364. O ‘pibinho’ e suas obviedades

Statism Gun

Gostaria de começar este artigo assim: “Otimistas são uma verdadeira praga”. Mas não posso. A ideia era criticar aqueles que tratam a economia brasileira como algo blindado, inatingível. A maior prova que sustêm é que “a crise europeia não aportou na Botocúndia”.

O lastro atual da economia brasileira é o consumo. Prova da sua importância na produção da riqueza nacional são as reduções de impostos, pensadas para manter os níveis de produção elevados. Parece que a estratégia, embora tenha aquecido as vendas, não foi suficiente para segurar o crescimento econômico: o PIB avançou pífio 0,9%, o menor entre os emergentes. Isso se deve ao fato de a economia brasileira basear-se em consumo e commodities. Nada que possa gerar crescimento sólido.

Os pseudo-otimistas louvavam a distância da crise. Pseudo-otimistas porque não os move a coerência da análise, mas a tara estatista de que o Governo sabe — se é que um dia soube — tratar da questão. Governos primam pela incompetência na área econômica.

Geralmente manipulados, os números são o sintoma mais superficial de doenças perigosas. Há apenas investimentos industriais localizados; os destinados à infraestrutura, feitos pelo poder público, estão à míngua — basta ver as obras da transposição do São Francisco, a Transamazônica da era PT.

O “pibinho” é apenas a verruga de uma metástase. Governo precisa deixar de intervir na economia; o capitalismo de Estado brasileiro tem dado resultados ruins e perigosos. O abstencionismo estatal já nos garantiria condições suficientes para o desenvolvimento interno e para a migração de uma economia primária a uma base de produtos manufaturados, da qual consumo e commodities seriam tributários.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 5/3/2013.

362. Pedro, Rei e Imperador

Pedro I mostrado como Pedro IV, Rei de Portugal

Pedro I mostrado como Pedro IV, Rei de Portugal

É oportuna a exumação de Suas Majestades Imperiais Dom Pedro I, Dona Maria Leopoldina de Áustria e de Dona Amélia de Leuchtenberg, respectivamente Imperador e suas esposas. Os estudos forenses estão sendo feitos pela arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel, da Universidade de São Paulo.

Havia muitos mitos sobre a personalidade dessas figuras históricas, mormente sobre Dom Pedro I, Pai da Pátria, cuja imagem foi vilipendiada pela república que se seguiu ao infame 15 de novembro de 1889.

Pedro de Bragança foi escolhido como Príncipe Regente quando da volta da Família Real portuguesa à Europa. Os ditames das Cortes de Lisboa exigiam a recolonização do Brasil — que então era reino dentro do Reino Unido de Brasil, Portugal e Algarves; Pedro e Maria Leopoldina, atendendo aos anseios populares, declararam, em 1822, o Brasil independente.

O menino Pedro foi criado num ambiente menos rígido que uma corte europeia. Andava a cavalo, misturava-se com o povo. Teve falhas na sua educação formal — daquilo que se espera de um príncipe. Longe de orgulhar-se de tais defeitos, procurou saná-los na educação dos filhos, um dos quais seria o sábio Imperador Pedro II.

Por seus feitos e fama, foram-lhe ofertados os tronos de Espanha e Grécia, reconhecimentos internacionais a sua pessoa; as honras foram gentilmente negadas.

Morreu em 1834, como general português, depois de assumir a Coroa da terra natal apenas para defendê-la do irmão Miguel. Em seu testamento, não fez distinção entre filhos legítimos e naturais. Bom pai, governante exemplar. Que sua memória seja restaurada no brilho daquilo que Pedro realmente foi: o único estadista brasileiro digno de tal título.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 22/2/2012.

360. Experimentação social

"Culpa sua, seu pai de merda!"

“Culpa sua, seu pai de merda!”

Deve ter começado na Grã-Bretanha, uma boa terra, mas que ultimamente tem produzido mais minhocas que batatas. Virou moda alguns pais moderninhos não quererem “impingir estereótipos” relacionados ao sexo biológico de seus rebentos. Criam-no como um ser assexuado, dão-lhe nomes neutros como Tempestade, Trovão, Chuva ou outro fenômeno da natureza e permitem que se vistam da maneira que bem entenderem — um menino com roupas de menina, por exemplo — e brinquem com os brinquedos que lhe apetecerem.

Não sei até que ponto tais liberalidades podem ser úteis à formação do caráter da criança. Já me explico: a nossa vida em sociedade prevê determinados padrões que são compartilhados pela comunidade. Promover uma quebra abrupta de tais padrões, longe de ajudar a criança, pode prejudicá-la.

A criança pode entrar em um vórtice de confusão; deve-se sim ensiná-las a respeitar as pessoas independentemente do que elas sejam, da sua aparência, da sua cor, ou seja, promover uma mudança de pensamento, de atitudes.

Esse tipo de maluquice é própria dos nossos tempos, em que as pessoas pensam com as gônadas em vez de fazê-lo com o cérebro. Além do mais, é um tipo de experimentação social inaceitável, uma engenharia social em pequena escala: pais não têm o direito de fazer de seus filhos cobaias. É desumano para a criança, que vai crescer num mundo em que há expectativas sociais.

Não é praticando a iconoclastia, permitindo que um menino vá à escola de tutu cor-de-rosa ou de vestido que o mundo vai mudar: isso é um subterfúgio idiota; é reduzir todos os problemas à forma estética da coisa.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 15/2/2013.

359. Non habemus papam

Bento XVI (Agência EFE)

Bento XVI (Agência EFE)

Bento XVI anunciou ontem sua abdicação para o dia 28. Para uma geração que praticamente só conheceu o papa que aí está e o finado João Paulo II , tal mudança pode ser considerada veloz.

É uma pena que seu pontificado termine tão já. Certamente é por conta da pressão de setores “progressistas” da Igreja. É notório que Bento XVI nutria esperança de reverter alguns estragos causados pelo Concílio Vaticano II (1962-1965) e que era partidário de um retorno à missa tridentina, já regulada  pela carta apostólica Summorum Pontificum cura (A preocupação dos Sumos Pontífices), de 2007.

Nós, católicos leigos ou mesmo não católicos, temos livre-arbítrio e podemos questionar ou seguir diretrizes  da Igreja. Embora cartas, bulas e encíclicas que não tratem especificamente dos dogmas ou questões de fé não sejam consideradas ex cathedra — ou seja, estão fora da dita infalibilidade do Papa — devem ser observadas pelo clero católico.

A questão do retorno do rito tridentino incomoda uma parte do clero, incluindo a autoridade eclesiástica regional, Dom Paulo Sérgio Machado, bispo de São Carlos. Além de sua posição contrária ao rito, num artigo desrespeitoso à parte dos católicos (“O retorno à Idade Média”, que pode ser lido em aqui), o bispo não apenas ridiculariza o retorno ao rito — pelo fato de parte dele ser proferida em latim —, como classifica os que o desejam como “puritanos”, “cabeças de vento” e até mesmo “fariseus”. E arremata o infeliz artigo com uma citação de um socialista francês.

O que me dói é que, provavelmente, o próximo pontífice seja da mesma lavra de Dom Paulo Sérgio. Com tais pensamentos, cada dia que passa, o sedevacantismo — corrente que não reconhece os papas a partir de Paulo VI — parece menos incongruente.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 12/2/2013.