374. A inglesa do Butantã

Aprendeu inglês com o pai, que era inglês. Vivia de bicos: tradução, intérprete. Ela não fez faculdade. Cursou um semestre de Letras na USP, mas não aguentou o pedantismo. Lia Shakespeare, Milton, Blake. Apesar da apatia, seu rosto irradiava quando começava a recitar “And did those feet in ancient time…”.

Herdara do pai a folclórica fleuma inglesa. Não era moça de rompantes e os rompantes a enojavam. Tinha pavor a escândalos. Quando quis sexo pela primeira vez, encurralou um colega de colegial com os olhos. Quando quis casar e deixar o pai e sua administração parlamentar, casou. Como Rhodes, ela precisava de um continente novo.

Casou não com o mais bonito ou com o mais inteligente, mas com alguém que não a irritasse, que não exigisse afeto em excesso. Casou com um analista financeiro em começo de carreira, que não exigia muito e ainda trazia uísque bom para casa.

Amava o silêncio. Eventualmente cantava “And did those feet…”. Não era cantora, mas não desafinava. Ajudava o marido eventualmente, quando ele recebia visitas do exterior.

E permanece assim, amarelando-se com cigarro e café.

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