323. Do ouro ao chumbo

Aurea mediocritas, o meio-termo de ouro, lema e meta dos poetas árcades. Meio-termo porque não peca pela falta, nem pelo excesso. Mas a palavra assumiu uma conotação negativa entre nós. O medíocre é indivíduo que além de não ter talento nenhum para destacar-se — não destacar-se não é um pecado em si —, projeta a queda dos demais, nivelando todos “por baixo” e ali procurando mantê-los.

O mal teve início quando os medíocres tomaram as academias, o parlamento; geraram leis e prerrogativas para seus iguais, burocratizaram a sociedade, imobilizando a criatividade. Mantêm sob ameaça o setor produtivo da sociedade com suas ações abstrusas. Como exemplo, o tal “desvio de função”, criação de legisladores ociosos para alimentar advogados de “porta de empresa”.

O medíocre não quer ter esforço. Por isso, mata na concepção a iniciativa alheia. O que antes era aprendizado no ambiente laboral, que dava oportunidades reais de crescimento profissional ao empregado e criava um vínculo com o empregador, passou a ser visto com desconfiança: tanto dos medíocres em geral, quanto do empregador, que, com plena razão, tem receio que aquele fato possa conduzir a um processo trabalhista — que sempre envolve uma reparação financeira; afinal, o real intuito do medíocre é alimentar-se do esforço alheio.

Há hoje faculdades, mas certas coisas somente a rotina de trabalho nos ensina. E perdemos uma parcela importante desse aprendizado por conta dos medíocres que legislam e invejam desde suas cátedras ou banquinhos.

Será que com esse tipo de pensamento canalha e mesquinho, inerente a quase todos nós, chegaremos ao dito mundo desenvolvido? Ou continuaremos a patinar na nossa mediocritas, plumbea mediocritas?

* * *

Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 19/12/2012.

313. Olhos gastos

Calça e camiseta amassadas; realmente gastas e velhas. Vinha sempre se esgueirando pelo muro do cemitério, confundindo-se com as manchas de umidade; entrava sempre na mesma floricultura.

— Um buquê de cravos. Cravos vermelhos.

Uma vez não havia cravos vermelhos; teve de contentar-se com os brancos.

No mesmo passo rápido e molambento, passava pelo portão do cemitério. Demorava-se lá um par de horas. Saía sem o buquê de cravos.

O farrapo de gente aparecia toda semana; toda quarta-feira. Além da roupa amassada, o aspecto macilento não ajudava. Passados alguns meses, a funcionária da floricultura teve a reluzente ideia de puxar papo com aquele cliente caladão.

— Calor hoje, não?

— Hum-hum.

Ou então:

— Será que chove?

— Hum-hum.

Lacônico. Talvez fosse uma concordância, uma muda revolta. Talvez.

A funcionária não se dava por vencida:

— Muito querido devia ser esse seu parente…

— Hum-hum.

E o homem, além das roupas gastas, tinha um olhar vago e gasto, como se tivesse sido muito raspado contra o horizonte. Mal recebia as flores, jogava o dinheiro na mão da funcionária e saía rapidamente da loja.

Depois de mais uma visita, a moça resolveu seguir à distância o homem gasto. Viu-o entrar no cemitério; viu-o parar diante de uma sepultura, não sem certa hesitação, e nela depositar o ramalhete. Ficou parado de pé durante umas boas duas horas.

A funcionária voltou para a loja e, no dia seguinte, foi verificar o nome da sepultura. Nada demais, e bem que era uma pessoa que havia morrido em 1955. O homem, por velho que fosse, não tinha 50 anos. Poderia tratar-se de alguma graça alcançada, mas também não parecia ser um daqueles túmulos milagrosos, de anjinhos ou gente piedosa. Assunto de família.

Na semana seguinte, o homem foi novamente à floricultura. Um ramo de cravos vermelhos. Pagou e saiu. No seu encalço, a funcionária.

Passou pelo portão e, no meio caminho principal do cemitério, hesitou. Para espanto da funcionária, foi para o lado oposto àquele da sepultura visitada na semana anterior. O homem pareceu boiar entre as cruzes, como se procurasse algo não nelas, mas acima delas; uma bandeira esfarrapada. Parou diante de outra sepultura;  outro parente, talvez. Outras duas horas de muda contemplação da lápide.

No dia seguinte, a funcionária foi ver de quem se tratava. Outro nome, aparentemente sem ligação com o anterior.

Na quarta seguinte, o homem apareceu de novo. Todo o ritual seguiu-se. E novamente com outra campa. Desta vez, o homem viu a funcionária esgueirando-se atrás de um mausoléu, mas fingiu não vê-la. Fez sua contemplação até quando acho necessário e foi embora.

Ele não apareceu mais na floricultura. Nem na quarta seguinte, nem na outra. Sequer numa terça-feira. Não havia para quem perguntar sobre seu paradeiro. Ninguém sabia quem ele era, de onde vinha, onde morava.

Ele continua por aí. Está agora visitando outro cemitério, presenteando os mortos às cegas.  Mas ele não presenteia os mortos em si. Não, seria uma tolice. Ele apenas homenageia a morte, em um culto íntimo. E não quer intromissão dos vivos.

312. Cemitério da memória

Cemitério de Bueno de Andrada (foto: Moisés Schini/Tribuna Impressa)

Um adágio popular repete que o brasileiro é um povo sem memória. De fato, a maioria das pessoas só dá importância ao agora ou, no máximo, ao imediatamente futuro. O passado jaz na poeira.

E poeira e mato não faltam no Cemitério de Bueno de Andrada. Apesar dos 362 corpos sepultados entre 1925 e 1967, apenas uma cruz assinala a pretensa sacralidade do local. Esta Tribuna dedicou uma reportagem de duas páginas ao assunto; no interessante texto de Antonio Marquez fica patente o descuido e o pouco caso das autoridades constituídas para com o patrimônio público e a memória coletiva.

Um cemitério não é apenas um local de pranto ou um sagrado — assim considerado pelo lugar central que a morte tem na nossa concepção de mundo —, mas é também um local de memória, de história. O desaparecimento físico do cemitério é um desastre para a história de Araraquara. Desaparecimento sim, porque um pasto com uma cruz não é mais um cemitério, parecendo-se mais com aquelas tristonhas cruzes de beira de estrada que recordam os mortos em acidentes.

Por sorte, existem ainda os registros. A Prefeitura, por sua vez, fala em “cemitério desativado”. E como se desativa um cemitério? Não se trata de um prédio, de uma máquina. Os corpos continuam lá; tiveram suas identificações roubadas por profanadores, mas continuam lá. Os entendidos falam em contaminação do solo. Frente ao descaso com a memória, é mero tecnicismo; um detalhe ínfimo.

O Cemitério de Bueno — que sequer fez 90 anos — é uma triste metáfora do nosso senso de conservação histórica e memória: um pasto cheio de pó e mato.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 18/9/2012.

282. Bolsos insaciáveis

É quase o título de um filme pornográfico. Mas festa com dinheiro público também é um tipo de pornografia, mais refinada e, ao mesmo tempo, mais nojenta.

Depois de meses de embate, os vereadores da cidade de Araraquara reajustaram seus subsídios que, na próxima legislatura, passarão a  R$ 6.550. Um aumento de 27%.

A situação pegou fogo ontem, em uma sessão que durou 7h30. O primeiro projeto, votado já há algum tempo, queria elevar os vencimentos para cerca de R$ 8 mil, um aumento de 60% sobre o valor atualmente percebido e que englobaria a inflação dos últimos quatro anos, mais projeção de inflação (?!) para os quatro anos seguintes. Afinal, os vencimentos só podem ser reajustados para a legislatura seguinte.

Tiveram de mudar de ideia após um movimento popular chamado “Reage Araraquara” ter conseguido recolher em poucos dias 12 mil assinaturas para protocolar um projeto de lei popular. Bem mais que os 5% do eleitorado exigidos pela Constituição Federal, 8 mil eleitores no caso de Araraquara.

O mais engraçado é o jogo do direito adquirido. Parte dos vereadores fez lobby e disse que “não aceitariam” ganhar menos de R$ 7 mil, ou seja, o salário de um secretário municipal. Curioso, pois grande parte da vereança tem outras atividades e, em tese, não precisaria lançar-se sobre o erário com tanta voracidade. Mas tiveram de recuar.

Possivelmente o mais prejudicado com o desgaste político e eleitoral foi o próprio governo, coalizão PMDB-PSDB-DEM, majoritariamente. A base do governo discutiu entre si e ofendeu-se. Certamente haverá prejuízos políticos para os últimos meses da legislatura.

Em compensação, silenciosamente a oposição — majoritariamente PT — parece ter gostado da confusão toda e certamente capitalizará com o fato, uma vez que foi contra o aumento desde o início e, numa manobra de fundo populista, propôs o congelamento dos vencimentos.

Ontem, para evitar que o caldo entornasse, a conturbada sessão de ontem teve de ser paralisada por 20 minutos. Tempo suficiente para que o vereador Serginho Gonçalves (PMDB) e o membro do Reage Araraquara Marcelo Bonholi se estranhassem no corredor. “Você é um bosta!”, ouviu-se ecoar da boca do rotundo vereador.

Creio que Napeloso pode ser considerado inocente da ofensa. Afinal, ele só exteriorizou o que a classe política pensa do eleitor e cidadão. Tanto em Araraquara quanto em Brasília, os membros dessa casta — uma nobreza podre legitimada por votos comprados — deve mesmo pensar isso de nós: somos uns bostas.

Como já diria Justo Veríssimo, personagem do saudoso Chico Anysio, “Eu quero que o povo se exploda!”

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E ainda haverá queda de braço entre políticos e população. Afinal, ainda não desistiram de aumentar seus ‘tronos’ de 11 assentos para 18.

276. Da moral e dos maus costumes

Alexis de Toqueville

Alexis de Tocqueville viveu entre 1805 e 1859 e, como pensador político, sua grande obra é “A democracia na América”, na qual descreve o sistema democrático americano nos anos 1830. Embora o livro esteja aparentemente longe de nós, algumas conclusões de Tocqueville explicam nossa situação sociopolítica sem pôr nem tirar.

Tocqueville preconizava que o sistema democrático requer uma sólida base moral e que essa deve ser uma moral social de tipo consensual, não imposta pela Igreja — como na Idade Média — ou pelo Estado, mas uma moral pública, nascida no convívio igualitário e nas ponderações da própria sociedade, portanto, cultural.

O sábio francês atribui a mudança da moral religiosa para a laica à Reforma, quando a interpretação bíblica única da Igreja Católica foi quebrada, dando margem à liberdade de interpretação e, consequentemente, mudanças profundas na moral pública.

Nos países profundamente católicos, a sociedade teve o lastro moral da Igreja substituído pelo do Estado; logo, o Estado passou a ditar a moral, afogando a possibilidade de ela surgir do próprio seio da sociedade. E a moral ditada pelo Estado é a própria tirania, já que o movimento deveria ser inverso: da sociedade para o Estado.

A moral estatal é uma aberração. Um exemplo pôde ser visto recentemente: a ministra Izabella Teixeira (Meio Ambiente), na apresentação dos vetos ao Código Florestal, vangloriou-se de que o Brasil era o único país que exigia área de preservação permanente dentro da propriedade privada. Ou seja, um conceito moral vindo do Estado, que influi diretamente na vida de muita gente, e amplamente aplaudido como se fosse panaceia.

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Texto publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 29/5/2012.

251. O burrinho sarnento

Obviedade. Se a burocracia se materializasse, seria um burro. Um burro sarnento. Nada contra os burros e asininos em geral, mas, pelas intrincadas veredas da língua, foram eleitos pela tradição popular como símbolo da vontade obstinada, da vontade inamovível do empacar. A sarna apenas enriquece a alegoria: é o símbolo da pestilência, da contaminação, da transmissibilidade do que é ruim.

Nas últimas semanas, vimos o burrinho sarnento trotar pelas plagas araraquarenses: a intransigência da Cohab, que, cegada pela burocracia, ameaçou de despejo um catador e sua família praticamente às vésperas da quitação do imóvel; o outro caso é do idoso de Américo Brasiliense que teve o fornecimento de energia elétrica cortado pela CPFL Paulista porque o titular da ligação — que não morava mais na casa — pediu que seu nome fosse retirado da fatura de consumo. O que apenas é entendido como ‘desligamento’ pela concessionária, simples assim. Sabe-se que a CPFL foi privatizada em 1997, mas parece que ela ainda contém vícios característicos das economias mistas e autarquias. Vícios públicos em ares privados.

A burocracia imobiliza a vida civil e a economia. Licitações que demoram uma eternidade frente à premência de problemas, como bem mostrou matéria da edição de ontem desta Tribuna sobre a vicinal que liga nossa cítrica cidade à vizinha Américo Brasiliense.

Mesmo doente, o burro marcha. Vitima. Escoiceia na escuridão justos e pecadores. Leva nos seus alforjes o papelório incompreensível de leis, decretos e regulamentos. Pasta nossa paciência.

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Artigo publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 24/3/2012.

226. Filosofia caseira

Como Sartre, é necessário ter "um olho no peixe e outro no gato"

Terça-feira de Carnaval talvez não seja o dia mais adequado para reflexões aprofundadas, mas, mesmo assim, tentemos um pequeno voo.

Tive muitos colegas que cursaram Filosofia; na USP de São Paulo, os prédios de Letras e Ciências Sociais são vizinhos, o que tornava nosso convívio quase que obrigatório. Gosto de Filosofia. “A República” de Platão é uma obra, em certos aspectos, válida até hoje. Fora a Filosofia política de Maquiavel e Marx.

Mas chamava-me a atenção que os meus colegas sempre citavam filósofos. Claro que não há problema algum em citá-los, mas a coisa sempre se deu sob uma certa escolástica. Em suma: eles se imbuíam daquelas teorias que, como parasitas, matavam qualquer germe de pensamento próprio.

Não estou dizendo que devemos abdicar da leitura dos grandes mestres, mas não é possível que concordemos sempre e em tudo com eles. A academia tem a desvantagem de matar o pensamento próprio; se não tomamos cuidado, tornamo-nos simples replicantes durante graduação, mestrado e doutorado.

“Antes o certo que o duvidoso”, dirá alguém. Mas, se não nos arriscamos fora do já existente, se não criarmos nossas próprias pequenas teorias, estaremos condenados. Nosso amor excessivo à terra firme pode nos manter em uma condição perene de náufragos.

E digo tudo isso não por ódio à academia, mas pela a necessária fuga do academicismo e do dogmatismo. Temos direito de ter nossas próprias teorias; afinal, uma teoria não é a verdade absoluta, mas uma maneira de explicar a realidade observada.

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Texto publicado na Tribuna Impressa de 21/2/2012. Também disponível no Araraquara.com.

225. ‘Carta aos Editores’ do ‘Álbum de Araraquara’ (1915)

No Centro da imagem, a cidade de 'Araquara', como consta em mapa anexo de "A Província de São Paulo" (1875), de Joaquim Floriano de Godoy

Pedem V.as S.as a minha impressão respeito á obra ALBUM DE ARARAQUARA. Posso, e com prazer o faço, declarar que essa impressão é ecelente. Tem passado a proverbio que somos um paiz desconhecido — e desconhecido, sobretudo, de nós mesmos. É natural que procuremos corrigir-nos desse defeito, e que acabemos por interessar-nos mais pelas nossas cousas do que pelos interesses alheios. Temos o gosto algum tanto roceiro de preocupar-nos demais com a vida de outrem, e pouquíssimo, descuidadamente, com a nossa. Entretanto, a nossa terra e a nossa vida não são assim desinteressantes, sobretudo para nós. Cuidemos delas que vale a pena.

O ALBUM DE ARARAQUARA é uma pequenina, modesta contribuição para essa vasta obra necessária e urjente. Reprezenta um esforço merecedor dos melhores louvores, e digno de imitação. Ainda não ha muito, a Camara de Santos levava a cabo o recenseamento daquele municipio; agora, a de Araraquara proporciona, por meio deste Album, a organização e publicação de uma obra utilissima de documentação historica e estatistica do desenvolvimento da sua cidade. Que esses ezemplos, dados em pequenas tentativas izoladas, por assim dizer individuaes, proliferem: e afinal a nossa terra se abilitará a conhecer-se a si mesma. Creio que melhor a conhecendo no seu passado e no seu prezente, no que foi e no que se tem feito, melhor a amaremos.

Não tenho sinão aplauzos para a tentativa feliz que o ALBUM DE ARARAQUARA reprezenta: essa tentativa, louvável na concepção, realizou-se com ecelente sucesso. Lendo-se o consciencioso e interessante apanhado historico com que abre a obra, e vendo-se, depois, em tantos dados de que é farto o livro, a documentação do que se fez em pouco mais de um seculo desse vago sertão de Araraquara ao qual, ainda em 1788, se referia o celebre Lacerda e Almeida, tem-se espontaneamente uma impressão consoladora de confiança… No futuro? Em nós mesmos.

As obras como essa valem por pequenas mas eloquentes lições de civismo. Ensinam-nos o conhecimento util da nossa terra. Conheçamol-a, ganharemos com isso o dar-lhe o amor e a estima que ela merece.

Vicente de Carvalho

São Paulo, 5 de Março de 1915

P.S.: a grafia, aparentemente simplificada pelo Formulário Ortográfico de 1911, está mantida como se encontra, similar àquela empregada na edição de 1930 das obras de Gregório de Matos, publicada pela Academia Brasileira de Letras.

213. O euro e a Europa

Bandeira da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (1951-2002)

A eventual saída da Grécia da Eurozona é preocupante: caso a crise europeia se agrave, outros países poderão tomar o mesmo rumo, arruinando a moeda única. Mas o fim do euro e a reintrodução das divisas nacionais não é o pior cenário. Economicamente, um transtorno sem par; moralmente, uma catástrofe sem precedentes.

O euro não é apenas uma moeda. Personifica um continente que exsurgiu das ruínas de uma guerra fratricida; é o símbolo da paz tão almejada pelos europeus nos sombrios anos do pós-guerra.

Em 1951, fundou-se em Paris a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, com escopo comercial, mas buscando a integração e procurando afastar as tradicionais rivalidades. Tinha por signatários Itália, França, Bélgica, Países Baixos, Luxemburgo e Alemanha Ocidental. Tais negociações darão forma ao Tratado de Roma, em 1957, a certidão de nascimento da Comunidade Econômica Europeia, União Europeia depois de 1995.

A relação entre seus membros — 6 em 1957, 27 hoje — não é apenas econômica. Buscou-se uma identidade europeia baseada na convivência e na concórdia.

A moeda única que veio coroar a ideia da Europa empenhada pela paz e não é mera chispa. É passo decisivo que começou em 1979, com a Unidade Monetária Europeia (ECU, na sigla inglesa), moeda escriturária. Em 1999, ainda como moeda “virtual”, passou a chamar-se euro, e em 2001, já como moeda física, materializou a unidade do continente.

Frente à crise financeira instalada e o enfraquecimento de suas instituições, a Europa corre o risco de retroceder — não imediatamente — a um ambiente pré-1914. Monetária e politicamente falando.

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Artigo publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 7/1/2012. Aqui.

210. Reflexão natalina

Natal é um período de reflexão; mas também cabe uma reflexão sobre o próprio Natal: o que significava e o que se tornou. Das notícias relacionadas à data publicadas por esta Tribuna*, grande parte remete-se a reclamações: o movimento do comércio não está bom; falta iluminação decorativa nas ruas.

Pergunto-me se o Natal resume-se a isso. Além, claro, da sanha consumista, do cheiro de tender, das ruas abarrotadas, das filas intermináveis, das músicas com harpa paraguaia nos alto-falantes das lojas, de esquálidos papais-noéis esvaecendo-se em suor entre os enchimentos e a tortura da roupa vermelha. Presentes que trazem apenas o entusiasmo do instante em que são abertos.

A decoração pisca sobre nossas cabeças; paira no ar um desânimo abafado e calorento de neve falsa a trinta graus. Falar em Deus ou em Jesus Cristo é visto com maus olhos pelos cépticos de plantão. Mas não custa lembrar que as decorações de Natal e os manjares à data associados não são o motivo da festa; é a comemoração que os traz como consequência.

O intuito maior é reunir a família para lembrar o porquê da confraternização; que por um segundo que seja, lembremo-nos daquele que se ofereceu em sacrifício por nós. Lembremos da família ausente, dos amigos.

Na balança dos valores, a inconsequência do excesso tem pesado mais; todo fim de ano há problemas relacionados — seja na bebida, seja na falta de precauções — que terminam em tétricos brindes nas manchetes de jornal.

Deixo a vocês, leitores, um convite à reflexão.

* * *

* Este texto foi publicado na seção Ponto de Vista do jornal Tribuna Impressa de hoje, 24/12/2011. Disponível no Araraquara.com.

207. Ontem e hoje

Antes o dinheiro valia ouro. Toda cédula era uma espécie de certificado que correspondia a certo peso em ouro que estava depositado no Banco do Brasil. De vez em quando, o Governo dizia que os dez mil-réis não valiam mais meio grama de ouro, mas a quatro décimos de grama do sonante metal; o que permitia a autoridade monetária imprimir mais dinheiro e, de certa forma, fomentar a inflação.

Hoje existe um Banco Central; não existe mais o lastro em outro e a moeda vale porque o Governo diz que assim é. As coisas pareciam mais simples antigamente, não?

* * *

Uma pessoa interessava-se em algum produto — fosse ele comida, uma peça de fazenda, fusíveis, naftalina, tanto faz. Entrava no estabelecimento comercial, quase sempre na mesma rua da casa, batia com os nós dos dedos na madeira do balcão e pedia ao imigrante dono da birosca:

— Seu Giovanni, faça-me lá o favor de dar-me um quilo de batatas e umas pedras de anil.

Bastavam essas palavras e o balbuciante lojista fornecia a mercadoria.

Sono… son due tostoni…

As duas moedas de 80 réis (ou de 100, de acordo com o período), saíam rápidas do bolso e chocavam-se ruidosas sobre o balcão.

— Aí tem, seu Giovanni. Bom dia.

Simples. Rápido. Eficiente.

Vejamos hoje como se dá o mesmo procedimento. É notório que as pequenas vendas já sumiram. Os supermercados acabaram com elas. Nosso personagem terá de pegar o carro (porque morre de preguiça de ir a pé), passar em algumas ruas de trânsito complicado, estacionar o carro, atravessar corredores entulhados de chamarizes. Até chegar às batatas, o comprador está com as mãos cheias de várias coisas. Por sorte, alguém abandonou ali, do lado das batatas, uma cesta plástica. Acho que anil ninguém mais usa… fiquemos apenas com as batatas.

Tem consigo uns seis itens. Aproveitou para pegar uma garrafa de vermute e foi para o caixa rápido, o de até 20 volumes, que de rápido tem muito pouco. Depois de desfilar por um corredor feito de gôndolas abarrotadas de salgadinhos e revistas várias — olha, a Playboy da fulana! — chega ao caixa. Descarrega a cestinha. A interação com a atendente de caixa é dramática. Observem:

— Bom dia.

— Bom dia.

— Nota fiscal paulista…?

— Sim, por favor.

— O CPF?

Diz o número do CPF.

— Não bate, senhor.

Diz de novo. Trocou algum dígito ou a moça digitou errado; passa as compras.

— Para bebida alcoólica preciso da sua data de nascimento, senhor.

Ele diz.

— São vinte e cinco reais e quarenta e nove centavos, senhor.

Isso porque ele entrara apenas para comprar batatas. O anil não há mais, como já dissemos, e saca um cartão para pagar a dívida.

— Crédito ou débito?

— Débito.

A moça passa o cartão.

— Senha.

O homem digita-a no terminal a sua frente.

— Senha incorreta, senhor… digite novamente.

Nervosamente, o homem digita. Alguns segundos de tensão e o estalo da gaveta da caixa registradora abrindo-se dá por recebido o pagamento.

O homem espera em silêncio. A resposta não tarda:

— Ah, a Prefeitura proibiu as sacolinhas de plástico; são antiecológicas. O senhor pode estar comprando a nossa sacola ecológica por quatro reais e cinquenta.

Por sorte, há umas caixas de papelão próximo. O consumidor põe tudo nas caixas, desce uma rampa com as duas mãos ocupadas com a caixa, deposita-a no porta-malas. Põe-se no carro, toma uma fechada na saída do estacionamento, quase pega um ciclista no semáforo e chega em casa com as compras. Tira-as da caixa e nota, não sem uma nesga de desespero no rosto, que esqueceu as batatas no caixa.

206. Do ofício

Um engenheiro civil saberia calcular a resistência de um pilar apenas olhando-o? Ou um engenheiro mecânico conseguiria resolver um problema de u’a máquina apenas em olhá-la? Certamente que não. Porém, de algumas cepas de profissionais, exige-se uma solução imediata e a pronta solução de intrincados questionamentos lançados à queima-roupa. É isso que se espera do profissional de língua portuguesa, seja ele professor, revisor ou alguma outra ocupação que lhe caiba.

Espera-se desse tipo de profissional uma espécie de conhecimento automático, enciclopédico. Como qualquer outra profissão técnica, o especialista precisa de seus manuais, de seus vade mecum. O conhecimento da língua portuguesa não é algo de pleno domínio; creio que nenhuma língua seja, a um falante-técnico, de conhecimento absoluto. Sabe-se bem que alguém que termina seus estudos regulares e não dá prosseguimento a eles, no dia a dia, ou seja, deixa de estudar, está condenado ao esquecimento e à desatualização. A memória humana não é perene…

Porém, o profissional de língua portuguesa costuma ser alfinetado ou com pegadinhas ou com as já citadas perguntas à queima-roupa. O que me parece desleal, pois presume que ele tenha de saber absolutamente tudo. Claro que, o básico do básico remanesce na memória; parte, nunca entrará.

Um bom revisor, por exemplo, não seria alguém que soubesse todas as perguntas que lhe dirigem ou tudo que vê sobre o papel, mas sim aquele que, caso não saiba à memória o que se lhe depara, saiba sim onde achar uma resposta. Esta é a função do revisor.

* * *

P.S.: ia referir-me ao profissional de língua portuguesa como bacharel em Letras, título de ensino superior, mas, antigamente, muitos revisores eram simplesmente apaixonados pela língua, autodidatas. Hoje, o autodidatismo foi atropelado e condenado pela sanha de diplomas e certificados.

201. Uma das tantas faces da morte

Entre minha infância e adolescência, meu pai foi comerciante. Teve uma avícola, gênero de comércio praticamente já extinto e que não deve ser confundido com loja de avicultura. Avícola é o estabelecimento que merca carne de frango apenas, um açougue de frango, por assim dizer. Essa casa comercial de meu pai teve vários endereços; os dois primeiros bem próximos de casa; por questões de movimento, no mesmo prédio.

Na segunda locação, o salão fechava-se por dentro e saía-se dele por uma porta lateral que dava para um corredor interno. Esse corredor escuro, sim, desembocava no portão que dava para a rua. Porém, se alguém caminhasse no sentido contrário ao do portão, desembocava num angusto pátio que era o quintal de uma casa.

Nessa casa morava a irmã da proprietária do ‘condomínio’com o marido e filhos. Não era raro sair da avícola e dar de cara com alguma das crianças, sempre sujinha e cheia de crostas e assustadores olhos claros arregalados. O salão tinha ainda grande vitrôs basculantes na parede do fundo, que davam para o pátio.

Um dia, o pai da proprietária do prédio morreu — um senhor já na casa dos oitenta anos. Morava ali, com a outra filha, na casa do pátio. Fizeram o velório na sala de estar da casa.

Família grande. Por trás da porta, o rumor quase incessante de passos condoídos, gente que viera de longe quando soube da morte do patriarca, até mesmo do Nordeste.

Eu, rapazinho, sentado num banco escutava os passos, prantos abafados e comentários. Meu pai disse-me, a certa altura: “Não faça barulho… respeite a dor dos outros. Quando fecharmos a porta, vamos lá cumprimentar as pessoas e você trate de se comportar”.

Fechamos e ainda era dia, um sábado sob horário de verão. Ao invés de sairmos, fomos pelo outro lado. No pátio havia vários parentes: adultos de cenho franzido e um grupo de crianças amuadas, caladas à força. Entramos eu e meu pai na sala abafada e escura; ele à frente e eu logo atrás. As pessoas estavam dispostas em semicírculo. As mulheres choravam, os homens estavam meditabundos pelos cantos disponíveis no ambiente. Meu pai abaixava-se para cumprimentar que estava sentado e passava para o próximo. Eu fazia o mesmo, sem ter a menor consciência do que estava fazendo: apenas dirigia o olhar a pessoa e dizia-lhe “meus pêsames”. Alguns me davam a mão, outros abraçavam-me e molhavam-me com suas lágrimas e rostos banhados.

Quando terminamos de cumprimentar todos, meu pai ficou de canto e olhou para o centro da sala. O que eu confundira com u’a mesa era um caixão, apoiado em dois móveis que pareciam criados-mudos. Dentro do caixão, o velhinho que eu costumava ver tomando sol. Pálido e murcho. À sua cabeça, u’a armação de metal com um crucifixo de metal amarelado e opaco. Percebi que aos pés do morto, havia um candelabro e nele um círio. Uma das mulheres vinha com uma caixa de fósforos e deu-lhe chama. Uma luz baça tomou conta do recinto: todos pálidos; quase tão pálidos quanto o cadáver.

Ficamos mais alguns instantes. Meu pai,em silêncio. Todos em silêncio. Fora, alguns pássaros davam os últimos trinados do dia; no grupelho de crianças, alguma delas chupava o nariz. Eram menores que eu, provavelmente não tinham ideia do que estava acontecendo ali.

Eu já tinha visto a morte outras vezes. Um tio-avô, meu avô, algum vizinho. Mas sempre a morte estava isolada na segurança dos velórios, no solo sagrado dos cemitérios. Ali não: estava dentro de casa. Ao redor do caixão, além das pessoas, os móveis da casa, os bibelôs da estante, o lustre. O corpo iria embora; o resto ficaria. Como seria o depois? Uma lembrança tão pesada para um ambiente que costuma remeter a uma certa alegria…

Fomos embora e por dias não pensei em outra coisa. No dia seguinte, o carro do serviço funerário encostou e os parentes puseram o caixão no carro. Da calçada, observei o carro descer a avenida. Não voltaria mais, é claro; é sempre assim. Mas a sala, cada objeto presente naquela sala ficou marcado. Tantos anos depois e eu sou ainda capaz de descrevê-los e, possivelmente, reconhecê-los. Um elefante de cerâmica. Uma caneca esmaltada com uma figura defecando. Um porta-retratos com a fotografia de umas crianças.

Não tinha vínculo com aquela gente e nossa visita foi protocolar, por uma questão de respeito. Meu pai nunca gostou de velórios e temas ligados à morte. Fomos embora sem dizer palavra. Mas nele também havia um mal-estar, a sensação de algo fora do lugar, de uma indigestão na alma.

199. Postiçagens

Quase tudo que leva o adjetivo postiço causa má impressão. É só citar, por exemplo, dentes postiços e o que nos vem à mente é uma dentadura, que geralmente tem algo que denuncia seu caráter excessivamente artificial, a pantomima: são dentes irreais, retilíneos, de um branco sem vida; uma perfeição inverossímil. Sem falar das perucas… ou daquela tela plástica tricolor que se colocava diante da tela dos televisores preto e branco; ou mesmo de certas leis e dispositivos jurídicos.

Não há termo melhor para esses objetos que postiçagens. Não perca tempo procurando-o no dicionário: não está lá. E as postiçagens não se resumem a esses objetos: há muitos outros exemplos e eu quero falar de um bem específico.

Há umas duas semanas, estava próximo a uma igreja de Araraquara. Uma igreja realmente simpática: arcos, colunas, a simplicidade do desenho da telha francesa e um campanário. Qual não foi o meu susto quando um ruído estranho, metálico, tomou conta da praça diante do templo. Apurando a audição, vi que o som irritante e intermitente vinha do campanário da igreja.

Era um repicar de sinos, mas não de sinos de verdade e sim de sinos postiços: uma gravação de sinos. Horrível. A igreja convertera-se em um grande telefone celular e emanava um toque polifônico; o som tomou conta de todo o espaço, de toda a praça, ricocheteava nas paredes e voltava, provocando terríveis ecos.

Parece que as gravações de sino tornaram-se algo comum. Lembro-me de ter ouvido, na cidade de São Paulo, algumas igrejas que usavam do mesmo expediente, mas cujo resultado não me parecera tão ruim.

A igrejinha simpática de Araraquara que usa os sinos virtuais não deveria mais fazê-lo. É quase polição sonora. Para que estragar a bela praça e a harmonia da igreja construída com tanto esmero com sinos que lembram mais as trombetas do Juízo Final que o ambiente agradável que deveriam (?) evocar?

Melhor deixar mudo o campanário.

198. A Caixa do Passado

A "Caixa do Futuro" de Araraquara

Monumentos. As pessoas passam por eles e, por hábito ou incompreensão, sequer dirigem-lhes uma fugaz olhadela. A etimologia da palavra já nos diz que, para os romanos monumentum ou monimentum, trata-se de “edifício majestoso, mausoléu, obra notável”.

Em compensação, sempre fui atraído pelas pedras e metais da memória. Gosto de parar, ler as placas, de saber por que — ou por quem — aquele monumento foi erguido. É difícil que algum me passe desapercebido.

Porém, durante um bom tempo, um estranho monumento chamou-me a atenção em Araraquara sem que eu pudesse deter-me para uma visita. Um grande cubo preto, instalado em uma ponta de quadra entre a dita Via Expressa e os trilhos da ALL. Depois de alguns anos passando pelo cubo — quase sempre de carro e de carona, o pudor impedia-me de parar ali —, dia desses atrás, quando ia para o trabalho de bicicleta, o calor fez com que eu me detivesse para beber água, bem ao lado do cubo.

Que posso dizer? No mínimo intrigante. Um cubo de granito preto e com duas placas de bronze (?) encaixadas em recuos nas faces laterais. Em uma das placas, um agricultor trabalhando, na outra, a explicação: trata-se de uma “caixa do futuro”.

A Caixa do Futuro araraquarense contém documentos vários — pelo que pude apurar na própria internet, gravações de áudio, mensagens — que foram postos ali em 2007. Segundo as “instruções” contidas na placa, a caixa somente deve ser desencerrada cem anos a contar da data de fechamento, ou seja, 2107.

A intenção, ainda segundo a placa, é mostrar “o que estamos fazendo hoje e como desejamos nossa cidade nos próximos cem anos”. Em suma, é um monumento do hoje dedicado ao futuro, essa quimera monstruosa que nos persegue.

É típico dos políticos amarrarem-se ao futuro, criando ilusões no eleitorado. Também é típico nosso, que sempre vislumbramos um futuro melhor (maldito positivismo). A Caixa do Futuro é uma institucionalização do Futuro por um Hoje desesperado ou, pelo menos, ansioso. Por que não uma loa ao Hoje? Um monumento ao Hoje?

Se não há motivos para levantar um monumento ao tempo presente, por que o fetichismo com o amanhã?

Além disso, a tal Caixa do Futuro é uma tentativa de perpetuação, de memória perene, uma espécie de monstruoso espermatozoide de granito para fecundar o presente de daqui a cem anos. Ou simplesmente um cálculo renal da memória: uma ideia que já nasce velha. Por que não foram mais além? Por que não a colocaram em uma praça e trocaram o nome do local para Praça da Caixa do Futuro? Se bem que aquela ponta de quadra onde está a caixa ainda pode ser batizada.

Placa principal da Caixa.