371. Pobreza intelectual

Pensamos que a pobreza intelectual seja uma primazia brasileira. Engano grosso. Lamentavelmente, outros povos, até mesmo os considerados mais desenvolvidos e ricos, sofrem dessa lepra. E a rifampicina para o morbo não é dinheiro; basta ver que hoje somos a sexta economia do mundo, há crédito abundante, mas o nível geral da população continua baixo. Se é que não baixou ainda mais nos últimos 30 anos.

Mesmo nas nações ricas — isso se vê muito nos Estados Unidos, por exemplo —, o dinheiro não é panaceia. Basta ver os artistas e os arrivistas: extravagância, o gosto puro e simples de chamar atenção porque, quando estavam no estrato mediano da sociedade, eram anônimos.

Assim é também com os países e seus habitantes.

* * *

Certa vez, durante uma reunião entre amigos num barzinho de São Paulo, conheci uma moça italiana. Ela cursava a faculdade de Letras e fazia intercâmbio no país. Naquele momento, namorava um dos colegas ali presentes. Ah, o exotismo; a curiosidade sexual dos europeus para com os habitantes dos trópicos. Não é só lenda, mas deixemos o assunto para outra oportunidade.

Entabulei uma conversa na língua nativa da moça, que tinha certa dificuldade em expressar-se em português. Descobri que ela era toscana, mais precisamente de Prato. E Prato não é uma cidade qualquer da Toscana: é a terra natal de Curzio Malaparte, um dos mais importantes escritores italianos do século XX. Não hesitaria eu em dizer do mundo, pois viveu o período mais crucial do século e soube descrevê-lo e plasmá-lo de forma sublime e cruel.

O rosto da pratense converteu-se em expressão de interrogação: “Non lo conosco”. Como assim, “não o conhece”? Ser de Prato e desconhecer seu filho mais ilustre?

Aqui entram os preconceitos acadêmicos. A academia italiana, assim como a brasileira, vira as costas àqueles que não cantam no mesmo tom, num afã de pasteurização ideológica. A universidade brasileira guia-se pela esquerda política; a italiana, sabe Deus por quê.

Mas há um preconceito contra Malaparte, fascista inconformado e comunista tardio. De que servem essas mesquinharias ideológicas se ele era excelente escritor? A academia italiana repudia-o e exalta Calvino, Pavese e outros.

Tenho certeza que Malaparte não se importaria com a indiferença da conterrânea. Para quem viu a miséria material e moral de uma Itália humilhada, de uma Nápoles faminta e desesperada, o que é a miséria individual, a burrice sectária? Ninharia.

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1 comentário

  1. «(…) Mas há um preconceito contra Malaparte, fascista inconformado e comunista tardio. De que servem essas mesquinharias ideológicas se ele era excelente escritor?»

    Sono d’accordo a numero, grado e genere.

    Responder

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