381. Sobre a morte

Faz um tempo que tento digerir a sua morte. Repentina, como um grito trincando o silêncio do campo, a xícara retirada de um naufrágio. Nunca fui sentimental com isso de morte. As pessoas morrem, faz parte do ciclo: nascer, crescer, reproduzir-se, envelhecer e morrer. Temos nossos processos de luto; uns, mais dramáticos; outros, momentâneos, leves.

A morte me causa não o desespero, mas a sensação de vazio, aquilo que não tem melhor expressão que o silêncio, o torpor, a alma concretada, o infinito do espaço.

Quando a morte visita — a imagem da sinistra figura de capuz preto e foice na mão não me abandona — alguém jovem, a sensação de torpor é ainda maior.

Lembro-me de quando você imitava velhos sem dente, imaginando-se velho. Aquela velhice caricata, que parece um futuro remoto. E você não ficou velho. A notícia chegou como um acidente de ônibus, do nada, nem mesmo o barulho da brecada.

Isto tudo deveria ter virado um poema-homenagem, mas não coube. Qualquer palavra fica diminuta, ridícula; as imagens são malfeitas. Ficou apenas esse silêncio de lápide.

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