370. Creolina

Nesses casos, as informações são sempre desencontradas. Fio-me dos jornais. Não apenas porque não tenho opção, mas também porque os jornalistas sempre se arriscam a sujar as solas de sapatos de sangue, seja do mendigo, seja da madame; nisso, são muito igualitários. E notícia boa cheira a sangue fresco.

O caso se deu num boteco na frente da zona de baixo meretrício da cidade. Neste caso, o adjetivo é justíssimo: boquete de desdentada a cinco reais e por aí vai; preços módicos com sífilis incluída. Apesar de o boteco na frente da zona, o fato foi no meio da tarde, com vento frio apesar do sol ofuscante, fazendo da referência à zona uma informação desnecessária para a narração, mas localiza bem o lugar.

Um pedreiro desempregado entra no boteco. A dona, pesada, de pernas inchadas e passada alguns anos da meia idade, levanta-se de uma cadeira de plástico e entra por trás do balcão.

O cara pede uma pinga.

Mesmo estando ele já chumbado, ela despeja a caninha num copo americano.

Ele bebe e olha para o movimento da rua, na encosta de um rio. Volta-se para a dona e a acusa de, há uma quinzena, ter roubado nas contas. A mulher saiu de trás do balcão e desferiu-lhe um soco no estômago. A bebida fez o resto e jogou-o na calçada, estatelado.

Demorou a se erguer. Sentou-se e ficou olhando a mulher, que já havia voltado para trás do balcão. Levantou-se e foi cambaleando para a pensão, a meia quadra dali. Lá, virou o quarto todo e achou a peixeira que trouxera do Norte. Entalhada, era presente da mãe.

Com a agilidade de um sóbrio, estava de volta ao boteco. A mulher mal teve tempo de proteger o rosto. Foram 16 ou 17 facadas, segundo diferentes fontes.

Alguém chamou a polícia. Rapidamente haviam pegado o pedreiro; fuga de bêbado é como minhoca no concreto. Os guardas isolaram a área. A mulher agora estava embrulhada num papel-alumínio. Coisa de muito mau gosto; deixa os cadáveres como aqueles infelizes assados de Natal. Curiosos, esse sal das desgraças. O assassino deveria já estar apanhando em algum canto longe de olhos.

Circunstâncias esclarecidas, não há por que manter a cena intacta. O furgão do IML levou o corpo. A polícia liberou a rua e o proprietário do prédio pôs-se a tirar os coágulos da calçada e espantar o cheiro agridoce do sangue com creolina. E aquele cheiro ficou espetando o nariz do barbeiro da esquina, da dona do brechó de quinta categoria, colado mesmo ao fatal boteco. Aquele cheiro era ainda pior que o cheiro do sangue, pois era o disfarce do fedor da morte.

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