383. A redação

Lembro-me de um fato curioso. Acho que foi na 6ª série — sabe Deus a que equivale hoje —, a professora nos passou uma folha mimeografada para fazer uma redação, cujo tema era “A cidade do Futuro”. No alto da folha, uma ilustração tosca de uma cidade futurista, ao estilo de “Os Jetsons”. Ignorei a ilustração e fiz a redação do meu jeito. E fui o único, de umas quatro salas, a fazer daquela maneira. Todas as outras crianças haviam se baseado na figura. Resultado: tive de lê-la várias vezes, em vários lugares, e era apontado como exemplo de criatividade. Aquilo se repetiu pelo menos umas dez vezes. Não aguentava mais recitar aquele texto pastoso; a folha começava a ficar frágil e pegajosa por conta do suor das minhas mãos.

Passadas umas duas semanas e com o assunto já devidamente sepultado, achei a redação toda estropiada no fundo da mochila. Rasguei-a sem piedade e despachei-a para o mundo inferior.

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