351. Leon Eliachar

Porque você gosta de ler, não quer dizer que você leia qualquer coisa. Mas para a maioria das pessoas é assim. Não adianta explicar que você não gosta do ato — mecânico — de ler, como um motor gosta de oscilar seus pistões. Tudo virá para a sua mão: de livros técnicos aos best-sellers de outrora — seriam agora bad-sellers?

Mas de todos os livros que vieram parar nas minhas mãos, nenhum foi uma surpresa tão grata quanto “O Homem ao Quadrado”, do Leon Eliachar. Não sei exatamente de onde veio… ao pai duma amiga da minha irmã, algo assim.

Nestes tempos áridos de “Zorra” e similares, nada como humor de verdade e despretensioso. “O Homem ao Quadrado” passeia por desde o humor convencional — ou seja, o de sentido — até o gráfico e o estético, como os capítulos “Para ler no banheiro”, em que cada página vem intercalada com outra de papel mais fino, ou “Para ler nas entrelinhas”, texto todo com espaço 3.

É um humor baseado em chistes curtos e um pouco datado, por conta das situações do cotidiano, mas não deixa de ser engraçado.

Desta obra-prima — facilmente encontrada em sebos —, deixo alguns acepipes.

“Certos sujeitos da época do ‘ph’ não se convencem que já estamos em plena era do ‘f’.”

Do capítulo “A verdade é uma só: todo mundo mente”

O dentista: “Não vai doer nada”.

A avó: “No meu tempo as coisas eram muito diferentes”.

O suicida: “Perdoe meu gesto”.

O viciado: “Essa vai ser a última”.

O sapateiro: “Depois alarga no pé”.

Epitáfios

De um humorista: Aqui jaz uma gargalhada cercada de choro por todos os lados.

De um prefeito: Este foi o único buraco que ele não fez.

De um açougueiro: A carne é fraca.

De um coveiro: Chegou a minha vez.

Meios de transporte: o táxi

O táxi é o único veículo que não anda quilômetros; anda cruzeiros. Mas cada cruzeiro que anda quer cobrar dois. Por isso, os passageiros têm ódio do táxi — mas não tem importância, porque o ódio do táxi é muito maior e o chofer leva mais vantagem, porque é um ódio que vem de dentro para fora. O táxi está sempre em pé de guerra: quando o motorista desce a bandeirinha, começa o conflito. É o veículo que mais enguiça, mas raramente traz um macaco na mala — porque o macaco do táxi anda sempre no volante.

Para ler no banheiro

Quando um homem escala uma montanha, ninguém toma conhecimento. Quando se joga de lá de cima, pega logo uma primeira página.

Os estrangeiros pensam que o Brasil é terra de índios. Chegam aqui, pegam um táxi e veem que é mesmo.

Quando um sujeito fica a espiar as janelas dos vizinhos de binóculo, das duas uma: ou vai fazer dezessete anos ou já fez faz tempo.

De bomba em bomba o mundo vai construindo sua paz.

Conversa de bêbado entra por uma narina e sai pela outra.

Inflação é um camarada chegar perto do outro e perguntar se tem troco pra mil e o outro responder: “Serve três de quinhentos?”

Com a primeira folha de parreira surgiu o primeiro problema da moda feminina: onde colocá-la?

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