374. A inglesa do Butantã

Aprendeu inglês com o pai, que era inglês. Vivia de bicos: tradução, intérprete. Ela não fez faculdade. Cursou um semestre de Letras na USP, mas não aguentou o pedantismo. Lia Shakespeare, Milton, Blake. Apesar da apatia, seu rosto irradiava quando começava a recitar “And did those feet in ancient time…”.

Herdara do pai a folclórica fleuma inglesa. Não era moça de rompantes e os rompantes a enojavam. Tinha pavor a escândalos. Quando quis sexo pela primeira vez, encurralou um colega de colegial com os olhos. Quando quis casar e deixar o pai e sua administração parlamentar, casou. Como Rhodes, ela precisava de um continente novo.

Casou não com o mais bonito ou com o mais inteligente, mas com alguém que não a irritasse, que não exigisse afeto em excesso. Casou com um analista financeiro em começo de carreira, que não exigia muito e ainda trazia uísque bom para casa.

Amava o silêncio. Eventualmente cantava “And did those feet…”. Não era cantora, mas não desafinava. Ajudava o marido eventualmente, quando ele recebia visitas do exterior.

E permanece assim, amarelando-se com cigarro e café.

373. A reforma política

Ontem, a senhora Dilma Vana Rousseff, presidente da República ‘Federativa’ do Brasil, anunciou sua intenção de promover um plebiscito para convocar uma ‘constituinte’ para efetuar a tão propalada reforma política. A forma como as coisas têm se desenvolvido me leva a crer que se trata de um ato populista, recheado de desespero.

Primeiro, tal declaração vale-se de um momento de convulsão social — as manifestações que pipocam pelo País todo — e todo processo eleitoral num período como esse dará vitória a decisões populistas. Ou seja, certamente a ‘constituinte’ proposta tem grandes chances de ganhar.

Nos moldes propostos, teríamos um parlamento duplicado por um período — “certamente inferior a quatro anos” —, o que não apenas trará o dobro de gastos, pois, ninguém vai querer eleger-se de graça para tal façanha, mas desvirtuará o legislativo “principal”. A duplicidade do corpo parlamentar trará certos desconfortos políticos, uma concorrência entre o parlamento oficial e aquele eleito para a tarefa específica.

Segundo, tal ‘constituinte’ é absolutamente desnecessária. Uma comissão do parlamento bastaria para resolver o assunto. A ‘constituinte’ é apenas uma manobra de distração e a reforma política que sairá dela será falha, se é que sairá apenas a reforma política.

Terceiro, o uso do termo ‘constituinte’ está sendo usado de maneira demagógica. Constituinte é uma legislatura que tem a função de fazer uma nova constituição. Mesmo nas constituintes anteriores — 1946 e 1986 — não houve duplicidade do parlamento. E, convenhamos, uma nova constituição dá muito mais trabalho. As alterações oriundas da reforma política seriam facilmente alocadas com uma proposta de emenda à Constituição (PEC) e alterações na Lei Eleitoral. Em miúdos, é muita brasa e pouco fogo.

Será que o objetivo da ‘constituinte’ é apenas a reforma política? Não seria um pretexto para uma nova Constituição?

372. O último sertanista

Araraquara era um lugar limpo nos anos 40. O Centro, claro. A Vila Xavier e as chácaras ficavam à mercê das lufadas de pó, pois estavam fora da civilização. Bastava passar a linha do trem; era outro mundo.

Neste outro mundo morava o tio Jorge. Não o conheci, morreu pelo menos dez anos antes que eu nascesse. Mas era um dos vultos da família, aqueles parcos vultos das famílias de classe média baixa, que tentam, de alguma maneira nobilitar-se, criando seus próprios jõoes-ramalho e bartiras.

Nunca vi fotos do tio Jorge; não sei se existem. A mim, chegaram apenas os prodígios de um bon vivant caipira.

Antes de mais nada, estabeleçamos exatamente o parentesco. Tio Jorge é para facilitar; ele era meu tio-bisavô, irmão de uma das minhas bisavós paternas. Mas ninguém se refere a tios-bisavôs, tios-trisavôs. É tio e basta.

Tio Jorge morava na vila poeirenta, perto da estação de trem de Araraquara. Eventualmente ia de trem à Capital, visitar a irmã, minha bisavó, e era nessas ocasiões que meu pai ouvia suas façanhas.

Embora não tivesse ocupação fixa, Tio Jorge tinha uma caminhonete Ford. Na estação seca, comprava montes de todo tipo de bugiganga: aviamentos, baldes, sabão, cachaça, carne seca e o que mais pudesse achasse. Ajeitava a carga no Ford e tomava a estrada, rumo do poente, numa época em que as pessoas faziam os trajetos entre as cidades de trem.

As estradas então eram apenas picadas que ligavam os nascentes vilarejos de noroeste e oeste paulistas; havia ainda muitos índios e algumas tribos hostis. Tio Jorge tinha salvo conduto nessas regiões de civilização incipiente. Parte das mercadorias era para o pedágio indígena.

A guerra devorava a Europa; Tio Jorge devorava as ilhas de sertão que existiam entre as novas cidades. Chegava a um ponto determinado na fronteira com o Mato Grosso e atravessava o rio Paraná de balsa. Dizia que era o trecho que mais dava medo.

Depois do rio, Tio Jorge seguia para Campo Grande. Abastecia-se com víveres e outras bugigangas e continuava até a fronteira paraguaia ou a borda sul da bacia amazônica, não sei ao certo. Uma semana de picadas. Às vezes, tinha de descer do Ford e reabrir a estrada tomada de mato. O último sertanista dormia na caminhonete, agarrado a uma espingarda de caça, sempre carregada.

Finalmente chegava a uma clareira maior. As crianças da tribo mal viam o carro e começavam a fazer escarcéu, alertando os adultos da visita anual. Tio Jorge era esperado e tinha uma rede a sua disposição. Ficaria os próximos quinze dias entre os índios.

Ignoro de que etnia seriam aqueles indígenas. Tio Jorge tinha rudimentos daquela língua, pois eles não falavam português, mas qualquer informação a respeito jaz no Cemitério São Bento, em Araraquara, onde Tio Jorge espera o juízo final.

Era recebido pelo chefe da tribo e recebia uma vênia do pajé. Depois, acomodava-se, comia, conversava do tempo, da colheita. Somente no dia seguinte as negociações começariam.

O novo dia chega à aldeia e os índios entregam-se aos seus trabalhos habituais. Vão caçar, pescar; as mulheres entregam-se à confecção de cestos de palha. O pajé chama Tio Jorge e eles vão para uma estrutura especial, uma oca separada das demais, que funciona como santuário e morada para o pajé. Sentam-se ao redor de uma fogueira que é apenas cinzas. Logo chegam o chefe e outro índio parrudo, auxiliar do chefe. Ao que parece, trata-se de um cargo rotativo, pois cada ano é um homem diferente, sempre robusto.

Todos sentados ao redor da fogueira, o pajé aviva o fogo com gravetos separados para tal fim, e bate palmas. Três vezes. Uma mulher sai correndo de algum lugar com uma cuia nas mãos e para na porta da oca. Não lhe é permitida a entrada. A cuia é pega pelo auxiliar do chefe.

O pajé reparte o conteúdo da cuia em três cuias menores, uma para cada homem. Dentro, uma bebida viscosa, esbranquiçada, com várias folhas mortas e insetos que caíram na mistura enquanto ela fermentava a céu aberto. Os índios a chamavam de caxiri; era feita a partir da mandioca, cozida e mascada pelas mulheres e meninas virgens da tribo e era muito alcoólica. O aspecto era repulsivo, mas, sem a bebida, não havia negociação. Depois de umas três ou quatro rodadas de caxiri — parece que o número era determinado por algum sinal visto pelo pajé na fogueira, da qual não tirava os olhos —, o curandeiro jogava ao fogo um maço de ervas, que produzia uma fumaça de odor agradável. O pajé preparava ainda um cachimbo cerimonial, que se alternará na boca dos três homens. Agora as negociações estavam abertas.

Tio Jorge dizia ao pajé o que havia trazido, entre palavras índias e gestos. Os itens de metal eram os prediletos, fossem baldes de lata ou ferros de passar. Tinha preferência pelos objetos de zinco. Os três índios confabulavam entre si apenas com olhares; o auxiliar trazia demandas do resto da tribo.

Quando fechavam a lista, os quatro homens iam até a caminhonete. O índio mais robusto ajudava o Tio Jorge a descarregar a mercadoria e levá-la para a oca do pajé, onde ficava armazenada. Ao fim de tudo, o pajé passava uma bolsa de palha trançada que era pesada com uma balança romana que Tio Jorge guardava na caminhonete. Cinquenta gramas, 60… 65. Era a média de peso da sacola recheada de pedrinhas verde-escuras translúcidas. Esmeraldas. Em uma sacola separada, o dobro de pedras de berílio, o primo pobre da esmeralda.

Tio Jorge acondicionava as pedras em um compartimento secreto da caminhonete, despedia-se da tribo e tomava o caminho de volta. Algumas pedras ficavam nos botecos de beira de estrada; boa parte, em Campo Grande. Na futura capital sul-mato-grossense, havia um joalheiro de confiança que avaliava e comprava as pedras. O restante ficava em Ribeirão Preto, em outro joalheiro. Tio Jorge chegava a Araraquara com o dinheiro para passar o ano de maneira módica: dava boa parte à esposa e mandava fazer um terno de cor clara todo ano. Dividia seu imenso tempo livre entre a leitura de jornais que mandava vir de São Paulo, livros sobre mineralogia em francês — parece que aprendeu francês apenas por conta de seu mister. No restante do tempo, fumava seu palheiro e frequentava os amigos para contar as peripécias nos matagais.

Quando alguém se mostrava cético às suas histórias, esticava a mão e exibia um anel de prata, finamente trabalhado e com uma grande esmeralda oval polida. Pelo lado de dentro, a marca do joalheiro de Campo Grande.

Amealhou quantia que lhe permitiu viver a velhice com certos privilégios e a viveu para contar suas histórias. O anel, a espingarda na parede e uma puída pele de onça na sala de estar eram suas testemunhas.

Tio Jorge morreu no mesmo ano em que o Estado de Mato Grosso do Sul foi criado. Não sei se foi sepultado com o seu famoso anel, já que esse era um desejo, que sempre que podia, o deixava bem claro.

O último sertanista jaz numa sepultura sem mármores, apenas com um detalhe em granito esverdeado, sua cor predileta.

371. Pobreza intelectual

Pensamos que a pobreza intelectual seja uma primazia brasileira. Engano grosso. Lamentavelmente, outros povos, até mesmo os considerados mais desenvolvidos e ricos, sofrem dessa lepra. E a rifampicina para o morbo não é dinheiro; basta ver que hoje somos a sexta economia do mundo, há crédito abundante, mas o nível geral da população continua baixo. Se é que não baixou ainda mais nos últimos 30 anos.

Mesmo nas nações ricas — isso se vê muito nos Estados Unidos, por exemplo —, o dinheiro não é panaceia. Basta ver os artistas e os arrivistas: extravagância, o gosto puro e simples de chamar atenção porque, quando estavam no estrato mediano da sociedade, eram anônimos.

Assim é também com os países e seus habitantes.

* * *

Certa vez, durante uma reunião entre amigos num barzinho de São Paulo, conheci uma moça italiana. Ela cursava a faculdade de Letras e fazia intercâmbio no país. Naquele momento, namorava um dos colegas ali presentes. Ah, o exotismo; a curiosidade sexual dos europeus para com os habitantes dos trópicos. Não é só lenda, mas deixemos o assunto para outra oportunidade.

Entabulei uma conversa na língua nativa da moça, que tinha certa dificuldade em expressar-se em português. Descobri que ela era toscana, mais precisamente de Prato. E Prato não é uma cidade qualquer da Toscana: é a terra natal de Curzio Malaparte, um dos mais importantes escritores italianos do século XX. Não hesitaria eu em dizer do mundo, pois viveu o período mais crucial do século e soube descrevê-lo e plasmá-lo de forma sublime e cruel.

O rosto da pratense converteu-se em expressão de interrogação: “Non lo conosco”. Como assim, “não o conhece”? Ser de Prato e desconhecer seu filho mais ilustre?

Aqui entram os preconceitos acadêmicos. A academia italiana, assim como a brasileira, vira as costas àqueles que não cantam no mesmo tom, num afã de pasteurização ideológica. A universidade brasileira guia-se pela esquerda política; a italiana, sabe Deus por quê.

Mas há um preconceito contra Malaparte, fascista inconformado e comunista tardio. De que servem essas mesquinharias ideológicas se ele era excelente escritor? A academia italiana repudia-o e exalta Calvino, Pavese e outros.

Tenho certeza que Malaparte não se importaria com a indiferença da conterrânea. Para quem viu a miséria material e moral de uma Itália humilhada, de uma Nápoles faminta e desesperada, o que é a miséria individual, a burrice sectária? Ninharia.

370. Creolina

Nesses casos, as informações são sempre desencontradas. Fio-me dos jornais. Não apenas porque não tenho opção, mas também porque os jornalistas sempre se arriscam a sujar as solas de sapatos de sangue, seja do mendigo, seja da madame; nisso, são muito igualitários. E notícia boa cheira a sangue fresco.

O caso se deu num boteco na frente da zona de baixo meretrício da cidade. Neste caso, o adjetivo é justíssimo: boquete de desdentada a cinco reais e por aí vai; preços módicos com sífilis incluída. Apesar de o boteco na frente da zona, o fato foi no meio da tarde, com vento frio apesar do sol ofuscante, fazendo da referência à zona uma informação desnecessária para a narração, mas localiza bem o lugar.

Um pedreiro desempregado entra no boteco. A dona, pesada, de pernas inchadas e passada alguns anos da meia idade, levanta-se de uma cadeira de plástico e entra por trás do balcão.

O cara pede uma pinga.

Mesmo estando ele já chumbado, ela despeja a caninha num copo americano.

Ele bebe e olha para o movimento da rua, na encosta de um rio. Volta-se para a dona e a acusa de, há uma quinzena, ter roubado nas contas. A mulher saiu de trás do balcão e desferiu-lhe um soco no estômago. A bebida fez o resto e jogou-o na calçada, estatelado.

Demorou a se erguer. Sentou-se e ficou olhando a mulher, que já havia voltado para trás do balcão. Levantou-se e foi cambaleando para a pensão, a meia quadra dali. Lá, virou o quarto todo e achou a peixeira que trouxera do Norte. Entalhada, era presente da mãe.

Com a agilidade de um sóbrio, estava de volta ao boteco. A mulher mal teve tempo de proteger o rosto. Foram 16 ou 17 facadas, segundo diferentes fontes.

Alguém chamou a polícia. Rapidamente haviam pegado o pedreiro; fuga de bêbado é como minhoca no concreto. Os guardas isolaram a área. A mulher agora estava embrulhada num papel-alumínio. Coisa de muito mau gosto; deixa os cadáveres como aqueles infelizes assados de Natal. Curiosos, esse sal das desgraças. O assassino deveria já estar apanhando em algum canto longe de olhos.

Circunstâncias esclarecidas, não há por que manter a cena intacta. O furgão do IML levou o corpo. A polícia liberou a rua e o proprietário do prédio pôs-se a tirar os coágulos da calçada e espantar o cheiro agridoce do sangue com creolina. E aquele cheiro ficou espetando o nariz do barbeiro da esquina, da dona do brechó de quinta categoria, colado mesmo ao fatal boteco. Aquele cheiro era ainda pior que o cheiro do sangue, pois era o disfarce do fedor da morte.