354. Instituições

Quando você deixa uma cidade grande e a troca por lugares menores, percebe a diferença. Uma cidade média pode parecer um lugarejo poeirento se você vier, por exemplo, de São Paulo, que é uma metástase de concreto.

Não é o ar, que é igualmente empesteado. Não se trata das pessoas; as áreas urbanas têm o poder de promover um grau similar de idiotice e a televisão já equalizou os costumes e o vocabulário, uma pasteurização que fortalece os micróbios. Parece que o calor do Interior aumenta o fedor, como lixo no sol.

As dimensões menores no Interior permitem ver detalhes que passam desapercebidos numa cidade grande. Você cruza com os políticos na rua; aqui eles se contentam com dezenas de milhares de reais em propinas e não os milhões dos políticos metropolitanos.

Também as distâncias são bem menores. O luxo pode estar a quadra e meia de uma casa velha no centro da cidade. Os subúrbios perigosos estão a uma dezena de quadras. Os espaços são mais apertados e chegam a sobrepor-se. As distâncias aos alis, porém, são percorridas sempre de carro.

Esses fenômenos também se observam com as zonas. Há aquelas mais sofisticadas, patronais, localizadas em chácaras, locais discretos e circundados pelo silêncio das plantações. Frequentam-nas carros de luxo e seus condutores, gente graúda.

Por outro lado, há outros lugares que fazem jus à expressão baixo meretrício. Na última quadra antes da principal via da cidade — antigo leito de um regato usado como cloaca máxima —, há um bar e algumas casas velhas logo ao lado que formam algo como uma zona de porto, daquelas que se veem nos livros e filmes, só que sem o porto. Condomínio de bar, e puteiro de quartos imundos de casas decadentes de ladrilho hidráulico xadrez, pé-direito de cinco metros e forro de madeira podre.

Curioso como essas quadras à beira da pista-rio continuam conservando a decadência de tudo aquilo que fica à beira da água, a umidade que apodrece as almas. Basta o fantasma do rio; a várzea é sempre o território do indesejado, lugar a ser evitado. Nessa várzea de avenida está a decadência, mora ali desde que o rio recebia todos os despejos da cidade. Uma rua suja como água parada.

O aspecto desse canto de mundo apodrecido é realmente impressionante. Em uma sexta à noite, por exemplo, uma noite quente — como quase todas neste agro central —, as mesas de aço, que um dia foram vermelhas, estão na rua. Nelas, caminhoneiros, operários da construção civil e alguns drogados, batucam desesperadamente qualquer coisa que esteja tocando. A maioria dos freqüentadores tem já as têmporas brancas, então, quase sempre é um sertanejo universitário. Ao redor das mesas cheias de garrafas, as putas. Desleixadas, cabelos armados, ombros à mostra. Algumas se recostam nas paredes. Dividem cerveja com os homens, riem escandalosamente. Outras dançam com o cliente. A fumaça de cigarro empesteia mesmo a calçada; a lei antifumo não vale ali, naquele instante. Ninguém sabe quem é Drauzio Varella.

Muitos dos homens que vão até ali nem estão atrás de sexo. Não admitem — afinal, o homem é grande parte das vezes pura pose —, mas estão ali somente para beber, ouvir música ruim, dançar, fumar, como adolescentes. Pagam uma ou duas cervejas às mulheres, que agradecem com discretos e juvenis arrotos. Um ou outro vai atrás dos serviços e, claro, acha o que procura.

E as luzes, as fumaças e o som só terminam mesmo pouco antes de o sol nascer, quando o bar abaixa a porta, os homens vão para as pensões, todas nas redondezas, e as mulheres recolhem-se àqueles quartos sujos com forro podre e amplas janelas. Não que os quartos das pensões sejam melhores, mas é possível ligar o ventilador com o dedão do pé.

O sol nasce sobre a calçada suja e silenciosa.

Anúncios
Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: