304. Como criar um tirano

Nicolae Ceauşescu e seu indefectível beicinho

Os tiranos modernos são eleitos pelo povo. Aquela imagem de que eram eleitos apenas pelo poder oligárquico já não é mais verdade. Hoje eles fazem questão de serem populares. E quanto mais populares, mais tirânicos são, pois têm apoio de uma massa e as massas não têm face ou opiniões unívocas.

Os tiranos modernos vêm do seio do povo e geralmente representam todos os vícios nele contidos. Para parafrasear Nietzsche porcamente, um tirano moderno não é nada mais que um superpopular. Se um povo é mesquinho, desconfiado e violento, seu “salvador” terá as mesmas características para ser assim reconhecido.

Todos os tiranos têm sua gênese em movimentos populares. Hitler surgiu da conjunção nefasta de crise econômica, desespero e excesso de democracia, que conduziu ao populismo exacerbado — se o “excesso” lhe parece incongruente, leitor, recomendo que pesquise acerca da célebre Constituição de Weimar. Mussolini, de matriz socialista, surgiu da crise política e do descrédito institucional oriundos da Primeira Guerra Mundial.

Se um povo tem problemas com distribuição de renda ou se crê — ou fazem com que ele acredite — vítima de sistemas viciados, provocando a cobiça pelo progresso alheio, a sereia que os seduz é o socialismo. Tão nocivo para o engenho e para o desenvolvimento quanto a subnutrição para uma criança. Quase todos os tiranos modernos e contemporâneos têm matriz e matizes socialistas. Não exatamente escancarada: Hitler perseguia-os, mas, ao mesmo tempo, tinha ideias de Estado totalitário. O que é um estado totalitário se não um “comunismo burguês”?

Mas o que eu gostaria de demonstra com esse texto é a gênese desse tipo de líder e creio que o caso mais emblemático é o de Nicolae Ceauşescu. Ceauşescu tornou-se o homem forte da Romênia após a morte do lide comunista Gheorghe Gheorghiu-Dej, em 1965. Torna-se presidente do Partido Comunista Romeno e, em 1967, presidente do Conselho de Estado.

Ceauşescu, como tantos outros, é o típico arrivista do poder. Nascido em uma família pobre, começou a trabalhar em uma fábrica, o que não o impediu de dedicar-se a pequenos furtos. Acabou preso porque roubara uma mala em uma estação de trem em Bucareste, mala que continha folhetos do Partido Comunista Romeno — à época ilegal. Acabou preso e de ladrão de galinha, foi alçado à condição de “perigoso agitador comunista”.

Acabou entrando em contato com os impressores dos panfletos, que o doutrinaram. Começou com atividades pró-PCR e acabou preso na famosa Prisão de Doftana, praticamente o núcleo de pós-graduação do PCR: ladrões de galinha que passavam a acreditar que matar e reprimir em nome do “povo” e do “futuro melhor” era lícito. Qualquer semelhança entre a prisão de Doftana e o sistema penitenciário paulista, o centro de especialização da bandidagem, deve ser mera coincidência.

Grande parte do quadro do governo de Chivu Stoica — primeiro ministro que forçou o Rei Miguel a abdicar — era oriundo da Doftana.

Ceauşescu aplicou todos os princípios aprendidos na prisão. Reprimiu e matou. Como teve uma vida de privações na infância, subiu-lhe a cabeça que, já que trabalhava pelo povo, poderia viver como um nababo. Palácios com torneiras de ouro, construções suntuosas, tudo para aplacar um ego gigantesco, uma egolatria mal disfarçada em abnegação, culto à personalidade. Qualquer semelhança com a Coreia do Norte não é acidental: após uma visita ao país oriental, Ceauşescu entrou em contato com a ideologia juche, que consiste numa estranha mistura de exaltação nacional, dos esforços coletivos, grandes manifestações simbólicas e culto à personalidade do líder.

Elementos nefastos que deram origem a um líder totalitário — chegou mesmo a usar o título de Conducător, usado pelo rei Carlos II e pelo Marechal Antonescu, da Guarda de Ferro, pró-nazista — e egocêntrico. Foi o único líder da Europa Oriental que terminou executado na queda do regime.

O que aconteceu no caso romeno é muito emblemático. Tiram o rei, que tem a origem do seu poder na tradição, representa não o poder efetivo, mas uma moral; e a turma da esquerda tende à amoralidade, a quebra dos parâmetros anteriores para dar nascimento ao “homem novo”. Porém, com o vácuo do poder moral, a tendência que o caminho seja franqueado para os vícios do povo, quando elementos sem a consciência real do que representa o poder chegam a ele e nele se instalam. Os vícios vêm apenas com uma demão de tinta dourada.

Por esses e tantos outros motivos, um poder extremamente popular pode tornar-se uma tirania; pois, personificado no tirano, o povo liberta-se e oprime-se ao mesmo tempo.

287. A aurora do lulomalufismo

A bênção do capo (Adriana Spaca/Brasil Photo Press/Folhapress)

Leio as colunas de Arnaldo Jabor, mas não sou exatamente aficionado por ele. Porém, aproprio-me a ideia do título de um de seus livros: pornopolítica. O radical grego porno- tem relação com pórne, prostituta na língua de Homero. Logo, basta deduzir o que pode significar pornopolítica.

A aliança entre PP e PT em São Paulo em torno da candidatura de Fernando Haddad à Prefeitura teria tudo para apenas levantar alguns ‘ohs’ de assombro em meia-dúzia de pessoas. Mas a exigência de Maluf para que o próprio Lula viesse ratificar o apoio, a associação dos nomes… é algo que causa, no mínimo, estupefação. Uma Realpolitik despudorada.

Homens com um passado todo de ofensas e sarilhos, agora se abraçam num repulsivo gesto de união política. É nesses momentos cruciais que se percebe que não há projeto de governo, ética, princípios partidários. Nada. O único projeto que existe é o projeto de poder por parte de todos e, principalmente, pela permanência indefinida do PT no poder. Será a aurora sebenta do lulomalufismo? Pode não parecer, mas as duas vertentes têm muito em comum; o que as separa são aparências.

Apesar de tudo, creio que tal ‘união maléfica’ traga ojeriza tanto a parte da militância petista quanto aos ditos malufistas históricos. O restante chafurda na alegria suja, joga fora um passado em nome das conveniências do momento.

Até mesmo a filiação de Delfim Netto ao PMDB, em 2005, fica embaçada quando comparada a essa aliança; se alguém a previsse há 20 anos, poderia ouvir que, no mesmo instante que Lula e Maluf estreitassem as mãos, um buraco negro tragaria todo o Universo. Parece que as coisas mudam; e não necessariamente para melhor.

* * *

Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 19/6/2012.

‘Missiva ao vivo’

O primeiro programa ‘Missiva ao vivo’ foi ao ar nesta quarta feira, às 11 da manhã. Apresentado por este que vos escreve, o enfoque são generalidades; a primeira edição foi sobre as mudanças econômicas no Brasil desde 1942 até 1989, baseando-se nas mudanças dos padrões monetários, mais alguns comentários aleatórios. Pode vê-lo aqui.

A intenção é que o programa seja semanal, todas as quartas, com transmissão ao vivo às 11 da manhã, que poderá ser assistido no TwitCam.

A próxima transmissão deverá ocorrer em 30/11.

166. Sobre poesia

Provavelmente uma enfiada de obviedades, mas senti a necessidade de escrever este pequeno texto.

* * *

Creio que a poesia seja a forma mais próxima da arte que a palavra escrita pode chegar. Sem prejuízo da literatura em prosa, claro. Mas o fantástico da poesia é chegar a significados que não estão textualmente escritos e valer-se de relações subliminares de associação inicialmente não previstas.

A poesia não pode ser lida como se lê um romance ou um conto ou mesmo uma notícia de jornal. Certo que tal afirmação chega às raias da obviedade, mas a função conotativa da linguagem é algo pouco exercitado mesmo em leitores contumazes.

Também parece lógico que, embora não façam referência direta, as metáforas ou imagens vinculadas em um poema não podem ser excessivamente herméticas, sob pena do texto ser absolutamente intransponível ou somente fazer sentido ao seu autor.

A graça, se me permitem a jocosidade e o vocábulo-coringa, é a polissemia, as relações possíveis de significado – ou entre significados – que faz da leitura de um poema uma experiência estético-discursiva particular a cada leitor, as várias soluções possíveis ao quebra-cabeças lógico-cognitivo que se lhes apresenta distribuído em versos e estrofes.

A concepção comum de poesia (na verdade, de poema) sempre esbarra, para o grande público, nas questões formais, mais notoriamente na rima e, em segundo plano, na métrica; isso se deve a popularidade de quadrinhas e das letras das canções.

Porém – e por sorte -, poesia e a sua materialização, o poema, é muito mais que isso. É essencialmente imagens possíveis e a cadeia associativa entre elas.

Isso sob um ponto de vista mais atual, pois há a poesia narrativa; mas mesmo essa vale-se de imagens por meio da mitologia, como nas grandes obras legadas pela tradição, a Ilíada, a Odisseia e Os Lusíadas.

Para a poesia, o que mais vale é a imagem. Uma imagem da realidade emprírica, mas apresentada sob uma nova chave de leitura, dada pelo autor.

126. Cruz na porta da livraria

1922-2010

Eu tinha um outro texto em mente, mas, ao ter aberto o portal do Estadão e ter dado de cara com a funesta manchete, não posso abster-me de dizer algumas palavras.

* * *

Alguém morreu? Sim, o velho Saramago. Alguns o consideravam prolixo, outros, enfadonho; outros ainda, plagiador. Que posso eu, simples leitor, dizer dele?

Um dos primeiros livros que li foi seu: “Memorial do Convento”, li quando tinha uns onze, doze anos. Bom livro; reli-o mais tarde, já na casa dos vinte, continuava a ser um grande livro.

Saramago intitulava-se comunista. Coisa que, inicialmente, achava fantástica e que hoje me causa ojeriza. Mas estamos falando do homem escritor e não do político. A política, ultimamente, só tem servido a fazer apodrecer nossa alma. Como escritor, Saramago é irrepreensível: tem seu estilo, suas estórias e seus personagens; alguns reinicidentes, como o tipo solitário que é tanto o revisor do “História do Cerco de Lisboa” e o funcionário de conservatória de “Todos os Nomes”.

Autoexilou-se por conta de “O Evangelho segundo Jesus Cristo” e foi morar em Espanha, não a peninsular e opressora vizinha, mas em uma das suas ilhotas no Atlântico, oprimidas pelo mar: Lanzarote, nas Canárias.

Bom ou mau, de acordo com as várias opiniões, é um escritor a menos num mundo cada vez mais dominado pelos engenheiros, administradores e gerentes de recursos humanos. Hoje, o vamos dormir mais áridos.

Recordai do Nove de julho de 1932

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Ser Paulista
Letra: Carmem Lia; Música: João Gomes de Araújo Júnior

Ser Paulista é ser grande no passado!
E ainda maior nas glórias do presente!
É ser a imagem do Brasil sonhado,
E, ao mesmo tempo, do Brasil nascente!

Ser Paulista! É morrer sacrificado
Por nossa terra e pela nossa gente!
É ter dó da fraqueza do soldado
Tendo horror à filáucia do tenente!

Ser Paulista! É rezar pelo evangelho
De Rui Barbosa, o Sacrossanto Velho
Civilista imortal da nossa fé!

Ser Paulista! – Em brasão e em pergaminho
É ser traído e pelejar sozinho
É ser vencido, mas cair de pé!

Meme

Ótimo. Nunca me havia enveredado pela história do meme, que já vi alhures e algures; se enviaram-me algum, ignorei-o, com o perdão do esquecimento. Agora, eis que surge um, do qual trataremos: foi-me mandado por um amigo que está a dever-me uns minutos de prosa, o Orlando.

No que consiste o tal meme? Devo pegar o livro que estiver mais perto de mim, abri-lo na página 161 e pegar a quinta frase completa e aqui colocá-la. Ah, claro, e repassar o procedimento a mais cinco pessoas. Não sei como será, pois temos três leitores e meio, mas, veremos.

O primeiro livro que peguei (Kemal Ataturk, de Blanco Villalta) tinha sua página 161 com somente o título do capítulo, o que o excluiu como opção, infelizmente. O segundo, compra recente em Ubatuba, do qual certamente irei falar em breve (Amerríqua – As origens da América, de Domingos Magarinos), não tinha página 161. Somente na terceira opção foi possível encontrar uma página 161 com cinco frases consecutivas inteiras, e trata-se do Estado, Ditadura do Proletariado e Poder Soviético, de V. I. Lênin, cuja quinta frase/período/oração transcrevo-a aqui:

“Teríamos feito isto sem a ajuda das sociedades cooperativas burguesas, sem concessões a esse princípio puramente burguês que impulsiona as sociedades cooperativas operárias a continuar sendo sociedades operárias junto às cooperativas burguesas, ao invés de fazer com que estas lhes sejam totalmente subordinadas, com a fusão de ambas, chamando a si toda a direção e tomando em suas próprias mãos a supervisão do consumo dos ricos.”

Isso posto, repassamos o meme às cinco pessoas pseudoaleatoriamente indicadas: Júlia, Amanda, Érico, G. e Camila.

Lei de Línguas

Aragão é um território onde, além do castelhano, convivem historicamente o atagonês e o catalão como línguas próprias. Para proteger e assegurar a sobrevivência dessas línguas em todas as suas variedades dialetais com as suas comunidades linguísticas é necessária a criação, aprovação e aplicação urgente de uma Lei de Línguas adequada às necessidades básicas de cada língua e território.

Esta medida legislativa, demandada por um grade número de órgãos, instituições e documentos oficiais envolvidos e relacionados com a proteção do patrimônio linguístico aragonês e universal. Assim, a Carta Europeia das Línguas Regionais ou Minoritárias, por meio dos Informes do Comitê de Ministros do Conselho da Europa, insta à “adoção de um marco jurídico específico para a proteção e promoção do plurilinguismo em Aragão” (parágrafos 115-118). Ademais, o Estado Espanhol faz menção, na dita carta, a um reconhecimento estatutário que ainda não existe: “O Estado Espanhol declara que, para os efeitos previstos nos citados artigos, entendem-se por línguas regionais ou minoritárias, as línguas reconhecidas nos Estatutos de Autonomia e/ou na legislação que os desenvolva, das Comunidades Autônomas de Aragão, Astúrias, Catalunha, País Basco, Galiza, Ilhas Baleares, Navarra e Valência” (Arts. 2.2 e 3.1). O Comitê de Ministros do Conselho da Europa também pede às autoridades espanholas que “reforcem a proteção do aragonês (fabla) e do catalão em Aragão, incluso o estabelecimento de um marco jurídico apropriado.” (ponto 6). Na mesma linha, o Estatuto de Autonomia de Aragão estabelece que “As línguas e modalidades linguísticas próprias de Aragão gozarão de proteção. Garantir-se-á seu ensino e o direito dos falantes na forma que estabeleça uma lei das Cortes de Aragão para as zonas de uso prodominante de tais línguas.” (Art. 7); assim como a Lei do Patrimônio Cultural Aragonês sanciona que “Uma lei de línguas de Aragão proporcionará o marco jurídico específico para regular a co-oficialidade do aragonês e do catalão, línguas minoritárias de Aragão, assim como a efetividade dos direitos das respectivas comunidades linguísticas, tanto no que se refere ao ensino de e na língua própria, como à plena normalização do uso dessas duas línguas em seus respectivos territórios.” (Disposição final segunda). Também o anteprojeto da Lei de Educação de Aragão remete-se à Lei de Línguas ao falar da educação: “Desenvolver-se-á, da forma que indique a Lei de llínguas próprias de Aragão” (Cap. 3; Art. 37.2).

Caso não houvesse ficado patente a necessidade e obrigação de promulgar uma Lei de Línguas que torne legais o aragonês e o catalão, há também disposições de âmbito mais geral que obrigam, igualmente, a proteção da diversidade linguística de Aragão por parte do Governo e das autoridades competentes. Desta forma, a Declaração Universal dos Direitos Linguísticos, criada pelo Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas, exorta aos Estados e as instituições internacionais a continuar avançando em todas as políticas favoráveis ao respeito, à promoção e ao uso social de todas as línguas, em todos os âmbitos que afetam a vida individual e coletiva das pessoas e deve-se recordar que, segundo essa declaração, em Aragão viola-se um direito fundamental: “Toda comunidade linguística tem direito que sua língua seja utilizada como oficial dentro de seu território” (título segundo, seção I, art. 15.1). Por tudo isso, urge que as autoridades aragonesas atuem decididamente, cumprindo sua incumbência, de forma que seja criada e devidamente aprovada uma Lei de Línguas como marco legal imprescindível, e que se aplique uma política linguística para a proteção e difusão das línguas próprias. Essa lei, acima de qualquer ideologia, pacto, unidade ou símbolo político, deve desenvolver e proteger todos e cada um dos direitos estabelecidos pelas Declaração Universal dos Direitos Linguísticos, assim como responder às petições e sanções que, da União Europeia, do Estado Espanhol, do Estatuto de Autonomia de Aragão e demais disposições e instituições que se põe a favor do patrimônio linguístico aragonês.

Para assinar: http://www.leydelenguas.com

(traduzido do próprio sítio)

Diário para Técnicos Linguísticos

Agora, a convite do amigo Miquel Boronat, estamos por aqui também, mas são textos mais técnicos.

O grande estalo

(and now, for something completely different…)

Começa. Serei semanal (quando não, quinzenal), mas não necessariamente medido e regulado pelo calendário. Serei e ponto. Escreverei (claro, que mais se espera de um blogue?). Sobre o que aparecer.

Aliás, reuni em um simpático volumezinho pdf textos pretensamente literários presentes no meu anterior blogue e alguns inéditos, fora as colaborações. Como sou amigo da turma, é de graça; somente faça uma requisição simples (carimbada, três vias, explicitando o motivo) na área dedicada aos comentários, com endereço de correio eletrônico para que eu o possa enviar-lhe. Não se preocupe, os endereços não serão tornados públicos.