes da Europa Oriental teriam definhado por mais uma década e lentamente começariam a abrir-se.

Dizem os acadêmicos: “Ah, mas isso não é o socialismo”. Se não o é; o que seria? O problema do socialismo/comunismo é que ele nunca ultrapassou a barreira da famigerada ditadura do proletariado que, uma vez instalada, deveria dar lugar à lenta dissolução do Estado, a administração descentralizada e local. Nessas linhas, seria um sonho. O grande problema é que a amorfa ditadura do proletariado tornou-se a pétrea ditadura da nomenklatura. E assim foi até a dissolução dos regimes.

Possivelmente, junto com a monarquia absolutista e a república revolucionária, o socialismo é um dos regimes que provou sua incompetência em um longo e largo laboratório de 80 anos. Vivemos um regime de democracia representativa que é péssimo, mas, parafraseando Winston Churchill, ainda é o melhor que eu conheço.

O grande problema da esquerda socialista é que a teoria é ótima. Porém tem um grave defeito: não contou com o fator humano. O ser humano é amigo do poder; o poder o fascina. Logo, se uma camada tem acesso a ele agarra-se como o náufrago à jangada. E o “horizonte luminoso” do socialismo fica como o horizonte real: quando se dá um passo em direção a ele, ele se afasta outro.

E, retomando o enfoque do texto, pode-se dizer que há um apego sacro com a política. Há dogmas, há heresias, há excomungados. Heranças de um catolicismo fetichista? A esquerda mantém a ilusão de que é possível mudar, porém, quando chegou ao poder, entregou-se ao mesmíssimo fisiologismo que domina o Estado brasileiro desde a colônia. Mais do mesmo. O poder é como a maresia: corrompe até ferro. Somos um povo torto, dado a paixões e a vícios como poucos. Nossas grandes qualidades são a falta de caráter — o jeitinho —, o sorriso falso com cerveja, o dogmatismo de ocasião das nossas opiniões, a moleza da nossa alma.

Por isso somos tão insuportáveis.

289. O escudo da ignorância

Assim como no auge da Idade Média, os dogmas continuam existindo. Antes, afirmava-se que o universo era finito; quem dissesse o contrário, ia para a fogueira. A diferença é que as chamas das fogueiras modernas são a reprovação e troça pública; coisa muito mais fácil de lidar. Ainda mais quando se trata de um amontoado de asneiras.

Nos e-mails corporativos da empresa em que você trabalha — se for o caso —, há um rodapé com dizeres do tipo: “Verifique a real necessidade de imprimir seus e-mails; preserve a natureza”. É um tipo de mensagem comum incitando a economia de papel para “preservar a natureza”, “preservar a Mata Atlântica”. Afirmação que vem blindada, tratada como verdade imperativa; um verdadeiro escudo de ignorância acerca do assunto.

A intenção real é a economia de papel, o que é um valor legítimo por si mesmo; assim como apagar as lâmpadas quando se sai de um recinto, desligar aparelhos elétricos. Uma questão de bom senso e economia. Mas não que esse tipo de comportamento vá salvar alguma coisa.

Na questão do papel, primeiro, ele é feito com madeira de plantações industriais especialmente para esse fim. Não se faz papel de madeira nativa, ou alguém realmente acha que há papel de mogno? Geralmente é feito de eucalipto, cujas fibras têm a mesma densidade e uniformidade na hora do cozimento da madeira para extração da celulose. Ou seja, fazer papel de madeiras duras ou variadas, além de inviável, resultaria — se for possível — em um papel de péssima qualidade.

As plantações de eucalipto para esse fim, por ora, concentram-se em Minas Gerais e São Paulo e estão em áreas em eram originalmente de alguma monocultura como cana ou laranja. Ou seja, não há desmatamento para produção de papel.

Outra lenda é que o eucalipto “mata” ou “seca” o solo. Acredita-se que esse tipo de boataria venha justamente de grupelhos ecológicos a soldo de países interessados em manter o monopólio da produção de celulose, como a Finlândia, por exemplo, atualmente ainda a maior produtora mundial da matéria-prima. Como simples curiosidade, veja onde estão sediadas as organizações ecológicas mais famosas como Greenpeace, WWF e outras. São quase todas ‘multinacionais’ do lobby verde, localizadas “lá em cima”.

O eucalipto é ecológico, gera renda e tira os agricultores da monocultura. Então, antes de acreditar em qualquer coisa apenas porque tem o revestimento, a proteção do politicamente correto e tratá-la como dogma e combatê-la por simples e pura ignorância. Certamente que tudo deve ser usado com a devida economia, mas que fique claro o motivo correto e que não seja baseado em lendas ou estórias mal-contadas.

288. Gornalismo, Sakamoto e mais do mesmo

Graham Chapman e a metáfora do ‘gorn’

Sim, com g mesmo. A ideia vem de gorn, palavra inexistente na língua inglesa usada pela trupe britânica Monty Python em um de seus esquetes. Nada significa, mas ‘evoca madeira’, algo sólido, segundo o esquete em que aparece. Ou seja: um discurso vazio com uma armadura sólida.

É o que acontece quando o jornalista — ou articulista — se agarra em algum dogma do politicamente correto. Se está do lado ‘certo’ ou ‘dos bons’, considera-se inatingível. Usa o senso comum como escudo.

É o caso recente do texto “Ostentação diante da pobreza deveria ser crime previsto no Código Penal”, do gornalista Leonardo Sakamoto. Não o acompanho; na verdade, desconhecia-o até que o texto citado causou certa enevoamento nas redes sociais.

A partir das falas de uma dondoca colhidas da coluna social da Folha, Sakamoto reza pelo estranho catecismo do marxismo com laivos cristãos. Embora as declarações da socialite tenham sido ligeiramente infelizes, a impressão que se tem é a justificação das violências, dos arrastões nos restaurantes paulistanos pelo fator desigualdade social.

Prega um esquisito pauperismo, na lógica de ‘não tenho nada para roubarem, logo não preciso me preocupar’. O que o senhor Sakamoto ignora — ou finge ignorar — é que pessoas têm bens ou desfrutam de determinados serviços porque trabalharam para tal. Talvez não seja o caso da socialite, mas que, mesmo assim, vive às expensas de alguém que tem alguma atividade econômica.

O que se infere do texto é a famosa invidia brasiliensis. Ou seja, justifica-se o roubo, a apropriação indébita porque ciclano não tem condições de ter aquilo. Vivemos em tempos mais tranquilos do que aqueles que viveram, por exemplo, nossos avós. A universidade está aí; o ensino está aí; é óbvio que as coisas não vêm em bandeja, é preciso certa dose de esforço.

Sakamoto defende, nas entrelinhas, uma cultura do coitadismo, que é o mesmo discurso vagabundo usado, por exemplo, pelo Governo para justificar suas mil bolsas. O que falta entre nós é uma real cultura da dignidade e do trabalho. O curioso que esse pensamento tem um estranho ranço cristão, mesmo vindo da pena de gente que renega o cristianismo como formador do caráter brasileiro e o culpa pelos atrasos do Ocidente. Por isso quando digo que somos um país católico, não é somente por ser ainda a religião da maioria, mas também porque determinados conceitos ficaram presos à formação da nacionalidade: justamente os mais deturpados e os mais prejudiciais. Aquelas coisas do tipo que ter dinheiro é pecado; hoje, para os novos sacerdotes do politicamente correto e da igualdade social — Tocqueville revira-se na tumba —, é crime.

Ter inveja é fácil, mas ela pode ser ruim quando casado com o imediatismo e pode ser boa quando casada com a vontade de progredir. De lamentações, já basta o Jeca.

285. Argentina de novo

Cristina Kirchner com cara de quem sujou as calçolas

Em abril, escrevi neste espaço um artigo sobre a questão das Malvinas. Procurei mostrar como governos que vão perdendo a popularidade submetem-se a práticas de populismo desenfreado. Cristina Fernández de Kirchner, presidente da Nação Argentina, evoca os brios nacionalistas para angariar suporte popular. No Brasil, o nacionalismo é algo fora de moda. Basta um bolsa-alguma-coisa que a situação já está resolvida.

E quando se pensa que nada mais possa vir da margem sul do Rio da Prata, brotam surpresas. A mais recente foi a nacionalização da petroleira YPF, que era controlada pelo grupo espanhol Repsol.

O pior é que todos nós já vimos o filme ruim. Protagonistas diferentes, mas o mesmo populismo estúpido. O ano é 2007; o país, a Bolívia. Evo Morales nacionalizou duas refinarias construídas e mantidas pela Petrobras pela sua polêmica Lei de Hidrocarbonetos. Resultado: apesar da semelhança ideológica entre os governos, o empresariado brasileiro riscou a Bolívia do mapa e o próprio Governo brasileiro esfriou suas relações com o país andino.

A Argentina faz o mesmo erro. Nacionalizando a YPF, que era estatal até os anos 90, ganhou antipatia automática da Espanha — que, querendo ou não, tem razão — e sanções da União Europeia. A excessiva ingerência do Estado na economia só trará prejuízos. Haverá fuga de capitais, principalmente do setor produtivo.

Agora, uma guerra fictícia, de bravatas, com direito a discursos no plenário da ONU. Logo se nota que são soluções desesperadas de uma presidente desequilibrada, escorada na sombra do marido morto, e gerindo um Estado operado por mafiosos a seu mando. Eis o que se tornou a Argentina.

* * *

Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 16/6/2012.

260. Chave inglesa

"Pega o 'to be' aí na caixa pra mim..."

Se você, leitor, tenta aprender um idioma estrangeiro como se fosse matemática, tenha a certeza de que está no caminho errado. Digo isso com base nas tantas pessoas que vejo que “fizeram inglês” há dois, três anos e não conseguem juntar duas frases.

Sim, eu sei que vivemos em um mundo onde conhecimento é poder, é oportunidade. Mas conhecimento sem lastro cultural é apenas informação: hoje você lembra; amanhã não.

Aprender um idioma estrangeiro não é apenas decorar gramática, conjugar verbo e pôr os pronomes no seu devido lugar. O processo de adquirir — sim, o termo é esse — um idioma estrangeiro vai além de pôr etiquetas sobre as palavras da nossa língua materna. O idioma estrangeiro — por mais globalizado que seja, como o inglês — carrega consigo uma cultura. E língua e cultura são indissociáveis.

A língua é espelho e mesa de uma sociedade. Quantos termos de outros idiomas que são simplesmente intraduzíveis por apenas uma palavra, e que temos de recorrer a longas perífrases para explicá-los? Um sem número.

Logo, não adianta você tratar o idioma estrangeiro como “ferramenta”, ele se nega a tal papel. Fugirá de você como uma barata pelas frestas dos móveis da memória. É necessário alimentar o idioma, como um animal de estimação. Leituras, audição de rádio, televisão. Hoje a internet nos permite esses instrumentos imprescindíveis para simular a vivência que a distância nos cerceava.

Se você, leitor, pensa em um mero utilitarismo dessa “ferramenta”, desista. Vá aprender matemática financeira.

* * *

Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 14/4/2012.

255. “A jangada de pedra”, José Saramago

Península Ibérica à noite

Flutuação ibérica

Portugal e Espanha sempre tiveram um problema de identificação com a Europa: eram ricos e tinham colônias quando o continente trincava-se em guerras; decadentes no período de grande pujança econômica europeia; com regimes ditatoriais enquanto a Europa consolidava a democracia. Os olhares europeus para a Península Ibérica também nunca foram os melhores. “A Europa termina nos Pirineus”, disse certa vez Talleyrand.

É com essa ideia que José Saramago escreveu “A Jangada de Pedra”, de 1986. Iberista convicto, melancolicamente acolhe a separação entre o continente e a “ilha” ibérica. Em uma metáfora surpreendente, a península descola-se da Europa e começa a navegar pelo Atlântico, para desespero de seus habitantes.

Como centro da narrativa, um grupo que se une por acaso e percorre os dois países da agora ilha, registrando suas impressões enquanto a massa de terra navega rumo à América do Norte.

A alegoria pode ser mesmo lida com uma chave bem atual: a crise econômica que assola as duas nações e o papel que elas representam hoje na Europa.

Prêmio Nobel de Literatura, Saramago é conhecido pela obra e pela. Seu inovador modo de colocar diálogos no texto em parágrafos compactos é curioso à leitura da primeira obra, depois, a coisa se torna um pouco cansativa.

* * *

Uma versão ligeiramente alterada saiu na Tribuna Impressa de Araraquara em 1º/4/2012.

249. Epilepsia política

Tudo agora, nada depois.

Crescemos 2,7% no ano passado. Alguns comemoram mesmo que o índice esteja abaixo do projetado tanto pelo mercado quanto pelo Governo. Comemoram porque “estamos ainda acima” dos países desenvolvidos, afetados pela crise. Pergunto eu: que vantagem estar com o pescoço para fora da água enquanto o resto está submerso?

Estamos com uma situação aparentemente razoável por conta da boa maré das commodities; nossa balança comercial deve muito ao agronegócio e à extração mineral; a China tem comprado boa parte dessa produção. Porém, as autoridades monetárias chinesas já se preocupam com a chegada da crise àquele país. As compras vão diminuir e os preços das commodities também.

O Brasil, país que vive de convulsões econômicas e políticas — espasmos que são as eleições —, é incompetente em pensar soluções de longo prazo. Aferra-se ao presente como na copa do mundo: grita quando há gol e chora quando perde. Acostumamos a classe política ao populismo e ao oba-oba dos bons momentos.

Alguns dirão “PAC” como quem diz “abracadabra”. É vistoso e resolve a questão dos votos: muito foguetório e poucas realizações.

O Governo deveria aproveitar a boa maré — até quando? — e fazer as reformas política e tributária; serão extremamente impopulares entre os políticos, que não querem perder seus “direitos adquiridos”. Qualquer atentado à oligarquia será rechaçado e o Governo — e o partido governante —, devidamente punido como estamos vendo na atual crise política. Mas estaria o PT disposto a tal sacrifício?

Somos um país de epiléticos políticos vivendo de remédios que não são nada mais que placebo.

* * *

Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 20/3/2012.

213. O euro e a Europa

Bandeira da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (1951-2002)

A eventual saída da Grécia da Eurozona é preocupante: caso a crise europeia se agrave, outros países poderão tomar o mesmo rumo, arruinando a moeda única. Mas o fim do euro e a reintrodução das divisas nacionais não é o pior cenário. Economicamente, um transtorno sem par; moralmente, uma catástrofe sem precedentes.

O euro não é apenas uma moeda. Personifica um continente que exsurgiu das ruínas de uma guerra fratricida; é o símbolo da paz tão almejada pelos europeus nos sombrios anos do pós-guerra.

Em 1951, fundou-se em Paris a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, com escopo comercial, mas buscando a integração e procurando afastar as tradicionais rivalidades. Tinha por signatários Itália, França, Bélgica, Países Baixos, Luxemburgo e Alemanha Ocidental. Tais negociações darão forma ao Tratado de Roma, em 1957, a certidão de nascimento da Comunidade Econômica Europeia, União Europeia depois de 1995.

A relação entre seus membros — 6 em 1957, 27 hoje — não é apenas econômica. Buscou-se uma identidade europeia baseada na convivência e na concórdia.

A moeda única que veio coroar a ideia da Europa empenhada pela paz e não é mera chispa. É passo decisivo que começou em 1979, com a Unidade Monetária Europeia (ECU, na sigla inglesa), moeda escriturária. Em 1999, ainda como moeda “virtual”, passou a chamar-se euro, e em 2001, já como moeda física, materializou a unidade do continente.

Frente à crise financeira instalada e o enfraquecimento de suas instituições, a Europa corre o risco de retroceder — não imediatamente — a um ambiente pré-1914. Monetária e politicamente falando.

* * *

Artigo publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 7/1/2012. Aqui.