369. Rogério Skylab

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Rogério Skylab, antes de ser um talentoso artista performático, é um intelectual de primeira grandeza por dois motivos: um, não o alardeia e, dois, não almeja tal posição.

Por detrás de canções com letras contundentes, expõe alguns comportamentos corriqueiros, mas negados com toda força pela sociedade brasileira, em sua grande parte falsa moralista. Falso moralismo porque as pessoas assustam-se com palavras das canções e não conseguem ir além da superfície: uma palavra “obscena” ou “rude” trava-lhes o entendimento e faz nascer a reprovação; às vezes o involuntário humor provocado causa o mesmo tipo de escurecimento da percepção.

Um grande exemplo é a música “Derrame”, do disco “Skylab I” (1999). Usando como mote o acidente vascular, Skylab desconstrói a vida de um homem considerado normal, expondo a transitoriedade de vaidades e até mesmo o isolamento social decorrente das sequelas.

Talvez Skylab não concorde com essa abordagem, ou até mesmo a ache pretensiosa, mas é o que se pode ver além do pasmo inicial ou da recusa do ouvinte em aprofundar-se na letra da canção.

Os eventuais detratores e o senso comum, famintos de eufemismos e de mentiras piedosas, não absorvem a verdade cruel e lírica presente nas letras de Skylab.

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368. Poder e democracia

O Estado democrático, tal como se apresenta hoje entre nós, não é apenas um fingimento: é uma imitação grosseira de instituições, que foram implantadas no Brasil a pancadas legislativas e não seguindo a lógica do desenvolvimento orgânico, ou seja, as instituições corretas a determinada sociedade.

Temos de convir que a democracia representativa é fruto de um longo processo democrático, cujo ápice foi a Revolução Francesa, mas que tem suas origens na Magna Carta, de 1215, considerada a primeira constituição — guardados os devidos limites — e que restringiu o poder do soberano inglês.

Apesar da convulsão da França revolucionária, as instituições democráticas tiveram lenta gestação na Inglaterra e no Reino Unido. Tanto é assim que da Carta Magna ao sufrágio universal foram necessários 700 anos.

Sociedades que sofrem trancos de democracia, como a França da Revolução, acabam por não saber aproveitá-la. A novidade das instituições as torna maleáveis e influenciáveis, e sempre há uma parcela da população interessada em tomar o poder àqueles que caem em desgraça: assim ocorreu na França, que com a queda dos Bourbon viu a república, o terror e — como sempre nos momentos de convulsão social — o surgimento de um espertalhão vestido de púrpura que transformou a república… em uma monarquia imperial!

Também na Rússia revolucionária, onde o poder apenas trocou de mãos: da nobreza burocrática tsarista para a burocracia do Partido Comunista.

Na sociedade ocidental antiga, o poder tem dois pilares: a força e a escolha divina. A força, condição de facto, e a divindade, condição de jure — basta lembrar que os textos religiosos, com ausência de regulações estatais, funcionavam como código civil.

O chefe nas sociedades primitivas de caçadores-coletores era o mais forte, que subjugava os demais pela força, como ainda fazem os animais gregários. Com a aurora das manifestações religiosas, essas rapidamente foram incorporadas ao poder. Em alguns casos, havia chefes-sacerdotes. Assim como hoje as divisões básicas do poder são o executivo, o legislativo e o judiciário, nessa aurora da Humanidade, eram o temporal e o religioso.

Se um rei fosse derrotado pelas armas, significava também que havia perdido a graça para governar. A evolução desse sistema de fundo religioso para a democracia representativa foi feito lentamente, com a introdução progressiva de constituições, parlamentos, laicização do Estado. Ou seja, não surgiu do dia para a noite.

Vemos ainda muitas sociedades que se baseiam na força, consideradas por nós antidemocráticas ou atrasadas.

Nos países em que a democracia foi introduzida sem o condicionamento devido, ou seja, não houve transição e sim uma reviravolta, as instituições democráticas não passam de mamulengos: são facilmente subvertidas pelo poder econômico ou pelo próprio poder político. E o pior: de democrático ficam apenas as cascas; tornam-se frágeis para que messias, tiranos ou associações políticas ergam-se para tirar proveito da situação.

O ciclo que se viu na História é tirania, despotismo esclarecido, democracia restritiva e democracia representativa. Qualquer pulo nas etapas condenará a sociedade a subversões no real papel das instituições.

364. O ‘pibinho’ e suas obviedades

Statism Gun

Gostaria de começar este artigo assim: “Otimistas são uma verdadeira praga”. Mas não posso. A ideia era criticar aqueles que tratam a economia brasileira como algo blindado, inatingível. A maior prova que sustêm é que “a crise europeia não aportou na Botocúndia”.

O lastro atual da economia brasileira é o consumo. Prova da sua importância na produção da riqueza nacional são as reduções de impostos, pensadas para manter os níveis de produção elevados. Parece que a estratégia, embora tenha aquecido as vendas, não foi suficiente para segurar o crescimento econômico: o PIB avançou pífio 0,9%, o menor entre os emergentes. Isso se deve ao fato de a economia brasileira basear-se em consumo e commodities. Nada que possa gerar crescimento sólido.

Os pseudo-otimistas louvavam a distância da crise. Pseudo-otimistas porque não os move a coerência da análise, mas a tara estatista de que o Governo sabe — se é que um dia soube — tratar da questão. Governos primam pela incompetência na área econômica.

Geralmente manipulados, os números são o sintoma mais superficial de doenças perigosas. Há apenas investimentos industriais localizados; os destinados à infraestrutura, feitos pelo poder público, estão à míngua — basta ver as obras da transposição do São Francisco, a Transamazônica da era PT.

O “pibinho” é apenas a verruga de uma metástase. Governo precisa deixar de intervir na economia; o capitalismo de Estado brasileiro tem dado resultados ruins e perigosos. O abstencionismo estatal já nos garantiria condições suficientes para o desenvolvimento interno e para a migração de uma economia primária a uma base de produtos manufaturados, da qual consumo e commodities seriam tributários.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 5/3/2013.

363. O poleiro dos articulistas e uma nota

poleiro1É fato que há vários tipos de artigos de jornal; eu diria que seus autores são um pouco como pássaros. Há articulistas que são como o pardal, cujo texto é um pipilar estridente e nervoso, porém ágil; outros são como maritacas, exuberantes e gritalhões; outros ainda são lacônicos e observadores, como as corujas. E ainda há articulistas corvos, pavões, cacatuas.

Quando se fala em artigo de opinião, é claro que o articulista não pode deslocar-se ao sabor das vagas do senso comum. Se o faz, é um náufrago do raciocínio, um reles demagogo. Não passará de um pato preso no cercado.

A função do articulista não é deleitar o leitor. Ao contrário, o intuito é incomodá-lo, tirá-lo da confortável poltrona das certezas absolutas, é trazê-lo para o debate, principalmente pela oposição. Pardais concordam com os pardais, mas não com as maritacas e, com a(s) minha(s) pena(s), quero algum tipo de debate e não aplausos de plástico. Debate entre gente que tem as mesmas ideias não passa de convenção de papagaios ou simpósio de puxa-sacos.

Talvez determinadas opiniões que aqui vêm sendo expostas tenham justamente o propósito de incitar discussões. Talvez. Deixo aos leitores o benefício da dúvida.

A nota — Um habitual e atento leitor desta coluna apontou um erro grosseiro no meu artigo “Ação e Reação” (5/2/2013). Quando usei a terceira lei de Newton como metáfora para o assunto tratado no texto, cometi um erro de transcrição e pus ali o enunciado da segunda lei, embora a ideia central baseie-se efetivamente na terceira. Minhas desculpas aos leitores e um agradecimento ao leitor que, argutamente, percebeu a falha, o que é belo e instrutivo.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 26/2/2013.

362. Pedro, Rei e Imperador

Pedro I mostrado como Pedro IV, Rei de Portugal

Pedro I mostrado como Pedro IV, Rei de Portugal

É oportuna a exumação de Suas Majestades Imperiais Dom Pedro I, Dona Maria Leopoldina de Áustria e de Dona Amélia de Leuchtenberg, respectivamente Imperador e suas esposas. Os estudos forenses estão sendo feitos pela arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel, da Universidade de São Paulo.

Havia muitos mitos sobre a personalidade dessas figuras históricas, mormente sobre Dom Pedro I, Pai da Pátria, cuja imagem foi vilipendiada pela república que se seguiu ao infame 15 de novembro de 1889.

Pedro de Bragança foi escolhido como Príncipe Regente quando da volta da Família Real portuguesa à Europa. Os ditames das Cortes de Lisboa exigiam a recolonização do Brasil — que então era reino dentro do Reino Unido de Brasil, Portugal e Algarves; Pedro e Maria Leopoldina, atendendo aos anseios populares, declararam, em 1822, o Brasil independente.

O menino Pedro foi criado num ambiente menos rígido que uma corte europeia. Andava a cavalo, misturava-se com o povo. Teve falhas na sua educação formal — daquilo que se espera de um príncipe. Longe de orgulhar-se de tais defeitos, procurou saná-los na educação dos filhos, um dos quais seria o sábio Imperador Pedro II.

Por seus feitos e fama, foram-lhe ofertados os tronos de Espanha e Grécia, reconhecimentos internacionais a sua pessoa; as honras foram gentilmente negadas.

Morreu em 1834, como general português, depois de assumir a Coroa da terra natal apenas para defendê-la do irmão Miguel. Em seu testamento, não fez distinção entre filhos legítimos e naturais. Bom pai, governante exemplar. Que sua memória seja restaurada no brilho daquilo que Pedro realmente foi: o único estadista brasileiro digno de tal título.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 22/2/2012.

361. Angústia cubana

"Vamos lá no fundo e eu te mostro a revolução no seu centro."

“Vamos lá no fundo e eu te mostro a revolução no seu centro.”

A chegada da blogueira Yoaní Sánchez nos faz lembrar que Cuba é a terra da infelicidade política. Poucos países modernos foram tão massacrados por tiranias de longa duração. Primeiro, o domínio espanhol, que se estendeu até 1898, ano em que a Guerra Hispano-Americana, entre Espanha e Estados Unidos, deu à ilha independência de jure, mas certos dispositivos de sua constituição — adicionados pela tenebrosa Emenda Platt — davam ao Grande Irmão do Norte a última palavra em questões internas da nova república.

Depois, além do domínio americano, a ditadura de Fulgencio Batista, que se estendeu de 1934 a 1959. Neste último ano, a guerrilha que vinha sendo desenvolvida desde 1953 por Fidel Castro e Che Guevara finalmente chega ao poder. A revolução não era originalmente comunista, como o próprio Fidel ressaltou quando de sua visita aos EUA — país que apoiava o movimento contra Batista. A guinada à esquerda e a aliança com a URSS não passaram de oportunismo, foram apenas uma reação à rápida deterioração da situação diplomática entre a nação caribenha e os EUA.

Desde 1959, a família Castro mantém a ilha como um latifúndio. Sua base econômica é a mesma dos tempos coloniais; o embargo burro dos EUA, antes de minar o regime, é uma eficiente propaganda. Num golpe de marketing, Cuba mostra-se como mártir.

Os que foram recepcionar Yoaní no Aeroporto de Salvador com cartazes pró-Cuba — acusando a blogueira de ser paga pela CIA e exaltando a pátria socialista, entre outras boçalidades — ignoram que o regime, em seus quase 55 anos de mandos e opressões, é muito pior que, por exemplo, o nosso Regime Militar. Mas a ideologia maniqueísta presente na esquerda, além de envenenar, cega.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, 19/2/2013.

360. Experimentação social

"Culpa sua, seu pai de merda!"

“Culpa sua, seu pai de merda!”

Deve ter começado na Grã-Bretanha, uma boa terra, mas que ultimamente tem produzido mais minhocas que batatas. Virou moda alguns pais moderninhos não quererem “impingir estereótipos” relacionados ao sexo biológico de seus rebentos. Criam-no como um ser assexuado, dão-lhe nomes neutros como Tempestade, Trovão, Chuva ou outro fenômeno da natureza e permitem que se vistam da maneira que bem entenderem — um menino com roupas de menina, por exemplo — e brinquem com os brinquedos que lhe apetecerem.

Não sei até que ponto tais liberalidades podem ser úteis à formação do caráter da criança. Já me explico: a nossa vida em sociedade prevê determinados padrões que são compartilhados pela comunidade. Promover uma quebra abrupta de tais padrões, longe de ajudar a criança, pode prejudicá-la.

A criança pode entrar em um vórtice de confusão; deve-se sim ensiná-las a respeitar as pessoas independentemente do que elas sejam, da sua aparência, da sua cor, ou seja, promover uma mudança de pensamento, de atitudes.

Esse tipo de maluquice é própria dos nossos tempos, em que as pessoas pensam com as gônadas em vez de fazê-lo com o cérebro. Além do mais, é um tipo de experimentação social inaceitável, uma engenharia social em pequena escala: pais não têm o direito de fazer de seus filhos cobaias. É desumano para a criança, que vai crescer num mundo em que há expectativas sociais.

Não é praticando a iconoclastia, permitindo que um menino vá à escola de tutu cor-de-rosa ou de vestido que o mundo vai mudar: isso é um subterfúgio idiota; é reduzir todos os problemas à forma estética da coisa.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 15/2/2013.

358. Até quando…?

Cícero acusando Catilina no Senado Romano - autor não identificado

Cícero acusando Catilina no Senado Romano – autor não identificado

“Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência?”. É uma das mais famosas sentenças das “Catilinárias”, de Cícero, grande mestre romano da oratória, contra Lúcio Sérgio Catilina, acusado de planejar tomar de assalto o Estado romano.

Até quando a nossa paciência será testada pela classe política e seus disparates? A eleição de Renan Calheiros (PMDB-AL) para a presidência do Senado é sandice com poucos precedentes. Somente o golpe que originou o regime republicano faz-lhe alguma sombra.

Mas nada nesta república é gratuito. Em 1918, Monteiro Lobato já definiu bem o que o Legislativo do País havia se tornado: “antessalas de fâmulos”, lugar de homens que vivem com as mãos molhadas, em teatrais facciosismos. Une-os a ganância, a fome de benesses, o dolce far niente. E quem dera o problema se limitasse ao Legislativo federal…

Mas nada é de graça, e Calheiros é peça do xadrez sujo jogado em Brasília. O senador é apenas um peão, e o PT pode apossar-se da presidência da Casa comendo-o. Não há muitos motivos para que tal peça, carunchada de processos, fosse eleita.

Ou talvez haja um projeto de longo prazo: a supressão do Senado. Há uma corrente do PT — liderada por Tarso Genro — que defende o unicameralismo, ou seja, um regime com apenas uma câmara legislativa. Desgastando a Casa, enfraquece-se o Parlamento, transfere-se mais poder ao Executivo e ficam mais fáceis as manobras populistas.

Precisamos aprender a pensar como o PT e deixar de olhar apenas o imediato. Ele está sempre adiante e, se nada for feito, vai ficar no poder pelo século todo, pois, entre nós, Catilina venceu Cícero.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 8/2/2012.

357. Ação e reação

A terceira lei de Newton decreta: “A mudança de movimento é proporcional à força motora imprimida, e é produzida na direção de linha reta na qual aquela força é imprimida”, o que se traduz de maneira mais palatável em: “Para cada ação, há uma reação oposta e de igual intensidade”. O que me chama atenção neste enunciado é sua relatividade em questões que vão além do mundo físico.

A lei da ação e reação pode ser aplicada, por exemplo, ao universo legal brasileiro — os advogados que me perdoem, pois talvez tenham um termo mais conveniente. Temos uma infinidade de diplomas legais, cuja simples enumeração é cansativa: Constituição Federal, Código Civil, Código Penal, Código de Trânsito, Constituição Estadual, Lei Orgânica do Município, Lei de Responsabilidade Fiscal… há mais um bom número de códices e leis e decretos avulsos, contados às dezenas de milhares.

Um sistema legal excessivamente complexo e intrincado que deixa espaço para todo tipo de subterfúgios; certamente é um dos grandes motores da morosidade da Justiça.

Ou seja, para cada lei que se cria, há um jeitinho, há subterfúgio para escapar das imputações e sanções. A legislatria ou legismania que se registra no poder público brasileiro é a ilusão de que os problemas podem ser resolvidos por decreto e que não envolvem uma lenta mudança de cultura e hábitos do brasileiro.

Todo excesso é prejudicial. O excesso de bebida, de tabaco, de leis. Para toda falha, haverá uma desculpa esfarrapada baseada em desconhecimento, “rigidez legal” ou simplesmente a pretensa legitimidade da vontade popular.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 5/2/2012.

356. Rescaldo

A comoção é péssima conselheira. E é o que ficará patente nos próximos dias, na cobertura do incêndio da boate Kiss, em Santa Maria, Rio Grande do Sul, no que pode ser o segundo pior incidente do tipo no Brasil, perdendo apenas para o incêndio do Gran Circus Norte-Americano, que ocorreu em Niterói, em 17/12/1961, e vitimou 372 pessoas, crianças em sua maioria.

E a comoção causada pelo incêndio da boate levantará várias questões relativas à segurança e à administração de casas noturnas. Teremos debates intermináveis nos meios de comunicação com especialistas em segurança, que sugerirão mudanças nas leis que regulam o funcionamento desses estabelecimentos. Começará a caça às bruxas, o Poder Público surgirá como depositário inconteste do que é melhor para seus administrados.

Analisando a coisa friamente — além da comoção, a reflexão objetiva é necessária —, segurança é um assunto mais privado que público. Serei sincero em dizer que boates juntam duas coisas que me enchem de pavor: lugar fechado e multidão, ingredientes de grandes desgraças — basta lembramos-nos do incidente do Cine Oberdan, na Capital, em 1938, causado por um falso alarme de incêndio. Resultado: 31 mortos, pisoteados; 30 eram crianças.

Mesmo que a responsabilidade dos donos da boate seja mínima — ao que parece, as vistorias e a documentação estavam em ordem — algum buraco, fresta ou desatenção será achado para condenar os responsáveis, porque pais indignados querem justiça, o que é plausível. Os ânimos e a opinião pública precisam ser aplacados.

Afinal, as desgraças pontuais passam e o Brasil continua sendo o país do samba, do futebol, do Carnaval, da Copa, das Olimpíadas, da inconsequência e da amoralidade; essas duas últimas sim, desgraças perenes.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 29/1/2013.

355. Best-seller, bad reader

Você, leitor, já deu uma olhada na lista dos livros mais vendidos? Não a última lista, qualquer uma. Há revistas que a publicam mensalmente. Estão ali os livros da moda, o que o jet set está lendo. É certo que houve uma queda geral da cultura da elite  e não somente cá na Botocúndia — os países ditos desenvolvidos também padecem de uma espécie de imbecilidade patogênica — mas entre nós, parece que a “nata” é exatamente aquele agregado pastoso que boia sobre uma larga e funda poça de chorume.

Quanto à leitora ditada por essa gente — afinal, é ela que move o mercado editorial —, está sempre repleta ou de livros de autoajuda, cuja única ajuda é para o bolso do autor/compilador esperto, ou esse vomitivos libelos da moda: ou são vampiros, ou são zumbis ou algum outro mundo paralelo. Exceção notória nessas listas é Tolkien, autor de fôlego cuja obra é profunda. O resto, um pires d’água.

Tente pegar uma lista dessas de três ou quatro anos atrás. Poucos se lembrarão daqueles mais vendidos. Onde estão? Onde merecem: nos porões mais úmidos dos sebos ou apodrecendo em depósitos de lixo.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 27/1/2013.

345. Números

Há um dito popular que diz que há mentiras, há grandes mentiras e há a estatística. A blague baseia-se no fato de a opinião pública ser absolutamente manipulável; nem é necessário esconder todos os números ou alterá-los: basta publicar os que são mais convenientes e convenientemente omitir os restantes.

Somos absolutamente influenciáveis pela força dos algarismos: temos uma democracia que se baseia única e exclusivamente em critérios numéricos, independente se o voto foi pensado e repensado ou apenas influenciado por aquele panfletozinho largado “acidentalmente” na porta da seção eleitoral, e somos uma sociedade que se impressiona pela pujança econômica.

Araraquara recebeu muitos investimentos no ano que terminou ontem, mas também foi um ano em que a violência teve uma escalada quase que sem precedentes. Fala-se da “qualidade de vida” araraquarense — acho que as pessoas que dizem isso evitam sair do Centro, do núcleo da Vila Xavier ou da Vila Harmonia. Não conhecem a nova cidade que cresce ao redor, os pés que são já maiores que a cabeça.

Temos de ter em mente que o bem-estar econômico é algo passageiro; basta ver a crise que atinge a Europa do Welfare State. Se o dinheiro se vai, resta para um povo apenas sua dignidade e suas raízes culturais, coisas que entre nós são excessivamente fracas. Ou seja, uma sociedade que unicamente se agrega em volta do dinheiro, sem dele efetivamente fazer bom uso, como os novos ricos que se preocupam unicamente em ostentar.

Espero que 2013 não seja outro ano de “números”, mas um ano de crescimento real, de crescimento da percepção das pessoas de seu papel na sociedade.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 1º/1/2013.

344. Punição a quem trabalha

É claro que a carga tributária é excessiva e é um peso para os setores produtivos, mas a burocracia estatal e paraestatal é a braquiária que destrói os campos, os cipós que lentamente matam e asfixiam as árvores.

“A burocracia expande-se para satisfazer as necessidades de uma burocracia em expansão.” A frase, certa como a flecha de Guilherme Tell e atribuída tradicionalmente a Oscar Wilde, define bem as intenções do monstro que paralisa a economia: a manutenção de Estado ineficiente, incompetente, dominado por populistas e cujo único motivo de existência é a autoalimentação.

Engana-se quem pensa que a burocracia endêmica é privilégio do setor público. No afã de dominar e controlar a atividade econômica, regula-a excessivamente, esboroando o ânimo em quem poderia gerar mais empregos e criando oportunistas — Jecas Tatu 2.0 — que se valem de empresários incautos para alimentar a indústria dos processos trabalhistas — esta sim, pujante e viçosa.

Ilude-se quem crê que as regulações do mercado pelo Estado sejam vantajosas. Elas criam apenas comodismos e irradiam a burocracia para dentro das empresas, que têm de ajustar seu ritmo por leis obsoletas e contraproducentes. Agências reguladoras, tribunais, câmaras, secretarias de Estado, cartórios, sindicatos — os grandes poleiros das aves de mau agouro que olham com desdém o progresso econômico, tratando seus agentes como inimigos do público.

Enquanto populistas dos mais variados matizes, por monopólio de domínio político, mantêm reféns tanto a sociedade quanto a vida econômica, o empresário — que gera renda e empregos — continua sendo o vilão número um.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 27/12/2012.

343. Outro conto de Natal

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Qual não foi a minha surpresa quando encontrei o Espírito do Natal Passado vagando na noite do Bulevar dos Oitis. Óculos, o inconfundível passo torto. Sim, era o presidente Jânio Quadros.

— O senhor talvez não sai­ba, mas deveria sabê-lo, que, no meu governo, combati a cor­rupção de modo vivaz. Minha música de campanha já dizia, “varre, varre, vassourinha…”, distribuí broches de latão em formato de vassoura…

— Mas, presidente, se me per­mite interrompê-lo, a corrupção continua ser combatida… ou tal­vez nem isso… faz-se apenas um teatro: mídia, tribunais… a lei, toda furada, permite todo o tipo de trapaça e tramoia… e ainda batem no peito, jurando pela alma da mãe morta.

Jânio olhou-me de cima a baixo.

— Então continua tudo igual…

— Sinto dizer que sim, presi­dente. Os políticos continuam a manter serviços públicos precá­rios para ter o que prometer nas eleições. Nas eleições, quase todos os jingles fazem rimas com em­prego, saúde e educação… e todos são honestíssimos até a primeira falcatrua, até a primeira botija beijada. E nenhum erra; são pegos em flagrante e têm a desfaçatez e contarem as mentiras mais desla­vadas… um horror!

— Então, nada muda… agora entendo, tudo faz sentido.

— Como?

— Não sou apenas o Fantasma do Natal Passado, mas também fui nomeado Fantasma do Natal Presente e Fantasma do Natal Fu­turo, porque tudo é igual. Mudam leis, mudam personagens, muda até mesmo a Constituição, esse cartapácio inútil, mas os vícios são os mesmos…

Fiquei na calçada enquanto observava o Fantasma de Todos os Natais afastar-se, batendo o sapato nas pedras da calçada e amaldiçoando as forças ocultas e Carlos Lacerda.

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Publicado na Tribuna Impressa em 25/12/2012.

338. A centopeia política

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Nosso regime é recheado de problemas. É quase uma piada de mau gosto chamá-lo democracia; poderia ter qualquer nome: corporativismo, partidocracia, criptocracia. Chamam-no democracia por moda e conveniência.

A grande falha — uma entre milhares — do sistema político brasileiro são seus partidos. Não os partidos em si, mas a forma que a lei estipula como deve ser formados, que segue legislação federal de caráter unitário.

Em um país tão grande, é impensável que os problemas que afligem, por exemplo, Araraquara, sejam os mesmos da Capital do Estado ou os da cidade de Oiapoque, no Amapá. Por conta do obrigatório caráter nacional, nossos partidos transformaram-se em monstros políticos, centopeias que se escondem sob o pedregulho estatal e atrapalham sua renovação e a diminuição. É óbvio que todo o mecanismo de legalização dos partidos foi criado por eles mesmos e embutido na legislação.

Por que não podemos ter candidatos independentes, como em vários outros lugares do mundo, cujo compromisso não fosse regido por cores partidárias, mas pelo real compromisso para com a população?

Outro dia, navegando pela internet, vi alguns dados sobre as eleições municipais e autonômicas na Espanha. Há municípios cuja população une-se e forma frentes para disputar as eleições, comumente chamadas de uniones. Ou seja, há os grandes partidos, com representação nacional, há partidos regionais — como, por exemplo, na Catalunha, onde os principais agentes políticos são partidos regionais — e há também as pequenas uniões.

Talvez fosse tempo de o Brasil começar a desmantelar o monstro partidista que, com sua coesão, ignora peculiaridades em prol do corporativismo político.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 11/12/2012.