372. O último sertanista

Araraquara era um lugar limpo nos anos 40. O Centro, claro. A Vila Xavier e as chácaras ficavam à mercê das lufadas de pó, pois estavam fora da civilização. Bastava passar a linha do trem; era outro mundo.

Neste outro mundo morava o tio Jorge. Não o conheci, morreu pelo menos dez anos antes que eu nascesse. Mas era um dos vultos da família, aqueles parcos vultos das famílias de classe média baixa, que tentam, de alguma maneira nobilitar-se, criando seus próprios jõoes-ramalho e bartiras.

Nunca vi fotos do tio Jorge; não sei se existem. A mim, chegaram apenas os prodígios de um bon vivant caipira.

Antes de mais nada, estabeleçamos exatamente o parentesco. Tio Jorge é para facilitar; ele era meu tio-bisavô, irmão de uma das minhas bisavós paternas. Mas ninguém se refere a tios-bisavôs, tios-trisavôs. É tio e basta.

Tio Jorge morava na vila poeirenta, perto da estação de trem de Araraquara. Eventualmente ia de trem à Capital, visitar a irmã, minha bisavó, e era nessas ocasiões que meu pai ouvia suas façanhas.

Embora não tivesse ocupação fixa, Tio Jorge tinha uma caminhonete Ford. Na estação seca, comprava montes de todo tipo de bugiganga: aviamentos, baldes, sabão, cachaça, carne seca e o que mais pudesse achasse. Ajeitava a carga no Ford e tomava a estrada, rumo do poente, numa época em que as pessoas faziam os trajetos entre as cidades de trem.

As estradas então eram apenas picadas que ligavam os nascentes vilarejos de noroeste e oeste paulistas; havia ainda muitos índios e algumas tribos hostis. Tio Jorge tinha salvo conduto nessas regiões de civilização incipiente. Parte das mercadorias era para o pedágio indígena.

A guerra devorava a Europa; Tio Jorge devorava as ilhas de sertão que existiam entre as novas cidades. Chegava a um ponto determinado na fronteira com o Mato Grosso e atravessava o rio Paraná de balsa. Dizia que era o trecho que mais dava medo.

Depois do rio, Tio Jorge seguia para Campo Grande. Abastecia-se com víveres e outras bugigangas e continuava até a fronteira paraguaia ou a borda sul da bacia amazônica, não sei ao certo. Uma semana de picadas. Às vezes, tinha de descer do Ford e reabrir a estrada tomada de mato. O último sertanista dormia na caminhonete, agarrado a uma espingarda de caça, sempre carregada.

Finalmente chegava a uma clareira maior. As crianças da tribo mal viam o carro e começavam a fazer escarcéu, alertando os adultos da visita anual. Tio Jorge era esperado e tinha uma rede a sua disposição. Ficaria os próximos quinze dias entre os índios.

Ignoro de que etnia seriam aqueles indígenas. Tio Jorge tinha rudimentos daquela língua, pois eles não falavam português, mas qualquer informação a respeito jaz no Cemitério São Bento, em Araraquara, onde Tio Jorge espera o juízo final.

Era recebido pelo chefe da tribo e recebia uma vênia do pajé. Depois, acomodava-se, comia, conversava do tempo, da colheita. Somente no dia seguinte as negociações começariam.

O novo dia chega à aldeia e os índios entregam-se aos seus trabalhos habituais. Vão caçar, pescar; as mulheres entregam-se à confecção de cestos de palha. O pajé chama Tio Jorge e eles vão para uma estrutura especial, uma oca separada das demais, que funciona como santuário e morada para o pajé. Sentam-se ao redor de uma fogueira que é apenas cinzas. Logo chegam o chefe e outro índio parrudo, auxiliar do chefe. Ao que parece, trata-se de um cargo rotativo, pois cada ano é um homem diferente, sempre robusto.

Todos sentados ao redor da fogueira, o pajé aviva o fogo com gravetos separados para tal fim, e bate palmas. Três vezes. Uma mulher sai correndo de algum lugar com uma cuia nas mãos e para na porta da oca. Não lhe é permitida a entrada. A cuia é pega pelo auxiliar do chefe.

O pajé reparte o conteúdo da cuia em três cuias menores, uma para cada homem. Dentro, uma bebida viscosa, esbranquiçada, com várias folhas mortas e insetos que caíram na mistura enquanto ela fermentava a céu aberto. Os índios a chamavam de caxiri; era feita a partir da mandioca, cozida e mascada pelas mulheres e meninas virgens da tribo e era muito alcoólica. O aspecto era repulsivo, mas, sem a bebida, não havia negociação. Depois de umas três ou quatro rodadas de caxiri — parece que o número era determinado por algum sinal visto pelo pajé na fogueira, da qual não tirava os olhos —, o curandeiro jogava ao fogo um maço de ervas, que produzia uma fumaça de odor agradável. O pajé preparava ainda um cachimbo cerimonial, que se alternará na boca dos três homens. Agora as negociações estavam abertas.

Tio Jorge dizia ao pajé o que havia trazido, entre palavras índias e gestos. Os itens de metal eram os prediletos, fossem baldes de lata ou ferros de passar. Tinha preferência pelos objetos de zinco. Os três índios confabulavam entre si apenas com olhares; o auxiliar trazia demandas do resto da tribo.

Quando fechavam a lista, os quatro homens iam até a caminhonete. O índio mais robusto ajudava o Tio Jorge a descarregar a mercadoria e levá-la para a oca do pajé, onde ficava armazenada. Ao fim de tudo, o pajé passava uma bolsa de palha trançada que era pesada com uma balança romana que Tio Jorge guardava na caminhonete. Cinquenta gramas, 60… 65. Era a média de peso da sacola recheada de pedrinhas verde-escuras translúcidas. Esmeraldas. Em uma sacola separada, o dobro de pedras de berílio, o primo pobre da esmeralda.

Tio Jorge acondicionava as pedras em um compartimento secreto da caminhonete, despedia-se da tribo e tomava o caminho de volta. Algumas pedras ficavam nos botecos de beira de estrada; boa parte, em Campo Grande. Na futura capital sul-mato-grossense, havia um joalheiro de confiança que avaliava e comprava as pedras. O restante ficava em Ribeirão Preto, em outro joalheiro. Tio Jorge chegava a Araraquara com o dinheiro para passar o ano de maneira módica: dava boa parte à esposa e mandava fazer um terno de cor clara todo ano. Dividia seu imenso tempo livre entre a leitura de jornais que mandava vir de São Paulo, livros sobre mineralogia em francês — parece que aprendeu francês apenas por conta de seu mister. No restante do tempo, fumava seu palheiro e frequentava os amigos para contar as peripécias nos matagais.

Quando alguém se mostrava cético às suas histórias, esticava a mão e exibia um anel de prata, finamente trabalhado e com uma grande esmeralda oval polida. Pelo lado de dentro, a marca do joalheiro de Campo Grande.

Amealhou quantia que lhe permitiu viver a velhice com certos privilégios e a viveu para contar suas histórias. O anel, a espingarda na parede e uma puída pele de onça na sala de estar eram suas testemunhas.

Tio Jorge morreu no mesmo ano em que o Estado de Mato Grosso do Sul foi criado. Não sei se foi sepultado com o seu famoso anel, já que esse era um desejo, que sempre que podia, o deixava bem claro.

O último sertanista jaz numa sepultura sem mármores, apenas com um detalhe em granito esverdeado, sua cor predileta.

Anúncios
Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: