377. Evolução religiosa

A relação com o sagrado não é simples e rege-se pelas vivências de cada um. Numa visão simplista, é possível categorizar um caminho crescente da relação do homem com a espiritualidade.

1) O primeiro estágio é o da ignorância geral — é preciso cuidado com esse termo, pois, entre nós, virou ofensa; trata-se apenas de “desconhecimento”. O homem nasce relativamente do mesmo jeito há muito tempo, ou seja, com as capacidades cognitivas que vão sendo preenchidas com valores, inicialmente binários. Por isso grande parte das religiões são oposições entre o bem e o mal. A criança, quando começa a assenhorar-se dos valores do mundo e perguntar pelos porquês, tende a montar uma visão maniqueísta por conta das respostas simplificadas que os adultos lhe dão. “Isso é feio”, “É ruim”, “É bom”.

Tendo em consideração que a religião é o conjunto das primeiras tentativas do homem em explicar o mundo — a religião é a mãe da ciência —, os fenômenos considerados bons — chuva, crescimento vegetal, luz solar — passaram a ser objetos de culto e os maus tornaram-se símbolo da ira ou da maldade — tempestades destruidoras, enchentes etc.

O homem — tanto na sua infância histórica como, atualmente, na sua infância intelectual — tende à “fé cega” nos fenômenos e na oposição entre bom e ruim. É a forma mais rudimentar de fé, provavelmente presente nos primeiros cultos que a Humanidade criou.

2) Principalmente depois do Renascimento, a religião passou a ser posta no campo oposto à ciência. Logo, cientistas, filósofos e intelectuais, com intuito de racionalizar as relações humanas, consideraram por bem deixar o pensamento religioso, baseando-se em verdades naturais, ou seja, as factíveis, presentes, mensuráveis. Todo pensamento que daí deriva, leva ao agnosticismo — principalmente em sociedades em que a fé é instrumento burocrático do Estado ou exerce influência sobre ele — ou ao ateísmo — em sociedades em que a religião, vista sob a óptica de sua associação ao poder ou ao liberalismo excessivo de seu clero, passa a ser considerada nociva. Foi o que ocorreu na Revolução Francesa.

3) Embora o ateísmo/agnosticismo continue a ter um valor positivo na sociedade moderna, pois seus adeptos são considerados “inteligentes” e se encontrariam “acima” das “amarras” religiosas, é notório que o homem, depois de vagar algum tempo sem dar importância ao campo espiritual, acabe avançando um estágio — muitos dirão “recuar” —, e vão em direção às tradições religiosas que lhe são mais familiares; só pode ser considerado uma regressão se o indivíduo cair novamente numa visão religiosa maniqueísta e rudimentar. Muitas vezes, o desespero pode impelir as pessoas nessa direção.

E tal opção pelas tradições, longe de ser retrato da ignorância, demonstra uma superação e põe em acordo novamente espiritualidade e ciência, trazendo uma fé que, longe de basear-se em impulsões maniqueístas alavancadas pelo desespero, é fruto de uma maturação espiritual e é altamente intelectualizada, pois seus adeptos vão além da fé e buscam o estudo da espiritualidade por meio dos pensadores e escritos legados por uma religião específica. A vida religiosa deixa de ser uma obrigação e passa a ser uma vontade.

376. A morte dos outros é refresco

Espera-se piedade para com os moribundos. Também para gente afetada por doenças agressivas que, cedo ou tarde, vão engrossar o grupo dos que vão se extinguir enrolados em lençóis hospitalares mal lavados.

O ser humano — ou o brasileiro, ou os nossos vizinhos, parentes — tem isso da santificação do sofrimento. A doença santifica, limpa reputações. Quando eu era criança, os mais velhos — não esses mais velhos de hoje, hippies que vivem de reflexos do barato de ácido — costumavam dizer que não se deseja a morte alheia, um sentimento sebosinho de catecúmeno que se arrepende do desafogo sexual.

Por que a piedade para quem somente se arrepende no fim, na situação irremediável, quando não há mais chance de uma reabilitação moral? Ora, não é problema nosso. Que encomende a alma e aguarde a Sanção.