369. Rogério Skylab

rsk

Rogério Skylab, antes de ser um talentoso artista performático, é um intelectual de primeira grandeza por dois motivos: um, não o alardeia e, dois, não almeja tal posição.

Por detrás de canções com letras contundentes, expõe alguns comportamentos corriqueiros, mas negados com toda força pela sociedade brasileira, em sua grande parte falsa moralista. Falso moralismo porque as pessoas assustam-se com palavras das canções e não conseguem ir além da superfície: uma palavra “obscena” ou “rude” trava-lhes o entendimento e faz nascer a reprovação; às vezes o involuntário humor provocado causa o mesmo tipo de escurecimento da percepção.

Um grande exemplo é a música “Derrame”, do disco “Skylab I” (1999). Usando como mote o acidente vascular, Skylab desconstrói a vida de um homem considerado normal, expondo a transitoriedade de vaidades e até mesmo o isolamento social decorrente das sequelas.

Talvez Skylab não concorde com essa abordagem, ou até mesmo a ache pretensiosa, mas é o que se pode ver além do pasmo inicial ou da recusa do ouvinte em aprofundar-se na letra da canção.

Os eventuais detratores e o senso comum, famintos de eufemismos e de mentiras piedosas, não absorvem a verdade cruel e lírica presente nas letras de Skylab.

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364. O ‘pibinho’ e suas obviedades

Statism Gun

Gostaria de começar este artigo assim: “Otimistas são uma verdadeira praga”. Mas não posso. A ideia era criticar aqueles que tratam a economia brasileira como algo blindado, inatingível. A maior prova que sustêm é que “a crise europeia não aportou na Botocúndia”.

O lastro atual da economia brasileira é o consumo. Prova da sua importância na produção da riqueza nacional são as reduções de impostos, pensadas para manter os níveis de produção elevados. Parece que a estratégia, embora tenha aquecido as vendas, não foi suficiente para segurar o crescimento econômico: o PIB avançou pífio 0,9%, o menor entre os emergentes. Isso se deve ao fato de a economia brasileira basear-se em consumo e commodities. Nada que possa gerar crescimento sólido.

Os pseudo-otimistas louvavam a distância da crise. Pseudo-otimistas porque não os move a coerência da análise, mas a tara estatista de que o Governo sabe — se é que um dia soube — tratar da questão. Governos primam pela incompetência na área econômica.

Geralmente manipulados, os números são o sintoma mais superficial de doenças perigosas. Há apenas investimentos industriais localizados; os destinados à infraestrutura, feitos pelo poder público, estão à míngua — basta ver as obras da transposição do São Francisco, a Transamazônica da era PT.

O “pibinho” é apenas a verruga de uma metástase. Governo precisa deixar de intervir na economia; o capitalismo de Estado brasileiro tem dado resultados ruins e perigosos. O abstencionismo estatal já nos garantiria condições suficientes para o desenvolvimento interno e para a migração de uma economia primária a uma base de produtos manufaturados, da qual consumo e commodities seriam tributários.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 5/3/2013.

363. O poleiro dos articulistas e uma nota

poleiro1É fato que há vários tipos de artigos de jornal; eu diria que seus autores são um pouco como pássaros. Há articulistas que são como o pardal, cujo texto é um pipilar estridente e nervoso, porém ágil; outros são como maritacas, exuberantes e gritalhões; outros ainda são lacônicos e observadores, como as corujas. E ainda há articulistas corvos, pavões, cacatuas.

Quando se fala em artigo de opinião, é claro que o articulista não pode deslocar-se ao sabor das vagas do senso comum. Se o faz, é um náufrago do raciocínio, um reles demagogo. Não passará de um pato preso no cercado.

A função do articulista não é deleitar o leitor. Ao contrário, o intuito é incomodá-lo, tirá-lo da confortável poltrona das certezas absolutas, é trazê-lo para o debate, principalmente pela oposição. Pardais concordam com os pardais, mas não com as maritacas e, com a(s) minha(s) pena(s), quero algum tipo de debate e não aplausos de plástico. Debate entre gente que tem as mesmas ideias não passa de convenção de papagaios ou simpósio de puxa-sacos.

Talvez determinadas opiniões que aqui vêm sendo expostas tenham justamente o propósito de incitar discussões. Talvez. Deixo aos leitores o benefício da dúvida.

A nota — Um habitual e atento leitor desta coluna apontou um erro grosseiro no meu artigo “Ação e Reação” (5/2/2013). Quando usei a terceira lei de Newton como metáfora para o assunto tratado no texto, cometi um erro de transcrição e pus ali o enunciado da segunda lei, embora a ideia central baseie-se efetivamente na terceira. Minhas desculpas aos leitores e um agradecimento ao leitor que, argutamente, percebeu a falha, o que é belo e instrutivo.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 26/2/2013.

361. Angústia cubana

"Vamos lá no fundo e eu te mostro a revolução no seu centro."

“Vamos lá no fundo e eu te mostro a revolução no seu centro.”

A chegada da blogueira Yoaní Sánchez nos faz lembrar que Cuba é a terra da infelicidade política. Poucos países modernos foram tão massacrados por tiranias de longa duração. Primeiro, o domínio espanhol, que se estendeu até 1898, ano em que a Guerra Hispano-Americana, entre Espanha e Estados Unidos, deu à ilha independência de jure, mas certos dispositivos de sua constituição — adicionados pela tenebrosa Emenda Platt — davam ao Grande Irmão do Norte a última palavra em questões internas da nova república.

Depois, além do domínio americano, a ditadura de Fulgencio Batista, que se estendeu de 1934 a 1959. Neste último ano, a guerrilha que vinha sendo desenvolvida desde 1953 por Fidel Castro e Che Guevara finalmente chega ao poder. A revolução não era originalmente comunista, como o próprio Fidel ressaltou quando de sua visita aos EUA — país que apoiava o movimento contra Batista. A guinada à esquerda e a aliança com a URSS não passaram de oportunismo, foram apenas uma reação à rápida deterioração da situação diplomática entre a nação caribenha e os EUA.

Desde 1959, a família Castro mantém a ilha como um latifúndio. Sua base econômica é a mesma dos tempos coloniais; o embargo burro dos EUA, antes de minar o regime, é uma eficiente propaganda. Num golpe de marketing, Cuba mostra-se como mártir.

Os que foram recepcionar Yoaní no Aeroporto de Salvador com cartazes pró-Cuba — acusando a blogueira de ser paga pela CIA e exaltando a pátria socialista, entre outras boçalidades — ignoram que o regime, em seus quase 55 anos de mandos e opressões, é muito pior que, por exemplo, o nosso Regime Militar. Mas a ideologia maniqueísta presente na esquerda, além de envenenar, cega.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, 19/2/2013.

360. Experimentação social

"Culpa sua, seu pai de merda!"

“Culpa sua, seu pai de merda!”

Deve ter começado na Grã-Bretanha, uma boa terra, mas que ultimamente tem produzido mais minhocas que batatas. Virou moda alguns pais moderninhos não quererem “impingir estereótipos” relacionados ao sexo biológico de seus rebentos. Criam-no como um ser assexuado, dão-lhe nomes neutros como Tempestade, Trovão, Chuva ou outro fenômeno da natureza e permitem que se vistam da maneira que bem entenderem — um menino com roupas de menina, por exemplo — e brinquem com os brinquedos que lhe apetecerem.

Não sei até que ponto tais liberalidades podem ser úteis à formação do caráter da criança. Já me explico: a nossa vida em sociedade prevê determinados padrões que são compartilhados pela comunidade. Promover uma quebra abrupta de tais padrões, longe de ajudar a criança, pode prejudicá-la.

A criança pode entrar em um vórtice de confusão; deve-se sim ensiná-las a respeitar as pessoas independentemente do que elas sejam, da sua aparência, da sua cor, ou seja, promover uma mudança de pensamento, de atitudes.

Esse tipo de maluquice é própria dos nossos tempos, em que as pessoas pensam com as gônadas em vez de fazê-lo com o cérebro. Além do mais, é um tipo de experimentação social inaceitável, uma engenharia social em pequena escala: pais não têm o direito de fazer de seus filhos cobaias. É desumano para a criança, que vai crescer num mundo em que há expectativas sociais.

Não é praticando a iconoclastia, permitindo que um menino vá à escola de tutu cor-de-rosa ou de vestido que o mundo vai mudar: isso é um subterfúgio idiota; é reduzir todos os problemas à forma estética da coisa.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 15/2/2013.

358. Até quando…?

Cícero acusando Catilina no Senado Romano - autor não identificado

Cícero acusando Catilina no Senado Romano – autor não identificado

“Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência?”. É uma das mais famosas sentenças das “Catilinárias”, de Cícero, grande mestre romano da oratória, contra Lúcio Sérgio Catilina, acusado de planejar tomar de assalto o Estado romano.

Até quando a nossa paciência será testada pela classe política e seus disparates? A eleição de Renan Calheiros (PMDB-AL) para a presidência do Senado é sandice com poucos precedentes. Somente o golpe que originou o regime republicano faz-lhe alguma sombra.

Mas nada nesta república é gratuito. Em 1918, Monteiro Lobato já definiu bem o que o Legislativo do País havia se tornado: “antessalas de fâmulos”, lugar de homens que vivem com as mãos molhadas, em teatrais facciosismos. Une-os a ganância, a fome de benesses, o dolce far niente. E quem dera o problema se limitasse ao Legislativo federal…

Mas nada é de graça, e Calheiros é peça do xadrez sujo jogado em Brasília. O senador é apenas um peão, e o PT pode apossar-se da presidência da Casa comendo-o. Não há muitos motivos para que tal peça, carunchada de processos, fosse eleita.

Ou talvez haja um projeto de longo prazo: a supressão do Senado. Há uma corrente do PT — liderada por Tarso Genro — que defende o unicameralismo, ou seja, um regime com apenas uma câmara legislativa. Desgastando a Casa, enfraquece-se o Parlamento, transfere-se mais poder ao Executivo e ficam mais fáceis as manobras populistas.

Precisamos aprender a pensar como o PT e deixar de olhar apenas o imediato. Ele está sempre adiante e, se nada for feito, vai ficar no poder pelo século todo, pois, entre nós, Catilina venceu Cícero.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 8/2/2012.

344. Punição a quem trabalha

É claro que a carga tributária é excessiva e é um peso para os setores produtivos, mas a burocracia estatal e paraestatal é a braquiária que destrói os campos, os cipós que lentamente matam e asfixiam as árvores.

“A burocracia expande-se para satisfazer as necessidades de uma burocracia em expansão.” A frase, certa como a flecha de Guilherme Tell e atribuída tradicionalmente a Oscar Wilde, define bem as intenções do monstro que paralisa a economia: a manutenção de Estado ineficiente, incompetente, dominado por populistas e cujo único motivo de existência é a autoalimentação.

Engana-se quem pensa que a burocracia endêmica é privilégio do setor público. No afã de dominar e controlar a atividade econômica, regula-a excessivamente, esboroando o ânimo em quem poderia gerar mais empregos e criando oportunistas — Jecas Tatu 2.0 — que se valem de empresários incautos para alimentar a indústria dos processos trabalhistas — esta sim, pujante e viçosa.

Ilude-se quem crê que as regulações do mercado pelo Estado sejam vantajosas. Elas criam apenas comodismos e irradiam a burocracia para dentro das empresas, que têm de ajustar seu ritmo por leis obsoletas e contraproducentes. Agências reguladoras, tribunais, câmaras, secretarias de Estado, cartórios, sindicatos — os grandes poleiros das aves de mau agouro que olham com desdém o progresso econômico, tratando seus agentes como inimigos do público.

Enquanto populistas dos mais variados matizes, por monopólio de domínio político, mantêm reféns tanto a sociedade quanto a vida econômica, o empresário — que gera renda e empregos — continua sendo o vilão número um.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 27/12/2012.

343. Outro conto de Natal

janio

Qual não foi a minha surpresa quando encontrei o Espírito do Natal Passado vagando na noite do Bulevar dos Oitis. Óculos, o inconfundível passo torto. Sim, era o presidente Jânio Quadros.

— O senhor talvez não sai­ba, mas deveria sabê-lo, que, no meu governo, combati a cor­rupção de modo vivaz. Minha música de campanha já dizia, “varre, varre, vassourinha…”, distribuí broches de latão em formato de vassoura…

— Mas, presidente, se me per­mite interrompê-lo, a corrupção continua ser combatida… ou tal­vez nem isso… faz-se apenas um teatro: mídia, tribunais… a lei, toda furada, permite todo o tipo de trapaça e tramoia… e ainda batem no peito, jurando pela alma da mãe morta.

Jânio olhou-me de cima a baixo.

— Então continua tudo igual…

— Sinto dizer que sim, presi­dente. Os políticos continuam a manter serviços públicos precá­rios para ter o que prometer nas eleições. Nas eleições, quase todos os jingles fazem rimas com em­prego, saúde e educação… e todos são honestíssimos até a primeira falcatrua, até a primeira botija beijada. E nenhum erra; são pegos em flagrante e têm a desfaçatez e contarem as mentiras mais desla­vadas… um horror!

— Então, nada muda… agora entendo, tudo faz sentido.

— Como?

— Não sou apenas o Fantasma do Natal Passado, mas também fui nomeado Fantasma do Natal Presente e Fantasma do Natal Fu­turo, porque tudo é igual. Mudam leis, mudam personagens, muda até mesmo a Constituição, esse cartapácio inútil, mas os vícios são os mesmos…

Fiquei na calçada enquanto observava o Fantasma de Todos os Natais afastar-se, batendo o sapato nas pedras da calçada e amaldiçoando as forças ocultas e Carlos Lacerda.

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Publicado na Tribuna Impressa em 25/12/2012.

331. Ao senhor Governador

“Não vejo nada de errado…”

Não sem certo assombro ouvi a declaração do governador Geraldo Alckmin, na última quinta-feira (15), sobre a onda de violência que assola o Estado desde setembro. “[…] senão se cria uma situação muito injusta, quase que uma campanha contra São Paulo. E não é possível fazer isso e ainda criar uma situação de pânico na população”.

Não se trata de criar uma campanha, Sr. Governador. É situação dada. E outra: o pânico não precisa de agente, ele inclusive vai melhor no boca a boca, não precisa de jornais e televisão, ainda mais num país em que jornal é coisa para poucos e televisão é vista somente como entretenimento. O “Jornal Nacional” é somente música de fundo para o jantar da família brasileira.

Com essas palavras, Alckmin externaliza uma concepção errônea — ou não? — e típica de regimes mais fechados: que a culpa das calamidades do povo necessariamente passa pela imprensa. Talvez PSDB e PT partilhem da mesma visão sobre o funesto “controle social” da mídia. Afinal, suas vertentes políticas — a fábrica e a academia — costumam andar de mãos dadas nos partidos políticos de esquerda europeus. Somente aqui que se criaram dois monstros, cada um com meia cabeça.

E enquanto o governador vem com conversa evasiva, o Estado paralelo, operado de dentro dos presídios, continua espalhando o pânico de forma efetiva, com balas e mortos. A sociedade civil está esperando uma resposta adequada ao problema, Governador. Pulso, medidas efetivas. Que os presídios deixem de ser a pós-graduação da criminalidade. Apenas isso.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 20/11/2012.

328. Há muito tempo, agora há pouco…

Houve um tempo na política nacional em que as ameaças eram desnecessárias. Com base no poder econômico e respaldo do poder político oligárquico, os famosos coronéis simplesmente mandavam fazer. Não havia muito a questão da ameaça, que servia apenas para afugentar os covardes. Os mais valentes acabavam por receber a “expedição punitiva” na porta de casa.

Aliás, cabe dizer que a patente de coronel concedida a esses políticos advém do fato de, eventualmente, serem vinculados à Guarda Nacional, um título honorífico — compensação pela extinção dos títulos de nobreza concedidos no período monárquico.

Mas, voltando, os políticos de então não se importavam um pingo com a opinião pública: o voto era aberto e o coronel poderia mandar à seção eleitoral seus “fiscais”, para ver se o Zé das Couves, que ganhara um pé de sapato, ganharia o outro, por ter votado “corretamente”, ou se seria agraciado com uma bela sova, por ter sido infiel. O sistema do voto aberto permitiu o controle absoluto do eleitorado no período anterior ao golpe militar de 1930.

Não obstante a nossa moderna democracia — por favor, relevem a expressão: nem sempre o “moderno” é melhor que o passado — ter seus mecanismos de prevenção de abusos, tais expedientes ainda encontram eco na política moderna. A troca de favores é um deles.

Hoje, o político é “um homem de doze dedos”, mas,  volta e meia, baixa o espírito do coronel em alguns. Voltam o pé de sapato, as ameaças, a desarticulada verborragia invectiva. Só que, como se vê em vários casos, a ameaça é filha do desespero; e cabe ao desesperado explicar seus rompantes.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 13/11/2012.

312. Cemitério da memória

Cemitério de Bueno de Andrada (foto: Moisés Schini/Tribuna Impressa)

Um adágio popular repete que o brasileiro é um povo sem memória. De fato, a maioria das pessoas só dá importância ao agora ou, no máximo, ao imediatamente futuro. O passado jaz na poeira.

E poeira e mato não faltam no Cemitério de Bueno de Andrada. Apesar dos 362 corpos sepultados entre 1925 e 1967, apenas uma cruz assinala a pretensa sacralidade do local. Esta Tribuna dedicou uma reportagem de duas páginas ao assunto; no interessante texto de Antonio Marquez fica patente o descuido e o pouco caso das autoridades constituídas para com o patrimônio público e a memória coletiva.

Um cemitério não é apenas um local de pranto ou um sagrado — assim considerado pelo lugar central que a morte tem na nossa concepção de mundo —, mas é também um local de memória, de história. O desaparecimento físico do cemitério é um desastre para a história de Araraquara. Desaparecimento sim, porque um pasto com uma cruz não é mais um cemitério, parecendo-se mais com aquelas tristonhas cruzes de beira de estrada que recordam os mortos em acidentes.

Por sorte, existem ainda os registros. A Prefeitura, por sua vez, fala em “cemitério desativado”. E como se desativa um cemitério? Não se trata de um prédio, de uma máquina. Os corpos continuam lá; tiveram suas identificações roubadas por profanadores, mas continuam lá. Os entendidos falam em contaminação do solo. Frente ao descaso com a memória, é mero tecnicismo; um detalhe ínfimo.

O Cemitério de Bueno — que sequer fez 90 anos — é uma triste metáfora do nosso senso de conservação histórica e memória: um pasto cheio de pó e mato.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 18/9/2012.

311. As tristes jornadas de Dom Bertrand

S.A.I.R. o Príncipe D. Bertrand (fonte: monarquia.org.br)

Em 28 de agosto, a cidade de Franca, Interior paulista, viu o que certamente foi um dos fatos mais lamentáveis de sua história.

Um simpósio organizado pelo câmpus da Universidade Estadual Paulista (Unesp) naquela cidade contaria com a ilustre presença de S.A.I.R. (Sua Alteza Imperial e Real), o Príncipe Dom Bertrand de Orleans e Bragança, o segundo na linha de sucessão ao Trono imperial se este fosse restaurado.

No momento em que a palestra teria início, o recinto da conferência foi invadido por meia-dúzia de estudantes que, não obstante protestarem contra a presença do Príncipe, dirigiram-lhe grosseiros insultos imotivados, chamando-o, por exemplo, de nazista.

Estudantes todos vinculados ao movimento universitário de esquerda — há outra coisa que não a esquerda na academia brasileira? — cuja visão de democracia restringe-se apenas a esquerda. Que tipo de exemplo queriam dar a não ser de sua profunda falta de civilidade? É isso que a academia tem gerado.

Além da falta da educação, a grande burrice: a Família Imperial Brasileira, retida na França com o início da Segunda Guerra Mundial, nunca teve ligações com os nazistas. É o famoso termo “fascista” que os estudantes usam aleatoriamente para tudo e todos que não estão de acordo com suas ideias totalitárias de esquerda.

Do episódio, duas coisas interessantes: a Unesp de Franca estuda punição àqueles que não sabem respeitar a opinião alheia, e a fundação de uma frente de defesa da monarquia naquela cidade, com cerca de 40 membros.

No caso da defesa da monarquia, foi da adversidade que veio a força.

310. Análise do(s) discurso(s)

Não se trata aqui de nenhuma disciplina acadêmica, como o título pode sugerir. Dedico as próximas linhas a algumas impressões sobre as sabatinas feitas aos candidatos à Prefeitura e publicadas na edição de domingo (26/8) desta Tribuna.

Os primeiros, definidos em sorteio, foram Márcia Lia (PT) e Valter Merlos (PSD).

O discurso de Merlos é a cansativa ladainha do empresário de sucesso. Dá a entender que administrar uma cidade é como fazê-lo com uma empresa. Mas uma empresa privada não tem parlamento; não basta dar ordens, elas precisam ser endossadas pelo Legislativo. Enfim, a ‘gestão de choque’ é uma expressão bonita, mas oca.

O discurso de Márcia Lia, além das temáticas caras à retórica da esquerda, tem um agravante: “Temos de investir muito para fortalecer a Santa Casa e fazer com que a Maternidade Gota de Leite tenha recursos da Presidenta (sic!) Dilma”. É o tipo de declaração que joga por terra qualquer boa intenção. Pois o que se lê nas entrelinhas é que só teremos as verbas caso o PT volte para a Prefeitura, o que quebra o Pacto Federativo. Se um município não recebe verba porque seu prefeito não é do mesmo partido que a presidente da República, fica claro o aparelhamento do Estado por aquele partido, a face mais pavorosa do fisiologismo.

O que, em tese, é discurso vazio. Em Brasília, o PMDB de Barbieri é da base aliada; o PSD de Merlos e Kassab flerta com o Governo Federal. Logo, o repasse de verbas não será um problema.

A candidata deveria ter repensado e dito “recursos do Governo Federal”, que embora não isento de suspeitas, ficaria mais de acordo com um discurso que se quer — ou deveria ser — republicano.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 28/8/2012.

308. ‘Divide et impera’

De olho no jogo

Recebemos várias reações ao nosso artigo da semana passada (“Oclocracia”, 14/8); alguns fazendo eco, outros criticando-o. E é sobre um dos questionamentos que gostaríamos de rapidamente nos debruçar.

Um leitor questionou o raciocínio alegando que “temos 27 partidos políticos registrados no STE”. Justo. Mas o que significa esse número absurdo de partidos? Conexão plena com o que chamamos de oclocracia ou democracia numérica.

Sabemos — ou deveríamos saber — como se comportam as agremiações políticas no Brasil: não têm projetos políticos. Têm, no máximo, projetos de poder, de conquista do Estado; são mais alcateias que propriamente partidos. Isso, claro, os mais organizados; o resto são apenas amebas que querem fagocitar uma vaguinha em legislativos poeirentos, uma verbinha.

Dizemos isso porque é impossível haver 27 visões de como gerir a República. Se houvesse algum partido que defendesse a monarquia, teríamos, no máximo, umas três ou quatro visões sobre a administração pública. Aposto meu dedo mindinho esmagado por um torno mecânico que esse número não pode ser maior.

É a lógica da democracia numérica: divide et impera, ou seja, divide para dominar; era a máxima de Júlio César e Napoleão. Uma sociedade muito fragmentada não tem setores fortes; ou, no máximo, dois ou três que polarizam o restante de acordo com as conveniências. Fazem um jogo que nos ilude, um caleidoscópio que dá a sensação de infinito num minúsculo prisma de espelhos.

No final das contas, os partidos apenas fazem parte da liturgia da política. Dão aspecto sério a uma sociedade politicamente hedonista; são peça essencial do democratismo, sistema político que apenas quer parecer democrático.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 21/8/2012.

304. Como criar um tirano

Nicolae Ceauşescu e seu indefectível beicinho

Os tiranos modernos são eleitos pelo povo. Aquela imagem de que eram eleitos apenas pelo poder oligárquico já não é mais verdade. Hoje eles fazem questão de serem populares. E quanto mais populares, mais tirânicos são, pois têm apoio de uma massa e as massas não têm face ou opiniões unívocas.

Os tiranos modernos vêm do seio do povo e geralmente representam todos os vícios nele contidos. Para parafrasear Nietzsche porcamente, um tirano moderno não é nada mais que um superpopular. Se um povo é mesquinho, desconfiado e violento, seu “salvador” terá as mesmas características para ser assim reconhecido.

Todos os tiranos têm sua gênese em movimentos populares. Hitler surgiu da conjunção nefasta de crise econômica, desespero e excesso de democracia, que conduziu ao populismo exacerbado — se o “excesso” lhe parece incongruente, leitor, recomendo que pesquise acerca da célebre Constituição de Weimar. Mussolini, de matriz socialista, surgiu da crise política e do descrédito institucional oriundos da Primeira Guerra Mundial.

Se um povo tem problemas com distribuição de renda ou se crê — ou fazem com que ele acredite — vítima de sistemas viciados, provocando a cobiça pelo progresso alheio, a sereia que os seduz é o socialismo. Tão nocivo para o engenho e para o desenvolvimento quanto a subnutrição para uma criança. Quase todos os tiranos modernos e contemporâneos têm matriz e matizes socialistas. Não exatamente escancarada: Hitler perseguia-os, mas, ao mesmo tempo, tinha ideias de Estado totalitário. O que é um estado totalitário se não um “comunismo burguês”?

Mas o que eu gostaria de demonstra com esse texto é a gênese desse tipo de líder e creio que o caso mais emblemático é o de Nicolae Ceauşescu. Ceauşescu tornou-se o homem forte da Romênia após a morte do lide comunista Gheorghe Gheorghiu-Dej, em 1965. Torna-se presidente do Partido Comunista Romeno e, em 1967, presidente do Conselho de Estado.

Ceauşescu, como tantos outros, é o típico arrivista do poder. Nascido em uma família pobre, começou a trabalhar em uma fábrica, o que não o impediu de dedicar-se a pequenos furtos. Acabou preso porque roubara uma mala em uma estação de trem em Bucareste, mala que continha folhetos do Partido Comunista Romeno — à época ilegal. Acabou preso e de ladrão de galinha, foi alçado à condição de “perigoso agitador comunista”.

Acabou entrando em contato com os impressores dos panfletos, que o doutrinaram. Começou com atividades pró-PCR e acabou preso na famosa Prisão de Doftana, praticamente o núcleo de pós-graduação do PCR: ladrões de galinha que passavam a acreditar que matar e reprimir em nome do “povo” e do “futuro melhor” era lícito. Qualquer semelhança entre a prisão de Doftana e o sistema penitenciário paulista, o centro de especialização da bandidagem, deve ser mera coincidência.

Grande parte do quadro do governo de Chivu Stoica — primeiro ministro que forçou o Rei Miguel a abdicar — era oriundo da Doftana.

Ceauşescu aplicou todos os princípios aprendidos na prisão. Reprimiu e matou. Como teve uma vida de privações na infância, subiu-lhe a cabeça que, já que trabalhava pelo povo, poderia viver como um nababo. Palácios com torneiras de ouro, construções suntuosas, tudo para aplacar um ego gigantesco, uma egolatria mal disfarçada em abnegação, culto à personalidade. Qualquer semelhança com a Coreia do Norte não é acidental: após uma visita ao país oriental, Ceauşescu entrou em contato com a ideologia juche, que consiste numa estranha mistura de exaltação nacional, dos esforços coletivos, grandes manifestações simbólicas e culto à personalidade do líder.

Elementos nefastos que deram origem a um líder totalitário — chegou mesmo a usar o título de Conducător, usado pelo rei Carlos II e pelo Marechal Antonescu, da Guarda de Ferro, pró-nazista — e egocêntrico. Foi o único líder da Europa Oriental que terminou executado na queda do regime.

O que aconteceu no caso romeno é muito emblemático. Tiram o rei, que tem a origem do seu poder na tradição, representa não o poder efetivo, mas uma moral; e a turma da esquerda tende à amoralidade, a quebra dos parâmetros anteriores para dar nascimento ao “homem novo”. Porém, com o vácuo do poder moral, a tendência que o caminho seja franqueado para os vícios do povo, quando elementos sem a consciência real do que representa o poder chegam a ele e nele se instalam. Os vícios vêm apenas com uma demão de tinta dourada.

Por esses e tantos outros motivos, um poder extremamente popular pode tornar-se uma tirania; pois, personificado no tirano, o povo liberta-se e oprime-se ao mesmo tempo.