369. Rogério Skylab

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Rogério Skylab, antes de ser um talentoso artista performático, é um intelectual de primeira grandeza por dois motivos: um, não o alardeia e, dois, não almeja tal posição.

Por detrás de canções com letras contundentes, expõe alguns comportamentos corriqueiros, mas negados com toda força pela sociedade brasileira, em sua grande parte falsa moralista. Falso moralismo porque as pessoas assustam-se com palavras das canções e não conseguem ir além da superfície: uma palavra “obscena” ou “rude” trava-lhes o entendimento e faz nascer a reprovação; às vezes o involuntário humor provocado causa o mesmo tipo de escurecimento da percepção.

Um grande exemplo é a música “Derrame”, do disco “Skylab I” (1999). Usando como mote o acidente vascular, Skylab desconstrói a vida de um homem considerado normal, expondo a transitoriedade de vaidades e até mesmo o isolamento social decorrente das sequelas.

Talvez Skylab não concorde com essa abordagem, ou até mesmo a ache pretensiosa, mas é o que se pode ver além do pasmo inicial ou da recusa do ouvinte em aprofundar-se na letra da canção.

Os eventuais detratores e o senso comum, famintos de eufemismos e de mentiras piedosas, não absorvem a verdade cruel e lírica presente nas letras de Skylab.

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368. Poder e democracia

O Estado democrático, tal como se apresenta hoje entre nós, não é apenas um fingimento: é uma imitação grosseira de instituições, que foram implantadas no Brasil a pancadas legislativas e não seguindo a lógica do desenvolvimento orgânico, ou seja, as instituições corretas a determinada sociedade.

Temos de convir que a democracia representativa é fruto de um longo processo democrático, cujo ápice foi a Revolução Francesa, mas que tem suas origens na Magna Carta, de 1215, considerada a primeira constituição — guardados os devidos limites — e que restringiu o poder do soberano inglês.

Apesar da convulsão da França revolucionária, as instituições democráticas tiveram lenta gestação na Inglaterra e no Reino Unido. Tanto é assim que da Carta Magna ao sufrágio universal foram necessários 700 anos.

Sociedades que sofrem trancos de democracia, como a França da Revolução, acabam por não saber aproveitá-la. A novidade das instituições as torna maleáveis e influenciáveis, e sempre há uma parcela da população interessada em tomar o poder àqueles que caem em desgraça: assim ocorreu na França, que com a queda dos Bourbon viu a república, o terror e — como sempre nos momentos de convulsão social — o surgimento de um espertalhão vestido de púrpura que transformou a república… em uma monarquia imperial!

Também na Rússia revolucionária, onde o poder apenas trocou de mãos: da nobreza burocrática tsarista para a burocracia do Partido Comunista.

Na sociedade ocidental antiga, o poder tem dois pilares: a força e a escolha divina. A força, condição de facto, e a divindade, condição de jure — basta lembrar que os textos religiosos, com ausência de regulações estatais, funcionavam como código civil.

O chefe nas sociedades primitivas de caçadores-coletores era o mais forte, que subjugava os demais pela força, como ainda fazem os animais gregários. Com a aurora das manifestações religiosas, essas rapidamente foram incorporadas ao poder. Em alguns casos, havia chefes-sacerdotes. Assim como hoje as divisões básicas do poder são o executivo, o legislativo e o judiciário, nessa aurora da Humanidade, eram o temporal e o religioso.

Se um rei fosse derrotado pelas armas, significava também que havia perdido a graça para governar. A evolução desse sistema de fundo religioso para a democracia representativa foi feito lentamente, com a introdução progressiva de constituições, parlamentos, laicização do Estado. Ou seja, não surgiu do dia para a noite.

Vemos ainda muitas sociedades que se baseiam na força, consideradas por nós antidemocráticas ou atrasadas.

Nos países em que a democracia foi introduzida sem o condicionamento devido, ou seja, não houve transição e sim uma reviravolta, as instituições democráticas não passam de mamulengos: são facilmente subvertidas pelo poder econômico ou pelo próprio poder político. E o pior: de democrático ficam apenas as cascas; tornam-se frágeis para que messias, tiranos ou associações políticas ergam-se para tirar proveito da situação.

O ciclo que se viu na História é tirania, despotismo esclarecido, democracia restritiva e democracia representativa. Qualquer pulo nas etapas condenará a sociedade a subversões no real papel das instituições.

367. Exercício de ficção histórica

Se Amador Bueno tivesse aceitado aquela coroa, naquele fatídico 1641?

Dificilmente o Reino de São Paulo teria aguentado sozinho. Algum tempo após sua proclamação, seria posto sob influência da Espanha e ligado à Gobernación de Buenos Aires. A Guerra de Restauração não se desenvolveria apenas na Península Ibérica, mas também nos domínios portugueses na América.

Preocupados em salvaguardar o país, os esforços seriam concentrados em Portugal e nas colônias mais ricas. Portugal teria de deixar São Paulo à própria sorte, dando preferência a seu território europeu e à guerra que já vinha sendo travada contra a ocupação holandesa no Nordeste.

Não podendo manter todas as frentes, optaria em assinar a paz com as Dezessete Províncias, cedendo Pernambuco, o que, por um lado, consolidaria a presença holandesa, mas renderia um importante aliado. Em troca de uma faixa adicional, que iria do litoral de Pernambuco à foz do Amazonas, holandeses e portugueses juntariam forças contra a Espanha.

Valendo-se da fronteira abandonada, o reino hispano-paulista e seus aliados espanhóis tomariam Santos e chegariam a ameaçar o Rio de Janeiro.

Ao fim da Guerra de Restauração (1680), a antiga América Portuguesa estaria dividida em três áreas: 1) de São Paulo para baixo — como reino semiautônomo ou anexado à Gobernación de Buenos Aires —, sob domínio ou influência espanhola, 2) de São Paulo até a foz do São Francisco, que continuaria em mãos portuguesas, e 3) do São Francisco até o Oiapoque, sob domínio da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais.

As terras sulinas, se anexadas à coroa de Castela, provavelmente teriam dado Origem à Gobernación de São Paulo ou mesmo adiantado em uns cem anos a criação do Vice-Reinado do Prata — em 1680, Buenos Aires fazia parte do Vice-Reinado do Peru.

Na Europa, apesar da Paz, Portugal teve de encarar uma situação que não lhe era muito favorável: uma Espanha que teve ganhos territoriais na América e uma Holanda que monopolizava a produção de açúcar e o tráfego marítimo entre a Europa e a América do Sul. Tudo que Portugal mandava para suas colônias americanas era observado pelo Leão neerlandês.

Porém, Portugal e Holanda mantiveram seu pacto antiespanhol. Anos mais tarde, os Países Baixos não foram apenas a única nação europeia a conseguir manter Napoleão fora de duas fronteiras, mas conseguiu ainda anexar uma franja do território do Sacro Império Romano Germânico contígua à sua fronteira oriental, em direção a Hamburgo.

Graças à Holanda e à Inglaterra, Portugal ficou à salvo da sanha napoleônica, ao contrário da Espanha. Uma das cláusulas secretas do acordo entre Portugal, França, Inglaterra e Holanda foi a partição da Espanha: a Galícia ficou para Portugal, a Holanda ficou com privilégios sobre portos do golfo de Biscaia e a Espanha foi trincada: Leão-e-Castela formaram um reino que foi entregue a José Bonaparte e ficou sob influência francesa; a Coroa Aragonesa foi restabelecida e um Nassau — a família havia transformado a República das Dezessete Províncias no Reino dos Países Baixos — sentou-se no trono criado em Barcelona. Das colônias espanholas, a área do Orinoco ao Panamá passou para a Holanda; o todo o Vice-Reino do Peru ficou na mão dos portugueses, incluindo os territórios perdidos no século XVII; com exceção de Chile e Quito, que ficaram sob protetorado dos holandeses.

Como a Holanda segurou Napoleão, a França apenas expandiu-se à custa de Savoia e da Suíça, não indo além. Napoleão morreu tranquilamente em 1827, assumindo o trono francês seu filho, Napoleão II.

O Brasil ficou salvaguardado. A capital continuava em Salvador e somente na década de 1840 os ventos nacionalistas começaram a soprar, principalmente do sul, que era fortemente hispânico. Os vinte anos que se seguiram foram de guerra civil, com intervenção da Holanda, que mantinha tropas estacionadas em Pernambuco. A guerra civil acabou com a vitória dos revoltosos e com a contaminação da Nova Holanda com o germe da independência. A América Portuguesa quebrou-se na Grande Argentina, compreendendo a Gobernación de São Paulo (SP, PR, SC, RS e MS-MT), Banda Oriental, Paraguai e Buenos Aires. A parte norte Quebrou-se em Peru (Peru, Bolívia e Chile), Goiás (MG, GO, MT, ES) e Bahia.

As novas repúblicas, principalmente as lusófonas, julgavam-se no direito de restaurar a unidade territorial cada uma sob sua égide, o que deu origem a várias guerras entre 1870 e 1900. Um tratado em meados da primeira década do século XX deu fim às contendas.

As repúblicas vivem hoje em estado de penúria econômica e à mercê de convulsões sociais e influenciadas, as do norte, por Pernambuco (antiga Nova Holanda) e, as do sul, pela Grande Argentina.

* * *

Ou a Revolução Francesa teria sido debelada com ajuda da Holanda. Napoleão jamais teria deixado a Córsega e o ancien régime teria alguns decênios de sobrevida. Todo o processo de descolonização da América Latina seria mais tardio, começando por volta de 1870-1880. Feito lentamente, com um processo de home rule, aprendido dos ingleses. Alguns territórios teriam mesmo mantido o vínculo pessoal com o monarca português ou espanhol, como aconteceu no Império Britânico.

Sem ajuda francesa, o processo de independências das Treze Colônias seria mais lento.

Nessa ocasião, o Reino de São Paulo ressurgiria, recobrando as tradições e considerando o rei da Espanha como rei de São Paulo.

366. O cachorro do vizinho me odeia

O cachorro do meu vizinho me odeia. O sentimento é mútuo e não me culpo, nunca gostei de cachorro; é um bicho excessivamente servil e lambão. Eu enforcava filhotes sempre que vinha da aula. Mas se se resumisse ao cachorro do vizinho, estava bem; mas as samambaias do hall estremecem de raiva quando percebem a minha presença. Quando era menor, adorava jogar os vasos do beiral de casa e vê-los espatifar-se no chão.

Ganho a rua e caminho. O jornaleiro me hostiliza protegido por seus longos bigodes. Também não gosto do jornaleiro, por isso, com 16 anos, botei fogo numa banca de jornal. Não sem antes amarrar o jornaleiro e roubar as revistas pornô. Fiquei vendo a banca queimar, os bombeiros chegarem e rescaldarem a ridícula escultura de aço retorcido que ficou no lugar. Vi retirarem corpo carbonizado do jornaleiro.

Entro no banco e me sento à mesa de trabalho. Como 99 em cem pessoas, detesto o que faço, mas suporto com uma resignação estóica. As pessoas me pedem empréstimos e, a contragosto, tenho de dá-los. Quase nunca as pessoas o merecem: é gente inconsequente, essa inconsequência que é nossa sífilis congênita nacional. Em geral, as pessoas percebem a má vontade na íris dos meus olhos e me evitam. Só vêm à minha mesa quando sou o único funcionário disponível.

Quando vejo o noticiário e noticiam um acidente aéreo ou alguma tragédia de grandes proporções, desligo o televisor e ponho música para comemorar e abro uma espumante. As pessoas me odeiam; e eu também detesto esses ratos de duas patas.

365. Rascunhos de um tratado filosófico

Não é consenso, mas acredita-se que a capacidade da linguagem faça parte do cotidiano humano há cerca de 100 mil anos. Faz-se uma divisão entre a linguagem como a conhecemos — articulada e com a possibilidade de abstração — e uma comunicação simbólica e primitiva, que pode recuar a um milhão de anos, com outros hominídeos extintos.

É possível que a presença da abstração nas línguas iniciais tenha se dado por dois acontecimentos cruciais que, certamente, se sucederam: a consciência da morte e sua explicação juntamente com outros fenômenos naturais.

A partir do momento que a precária humanidade tentou explicar o aparentemente inexplicável, a linguagem ganhou abstração e a alma humana ganhou profundidade. Tal profundidade acabou se condensando na religião, mãe da ciência, pois é a primeira tentativa de explicar fenômenos que fugiam da ação e da compreensão humanas.

Não é à toa que, pelo menos no mundo judaico-cristão, a palavra ocupe um papel de protagonista. O próprio Deus criou a partir da palavra pura.