308. ‘Divide et impera’

De olho no jogo

Recebemos várias reações ao nosso artigo da semana passada (“Oclocracia”, 14/8); alguns fazendo eco, outros criticando-o. E é sobre um dos questionamentos que gostaríamos de rapidamente nos debruçar.

Um leitor questionou o raciocínio alegando que “temos 27 partidos políticos registrados no STE”. Justo. Mas o que significa esse número absurdo de partidos? Conexão plena com o que chamamos de oclocracia ou democracia numérica.

Sabemos — ou deveríamos saber — como se comportam as agremiações políticas no Brasil: não têm projetos políticos. Têm, no máximo, projetos de poder, de conquista do Estado; são mais alcateias que propriamente partidos. Isso, claro, os mais organizados; o resto são apenas amebas que querem fagocitar uma vaguinha em legislativos poeirentos, uma verbinha.

Dizemos isso porque é impossível haver 27 visões de como gerir a República. Se houvesse algum partido que defendesse a monarquia, teríamos, no máximo, umas três ou quatro visões sobre a administração pública. Aposto meu dedo mindinho esmagado por um torno mecânico que esse número não pode ser maior.

É a lógica da democracia numérica: divide et impera, ou seja, divide para dominar; era a máxima de Júlio César e Napoleão. Uma sociedade muito fragmentada não tem setores fortes; ou, no máximo, dois ou três que polarizam o restante de acordo com as conveniências. Fazem um jogo que nos ilude, um caleidoscópio que dá a sensação de infinito num minúsculo prisma de espelhos.

No final das contas, os partidos apenas fazem parte da liturgia da política. Dão aspecto sério a uma sociedade politicamente hedonista; são peça essencial do democratismo, sistema político que apenas quer parecer democrático.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 21/8/2012.

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306. Disse o Rei Miguel

Sua Majestade, o Rei Miguel da Romênia

Dar politica este o sabie cu două tăișuri. Ea garantează democrația și libertățile, dacă este practicată în respectul legii și al instituțiilor. Politica poate însă aduce prejudicii cetățeanului, dacă este aplicată în disprețul eticii, personalizând puterea și nesocotind rostul primordial al instituțiilor Statului.

Mas a política é uma faca de dois gumes. Ela garante democracia e liberdade, se praticada com respeito às leis e às instituições. A política pode também trazer prejuízos aos cidadãos, se for exercida com desrespeito à ética, personalizando o poder e desvirtuando o propósito fundamental das instituições do Estado.

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Parte de discurso proferido do Parlamento romeno em 25/10/2011, quando S.M. o Rei Miguel foi convidado pela casa legislativa para comemoração de seus 90 anos. Texto completo em romeno aqui. Vídeo do discurso com legendas em inglês aqui.

289. O escudo da ignorância

Assim como no auge da Idade Média, os dogmas continuam existindo. Antes, afirmava-se que o universo era finito; quem dissesse o contrário, ia para a fogueira. A diferença é que as chamas das fogueiras modernas são a reprovação e troça pública; coisa muito mais fácil de lidar. Ainda mais quando se trata de um amontoado de asneiras.

Nos e-mails corporativos da empresa em que você trabalha — se for o caso —, há um rodapé com dizeres do tipo: “Verifique a real necessidade de imprimir seus e-mails; preserve a natureza”. É um tipo de mensagem comum incitando a economia de papel para “preservar a natureza”, “preservar a Mata Atlântica”. Afirmação que vem blindada, tratada como verdade imperativa; um verdadeiro escudo de ignorância acerca do assunto.

A intenção real é a economia de papel, o que é um valor legítimo por si mesmo; assim como apagar as lâmpadas quando se sai de um recinto, desligar aparelhos elétricos. Uma questão de bom senso e economia. Mas não que esse tipo de comportamento vá salvar alguma coisa.

Na questão do papel, primeiro, ele é feito com madeira de plantações industriais especialmente para esse fim. Não se faz papel de madeira nativa, ou alguém realmente acha que há papel de mogno? Geralmente é feito de eucalipto, cujas fibras têm a mesma densidade e uniformidade na hora do cozimento da madeira para extração da celulose. Ou seja, fazer papel de madeiras duras ou variadas, além de inviável, resultaria — se for possível — em um papel de péssima qualidade.

As plantações de eucalipto para esse fim, por ora, concentram-se em Minas Gerais e São Paulo e estão em áreas em eram originalmente de alguma monocultura como cana ou laranja. Ou seja, não há desmatamento para produção de papel.

Outra lenda é que o eucalipto “mata” ou “seca” o solo. Acredita-se que esse tipo de boataria venha justamente de grupelhos ecológicos a soldo de países interessados em manter o monopólio da produção de celulose, como a Finlândia, por exemplo, atualmente ainda a maior produtora mundial da matéria-prima. Como simples curiosidade, veja onde estão sediadas as organizações ecológicas mais famosas como Greenpeace, WWF e outras. São quase todas ‘multinacionais’ do lobby verde, localizadas “lá em cima”.

O eucalipto é ecológico, gera renda e tira os agricultores da monocultura. Então, antes de acreditar em qualquer coisa apenas porque tem o revestimento, a proteção do politicamente correto e tratá-la como dogma e combatê-la por simples e pura ignorância. Certamente que tudo deve ser usado com a devida economia, mas que fique claro o motivo correto e que não seja baseado em lendas ou estórias mal-contadas.

288. Gornalismo, Sakamoto e mais do mesmo

Graham Chapman e a metáfora do ‘gorn’

Sim, com g mesmo. A ideia vem de gorn, palavra inexistente na língua inglesa usada pela trupe britânica Monty Python em um de seus esquetes. Nada significa, mas ‘evoca madeira’, algo sólido, segundo o esquete em que aparece. Ou seja: um discurso vazio com uma armadura sólida.

É o que acontece quando o jornalista — ou articulista — se agarra em algum dogma do politicamente correto. Se está do lado ‘certo’ ou ‘dos bons’, considera-se inatingível. Usa o senso comum como escudo.

É o caso recente do texto “Ostentação diante da pobreza deveria ser crime previsto no Código Penal”, do gornalista Leonardo Sakamoto. Não o acompanho; na verdade, desconhecia-o até que o texto citado causou certa enevoamento nas redes sociais.

A partir das falas de uma dondoca colhidas da coluna social da Folha, Sakamoto reza pelo estranho catecismo do marxismo com laivos cristãos. Embora as declarações da socialite tenham sido ligeiramente infelizes, a impressão que se tem é a justificação das violências, dos arrastões nos restaurantes paulistanos pelo fator desigualdade social.

Prega um esquisito pauperismo, na lógica de ‘não tenho nada para roubarem, logo não preciso me preocupar’. O que o senhor Sakamoto ignora — ou finge ignorar — é que pessoas têm bens ou desfrutam de determinados serviços porque trabalharam para tal. Talvez não seja o caso da socialite, mas que, mesmo assim, vive às expensas de alguém que tem alguma atividade econômica.

O que se infere do texto é a famosa invidia brasiliensis. Ou seja, justifica-se o roubo, a apropriação indébita porque ciclano não tem condições de ter aquilo. Vivemos em tempos mais tranquilos do que aqueles que viveram, por exemplo, nossos avós. A universidade está aí; o ensino está aí; é óbvio que as coisas não vêm em bandeja, é preciso certa dose de esforço.

Sakamoto defende, nas entrelinhas, uma cultura do coitadismo, que é o mesmo discurso vagabundo usado, por exemplo, pelo Governo para justificar suas mil bolsas. O que falta entre nós é uma real cultura da dignidade e do trabalho. O curioso que esse pensamento tem um estranho ranço cristão, mesmo vindo da pena de gente que renega o cristianismo como formador do caráter brasileiro e o culpa pelos atrasos do Ocidente. Por isso quando digo que somos um país católico, não é somente por ser ainda a religião da maioria, mas também porque determinados conceitos ficaram presos à formação da nacionalidade: justamente os mais deturpados e os mais prejudiciais. Aquelas coisas do tipo que ter dinheiro é pecado; hoje, para os novos sacerdotes do politicamente correto e da igualdade social — Tocqueville revira-se na tumba —, é crime.

Ter inveja é fácil, mas ela pode ser ruim quando casado com o imediatismo e pode ser boa quando casada com a vontade de progredir. De lamentações, já basta o Jeca.

283. Visita a Lênin

Trata-se de um capítulo de “Gog”, de Giovanni Papini. Está em castelhano, mas não é difícil de acompanhar.

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Lênin em estado avançado de dodói

VISITA A LENIN

Moscú, 3 julio

He estado porfiando casi un mes, pero al fin lo he conseguido. Había venido a Rusia únicamente para conocer a este hombre y no quería marcharme sin haberle oído hablar. Me parece, en su género, uno de los tres o cuatro vivientes que vale la pena de escuchar. Llegar hasta él me ha costado casi veinte dólares —regalos a las mujeres de los comisarios, propinas a los soldados rojos, donativos a los asilos de huérfanos—, pero no lo lamento.

 Decían que Vladimiro Ilitch estaba enfermo, cansado, y que no podía recibir a nadie, a excepción de sus íntimos. No permanece ya en Moscú, sino en una aldea vecina, en una antigua villa de señores, con el acostumbrado peristilo de columnas blancas a la entrada. El viernes por la noche las últimas dificultades habían sido vencidas y el teléfono me advirtió que el domingo se me esperaba. Dijeron a Lenin que mi capital podría  ayudar a los difíciles comienzos de la «Nep» y había consentido en verme.

Fui recibido por la esposa, una mujer gorda y taciturna, que me miró como las enfermeras miran a un nuevo enfermo que entra en la sala. Encontré a Lenin en un pequeño balcón, sentado ante una gran mesa cubierta de grandes hojas de dibujos. Me produjo la impresión de un condenado al cual se le permite gandulear en paz en las últimas horas de su vida. La característica cabeza de tipo mongólico parecía hecha de queso viejo y seco; árida y, sin embargo, blanda. Entre los labios sucios, la calavera mostraba ya la fila siniestra de sus dientes. El cráneo, vasto y desnudo, hacía el efecto de una caja barbárica construida con el hueso frontal de algún monstruo fósil. Dos ojos turbios e inquisitivos de pájaro solitario estaban agazapados dentro de los párpados sanguinolentos.

Las manos jugueteaban con un lápiz de plata: se veía que habían sido grandes y fuertes manos de labrador, pero con su descarnadura anunciaban la muerte. No podré olvidar nunca sus orejas de marfil chupado, tendidas hacia fuera como para coger los últimos sonidos del mundo, antes del gran silencio.

Los primeros minutos del coloquio fueron  más bien penosos. Lenin se esforzaba en estudiarme, pero con aire distraído, como si cumpliese un deber que ahora ya no le importaba. Y yo, ante aquella máscara azafranada y cansada, no tenía valor para hacer las preguntas que me había propuesto. Murmuré al azar un cumplido sobre la gran obra realizada por él en Rusia. Y entonces aquella cara medio muerta se llenó de arrugas espectrales que querían ser una sonrisa sarcástica.

—Pero si todo estaba hecho —exclamó Lenin con un brío inesperado y casi cruel—; todo estaba hecho antes de que llegásemos nosotros. Los extranjeros y los imbéciles suponen que aquí se ha creado algo nuevo. Error de burgueses ciegos. Los bolcheviques no han hecho más que adoptar, desarrollándolo, el régimen instaurado por los zares y que es el único adaptado al pueblo ruso. No se pueden gobernar cien millones de brutos sin el bastón, los espías, la policía secreta, el terror, las horcas, los tribunales militares, las galerías y la tortura. Nosotros hemos cambiado únicamente la clase que fundaba su hegemonía sobre este sistema. Eran sesenta mil nobles y tal vez unos cuarenta mil grandes burócratas; en total, cien mil personas. Hoy se cuenta cerca de dos millones de proletarios y de comunistas. Es  un progreso, un gran progreso, porque los privilegios son veinte veces más numerosos, pero el noventa y ocho por ciento de la población no ha ganado mucho en el cambio. Esté seguro de que no ha ganado nada, y es al mismo tiempo lo que se quiere, lo que se desea, aunque por otra parte era absolutamente inevitable.

Y Lenin comenzó a reír en sordina como un  comerciante que ha engatusado a alguien y contempla alegremente las espaldas del burlado que se va.

— Entonces —murmuré —, ¿y Marx, y el progreso, y lo demás?

— A usted, que es un hombre potente y extranjero — añadió —, se lo podemos decir todo.

Nadie lo creerá. Pero recuerde que Marx mismo nos ha enseñado el valor puramente instrumental y ficticio de las teorías. Dado el estado de Rusia y de Europa me he tenido que servir de la ideología comunista para conseguir mi verdadero fin. En otros países y en otros tiempos hubiera elegido otra.

Marx no era más que un burgués hebreo aferrado a las estadísticas inglesas y admirador secreto del industrialismo. Le faltaba el sentido de la barbarie, y por esta razón era apenas una tercera parte del hombre. Un cerebro saturado de cerveza y de hegelianismo, en el que el amigo Engels esbozaba alguna idea genial. La Revolución rusa es una completa negación de las profecías de Marx. Donde no había casi burguesía, allí ha vencido el comunismo.

»Los hombres, señor Gog, son salvajes espantosos que deben ser dominados por un salvaje sin escrúpulos, como yo. El resto es charlatanería, literatura, filosofía y músicas para uso de los tontos. Y como los salvajes son semejantes a los delincuentes, el principal ideal de todo Gobierno debe ser el de que el país se asemeje lo más posible a un establecimiento penal. La vieja mazmorra zarista es la última palabra de la sabiduría política. Bien meditado, la vida del presidiario es la más adaptada al promedio vulgar de los hombres. No siendo libres, están, al fin, exentos de los peligros y de las molestias de la responsabilidad y se hallan en condiciones de no poder realizar el mal.

Apenas un hombre entra en la prisión, debe, por la fuerza, llevar la vida de un inocente. Además, no tiene pensamientos ni preocupaciones, pues ya están aquí los que piensan y mandan por él; trabaja con el cuerpo, pero su espíritu descansa. Y sabe que todos los días tendrá qué comer y podrá dormir, aunque no trabaje, aunque esté enfermo, y todo esto, sin las preocupaciones que incumben al libre para procurarse su pan cada mañana y un lecho cada noche. Mi sueño es transformar a Rusia en un inmenso establecimiento penal, y no se imagine que lo diga por egoísmo, pues con un tal sistema, los más esclavos y sacrificados son los jefes y los que los secundan.

Lenin calló un momento y se puso a contemplar un diseño que tenía ante sí. Representaba, según me pareció, un palacio alto como una torre, agujereado por innumerables ventanas redondas.

Me atreví a formular una de mis preguntas:

— ¿Y los campesinos?

— Odio a los campesinos — respondió Vladimiro Ilitch con un gesto de asco—, odio al mujik idealizado por aquel reblandecido occidental llamado Turguenev y por aquel hipócrita fauno convertido que se llama Tolstoí. Los campesinos representan todo lo que detesto: el pasado, la fe, la herejía y la manía religiosa, el trabajo manual. Los tolero y los acaricio, pero los odio. Quisiera verlos desaparecer todos, hasta el último. Un electricista vale, para mí, por cien campesinos.

»Se llegará, según espero, a vivir con los alimentos producidos en pocos minutos por las máquinas en nuestras fábricas químicas, y podremos al fin hacer la matanza de todos los labriegos inútiles. La vida en la naturaleza es una vergüenza prehistórica.

»Tenga usted en cuenta que el bolcheviquismo representa una triple guerra: la de los bárbaros científicos contra los intelectuales podridos, del Oriente contra el Occidente y de la ciudad contra el campo. Y en esta guerra no dudaremos en la elección de las armas. El individuo es algo que debe ser suprimido. Es una invención de aquellos gandules griegos o de aquellos fantásticos germanos. Quien resista será extirpado como una pústula maligna. La sangre es el mejor abono ofrecido a la Naturaleza.

»No crea que yo sea cruel. Todos estos fusilamientos y todas estas horcas que se levantan por mi orden me disgustan. Odio a las víctimas, sobre todo porque me obligan a matarlas. Pero no puedo hacer otra cosa. Me vanaglorio de ser el director de una penitenciaría modelo, de un presidio pacífico y bien organizado. Pero  aquí se hallan, como en todas  las prisiones, los rebeldes, los inquietos, aquellos que tienen la estúpida nostalgia de las viejas  ideologías y de las mitologías homicidas. Todos ésos son suprimidos. No puedo permitir que  algunos millares de enfermos comprometan la felicidad futura de millones de hombres. Además, al fin y al cabo, las antiguas sangrías no eran una mala cura para los cuerpos. Hay una cierta voluptuosidad en sentirse amo de la vida y de la muerte. Desde que el viejo Dios fue muerto —no sé si en Francia o en Alemania—, ciertas satisfacciones han sido acaparadas por el  hombre. Yo soy, si quiere, un semidiós local, acampado entre Asia y Europa, y, por tanto, me puedo permitir algún pequeño capricho. Son gustos de los que, después de la decadencia de los paganos, se había perdido el secreto. Los sacrificios humanos tenían algo bueno: eran un símbolo profundo, una alta enseñanza; una fiesta saludable. Y yo, en vez de los himnos de los fieles, siento llegar hasta mí los alaridos de los prisioneros y de los moribundos, y le aseguro que no cambiaría con la novena sinfonía de Beethoven esa sinfonía, canto anunciador de la beatitud próxima.

Y me pareció que el rostro descompuesto y cadavérico de Lenin se inclinaba hacia delante para escuchar una música silenciosa y solemne,  que tan sólo él podía oír. Apareció la señora Krupskaia para decirme que su marido estaba cansado y que tenía necesidad de un poco de reposo.

Me marché en seguida.

He gastado casi veinte dólares para ver a este hombre, pero en verdad no me hace el efecto de que los haya malgastado.

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Fonte: www.ultimoreducto.com/libros/Gog.pdf

282. Bolsos insaciáveis

É quase o título de um filme pornográfico. Mas festa com dinheiro público também é um tipo de pornografia, mais refinada e, ao mesmo tempo, mais nojenta.

Depois de meses de embate, os vereadores da cidade de Araraquara reajustaram seus subsídios que, na próxima legislatura, passarão a  R$ 6.550. Um aumento de 27%.

A situação pegou fogo ontem, em uma sessão que durou 7h30. O primeiro projeto, votado já há algum tempo, queria elevar os vencimentos para cerca de R$ 8 mil, um aumento de 60% sobre o valor atualmente percebido e que englobaria a inflação dos últimos quatro anos, mais projeção de inflação (?!) para os quatro anos seguintes. Afinal, os vencimentos só podem ser reajustados para a legislatura seguinte.

Tiveram de mudar de ideia após um movimento popular chamado “Reage Araraquara” ter conseguido recolher em poucos dias 12 mil assinaturas para protocolar um projeto de lei popular. Bem mais que os 5% do eleitorado exigidos pela Constituição Federal, 8 mil eleitores no caso de Araraquara.

O mais engraçado é o jogo do direito adquirido. Parte dos vereadores fez lobby e disse que “não aceitariam” ganhar menos de R$ 7 mil, ou seja, o salário de um secretário municipal. Curioso, pois grande parte da vereança tem outras atividades e, em tese, não precisaria lançar-se sobre o erário com tanta voracidade. Mas tiveram de recuar.

Possivelmente o mais prejudicado com o desgaste político e eleitoral foi o próprio governo, coalizão PMDB-PSDB-DEM, majoritariamente. A base do governo discutiu entre si e ofendeu-se. Certamente haverá prejuízos políticos para os últimos meses da legislatura.

Em compensação, silenciosamente a oposição — majoritariamente PT — parece ter gostado da confusão toda e certamente capitalizará com o fato, uma vez que foi contra o aumento desde o início e, numa manobra de fundo populista, propôs o congelamento dos vencimentos.

Ontem, para evitar que o caldo entornasse, a conturbada sessão de ontem teve de ser paralisada por 20 minutos. Tempo suficiente para que o vereador Serginho Gonçalves (PMDB) e o membro do Reage Araraquara Marcelo Bonholi se estranhassem no corredor. “Você é um bosta!”, ouviu-se ecoar da boca do rotundo vereador.

Creio que Napeloso pode ser considerado inocente da ofensa. Afinal, ele só exteriorizou o que a classe política pensa do eleitor e cidadão. Tanto em Araraquara quanto em Brasília, os membros dessa casta — uma nobreza podre legitimada por votos comprados — deve mesmo pensar isso de nós: somos uns bostas.

Como já diria Justo Veríssimo, personagem do saudoso Chico Anysio, “Eu quero que o povo se exploda!”

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E ainda haverá queda de braço entre políticos e população. Afinal, ainda não desistiram de aumentar seus ‘tronos’ de 11 assentos para 18.

280. Longa noite

Antes de qualquer julgamento, leia o texto até o fim.

Longa noite

Todos parecem sentir que a casa está na mais perfeita ordem, e alguns até são loucos o bastante para acreditar que o grande sinal de saúde cultural do país são eles próprios.

Se há uma coisa que, quanto mais você perde, menos sente falta dela, é a inteligência. Uso a palavra não no sentido vulgar de habilidadezinhas mensuráveis, mas no de percepção da realidade. Quanto menos você percebe, menos percebe que não percebe. Quase que invariavelmente, a perda vem por isso acompanhada de um sentimento de plenitude, de segurança, quase de infalibilidade. É claro: quanto mais burro você fica, menos atina com as contradições e dificuldades, e tudo lhe parece explicável em meia dúzia de palavras. Se as palavras vêm com a chancela da intelligentzia falante, então, meu filho, nada mais no mundo pode se opor à força avassaladora dos chavões que, num estalar de dedos, respondem a todas as perguntas, dirimem todas as dúvidas e instalam, com soberana tranqüilidade, o império do consenso final. Refiro-me especialmente a expressões como “desigualdade social”, “diversidade”, “fundamentalismo”, “direitos”, “extremismo”, “intolerância”, “tortura”, “medieval”, “racismo”, “ditadura”, “crença religiosa” e similares. O leitor pode, se quiser, completar o repertório mediante breve consulta às seções de opinião da chamada “grande imprensa”. Na mais ousada das hipóteses, não passam de uns vinte ou trinta vocábulos. Existe algo, entre os céus e a terra, que esses termos não exprimam com perfeição, não expliquem nos seus mais mínimos detalhes, não transmutem em conclusões inabaláveis que só um louco ousaria contestar? Em torno deles gira a mente brasileira hoje em dia, incapaz de conceber o que quer que esteja para além do que esse exíguo vocabulário pode abranger.

Que essas certezas sejam ostentadas por pessoas que ao mesmo tempo fazem profissão-de-fé relativista e até mesmo neguem peremptoriamente a existência de verdades objetivas, eis uma prova suplementar daquilo que eu vinha dizendo: quanto menos você entende, menos entende que não entende. Ao inverso da economia, onde vigora o princípio da escassez, na esfera da inteligência rege o princípio da abundância: quanto mais falta, mais dá a impressão de que sobra. A estupidez completa, se tão sublime ideal se pudesse atingir, corresponderia assim à plena auto-satisfação universal.

O mais eloqüente indício é o fato de que, num país onde há trinta anos não se publica um romance, uma novela, uma peça de teatro que valha a pena ler, ninguém dê pela falta de uma coisa outrora tão abundante, tão rica nestas plagas, que era a – como se chamava mesmo? – “literatura”. Digo que essa entidade sumiu porque – creiam – não cesso de procurá-la. Vasculho catálogos de editoras, reviro a internet em busca desites literários, leio dezenas de obras de ficção e poesias que seus autores têm o sadismo de me enviar, e no fim das contas encontrei o quê? Nada. Tudo é monstruosamente bobo, vazio, presunçoso e escrito em língua de orangotangos. No máximo aponta aqui e ali algum talento anêmico, que para vingar precisaria ainda de muita leitura, experiência da vida e uns bons tabefes.

Mas, assim como não vejo nenhuma obra de literatura imaginativa que mereça atenção, muito menos deparo, nas resenhas de jornais e nas revistas “de cultura” que não cessam de aparecer, com alguém que se dê conta do descalabro, do supremo escândalo intelectual que é um país de quase duzentos milhões de habitantes, com uma universidade em cada esquina, sem nenhuma literatura superior. Ninguém se mostra assustado, ninguém reclama, ninguém diz um “ai”. Todos parecem sentir que a casa está na mais perfeita ordem, e alguns até são loucos o bastante para acreditar que o grande sinal de saúde cultural do país são eles próprios. Pois não houve até um ministro da Cultura que assegurou estar a nossa produção cultural atravessando um dos seus momentos mais brilhantes, mais criativos? Media, decerto, pelo número de shows de funk.

Estão vendo como, no reino da inteligência, a escassez é abundância?

Mas o pior não é a penúria quantitativa.

Da Independência até os anos 70 do século XX, a história social e psicológica do Brasil aparecia, translúcida, na literatura nacional. Lendo os livros de Machado de Assis, Raul Pompéia, Lima Barreto, Antônio de Alcântara Machado, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado, Marques Rebelo, José Geraldo Vieira, Ciro dos Anjos, Octávio de Faria, Anníbal M. Machado e tantos outros, obtínhamos a imagem vívida da experiência de ser brasileiro, refletida com toda a variedade das suas manifestações regionais e epocais e com toda a complexidade das relações entre alma e História, indivíduo e sociedade.

A partir da década de 80, a literatura brasileira desaparece. A complexa e rica imagem da vida nacional que se via nas obras dos melhores escritores é então substituída por um sistema de estereótipos, vulgares e mecânicos até o desespero, infinitamente repetidos pela TV, pelo jornalismo, pelos livros didáticos e pelos discursos dos políticos.

No mesmo período, o Brasil sofreu mudanças histórico-culturais avassaladoras, que, sem o testemunho da literatura, não podem se integrar no imaginário coletivo nem muito menos tornar-se objeto de reflexão. Foram trinta anos de metamorfoses vividas em estado de sono hipnótico, talvez irrecuperáveis para sempre.

O tom de certeza definitiva com que qualquer bobagem politicamente correta se apresenta hoje como o nec plus ultrada inteligência humana jamais teria se tornado possível sem esse longo período de entorpecimento e de trevas, essa longa noite da inteligência, ao fim da qual estava perdida a simples capacidade de discernir entre o normal e o aberrante, o sensato e o absurdo, a obviedade gritante e o ilogismo impenetrável.

Olavo de Carvalho

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Publicado no Diário do Comércio.

278. O Marquês de Pombal e o português

O Marquês de Pombal em sua glória. Detalhe de pintura de Louis-Michel van Loo e Claude Joseph Vernet (1766)

O texto abaixo foi desenvolvido como atividade acadêmica, mas que foi erroneamente interpretada. Logo, não serviu como atividade. Há algumas considerações interessantes que gostaria de dividir com os meus leitores. Afinal, o texto ficaria apodrecendo no fundo de um pen drive.

Peço desculpas pela empolação acadêmica. Às vezes, ela é necessária para um igualmente empolado — e empoleirado — interlocutor.

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A imposição do português como idioma único no período pombalino tem ainda relação com a ideologia de formação dos estados nacionais (sécs. XV-XVI). Um povo, um rei, uma língua. Embora só tenha ocorrido tardiamente no Brasil (por falta de gente ou por displicência?), na Europa, a imposição de um dialeto sobre os demais de um território nacional era a regra. Assim ocorreu com o francês (o dialeto da Ilha de França, a região de Paris), que foi tornado obrigatório nas cortes de justiça por decreto (1539). O mesmo ocorreu com o castelhano que se sobrepôs ao galego, ao catalão e até mesmo adotou um nome nacional, “espanhol”.

A questão do Marquês de Pombal com o português dividia-se em: 1) uma administração mais eficiente (por isso a “unidade” linguística de Portugal e domínios foi buscada); 2) a “condenação” à língua geral tem relação direta com os jesuítas, expulsos em 1760, que a usavam para catequese dos índios e que atingiu mesmo foros de língua literária, tendo sido compilada e normalizada pelos religiosos.

A língua geral de base tupi, ao que parece, deixou-nos (aos falantes do Interior paulista, sul de Minas, norte do Paraná, Goiás e Mato Grosso do Sul) um r retroflexo. Sílvia Figueiredo Brandão, em seu “Nas trilhas do -r retroflexo” (Signum, Estud. Ling., Londrina, n. 10/2, p.265-283, dez. 2007), sobre o fonema que não está presente em nenhuma outra área do português, que há um esforço dos filólogos em determinar o ponto de irradiação (São Paulo) e o meio de difusão (entradas e bandeiras) do r retroflexo. Se é algo que tem relação com os bandeirantes, o fonema tem base na língua geral, pois os bandeirantes, muitos deles falavam um português “atravessado”, sendo sua língua materna a língua geral “criada” pelos jesuítas.

O mote principal das reformas pombalinas não era a língua em si; o predomínio esperado do português era um instrumento para o objetivo maior: a unidade política e cultural do império português. Tal como se lê no famoso gramático castelhano Antonio de Nebrija, “a língua sempre foi companheira do Império”[1]. Ideia também reforçada pelos gramáticos lusos Fernão de Oliveira (1540), João de Barros (1540) e Duarte Nunes do Lião (1606)[2].

A questão da ‘imposição’ da língua portuguesa no Estado do Pará e no Estado do Maranhão[3] pela Lei do Diretório de 1757 passa primeiramente pela questão da expulsão da Companhia de Jesus de Portugal e seu império colonial. De um ponto de vista “oficial”, os jesuítas, além de não respeitarem as ordens reais prévias — deduz-se pelo parágrafo 6º da Lei de 1757 —, tampouco obedeciam à diretriz aprovada pelo concílio de Trento (1562), “[…] o qual impunha o uso do latim nas atividades litúrgicas católicas” (GOULARTE, 2007).

A missão primeva dos jesuítas era a catequese e a língua geral amazônica — por eles mesmos compilada a partir do tupi. Era mais fácil proceder à catequização com essa língua franca, o que ajudou enormemente em sua difusão mesmo entre os descendentes dos colonos portugueses.

Embora os textos consultados não façam diferenciação, a Lei do Diretório faz referências às atuais regiões Norte e Nordeste do País, cuja variante da língua geral era diferente. No Norte, a língua geral amazônica — ainda hoje falada em São Gabriel da Cachoeira/AM e uma das línguas oficiais do município — e a língua geral paulista, codialetos entre si. Além do mais “não há documentos que comprovem a extensão do Diretório a toda a Colônia, o que leva a crer que isso não tenha ocorrido” (FÀVERO, 2005).

A intenção do Marquês de Pombal era o controle temporal de vastas áreas da colônia que, por conta da administração do ensino, estavam de facto na mão da Companhia de Jesus. A substituição do ensino ministrado pela Companhia por um ensino estatal era uma arma de efetivo domínio e controle. O próprio texto da Lei deixa transparecer uma ideia de polidez e assimilação linguística:

Sempre foi máxima inalteravelmente praticada em todas as Nações, que conquistaram novos Domínios, introduzir logo nos povos conquistados o seu próprio idioma, por ser indisputável, que este é um dos meios mais eficazes para desterrar dos Povos rústicos a barbaridade dos seus antigos costumes; e ter mostrado a experiência, que ao mesmo passo, que se introduz neles o uso da Língua do Príncipe, que os conquistou, se lhes radica também o afeto, a veneração, e a obediência ao mesmo Príncipe. (PORTUGAL, 1757; art. 6º), grifos nossos.

A língua do Príncipe. Eis o “português-padrão” de então. Se bem que apoiado nos gramáticos já citados, mormente em João de Barros. O texto acusa ainda que, em vez de se proceder a introdução do idioma

[…] se praticou tanto pelo contrário, que só cuidaram os primeiros Conquistadores estabelecer nela o uso da Língua, que chamaram geral; invenção verdadeiramente abominável, e diabólica, para que privados os Índios de todos aqueles meios, que os podiam civilizar, permanecessem na rústica, e bárbara sujeição, em que até agora se conservavam. (PORTUGAL, 1757, art. 6º)

Os adjetivos que qualificam a língua geral não deixam dúvida do lugar que lhe caberá na nova organização estatal almejada pelo Marquês de Pombal. Valendo-se ainda de preceitos religiosos (antijesuítas, mas de fundo cristão), qualifica negativamente a língua geral.

A língua tem um papel primordial no novo Estado pombalino, por isso a preocupação de difundi-la, impô-la, “dar-lhe esplendor” (afinal, é a língua do Príncipe).

REFERÊNCIAS

FÁVERO, Leonor Lopes. Século XVIII – A língua portuguesa no Brasil e o discurso do poder. In: GONÇALVES, M. et al. Gramática e humanismo, vol. 1. Universidade Católica Portuguesa: Braga, 2005.

GOULARTE, Raquel da Silva. O ‘ensino’ do português para os índios do Brasil: um percurso de intenções. Anais. 16º Congresso de leitura do Brasil: Campinas, 2007. Disponível em: <http://alb.com.br/arquivo-morto/edicoes_anteriores/anais16/sem04pdf/sm04ss03_04.pdf>, acessado em 8.mai.2012

PORTUGAL. Lei do Diretório (1755, 1757). 1757. Disponível em <http://www.nacaomestica.org/diretorio_dos_indios.htm>, acessado em 8.mai.2012.

TROUCHE, Lygia Maria Gonçalves. O Marquês de Pombal e a Implantação da Língua Portuguesa no Brasil – Reflexões sobre a proposta do Diretório de 1757. Cadernos do CNLF, Série IV, no. 12 -Semiótica, Discurso, Leitura, História da Língua Portuguesa e Neurolinguística Aplicada – IV Congresso nacional de Linguística e Filologia, 2000.


[1] Apud FÁVERO, 2005, p. 317-330.

[2] Idem, ibidem.

[3] Divisões coloniais muito mais amplas que as atuais unidades homônimas; o próprio termo ‘estado’ deve ser lido não com o significado que a ele damos hoje.

277. O imperativo

Este texto não tem pretensões acadêmicas; é tão-só uma reflexão ilustrativa sobre alguns fatos da nossa língua do dia a dia.

Sabe-se que operamos em um sistema de diglossia. Existe um português escrito, com normas que remetem ao século XVII e XVIII, e existe não um, mas vários portugueses falados, cada qual com suas variações regionais. E, volta e meia, me pego pensando em alguma dessas ‘irregularidades’.

É notório que entre nós paulistas do hinterland, ou seja, de todas as áreas exceto o Litoral, o pronome de tratamento você suplantou o tu. O que era uma forma de tratamento formal (vossa mercê > vosmecê > você) passou a ser tão simplesmente a forma mais comum de tratamento informal. Tanto que para o formal, um novo pronome: o senhor/a senhora que, para mim, guarda certa semelhança de formação com o tratamento formal do romeno, dumneavoastră, como explica o Dicționarul explicativ al limbii române:

DUMNEAVOÁSTRĂ pron. pers. Pronume de politețe pentru persoana a 2-a (singular și plural). [Var.: (pop.) dumnevoástră pron. pers.] –Domnia + voastră.

Ou igualmente ao castelhano usted (vuestra merced > vuested > usted).

Muito bem. O você substituiu o tu como pronome de tratamento informal; as conjugações dos verbos passaram, obviamente, da segunda para a terceira pessoa. Mas, nem todas. Na área de São Paulo se usa o imperativo da segunda pessoa:

a. “Faz isso pra mim?”

b. “Pega esse negócio aí.”

c. “Me traz um sanduíche de atum.”

A explicação que posso deduzir vem mesmo do nome do tempo: imperativo. Como nos ensinavam as professoras na escola — no tempo em que as escolas eram de alguma serventia —, o imperativo serve para exprimir uma ordem, um comando. No português padrão, as frases acima ficariam

a. “Faça isso para mim?”

b. “Pegue esse negócio aí.”

c. “Traga-me um sanduíche de atum.”

Em Portugal, a forma de tratamento formal ainda é o você; o tu reserva-se ao tratamento familiar e àqueles com que se tem algum grau de intimidade.

Para nós, um verbo no imperativo fornece duas informações: 1) uma distância marcada entre emissor e receptor, o que pode ser lido como uma diferença social ou de hierarquia; 2) uma certa antipatia. É óbvio que são informações psicológicas que podem não corresponder à realidade efetiva.

Possivelmente a escolha do imperativo na 2ª pessoa é um resquício de afabilidade, alguma artimanha criada para pôr suavidade a uma ordem, no tempo em que a distinção entre você e tu existia entre a população, amenizando um verbo mais áspero. Assim como o uso generalizado dos diminutivos entre nós.

276. Da moral e dos maus costumes

Alexis de Toqueville

Alexis de Tocqueville viveu entre 1805 e 1859 e, como pensador político, sua grande obra é “A democracia na América”, na qual descreve o sistema democrático americano nos anos 1830. Embora o livro esteja aparentemente longe de nós, algumas conclusões de Tocqueville explicam nossa situação sociopolítica sem pôr nem tirar.

Tocqueville preconizava que o sistema democrático requer uma sólida base moral e que essa deve ser uma moral social de tipo consensual, não imposta pela Igreja — como na Idade Média — ou pelo Estado, mas uma moral pública, nascida no convívio igualitário e nas ponderações da própria sociedade, portanto, cultural.

O sábio francês atribui a mudança da moral religiosa para a laica à Reforma, quando a interpretação bíblica única da Igreja Católica foi quebrada, dando margem à liberdade de interpretação e, consequentemente, mudanças profundas na moral pública.

Nos países profundamente católicos, a sociedade teve o lastro moral da Igreja substituído pelo do Estado; logo, o Estado passou a ditar a moral, afogando a possibilidade de ela surgir do próprio seio da sociedade. E a moral ditada pelo Estado é a própria tirania, já que o movimento deveria ser inverso: da sociedade para o Estado.

A moral estatal é uma aberração. Um exemplo pôde ser visto recentemente: a ministra Izabella Teixeira (Meio Ambiente), na apresentação dos vetos ao Código Florestal, vangloriou-se de que o Brasil era o único país que exigia área de preservação permanente dentro da propriedade privada. Ou seja, um conceito moral vindo do Estado, que influi diretamente na vida de muita gente, e amplamente aplaudido como se fosse panaceia.

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Texto publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 29/5/2012.

253. A pátria da imbecilidade

Dante aguentaria a encheção de saco hodierna?

Dante Alighieri (1265-1321) e Monteiro Lobato (1882-1948) estão separados por quase sete séculos. Porém, duas características unem o mestre florentino e o escritor de Taubaté: o fato de serem grandes literatos e a boçalidade com que suas obras foram e são tratadas por pretensos paladinos e guardiães da moral moderna.

Em outubro de 2010, um parecer do Conselho Nacional de Educação recomendou que “Caçadas de Pedrinho” — obra de Monteiro Lobato — fosse retirada da lista de livros indicados para o ensino público por conter trechos “racistas”. Isso porque no livro já há uma nota que diz que “a aventura ocorreu em tempos que os animais silvestres não eram protegidos pelo Ibama e a onça-pintada não estava em extinção”, o popular “explicar a piada”. Depois da celeuma causada na mídia, o parecer foi revisto e o quase-veto foi retificado.

Agora, leio no site da revista Cult que uma ONG italiana quer banir a “Divina Comédia” (escrita por volta de 1307), de Dante Alighieri, por “racismo e discriminação contra homossexuais e muçulmanos”.

O que faltou nos dois casos foi: 1) obras antigas não podem ser lidas com (pré-) conceitos de hoje. Retumba em irremediável anacronia, tanto em Lobato, quanto em Alighieri; 2) veto ou banimento de livros é algo que ofende o cidadão: é chamá-lo de inapto, qualificá-lo como alguém que não tem discernimento e depende do Estado para tal.

Burocratas e ongueiros, no afã de “libertar-nos”, cometem os mais vis atentados à cultura, à Educação e à inteligência. Os brasileiros somos iconoclastas e avessos à leitura, é notório; mas o caso italiano mostra que a imbecilidade não tem pátria.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 27/3/2012.

247. “Veredicto em Canudos”, Sándor Márai

Sándor Márai (1900-1989), escritor húngaro

“Um dia comecei a escrever sobre o que acreditava ter ficado ‘de fora’ do livro de Euclides da Cunha — ficara de fora, mas ‘poderia ter sido assim’.” Dessa maneira, com palavras do próprio autor, podemos definir o romance húngaro “Veredicto em Canudos” (Ítélet Canudosban, no original magiar).

Sándor Márai, alicerçando a narrativa a partir de uma tradução americana de “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, recria um instante: o estertor do povoado erguido na poeira do Sertão pela fé — loucura? — de Antônio Conselheiro, sem nunca sequer ter pisado no Brasil. O tempo da ação é preciso: “entre as cinco da tarde e as nove horas da noite” de 5 de outubro de 1897, dia anterior à erradicação do povoado.

Narrado em primeira pessoa pelo protagonista — um veterano da guerra que trabalha na Biblioteca Mário de Andrade em São Paulo e possuidor traços singulares —, o romance é uma grande metáfora entre a pretensa sanidade e a aparente loucura, encarnadas respectivamente pelo então Ministro da Guerra — personagem real — e uma estranha mulher emergida da cidadela, como tantas outras almas, mas que, surpreendentemente, conversa em inglês com a autoridade.

Traduzido do húngaro por Paulo Schiller, a obra mostra-se importante adendo ao monumento euclideano, principalmente em seu fator mais humano e por sua universalidade.

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Publicado no Painel Cultural da Tribuna Impressa de Araraquara (18/3/2012).

242. Novos trilhos

Trilho em Araraquara (foto: Willian Telles)

A Tribuna de sábado (10/3), em sua página A5, noticia, em pequena nota, a apresentação de proposta para criação de um transporte sobre trilhos administrado pela Prefeitura. A iniciativa é do vereador Elias Chediek (PMDB).

Ainda segundo a nota, a linha apresentada iria do Hortênsias ao Pinheirinho, em 11 quilômetros. Pela distância e pelo trajeto, presume-se que utilizará os trilhos que cortam a cidade, tirando deles o transporte de carga e utilizando-os para o transporte de passageiros.

Como simples observador e munícipe, faço as seguintes observações: 1) Parece que a ideia do Contorno Ferroviário é tirar os trilhos do meio da cidade, para que não haja mais divisão física, vencida somente por passagens de nível, viadutos ou passagens inferiores. Se os trilhos continuarem onde estão, a divisão permanecerá, exceto se a Administração providenciar mais viadutos ou faça com que a linha seja subterrânea em alguns pontos, o que parece inviável e altamente custoso. 2) Nosso transporte tem demanda suficiente para o transporte sobre trilhos? Pergunto isso por conta do malfadado VLT — veículo leve sobre trilhos — de Campinas, operado pela finada Fepasa sobre trilhos da extinta Estrada de Ferro Sorocabana. Entre 1990 e 1995, uma linha de 8 km, com oito estações, atendeu a um município com então 850 mil habitantes. Chegou a ser cogitada uma segunda linha, mas o sistema acabou desativado pela pouca funcionalidade que prejudicava seu uso.

Será que a solução do transporte em Araraquara passa pela modalidade ferroviária? Ou bastaria privatizar a CTA [Companhia Tróleibus Araraquara] para que fosse bem provida de meios e recursos?

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Artigo publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, de 13/3/2012.

229. “Malthus”, Diogo Mainardi

Capa da edição da Record (2006)

O tempo em que considerava Diogo Mainardi um palhaço pago pela CIA já passou. Cresci bastante intelectualmente e livrei-me do maniqueísmo safado que reina neste país, das deduções políticas por gosto.

Deixando os preconceitos de lado, li “Lula é minha anta”, que considero uma coleção de porta-retratos. Cada um com a face tosca da desfaçatez que reina do Brasil e que tem seu expoente máximo na nababesca corte lulista, com direito a até mesmo um Rasputeu.

Mas esqueçamos o “odiado” colunista político da “odiada” Veja. É de outro Mainardi que falo.

A leitura de “Malthus” espantou-me sobremaneira. Basicamente, por três fatos: 1) o uso — nem que seja parcial ou truncado — de um pensamento da filosofia econômica para explicar a “progressão geométrica da estupidez”, como já o diz o também jornalista e escritor Mario Sabino, na orelha do livro; 2) o acerto pleno dessa alegoria e; 3) o recurso ao nonsense como parte da ‘pintura’ da alegoria. Em suma, um livro excelente e recomendável, cuja leitura se faz em uma ou duas sentadas.

Em poucas — mas cheias — páginas, Mainardi dedica-se a contar a trajetória de Loyola y Loyola, uma espécie de trambiqueiro mambembe, cuja principal ocupação é estabelecer-se em algum lugar, até que termina multiplicado por quarenta por um messias redivivo.

Frente à esterilidade e à vacuidade da Literatura brasileira contemporânea, “Malthus” surge e refulge. É digno do epíteto de pérola. Espero sinceramente que, algum dia, façam um filme baseado no livro. Seria algo interessantíssimo de ver.

228. Divertimentos filológicos

Ortografia: metálica, pesada, porém maleável

Um leitor desta Tribuna fez-me a seguinte observação: “Nas receitas que vejo eventualmente transcritas no jornal, noto sempre a grafia muçarela. Assim, com cê-cedilha mesmo. Curioso porque não vejo essa grafia em lugar algum! É sempre mussarela”.

Queijos e ortografia. Dois assuntos muito passionais, nos quais se formam facções e há feras pelejas. Já diria o General de Gaulle, referindo-se à França, que é impossível governar um país com 246 variedades de queijo. Mas, hoje, nosso assunto é a querela ortográfica apresentada.

Quando se entra em um supermercado ou casa de frios, os tabelões e as etiquetas acusam: mussarela. Por que a insistência, então, da padronização de uma grafia, digamos, estranha? Questão de fidelidade.

O nome do queijo vem do italiano mozzarella. É sabido que o ‘z’ do italiano tem a pronúncia /ts/ — como em pizza — ou /dz/. Que também era a função inicial do cê-cedilha no português medieval.

Embora não pronunciemos mais o cê-cedilha como /ts/, simplificado a /s/, mantém-se para a aclimatação ortográfica da mozzarella. As alternativas indicadas pelo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da ABL (Volp) são: mozarela e muzarela, mas que não refletem a realidade da pronúncia.

Apenas por curiosidade: o cê-cedilha surgiu para transcrever um som inexistente em latim, por isso a solução ortográfica criativa. Em italiano, a solução foi adotar o zê para o novo som; em português, francês, espanhol (hoje não mais) e francês, usou-se inicialmente um ‘cz’ — um dígrafo hoje visualmente estranho —; logo o zê foi para baixo do cê e tomou a forma de ‘vírgula’ ou ‘gancho’ que hoje tem. Tanto que cedilha vem do castelhano zedilla, ‘pequeno zê’.

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Artigo publicado na Tribuna Impressa de 23/02/2012. Também disponível no Araraquara.com.