328. Há muito tempo, agora há pouco…

Houve um tempo na política nacional em que as ameaças eram desnecessárias. Com base no poder econômico e respaldo do poder político oligárquico, os famosos coronéis simplesmente mandavam fazer. Não havia muito a questão da ameaça, que servia apenas para afugentar os covardes. Os mais valentes acabavam por receber a “expedição punitiva” na porta de casa.

Aliás, cabe dizer que a patente de coronel concedida a esses políticos advém do fato de, eventualmente, serem vinculados à Guarda Nacional, um título honorífico — compensação pela extinção dos títulos de nobreza concedidos no período monárquico.

Mas, voltando, os políticos de então não se importavam um pingo com a opinião pública: o voto era aberto e o coronel poderia mandar à seção eleitoral seus “fiscais”, para ver se o Zé das Couves, que ganhara um pé de sapato, ganharia o outro, por ter votado “corretamente”, ou se seria agraciado com uma bela sova, por ter sido infiel. O sistema do voto aberto permitiu o controle absoluto do eleitorado no período anterior ao golpe militar de 1930.

Não obstante a nossa moderna democracia — por favor, relevem a expressão: nem sempre o “moderno” é melhor que o passado — ter seus mecanismos de prevenção de abusos, tais expedientes ainda encontram eco na política moderna. A troca de favores é um deles.

Hoje, o político é “um homem de doze dedos”, mas,  volta e meia, baixa o espírito do coronel em alguns. Voltam o pé de sapato, as ameaças, a desarticulada verborragia invectiva. Só que, como se vê em vários casos, a ameaça é filha do desespero; e cabe ao desesperado explicar seus rompantes.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 13/11/2012.

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326. O terço descontente

Quando termina uma eleição e contam-se os votos, a ansiedade fica pela torcida na “corrida dos cavalinhos” — lembra-se desse quadro do programa infantil “Bozo”, leitor? A conta final exclui as abstenções, sejam elas por anulação ou por justificação do voto.

No caso da disputa pela Prefeitura paulistana, os números são assustadores. Veicula-se apenas o porcentual considerado “válido” por critérios estabelecidos em lei. Se incluirmos o número total de eleitores do colégio, as porcentagens são: Fernando Haddad (PT), 3.387.720, ou 39,3%; José Serra (PSDB), 2.708.768, ou 31,4%, e o conjunto de nulos, brancos e abstenções atingiu 2.522.682, ou seja, 29,3%.

A esperteza dos legisladores está em considerar a maioria absoluta dos “votos válidos”, esvaziando qualquer tipo de protesto com o voto nulo ou com a abstenção. Em qualquer outro país sério, tais números causariam uma crise política. Haddad elegeu-se — não obstante a condenação por formação de quadrilha da antiga cúpula do seu partido — com pouco mais de 39% dos votos. Os votos dos descontentes chegaram a quase um terço de todos os eleitores aptos a votar.

O protesto de anular o voto não tem valor legal — o que é cômodo aos políticos, pois a vontade dos descontentes é simplesmente ignorada —, mas deveria servir para que criassem o mínimo de vergonha na cara e revissem seus conceitos. O eleitorado está cansado. A tendência desses números — mesmo com o estardalhaço do TSE pelo “voto útil” — é aumentar, o que vai tirar ainda mais a legitimidade do processo democrático brasileiro.

É hora da reforma política. Já passou da hora.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 30/12/2012.

325. Mortes urbanas

Ruínas de instalação das Indústrias Reunidas Matarazzo em Iguape/SP

Embora o artigo abaixo seja específico sobre a cidade de Araraquara, Interior do Estado de São Paulo, ele retrata bem um fenômeno urbano brasileiro: zonas inteiras que morreram asfixiadas pelas vias de acesso. Com uma política que privilegia sempre o fluxo dos automóveis, a decadência que cantos que ficaram “ilhados” por equipamentos viários é visível principalmente nas grandes cidades. Mas também nas de médio porte o fenômeno é perceptível.

O artigo “Mortes urbanas” foi escrito para a Tribuna Impressa, de Araraquara, e publicado no dia 23/10. O mote é uma reportagem do domingo imediatamente anterior que tratava da decadência do Mercado Municipal da cidade.

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Mortes urbanas

A falta de planejamento urbano é o algoz das cidades. E não se trata de algo pontual, de uma só administração, mas de uma longa tradição de descaso com o aparato urbano.

No Brasil, os deuses do progresso são o trator e a marreta. Divindades violentas e inclementes. Observe ao seu redor, leitor. Se Araraquara existe desde o final do século 18 — embora só tenha “entrado no mapa” em 1817 —, o que pode nos dar noção disso? Nosso passado dourado resume-se a meia dúzia de casarões do começo do século 20, na área central da cidade. Nada mais. Se alguém dissesse que Araraquara foi fundada apenas em 1905, visualmente, seria factível.

Foi a falta de planejamento e o afã da marreta que necrosaram a região do Mercado Municipal, tema de reportagem de Raquel Santana, publicada nesta Tribuna, no último domingo (21/10).

Quando a estrutura que hoje abriga o Terminal de ônibus era a Rodoviária, movimento por ali não deveria faltar. Porém, a Rodoviária foi exilada para a ponta da Via Expressa e a própria Via Expressa foi construída, criando aquela curva esquisita que faz a Rua Zero, e foi erguido o viaduto da Duque de Caxias. O Mercado ficou “ilhado” entre vias de acesso; é vítima desse “progresso mal planejado”.

Pelo que sei, a transferência da Rodoviária e a construção da Via Expressa são da mesma época, a primeira metade dos anos 1980. Juntas, as duas alterações causaram graves desarranjos ao tecido urbano; a maior ferida é o Mercado: isolado num estranho canto e esquecido pela população, que lhe torce o nariz.

Sobreviverá o Mercado à sanha da marreta?

310. Análise do(s) discurso(s)

Não se trata aqui de nenhuma disciplina acadêmica, como o título pode sugerir. Dedico as próximas linhas a algumas impressões sobre as sabatinas feitas aos candidatos à Prefeitura e publicadas na edição de domingo (26/8) desta Tribuna.

Os primeiros, definidos em sorteio, foram Márcia Lia (PT) e Valter Merlos (PSD).

O discurso de Merlos é a cansativa ladainha do empresário de sucesso. Dá a entender que administrar uma cidade é como fazê-lo com uma empresa. Mas uma empresa privada não tem parlamento; não basta dar ordens, elas precisam ser endossadas pelo Legislativo. Enfim, a ‘gestão de choque’ é uma expressão bonita, mas oca.

O discurso de Márcia Lia, além das temáticas caras à retórica da esquerda, tem um agravante: “Temos de investir muito para fortalecer a Santa Casa e fazer com que a Maternidade Gota de Leite tenha recursos da Presidenta (sic!) Dilma”. É o tipo de declaração que joga por terra qualquer boa intenção. Pois o que se lê nas entrelinhas é que só teremos as verbas caso o PT volte para a Prefeitura, o que quebra o Pacto Federativo. Se um município não recebe verba porque seu prefeito não é do mesmo partido que a presidente da República, fica claro o aparelhamento do Estado por aquele partido, a face mais pavorosa do fisiologismo.

O que, em tese, é discurso vazio. Em Brasília, o PMDB de Barbieri é da base aliada; o PSD de Merlos e Kassab flerta com o Governo Federal. Logo, o repasse de verbas não será um problema.

A candidata deveria ter repensado e dito “recursos do Governo Federal”, que embora não isento de suspeitas, ficaria mais de acordo com um discurso que se quer — ou deveria ser — republicano.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 28/8/2012.

284. O poder pelo poder

Talvez Machiavel explique; talvez

O título pode parecer cruel e maledicente — maquiavélico, no melhor sentido da palavra, talvez —; mas já o explico. O Brasil é uma invenção, uma estranha invenção política à qual simplesmente nos acostumamos. A gênese do país deu-se por processos nos quais não houve nenhum tipo de pressão ou participação de alguma parcela consideração da população.

A própria Independência foi gerada por problemas políticos entre Dom Pedro e as Cortes portuguesas, que culminaram no rompimento político entre Brasil e Portugal e a criação de uma monarquia em um continente de repúblicas.

A nossa república não passou de uma quartelada que foi o ponto culminante do processo de desgaste político da monarquia desde o fim da Guerra do Paraguai (1864-1870). A dita Revolução de 1930 foi um choque entre gente que queria o poder com gente que não queria largar o poder.

Esses fatos históricos mostram apenas de como as mudanças no Estado brasileiro foram sempre uma questão de conveniência a quem estava no poder ou muito próximo a ele. Para nós, brasileiros, o poder político é sempre algo que “vem de cima”. Por isso a pouca ou nenhuma identificação do cidadão com o poder público — ou do eleitor com aquele que é eleito.

Dentro dessa óptica, aqueles que são eleitos para o Executivo e para o Legislativo representam não quem os elegeu, mas simplesmente o poder que exercem. Logo, os mandatários sentem-se no direito de legislar para si ou para partidos. O único projeto que existe não é o de governo, mas sim o projeto de poder.

O país precisa ser ‘refeito’ de ‘baixo para cima’; do ‘menor para o maior’. Logo, o cerne das mudanças tem de ser as câmaras de vereadores e a sua ressignificação frente aos munícipes.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 12/6/2012.

282. Bolsos insaciáveis

É quase o título de um filme pornográfico. Mas festa com dinheiro público também é um tipo de pornografia, mais refinada e, ao mesmo tempo, mais nojenta.

Depois de meses de embate, os vereadores da cidade de Araraquara reajustaram seus subsídios que, na próxima legislatura, passarão a  R$ 6.550. Um aumento de 27%.

A situação pegou fogo ontem, em uma sessão que durou 7h30. O primeiro projeto, votado já há algum tempo, queria elevar os vencimentos para cerca de R$ 8 mil, um aumento de 60% sobre o valor atualmente percebido e que englobaria a inflação dos últimos quatro anos, mais projeção de inflação (?!) para os quatro anos seguintes. Afinal, os vencimentos só podem ser reajustados para a legislatura seguinte.

Tiveram de mudar de ideia após um movimento popular chamado “Reage Araraquara” ter conseguido recolher em poucos dias 12 mil assinaturas para protocolar um projeto de lei popular. Bem mais que os 5% do eleitorado exigidos pela Constituição Federal, 8 mil eleitores no caso de Araraquara.

O mais engraçado é o jogo do direito adquirido. Parte dos vereadores fez lobby e disse que “não aceitariam” ganhar menos de R$ 7 mil, ou seja, o salário de um secretário municipal. Curioso, pois grande parte da vereança tem outras atividades e, em tese, não precisaria lançar-se sobre o erário com tanta voracidade. Mas tiveram de recuar.

Possivelmente o mais prejudicado com o desgaste político e eleitoral foi o próprio governo, coalizão PMDB-PSDB-DEM, majoritariamente. A base do governo discutiu entre si e ofendeu-se. Certamente haverá prejuízos políticos para os últimos meses da legislatura.

Em compensação, silenciosamente a oposição — majoritariamente PT — parece ter gostado da confusão toda e certamente capitalizará com o fato, uma vez que foi contra o aumento desde o início e, numa manobra de fundo populista, propôs o congelamento dos vencimentos.

Ontem, para evitar que o caldo entornasse, a conturbada sessão de ontem teve de ser paralisada por 20 minutos. Tempo suficiente para que o vereador Serginho Gonçalves (PMDB) e o membro do Reage Araraquara Marcelo Bonholi se estranhassem no corredor. “Você é um bosta!”, ouviu-se ecoar da boca do rotundo vereador.

Creio que Napeloso pode ser considerado inocente da ofensa. Afinal, ele só exteriorizou o que a classe política pensa do eleitor e cidadão. Tanto em Araraquara quanto em Brasília, os membros dessa casta — uma nobreza podre legitimada por votos comprados — deve mesmo pensar isso de nós: somos uns bostas.

Como já diria Justo Veríssimo, personagem do saudoso Chico Anysio, “Eu quero que o povo se exploda!”

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E ainda haverá queda de braço entre políticos e população. Afinal, ainda não desistiram de aumentar seus ‘tronos’ de 11 assentos para 18.

267. De trenzinhos e trenzões

Piuí

De trenzinhos e trenzões

As manhãs de domingo costumam já ser memoriosas por si, mais ainda quando chove. E na manhã chuvosa do último domingo, fomos eu e minha esposa à exposição de ferromodelismo que ocorreu na antiga estação, hoje Museu Ferroviário.

Há quem despreze o ferromodelismo; há quem diga que se trata de coisa para crianças. Não é. É preciso muito trabalho para que uma maquete fique bonita, digna de exposição. Na plataforma feita salão, foi possível observar aqueles senhores — alguns deles, certamente já avôs — cheios de cuidados para com suas maquetes, seus pequenos trens elétricos. Algo belo de ser visto.

Enquanto estávamos na estação, um trem de carga entrou e parou no coberto da gare. Flashes, poses; afinal, em um país em que o transporte ferroviário foi jogado às traças, um trem pode sim emocionar. Principalmente aos que se dedicam a reproduzi-los em miniatura. Sorrisos emoldurados por bigodes já brancos.

Pensar que aquela plataforma era a porta de entrada da cidade na era áurea dos trens de passageiros. Parece que há um estudo do Governo do Estado para novamente ligar com trens a Capital a quatro destinos de médio percurso (Santos, Sorocaba, São José dos Campos e Campinas); as ligações rodoviárias dessas cidades com São Paulo já estão saturadas.

É possível que soluções similares valham também para nós. Trens modernos, rápidos ligando centros regionais, como Ribeirão, Araraquara e São Carlos. É preciso investimento e de gente disposta a investir na modernização da malha e administrar o serviço.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 1º/5/2012.

265. De sonetos, emendas e poesia ruim

Ruim mesmo

Já diz o adágio popular que, às vezes, a emenda fica pior que o soneto. Logo, creio que o soneto de gosto duvidoso intitulado “Aumento para a vereança” precise ser detalhado na sua concepção e construção.

Feito a 26 mãos, trata-se de um amontoado de justificativas injustificáveis e versos que não dizem nada; apenas fazem barulho desnecessário com suas aliterações ruins. A primeira versão do soneto foi renegada pelo leitor: tema ruim e dispendioso. Rimas péssimas, como, por exemplo: “75% do salário do deputado estadual” com “subsídio ao parlamentar municipal”. Há neles o som de latas tombando por uma escada. Fora o mau gosto.

Em ano bissexto, algumas rimas deveriam ser evitadas porque atraem outras. “Eleição” pode casar-se perfeitamente com “rejeição”. As rimas em “ão” são chamadas rimas pobres, mas, neste caso, têm a força de um estouro de canhão.

Um soneto convencional tem 14 versos: dois quartetos e dois tercetos. O nosso “Aumento” tem 13 por questão de quórum. Além do mais, contém várias temáticas díspares: o júbilo discreto, o pouco caso e até mesmo uma saída à Pôncio Pilatos. Ensaiou-se uma emenda, mas a distração fez com que a tinta maculasse irremediavelmente o papel.

São 13 versos, mas, para o décimo quarto, milhares de canetas se levantam. Tem um caráter imperativo, um chamamento embutido. Um grito que una a sociedade e faça com que os poetas entendam que o senso comum que deve prevalecer. Certamente haverá uma evocação coletiva; um verso de sete sílabas — a popularíssima redondilha menor — que fugirá à babosa retórica dodecassílaba do restante: “Reage, Araraquara!¹”.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 24/4/2012.

1) “Reage Araraquara” é o nome do movimento popular que surgiu em resposta ao aumento abusivo dos salários dos vereadores araraquarenses.

262. O furo da placa

Placa de Mombuca/SP

A reportagem sobre a escassez de placas em Araraquara, de autoria da jornalista Luiza Pellicani, saiu nesta Tribuna no último sábado (14/4, p. A7). O tema, para alguns, pode parecer desnecessário, porque grande parte das pessoas conhece as entranhas de seus bairros. Mas uma cidade que tem vocação de centro regional atrai muita gente de fora; logo, precisa ser um pouco menos áspera, principalmente no que se refere à localização eficiente.

Imagino que o tema seja também antigo. Lembro-me da minha primeira visita à cidade e que, andando pelo Centro, percebi a falta da sinalização em vários pontos. Talvez seja besteira, mas parece que as placas dos nomes das ruas, além de informarem o nome, trazem certo conforto — principalmente quando se trata de nomes comuns a ruas de quase todas as cidades paulistas: Nove de Julho, Quinze de Novembro, Sete de Setembro, Bandeirantes.

Uma semana antes de a reportagem ter saído, ou seja, em 7/4, durante almoço na casa do meu sogro, meu anfitrião trouxe novamente o assunto das placas e indagou-me se esse não seria um bom tema para um texto de opinião. Fiquei de pensar e, para o artigo de terça seguinte (10/4), acabei trazendo um motivo mais político. Como se diz nas redações, acabei “tomando furo” da colega Luiza.

O que indica também que a preocupação não é apenas minha ou do meu sogro: é ampla a ponto de ter suscitado uma reportagem. O mais curioso é que, no dia em que a matéria foi publicada, consegui perder-me no espaço entre a São Bento (Três) e a Itália (Sete). Precisava ir à Carlos Gomes (Seis), mas não contava com a existência de uma tal “Cinco e Meio”. Senti na pele que as placas são mais do que raras naquele trecho.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara me 17/4/2012.

248. Crítica literária para jornal – Uma concepção

"Querida, veja! Sugestões de livro!"

No dia 11 de março, a Tribuna Impressa de Araraquara estreou seu “Menu Cultural”: meia página com críticas ou sugestões de livros, discos e filmes. Uma coluna para cada item.

Fiquei responsável pela indicação de livros e, por ora, tenho a vantagem de apenas fazer recomendações, ou seja, recomendar os livros que já li e que são de meu agrado. E disso surge um desafio — palavra banalizada, mas sem sinônimos —: como fazer com que o potencial leitor se interesse pelo livro.

Como estudante de letras, tenho muitos vícios da Teoria Literária, que para a indicação de um livro em cerca de 1,2 mil toques, é mais empecilho do que auxílio. Outra: quantos leitores terão conhecimento de rudimentos de Teoria Literária — como eu mesmo — para poder acompanhar algum raciocínio baseado nessa pretensa ciência?

Para despertar o interesse por aquela leitura, creio que seja necessário valer-se de certas peculiaridades do livro, expor o que sai do comum, adiantar um pedacinho da trama, alguma característica notável do escritor, ou mesmo o fio condutor da narrativa, mas sempre com vocabulário acessível e sem o rançoso léxico da Teoria Literária.

Em suma, é fazer “crítica à moda antiga”, mostrando o “produto”. Como um mascate vende suas fitas de cetim? Mostrando-as ou explicando o complexo processo de fabricação, as máquinas, os nomes técnicos de peças, fibras, corantes, quantos funcionários trabalham na fábrica… basta mostrá-las, fazer o cliente sentir a textura, ver as cores. Só isso.

223. Problemas com água

Cheia do Tibre em 2006

A relação da Humanidade com a água é de amor e ódio. Amor porque o líquido é vital para nossa existência e compõe cerca de 70% do nosso peso; não vivemos mais de dois dias sem ele. Por isso, quando deixamos o nomadismo da caça e da coleta e passamos a ser agricultores, tivemos de estabelecer-nos à beira dos cursos d’água; água para beber e irrigar as lavouras.

Talvez o Egito antigo seja o melhor exemplo de civilização modelada pela necessidade da água; conhecido como um povo que pensava excessivamente no pós-morte (as pirâmides eram nada mais que tumbas), vejo-o organizado em função do Rio Nilo: as cheias cíclicas traziam matéria orgânica que adubava o vale a ser cultivado. Um gigantesco oásis linear.

Mas a proximidade com os cursos d’água nem sempre é benfazeja. Roma sofria com as cheias devastadoras do Tibre desde a época imperial, como relatam vários cronistas. O Tâmisa assombrou Londres até os anos 1980; volta e meia, Tietê e Pinheiros enfurecem-se contra os canais que os sufocam entre o concreto da Capital paulista.

Hoje, a água chega às nossas casas pelas tubulações, o que é fácil e cômodo. Há bombas, reservatórios, irrigadores automáticos. Não precisamos mais ocupar os vales. E por que continuamos a ocupá-los? Melhor: por que permitimos que continuem a ser ocupados?

A última enchente em Araraquara mostrou a necessidade de deixarmos livres as várzeas. Respeitar o espaço de desafogo dos cursos d’água em vez de lotearmos suas bordas. Quando tudo já está construído, é difícil alterar, mas torçamos para que as novas áreas sejam pensadas com esse raciocínio.

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Artigo publicado na Tribuna Impressa de  16/2/2012. Disponível também aqui.

221. Enchente

Foto de Moisés Schini/Tribuna Impressa

Meia hora de chuva. Não precisou de mais. Algo assim, só havia visto em São Paulo, cidade vedada de asfalto; achava que era impossível que um enchente dessa magnitude ocorresse em Araraquara, cidade larga mas cercada de campos, logo, área permeável.

Meia hora de chuva. Densa como cortina de acrílico de banheiro; leitosa. Rapidamente o Córrego do Ouro, que corta algumas áreas do Sul da cidade e passa diante do Terminal Rodoviário, começou a subir. Águas rápidas e barrentas. Uma van desavisada entrou na enxurrada e um de seus passageiros foi levado.

Meia hora de chuva. Pontes ruídas. Um córrego que subiu cinco metros. Casas inundadas. Em um ano e um mês que estou em Araraquara, não vira cheia dessa monta e tão rápida. As águas plácidas e de rasas de todos os dias enfureceram-se e quiseram um lago.

203. Dupla cidadania

Conhecer uma cidade não é apenas saber o nome das ruas ou ter na cabeça o desenho de sua malha viária e o nome dos bairros. Esse é um conhecimento útil, sem dúvida, mas superficial. Conhecer uma cidade é conhecer a sua história, saber não o que está ali naquele quarteirão. O que no nosso caso — paulistas que somos; brasileiros — é de vital importância.

É sabido que, entre nós, uma construção de cem anos é já símbolo supremo do ontem, do passado remoto, da aurora da vida urbana no País. Muitas delas simplesmente desapareceram sob as rodas to trator do Progresso.

Em São Paulo, eu andava pelas ruas do Centro Velho com uma noção relativamente precisa do que estaria onde. Poucos sabem, mas a Praça da Sé nem sempre foi daquele tamanho todo. Era menos da metade e a então Igreja Matriz era quase no meio da atual praça. O Largo da Sé, como já diz o nome, era bem mais modesto.

Em Araraquara, cidade mais jovem, mas considerada por muito tempo cabeça de sertão, a situação não é diferente. Pelo que pude averiguar, a Matriz continua no mesmo lugar. Ou melhor, o espaço é o mesmo desde sempre, mas o templo atual é a quarta construção. Pelas fotos, nota-se que a terceira construção, tanto externa quanto internamente, era muito mais bonita. Mas parece que o garfo do Progresso espeta também os curas…

Esses são detalhes conhecidos por quem realmente conhece a cidade profundamente. Sabemos bem que nossos coetâneos não são afeitos às “velharias”, tidas como conhecimento “inútil”. Mas, para mim, quem diz conhecer uma cidade, deve conhecê-la assim. Se sabe apenas o nome das ruas e onde está o que hoje existe, é apenas um navegador, um espectador.

Eu, na minha atual condição de meteco em Araraquara, procurei informar-me sobre as Araraquaras que se sobrepuseram com o passar das décadas. O povoamento da região data do final do século 18, mas somente em 1817 a região foi incorporada à vila de Piracicaba como freguesia. Embora o 22 de agosto de 1817 seja considerado a data inicial, data de fundação da cidade, Araraquara apenas constitui-se em vila autônoma com as devidas instituições por força de decreto (provincial? imperial?) de 13 de novembro de 1832, em pleno período regencial.

Para poder inteirar-me sobre a cidade, arrumei uma obra que considero magna no assunto (talvez por que ainda não conheça as outras) que é a dissertação de Mestrado — depois publicada como livro — de Anna Maria Martinez Corrêa, intitulada “Araraquara 1720-1930 – Um capítulo da história do café em São Paulo”.

O livro tem me ajudado. Lentamente deixo de ser meteco para adquirir dupla cidadania.

199. Postiçagens

Quase tudo que leva o adjetivo postiço causa má impressão. É só citar, por exemplo, dentes postiços e o que nos vem à mente é uma dentadura, que geralmente tem algo que denuncia seu caráter excessivamente artificial, a pantomima: são dentes irreais, retilíneos, de um branco sem vida; uma perfeição inverossímil. Sem falar das perucas… ou daquela tela plástica tricolor que se colocava diante da tela dos televisores preto e branco; ou mesmo de certas leis e dispositivos jurídicos.

Não há termo melhor para esses objetos que postiçagens. Não perca tempo procurando-o no dicionário: não está lá. E as postiçagens não se resumem a esses objetos: há muitos outros exemplos e eu quero falar de um bem específico.

Há umas duas semanas, estava próximo a uma igreja de Araraquara. Uma igreja realmente simpática: arcos, colunas, a simplicidade do desenho da telha francesa e um campanário. Qual não foi o meu susto quando um ruído estranho, metálico, tomou conta da praça diante do templo. Apurando a audição, vi que o som irritante e intermitente vinha do campanário da igreja.

Era um repicar de sinos, mas não de sinos de verdade e sim de sinos postiços: uma gravação de sinos. Horrível. A igreja convertera-se em um grande telefone celular e emanava um toque polifônico; o som tomou conta de todo o espaço, de toda a praça, ricocheteava nas paredes e voltava, provocando terríveis ecos.

Parece que as gravações de sino tornaram-se algo comum. Lembro-me de ter ouvido, na cidade de São Paulo, algumas igrejas que usavam do mesmo expediente, mas cujo resultado não me parecera tão ruim.

A igrejinha simpática de Araraquara que usa os sinos virtuais não deveria mais fazê-lo. É quase polição sonora. Para que estragar a bela praça e a harmonia da igreja construída com tanto esmero com sinos que lembram mais as trombetas do Juízo Final que o ambiente agradável que deveriam (?) evocar?

Melhor deixar mudo o campanário.

198. A Caixa do Passado

A "Caixa do Futuro" de Araraquara

Monumentos. As pessoas passam por eles e, por hábito ou incompreensão, sequer dirigem-lhes uma fugaz olhadela. A etimologia da palavra já nos diz que, para os romanos monumentum ou monimentum, trata-se de “edifício majestoso, mausoléu, obra notável”.

Em compensação, sempre fui atraído pelas pedras e metais da memória. Gosto de parar, ler as placas, de saber por que — ou por quem — aquele monumento foi erguido. É difícil que algum me passe desapercebido.

Porém, durante um bom tempo, um estranho monumento chamou-me a atenção em Araraquara sem que eu pudesse deter-me para uma visita. Um grande cubo preto, instalado em uma ponta de quadra entre a dita Via Expressa e os trilhos da ALL. Depois de alguns anos passando pelo cubo — quase sempre de carro e de carona, o pudor impedia-me de parar ali —, dia desses atrás, quando ia para o trabalho de bicicleta, o calor fez com que eu me detivesse para beber água, bem ao lado do cubo.

Que posso dizer? No mínimo intrigante. Um cubo de granito preto e com duas placas de bronze (?) encaixadas em recuos nas faces laterais. Em uma das placas, um agricultor trabalhando, na outra, a explicação: trata-se de uma “caixa do futuro”.

A Caixa do Futuro araraquarense contém documentos vários — pelo que pude apurar na própria internet, gravações de áudio, mensagens — que foram postos ali em 2007. Segundo as “instruções” contidas na placa, a caixa somente deve ser desencerrada cem anos a contar da data de fechamento, ou seja, 2107.

A intenção, ainda segundo a placa, é mostrar “o que estamos fazendo hoje e como desejamos nossa cidade nos próximos cem anos”. Em suma, é um monumento do hoje dedicado ao futuro, essa quimera monstruosa que nos persegue.

É típico dos políticos amarrarem-se ao futuro, criando ilusões no eleitorado. Também é típico nosso, que sempre vislumbramos um futuro melhor (maldito positivismo). A Caixa do Futuro é uma institucionalização do Futuro por um Hoje desesperado ou, pelo menos, ansioso. Por que não uma loa ao Hoje? Um monumento ao Hoje?

Se não há motivos para levantar um monumento ao tempo presente, por que o fetichismo com o amanhã?

Além disso, a tal Caixa do Futuro é uma tentativa de perpetuação, de memória perene, uma espécie de monstruoso espermatozoide de granito para fecundar o presente de daqui a cem anos. Ou simplesmente um cálculo renal da memória: uma ideia que já nasce velha. Por que não foram mais além? Por que não a colocaram em uma praça e trocaram o nome do local para Praça da Caixa do Futuro? Se bem que aquela ponta de quadra onde está a caixa ainda pode ser batizada.

Placa principal da Caixa.