367. Exercício de ficção histórica

Se Amador Bueno tivesse aceitado aquela coroa, naquele fatídico 1641?

Dificilmente o Reino de São Paulo teria aguentado sozinho. Algum tempo após sua proclamação, seria posto sob influência da Espanha e ligado à Gobernación de Buenos Aires. A Guerra de Restauração não se desenvolveria apenas na Península Ibérica, mas também nos domínios portugueses na América.

Preocupados em salvaguardar o país, os esforços seriam concentrados em Portugal e nas colônias mais ricas. Portugal teria de deixar São Paulo à própria sorte, dando preferência a seu território europeu e à guerra que já vinha sendo travada contra a ocupação holandesa no Nordeste.

Não podendo manter todas as frentes, optaria em assinar a paz com as Dezessete Províncias, cedendo Pernambuco, o que, por um lado, consolidaria a presença holandesa, mas renderia um importante aliado. Em troca de uma faixa adicional, que iria do litoral de Pernambuco à foz do Amazonas, holandeses e portugueses juntariam forças contra a Espanha.

Valendo-se da fronteira abandonada, o reino hispano-paulista e seus aliados espanhóis tomariam Santos e chegariam a ameaçar o Rio de Janeiro.

Ao fim da Guerra de Restauração (1680), a antiga América Portuguesa estaria dividida em três áreas: 1) de São Paulo para baixo — como reino semiautônomo ou anexado à Gobernación de Buenos Aires —, sob domínio ou influência espanhola, 2) de São Paulo até a foz do São Francisco, que continuaria em mãos portuguesas, e 3) do São Francisco até o Oiapoque, sob domínio da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais.

As terras sulinas, se anexadas à coroa de Castela, provavelmente teriam dado Origem à Gobernación de São Paulo ou mesmo adiantado em uns cem anos a criação do Vice-Reinado do Prata — em 1680, Buenos Aires fazia parte do Vice-Reinado do Peru.

Na Europa, apesar da Paz, Portugal teve de encarar uma situação que não lhe era muito favorável: uma Espanha que teve ganhos territoriais na América e uma Holanda que monopolizava a produção de açúcar e o tráfego marítimo entre a Europa e a América do Sul. Tudo que Portugal mandava para suas colônias americanas era observado pelo Leão neerlandês.

Porém, Portugal e Holanda mantiveram seu pacto antiespanhol. Anos mais tarde, os Países Baixos não foram apenas a única nação europeia a conseguir manter Napoleão fora de duas fronteiras, mas conseguiu ainda anexar uma franja do território do Sacro Império Romano Germânico contígua à sua fronteira oriental, em direção a Hamburgo.

Graças à Holanda e à Inglaterra, Portugal ficou à salvo da sanha napoleônica, ao contrário da Espanha. Uma das cláusulas secretas do acordo entre Portugal, França, Inglaterra e Holanda foi a partição da Espanha: a Galícia ficou para Portugal, a Holanda ficou com privilégios sobre portos do golfo de Biscaia e a Espanha foi trincada: Leão-e-Castela formaram um reino que foi entregue a José Bonaparte e ficou sob influência francesa; a Coroa Aragonesa foi restabelecida e um Nassau — a família havia transformado a República das Dezessete Províncias no Reino dos Países Baixos — sentou-se no trono criado em Barcelona. Das colônias espanholas, a área do Orinoco ao Panamá passou para a Holanda; o todo o Vice-Reino do Peru ficou na mão dos portugueses, incluindo os territórios perdidos no século XVII; com exceção de Chile e Quito, que ficaram sob protetorado dos holandeses.

Como a Holanda segurou Napoleão, a França apenas expandiu-se à custa de Savoia e da Suíça, não indo além. Napoleão morreu tranquilamente em 1827, assumindo o trono francês seu filho, Napoleão II.

O Brasil ficou salvaguardado. A capital continuava em Salvador e somente na década de 1840 os ventos nacionalistas começaram a soprar, principalmente do sul, que era fortemente hispânico. Os vinte anos que se seguiram foram de guerra civil, com intervenção da Holanda, que mantinha tropas estacionadas em Pernambuco. A guerra civil acabou com a vitória dos revoltosos e com a contaminação da Nova Holanda com o germe da independência. A América Portuguesa quebrou-se na Grande Argentina, compreendendo a Gobernación de São Paulo (SP, PR, SC, RS e MS-MT), Banda Oriental, Paraguai e Buenos Aires. A parte norte Quebrou-se em Peru (Peru, Bolívia e Chile), Goiás (MG, GO, MT, ES) e Bahia.

As novas repúblicas, principalmente as lusófonas, julgavam-se no direito de restaurar a unidade territorial cada uma sob sua égide, o que deu origem a várias guerras entre 1870 e 1900. Um tratado em meados da primeira década do século XX deu fim às contendas.

As repúblicas vivem hoje em estado de penúria econômica e à mercê de convulsões sociais e influenciadas, as do norte, por Pernambuco (antiga Nova Holanda) e, as do sul, pela Grande Argentina.

* * *

Ou a Revolução Francesa teria sido debelada com ajuda da Holanda. Napoleão jamais teria deixado a Córsega e o ancien régime teria alguns decênios de sobrevida. Todo o processo de descolonização da América Latina seria mais tardio, começando por volta de 1870-1880. Feito lentamente, com um processo de home rule, aprendido dos ingleses. Alguns territórios teriam mesmo mantido o vínculo pessoal com o monarca português ou espanhol, como aconteceu no Império Britânico.

Sem ajuda francesa, o processo de independências das Treze Colônias seria mais lento.

Nessa ocasião, o Reino de São Paulo ressurgiria, recobrando as tradições e considerando o rei da Espanha como rei de São Paulo.

Anúncios
Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: